Hipócrates de Cós

2 500 anos, no século V a.C., nasceu um homem que mudou o conceito de Medicina, transformando-a numa Ciência. Esse homem foi Hipócrates, considerado o "Pai da Medicina". Nascido em Cós, onde a medicina estava em progresso na época, e pertencendo a uma linhagem de médicos, era quase inevitável que Hipócrates também se dedicasse à Medicina.

Segundo a sua biografia, Hipócrates recebeu os primeiros ensinamentos do pai e para completar sua formação, estudou Retórica e Filosofia. Tendo estudado nos dois maiores centros médicos da época, Cós e Cnidos, e sendo dotado de extraordinário espírito de observação e profunda dedicação ao trabalho, Hipócrates tornou-se o maior médico de sua época.

Sua fama como clínico começou em 430-429 a.C., durante a grande peste que assolou a cidade de Atenas. A epidemia teria se extinguido depois que Hipócrates mandou acender fogueiras, por toda a cidade. Para alguns, Hipócrates partiu da observação de que os artesãos, obrigados por profissão a manter-se próximos do fogo, pareciam imunes ao contágio da doença. O sábio ordenou que se acendessem fogueiras como forma de estender a imunidade a toda a população.

Um dos conceitos terapêuticos de Hipócrates foi a distinção entre sintomas e doenças. Para ele, como para os médicos atuais, os sintomas são apenas manifestações exteriores de algo que está ocorrendo no organismo. O trabalho de Hipócrates tinha por objetivo descobrir como funcionava o corpo humano, levando sempre em conta a ação do ambiente e da alimentação. Hipócrates criou uma escola onde Medicina passou a ser Ciência e, dessa maneira, pressuponha apenas processos racionais. Elaborou e cumpriu um rigoroso código de ética, cujos preceitos estão contidos no juramento que até hoje todo médico faz ao se formar.

JURAMENTO DE HIPÓCRATES

"Prometo que, ao exercer a arte de curar, me mostrarei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei da profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime.

Se eu cumprir esse juramento com fidelidade, goze eu a minha vida e minha arte boa reputação entre os homens e para sempre. Se dele me afastar ou infringi-lo, suceda-me o contrário."

 

Considerado o Pai da Medicina, Hipócrates permaneceu, através dos séculos, não só pela ciência mas sobretudo por suas qualidades morais, o tipo de médico ideal.

Foi sábio e humano.

Unia em si a tranquilidade, a seriedade, a reflexão e a discrição.

Respeitava profundamente os direitos de seus clientes.

A medicina como ciência surge neste mesmo séc. V, em Cós. 

Na busca de maiores conhecimentos pensava, antes de tudo, no benefício que os mesmos poderiam prestar a seus colegas e aos enfermos. Hipócrates «é um retrato de carácter e de virtude que teve um valor moral para os médicos de todos os tempos, só comparável à influência exercida sobre seus continuadores pelos fundadores das grandes religiões. Se fosse necessário colocar uma máxima na estátua de Hipócrates, não se encontraria nenhuma melhor que a do livro Preceitos: Onde está o amor ao homem, aí está também o amor à arte» Das dezenas de obras que compõem o Corpus Hippocraticum não saberíamos dizer quais poderiam, com segurança, ser atribuídas ao Pai da Medicina. Com essa ressalva é que vamos, a seguir, estudar alguns dos aspectos desses tratados. Como o leitor verá, encontraremos certas descrições de estados mórbidos que constituem verdadeiros modelos de observação clínica.

 

 «Ares, Águas e Lugares» pode ser considerado o primeiro tratado de saúde pública, de geografia médica, de climatologia e fisioterapia.

O tratado sobre os Prognósticos contém a famosa descrição dos sinais de morte próxima, a facies Hippocratica.

Uma das partes mais importantes da Colecção Hipocrática, sob o ponto de vista clínico, é constituída pelas descrições de inúmeros casos reais de doenças. Essas descrições ainda hoje são consideradas «modelos do que deva ser uma história clínica sucinta; claras e breves, sem uma palavra supérflua e, não obstante, com tudo o que é de essencial e mostrando, simplesmente, o afã de registrar os factos mais importantes, sem o menor intento de prejudicar o caso. Ilustram com plenitude o Génio Grego para a apreensão do essencial.

Vejamos um exemplo dessas descrições:

Descreve um caso de difteria: "A mulher com anginas que vivia com Aristion. Sua enfermidade começou na língua; voz inarticulada, língua vermelha e com manchas.

Primeiro dia: tiritou; em seguida, sentiu calor. Terceiro dia: calafrios, febre aguda; inflamação avermelhada e dura em ambos os lados do pescoço e do peito; extremidades frias e lívidas; respiração agitada; devolução de bebidas pelo nariz; não podia engolir; evacuações e urina supressas. Quarto dia: todos os sintomas agravados. Quinto dia: morreu”.

O principal mérito de Hipócrates foi introduzir um método científico na cura das doenças, iniciar a literatura científica médica e os registos clínicos. Além disso, é nesta escola que se cria a deontologia profissional, expressa no célebre juramento, que durante séculos continuou - e ainda continua, com pequenas variantes, em algumas universidades - a ser prestado pelos médicos que se graduavam. Nele se compendiam, com admirável precisão e actualidade, os principais deveres do clínico no exercício da sua nobre profissão. Outro facto a assinalar é que, pela primeira vez, se trata a epilepsia como uma doença. O opúsculo em que se toma essa atitude, Sobre a doença sagrada, é justamente considerado um dos mais acabados exemplos do racionalismo grego: 

“Vou agora discutir a respeito da doença a que chamam de sagrada.

Na minha opinião ela não é nem mais divina nem mais santa que qualquer outra doença tendo, ao contrário, uma causa natural, sendo que sua suposta origem divina se deve à inexperiência dos homens e ao seu espanto ante seu carácter peculiar. Ora, enquanto os homens ficam assim a crer em sua origem divina, por motivo de não conseguirem explicá-la, na realidade estão a repelir sua divindade, com o emprego do fácil método de curar que consiste em purificações e encantamentos. Mas se a houvermos de considerar como divina só porque é espantosa, não existirá apenas uma, mas sim muitas doenças sagradas, pois que demonstrarei que outras doenças há que não são menos maravilhosas e portentosas.”

A influência de Hipócrates foi tal que as obras da sua escola acabaram por lhe serem todas atribuídas. Mas há nelas diferenças e contradições que nos levam a falar antes de um Corpus Hippocraticum Contemporânea desta é a escola de Cnidos, que lhe fica próximo, numa pequena península da Ásia Menor. Durante muito tempo consideradas como rivais, as diferenças entre as duas continuam a ser objecto de discussão entre os especialistas.

Referências bibliográficas:

Pereira M.H.R. (2003). Estudos de História da Cultura Clássica, Lisboa, F. C. Gulbenkian, pp. 248-249

Giordani M.C. (1992). História da Grécia, Brasil, Petrópolis, Ed. Vozes, pp. 433-433

 

 

 

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt