Sobre a Paz

Em Sobre a Paz Isócrates esforça-se por demonstrar que o império marítimo foi o início de todos os males de Atenas e que a paz de Antálcidas é a plataforma desejável a que se deve regressar para reorganizar a enfraquecida situação política da Grécia.

O grande objectivo de Sobre a Paz é combater a tendência para a conquista do poder profundamente arreigada no íntimo do homem. Neste sentido, a conquista da paz implica a reeducação do homem. A reforma política de Atenas é assim para Isócrates um problema educativo.

Alguns excertos

  1.Todas as pessoas que se apresentam aqui têm por hábito afirmar que as questões mais graves e mais dignas do zelo da cidade são aquelas sobre as quais estão para dar conselhos. Apesar disso, e mesmo se um exórdio desse género se ajustou a diversos outros assuntos, parece-me que me fica bem começar desta maneira em relação à questão presente.

2.Viemos para deliberar sobre a guerra e sobre a paz, coisas que têm o maior impacto na vida dos homens e acerca das quais é forçoso que obtenham mais êxito que os outros aqueles que deliberam com mais acerto. Tal é a importância do assunto que nos tem aqui reunidos.

14.Bem sei que é árduo estar em oposição ao vosso estado de espírito e que, apesar de estarmos em democracia, não existe liberdade de expressão a não ser aqui [na assembleia] para as pessoas menos razoáveis, que não se preocupam nada convosco, e, no teatro, para os autores de comédias.

17.Se interrompesse agora o meu discurso, sei bem que havia de parecer que pretendo diminuir a dignidade da nossa cidade, se os Tebanos continuarem a dominar Téspias e Plateias e as outras cidades que ocuparam, faltando aos juramentos, e nós, pelo contrário, sem nenhuma necessidade, evacuarmos os territórios que possuímos actualmente; mas se, pelo contrário, me ouvirdes até ao fim com atenção, estou certo de que todos vós considerareis ser uma falta de senso e uma loucura da parte daqueles que tomam como vantagem a injustiça e que dominam à força as cidades estrangeiras, não tendo em conta as desgraças que derivam de tal conduta.

40.Em segundo lugar, [é preciso que vos convençais] de que é ridículo suportar as queimaduras e incisões dos médicos para sermos libertados de maiores sofrimentos, mas repelir os discursos antes de saber claramente se possuem o poder de ser úteis a quem os escuta.

63.Das qualidades que devem possuir os que desejam ser felizes, a piedade, a moderação, a justiça e outras virtudes, já falámos pouco antes. Corresponde à verdade aquilo que eu vou dizer sobre o modo como poderemos ser educados para nos tornarmos assim o mais rapidamente possível, mas talvez vos pareça, a vós que me ouvis, estranho e muito diverso da opinião comum.

74.Dizia eu, pois, que a partir dos argumentos seguintes compreendereis melhor que não é útil apoderarmo-nos do império marítimo, se observardes atentamente o estado em que se encontrava a cidade antes de possuir esse tal império e como é que ficou depois de o conquistar; se vós os examinardes pondo-os em paralelo no vosso pensamento, reconhecereis quantos males [o império] causou ao Estado.

106.Não era para admirar se noutro tempo a todos passou despercebido que o império era a causa de tantos males para os que o possuíam e que era objecto de disputa entre nós e os Lacedemónios. Verificareis, com efeito, que os homens na maioria se enganam na escolha da actividade e que estão mais cheios de desejos do mal que do bem, tomando melhores decisões a favor dos adversários que de si próprios.

144.Ora, vale a pena aspirar por uma hegemonia. E as nossas condições são tais que podemos esperar obter dos Gregos honras semelhantes às que os reis de Esparta obtêm dos seus concidadãos, contanto que os Gregos se convençam de que o nosso domínio há-de ser para eles causa de salvação, e não de escravidão.

145.Não obstante haver muitas e belas dissertações sobre este assunto, tanto a extensão do discurso como a minha avançada idade me aconselham a calar-me. Mas aos mais novos e vigorosos exorto e recomendo que profiram e escrevam discursos graças aos quais incitarão à virtude e à justiça os maiores Estados, os que estão habituados a fazer mal aos outros, porque, se as condições da Grécia forem florescentes, também a situação dos intelectuais há-de melhorar grandemente.

 

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt