Elogio da Palavra 

 
O fragmento de Isócrates que se segue é porventura um dos mais importantes documentos produzidos na antiguidade clássica relativamente à compreensão da linguagem enquanto elemento constitutivo da condição humana.

Vale a pena lê-lo com cuidado!

 

É preciso, portanto, seguir acerca da palavra a mesma opinião que sobre as outras ocupações, não ajuizando diferentemente de coisas semelhantes, e não mostrar hostilidade contra a faculdade, que entre as outras próprias do homem, lhe alcançou os maiores bens. Na verdade (…) nenhuma das nossas outras características nos distingue dos animais. Somos mesmo inferiores aos animais quanto à rapidez, à força e a outras facilidades de acção. Mas, porque fomos dotados com o poder de nos convencermos mutuamente e de mostrar com clareza a nós próprios o objecto das nossas decisões, não só nos libertámos da vida selvagem, mas reunimo-nos para construir cidades, fixámos leis, inventámos as artes. Foi a palavra que fixou os limites legais entre a justiça e a injustiça, entre o bem e o mal; se tal distinção não houvesse sido feita, seríamos incapazes de coabitar. É com a palavra que confundimos as pessoas desonestas e elogiamos as pessoas de bem. É graças à palavra que formamos os espíritos incultos e pomos à prova as inteligências; na verdade, consideramos a palavra exacta a testemunha mais segura do raciocínio justo. Uma palavra verdadeira, conforme com a lei e com a justiça, é a imagem de uma alma sã e leal. É com a ajuda da palavra que discutimos os assuntos contestados e prosseguimos a nossa investigação nos domínios desconhecidos. Os argumentos com os quais convencemos os outros, ao falar, são os mesmos que utilizamos quando reflectimos. Chamamos oradores àqueles que são capazes de falar às multidões e consideramos gente de bom conselho aquela que pode, sobre os negócios, discutir consigo própria da forma mais judiciosa. Em resumo, para caracterizar o poder da palavra, observemos que coisa alguma feita com inteligência pode existir sem o seu concurso: a palavra é guia de todas as acções, assim como de todos os nossos pensamentos. Quanto mais inteligente se é, tanto mais nos servimos da palavra.

 

 

A palavra é, simultaneamente, a essência do humano, aquilo que "nos distingue dos animais", o fundamento da sociabilidade, aquilo que nos permitiu reunir para "construir cidades, fixar leis e inventar as artes", a própria origem da nossa capacidade ética, aquilo que permite ao homem fixar "os limites legais entre a justiça e a injustiça, entre o bem e o mal". 

É também através da palavra que o conhecimento se constroi e legitima, por ela e com ela "discutimos os assuntos contestados e prosseguimos a nossa investigação nos domínios desconhecidos". 

Isócrates pode pois concluir que uma palavra verdadeira é "a imagem de uma alma sã e leal".

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Como grande professor que foi, Isócrates sabia bem que ensinar é uma das artes da palavra.

Como grande escritor da língua grega, Isócrates soube escolher as suas palavras cuidadosamente, dar-lhes o melhor uso, obedecer à sua musicalidade.

Também os Sofistas, contemporâneos de Isócrates, fizeram o elogio da palavra e ensinaram a arte da palavra. Contudo, Isócrates distinguiu-se porque sempre defendeu a necessidade de colocar a arte da palavra ao serviço da cidade, da lei, da justiça, da procura do bem e da verdade. 

Esta era a base fundamental da Paideia Isocrática  que, durante séculos, constitiu o ideal da “cultura geral” dos povos europeus.

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt