Paideia

 

Os gregos foram construindo ideais educativos, que na sua última forma constituiu a ideia de Paideia.

Para alcançar tal ideal propõem-se a ginástica, para desenvolver o corpo, e a música, com a leitura e o canto das obras dos grandes poetas, para o espírito. Tratava-se, com tal programa educativo, de desenvolver uma das qualidades do homem, a sofrosune, que podemos traduzir por temperança e que implicava um perfeito domínio de si, aliando sabedoria e acção avisada. 

Deste modo os conteúdos da Educação Grega são:

  • Ginástica - Dos sete aos dezasseis anos, as crianças passavam, no mínimo, metade do seu tempo na palestra, o local reservado para os exercícios físicos.
  • wpe4.jpg (10258 bytes)Música - A música constituía, por assim dizer, a segunda parte do currículo grego. "Ginástica para o corpo e música para a alma" era o fundamento da educação grega.
    As crianças passavam a maior parte do tempo que não dedicavam à palestra nas aulas de música. Os primeiros anos da infância eram devotados a decorar os poemas homéricos e partes de Hesíodo. Mais tarde, ensinava-se as crianças a cantar esses poemas com acompanhamento da lira.
  • Leitura e Escrita - Os trabalhos das crianças de leitura e escrita estavam incluídos nas escolas de música.
  • Dança - A dança era a união entre a harmonia do pensamento e da experiência emocional, expressada pela música, e a harmonia do desenvolvemento físico, produzida pela ginástica.

A música não tem, nesta altura, o sentido estrito que ainda hoje lhe damos, pois incluía tudo o que estava relacionado com as actividades presididas pelas Musas: poesia, drama, história, oratória e também, música no sentido restrito. É este ideal de kalokagathia que os latinos plasmam na fórmula "Mens sana in corpore sano." Este estudo dos poetas, na música, tinha fins essencialmente morais e pedagógicos que conjuntamente com a ginástica, eram considerados uma formação completa, total e equilibrada. O ideal era, portanto, um ideal de sabedoria, pelo domínio dos instintos, desejos e apetites pela razão, um ideal de equilíbrio e harmonia, um ideal de medida, ou seja, desenvolver o corpo e o espírito de forma equilibrada.

O programa completo de estudos era constituído pela ginástica, ensinada nos ginásios e nas palestras, sendo o pedotriba ou paidotriba o mestre de educação física; e pela música que ensina as crianças a tocar cítara, para acompanharem enquanto cantam as obras dos grandes poetas, sendo o mestre o citarista. Nesta altura, o citarista ensina ainda a ler e a escrever, porque para cantar os poetas é preciso saber ler as suas obras. Já no fim da época arcaica, o programa completava-se com a frequência da escola do gramático (este depressa se passará a chamar didáscalo), o mestre de ler e escrever, que ensinava também rudimentos de cálculo.

Aparece a figura do pedagogo, ou seja, do escravo que acompanhava o menino à escola e que, igualmente, superintendia no seu aconselhamento, vigiando o seu comportamento moral.

No Protágoras, mais uma vez, Platão dá-nos um retracto fiel desta educação tradicional e, apesar de longo, cremos que vale a pena transcrevê-lo:

"- Logo que a criança começa a compreender o que lhe dizem, a ama, a mãe, o pedagogo e até o próprio pai se esforçam por que ela se torne o mais perfeita possível. A cada acção ou palavra lhe ensinam ou apontam o que é justo e o que não é, que isto é belo e aquilo vergonhoso, que uma coisa é piedosa, e outra ímpia, e 'faz isto', 'não faças aquilo'. E, ou ela obedece de boa mente, ou então, corrigem-na com ameaças e pancadas, como se fosse um pau torto e recurvo. Depois, mandam-na à escola, com a recomendação de se cuidar mais da educação das crianças que do aprendizado das letras e da cítara. Os mestres, por sua vez, empenham-se nisso, e, depois de elas aprenderem as letras e serem capazes de compreender o que se escreve, (...) põem-nas a ler nas bancadas as obras dos grandes poetas, e obrigam-nas a decorar esses poemas, nos quais se encontram muitas exortações e também muitos (...) elogios e encómios da valentia dos antigos, a fim de que a criança se encha de emulação, os imite e se esforce por ser igual a eles."

Os mestres de cítara, por sua vez, desempenhavam outra função que era a de cuidar do bom senso (sofrosune) e de evitar que os jovens procedam mal. Depois de saberem tocar, os jovens aprendem as obras dos grandes poetas líricos, que executam na cítara. Assim, obrigam os ritmos e harmonias a penetrar na alma das crianças, de modo a civilizá-las e torná-las mais sensíveis ao ritmo e à harmonia. Na verdade, toda a vida humana carece de ritmo e de harmonia. Para além disso, mandavam-se as crianças ao pedotriba, a fim de possuírem melhores condições físicas, para poderem servir a um espírito são e não serem forçadas à cobardia, por fraqueza corpórea, quer na guerra, quer noutras actividades. Assim fazem os que têm mais posses, os mais ricos. Os filhos desses começam a ir á escola de mais tenra idade, e saem de lá mais tarde.

Mas este era apenas o programa educativo escolar que, de modo nenhum, esgotava a totalidade do programa educativo. Depois da escola, "a cidade continuava a educar nas reuniões políticas, administrativas e jurídicas; nos jogos, com o esplendor das artes figurativas e arquitectónicas, e, sobretudo, com a magnificência das representações dramáticas. Nem em Atenas nem na Grécia o teatro era só para os privilegiados: era a escola de todos os cidadãos." (MORANDO,1961,45)

É que "a educação ateniense, posta em prática na escola e na cidade, tinha duas finalidades precisas: o desenvolvimento do cidadão fiel ao Estado e a formação do homem que adquiriu plena harmonia e domínio de si" (MORANDO,1961,45), sendo, por isso mesmo, absolutamente autárquico.

Mas, afinal, o que pode entender-se por Paideia, palavra esta que retratava o ideal grego de educação? Platão, define-a desta forma "...toda a verdadeira educação ou Paideia, a que é educação na aretê, que enche o homem do desejo e da ânsia de se tornar um cidadão perfeito, e o ensina a mandar e a obedecer, sobre o fundamento da justiça " (PLATÃO, Leis, 643 e in: JAEGER, s.d.: 136).

A Paideia é, então, entendida como uma formação geral que dará ao homem a forma humana, ou seja, que o construirá como homem e como cidadão. E este ideal aparece claramente como o ideal de Paideia no séc. IV a. C. e que se encontra bem presente, desde logo, com os sofistas, mas este é também o ideal que encontramos em Sócrates, em Platão, em Aristóteles ou em Isócrates. 

"O termo grego Paideia evoca tanto o próprio conteúdo da cultura como o esforço para constituir, na criança (Pais, Paidos) um património de valores intelectuais e morais que a integram na comunidade humana. Finalmente, Paideia implica tudo o que distingue o grego, o homem civilizado, do bruto e do bárbaro ou ainda o que permite ao indígena aceder, pela educação, a um novo estatuto cultural, social, político. A educação impõe-se como uma obrigação da qual a cidade não pode fugir e à qual não pode escapar."( MIALARET e VIAL,1981:165).

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt