Isócrates e a Retórica
O legado de Isócrates tem por base uma consideração epistemológica: a verdade é inacessível ao Homem. Partindo deste princípio, Isócrates não pode senão situar-se no terreno da doxa (opinião).
Uma vez que a natureza humana não pode adquirir uma ciência com a qual possamos saber o que se deve fazer ou dizer, no resto dos saberes; considero sábios aqueles que são capazes de alcançar o melhor com as suas opiniões. |
Porque duvida da possibilidade de alcançar a ciência certa e o bem supremo, isto é, porque considera ser unicamente possível atingir a opinião sensata e provável e o bem relativo, Isócrates defende que o homem tem na palavra o seu único recurso.
...por nossa parte, deveis saber que os médicos encontraram muitos remédios de todos os tipos para as diferentes enfermidades do corpo, mas para as almas ignorantes e carregadas de desejos não há outro remédio senão o discurso... |
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Na verdade, foi através da palavra que o homem abandonou a vida selvagem para se estabelecer em comunidade, fixando leis. E agora, é ainda a arte da palavra que lhe permite refutar os malvados, educar os ignorantes e examinar o desconhecido.
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A aprendizagem da retórica requer certas aptidões do discípulo:
Dizemos que aqueles que se querem destacar na arte da oratória, na acção ou em outras actividades precisam, em primeiro lugar, estar bem dotados para aquilo que elegeram fazer (...) Mas se algum (...) me perguntava qual destes requisitos é mais eficaz para a aprendizagem da retórica, eu respondia-lhe que as qualidades naturais são imprescindíveis e correspondem ao requisito que mais se destaca de todos os outros. |
Embora deva basear-se nas aptidões e experiências do discípulo, a educação retórica tem por função apresentar modelos com os quais o discípulo se identifique. O próprio Isócrates considerou encarnados os seus ideais políticos, ao longo da sua vida, em diferentes modelos, como Dionísio de Siracusa, Arquidamo de Esparta ou Filipe da Macedónia que julgou aptos para levar a cabo a luta pan-helénica contra o inimigo exterior.
Em limite, é o próprio mestre que se oferece como modelo.
Porque ninguém sabe, salvo eles, que os signos gráficos são invariáveis e permanecem sempre iguais, de forma que continuamos sempre a usar os mesmos para o mesmo e, em troca, às palavras ocorre-lhes o contrário ? (...) E a maior prova da sua diferença é a seguinte: os discursos não podem ser carinhosos senão dão-se a eles a oportunidade, o adequado e o novo, e em falta da troca dos signos gráficos nada disto faz falta. Por isso, seria muito mais justo que os que se servem de exemplos, pagarem dinheiro em vez de recebê-lo, porque pretendem educar os outros quando são eles mesmos que necessitam educar-se com muito cuidado. (extraído de Contra os Sofistas, XII e XIII) |
Na verdade, porque o fundamento do discurso do orador não pode ser outro que o bem de todos os cidadãos e de todos os gregos, a retórica faz com que a bondade da obra se transmita à alma do criador. Só assim a palavra logra a persuasão do auditório.
Pois quem tem uma natureza capaz de inventar, aprender, trabalhar e recordar, uma voz e uma claridade de dicção através da qual possa convencer os seus ouvintes não só com as suas palavras mas também com a sua boa disposição, e também uma audácia, não aquela que é sinal de descaramento, mas sim a que é possuidora de prudência, prepara a alma para não confiar menos ao falar perante todos os cidadãos que ao pensar consigo próprio. |
Com esta concepção de retórica como arte de persuasão posta ao serviço de uma conduta virtuosa, Isócrates fica notavelmente separado da retórica sofista.
Todos sabem que muitos oradores se atrevem a falar perante o povo não sobre aquilo que interessa à cidade, mas sim daquilo que esperam tirar partido eles mesmos, enquanto que eu e os meus não só nos distanciamos mais que outros dos bens públicos, mas também gastamos a nossa fortuna pessoal em necessidades da cidade às vezes com quantias acima das nossas possibilidades. |