Péricles

 

Nascido por volta de 495 A.C., é filho de Xantipo e de Agariste, sobrinho de Clístenes, outro grande estadista, e por muitos considerado o pai da Democracia.

Uma das razões para Péricles ter tido a importância que teve em Atenas, prende-se com o facto de ter nascido no seio da família dos Alcmeónidas, família de sua mãe, que era uma das mais ricas e influentes em Atenas. Parar além disso, como pôde viajar e ter contacto com gentes e costumes de outros lugares, ganhou muita experiência de vida.

Os seus tutores foram de grande importância para o seu desenvolvimento, primeiro como General e, em seguida, como político. Em primeiro lugar, o pai, Xantipo, que era um grande político. Depois, Dámon, Anaxágoras e Zenão de Eleia, com quem Péricles passou grande parte da sua infância e adolescência. Dámon foi o seu professor de música e, para além da teoria musical, ensinou-lhe as suas relações com a ética e a política. Aliás, Dámon levava tão a sério a sua arte, que costumava afirmar: "Não se pode tocar nas regras da música sem perturbar, no mesmo instante, as leis fundamentais do Estado... Façamos da música a cidadela do Estado". Anaxágoras e Zenão de Eleia foram os seus principais mestres de pensamento. Com Anaxágoras, aprendeu a usar a razão para explicar o mundo físico que o rodeava em vez dos tradicionais mitos da religião grega. Era este homem que ensinava que a inteligência pura tirara o mundo do caos inicial, o organizava e o continuava a reger. Com Zenão de Eleia, aprendeu a doutrina monoteísta: "Há só um Deus... sem trabalho, pela simples força do espírito, põe em movimento todas as coisas.".

Péricles reúne na sua pessoa quatro virtudes. Em primeiro lugar, tem a inteligência, isto é, a capacidade de analisar uma situação política, de prever exactamente o acontecimento e responder-lhe com um acto. Em segundo lugar, é dono de uma grande eloquência. Dir-se-ia que cada vez que fala perante a Assembleia, depõe a sua coroa de chefe, só a voltando a colocar com o consentimento de todos. É um grande orador que tem sempre um relâmpago na língua. A terceira virtude é o patriotismo mais puro: para Péricles, nada está acima do interesse da comunidade dos cidadãos, acima da honra da cidade de Atenas. Por último, vem o seu total desinteresse. Inteiramente dedicado ao seu país, ou melhor, à sua Atenas, é inacessível a qualquer tipo de corrupção.

Com estas qualidades e a esmerada preparação que recebeu, Péricles tornou-se um diplomata e político notável, dotado de um inigualável poder de oratória. Segundo Tucídides, os discursos de Péricles eram exemplos da eloquência dedutiva, alimentada pelas paixões vivas do jovem povo ateniense.

Ao contrário da maioria dos políticos, Péricles começou a sua vida política relativamente tarde, aos 31 anos, decorria o ano de 463 a.c.. Mas este aparecimento tardio pensa-se ter sido uma estratégia cuidada. Aparentemente, Péricles esperou que Temístocles e Aristides, dois gigantes políticos da geração anterior, desaparecessem de cena, e aproveitou o facto de Címon, que tinha sido a face dominante em Atenas durante uma década, estar sempre fora em campanhas militares.

Assim, Péricles dedicou-se ao serviço militar, tomando parte em diversas expedições, para provar que era suficientemente corajoso e que não tinha medo dos perigos, algo essencial para alguém que quisesse prosseguir uma carreira política. Péricles, devido às suas características, foi eleito General. Mais tarde, chegou ao poder, devido a um movimento democrático popular, uma vez que, devido à sua grande capacidade oratória, virou os populares contra Címon, fazendo-os ver que este defendia os interesses dos aristocratas, recebendo subornos destes.

Por vezes, fala-se em Péricles como sendo o fundador da democracia, algo que não é totalmente exacto. Na verdade, ele apenas modificou o sistema democrático existente, de uma "democracia limitada" para uma democracia onde todos os cidadãos podiam participar (cidadãos, atente-se...). Tanto que se Clístenes é considerado o pai da democracia grega, Péricles é considerado o fundador da Idade de Ouro da mesma, chamando, outros ainda, ao século V A.C., o século de Péricles. Isto porque, com Clístenes, era uma democracia limitada, onde os aristocratas ainda ditavam leis, e com Péricles este facto alterou-se, passando os cidadãos a governar não apenas em teoria, mas também na prática.

A partir de 450 A.C., foram passando na Assembleia uma série de leis que progressivamente foram estabelecendo um sistema democrático que o mundo nunca tinha visto antes. Foram dados aos cidadãos o poder directo da Assembleia e dos tribunais populares, onde as decisões eram tomadas por maioria.

Assim, as suas medidas vão incidir sobre vários aspectos. Em primeiro lugar, vai alargar o campo de recrutamento das magistraturas, antes apenas limitada às duas classes superiores. No entanto, a sua sensibilidade política vai mais longe, ao constatar que esta participação das classes inferiores seria puramente teórica, se estes elementos, que tinham poucos recursos económicos, não fossem pagos. Assim, alarga o campo dos arconatos à terceira classe (pequena burguesia e artífices de poucos rendimentos), deixando de fora a quarta e última classe, a dos operários e serventes. Criou também indemnizações para os membros do Conselho dos Quinhentos,para os militares e para a participação dos cidadãos nas numerosas festas da República. No entanto, nunca deu dinheiro para a participação na Assembleia do Povo, uma vez que era considerado um dever a frequência desta.

A estas reformas juntou-se ainda o fim do direito de veto do Areópago, conselho constituído apenas pelos nobres, que limitava em certos casos a soberania popular.

Mas note-se que, no entanto, a Assembleia não era um governo representativo. Nestes, só podiam participar cidadãos masculinos de Atenas, sendo deixados de fora tanto as mulheres, como os escravos e os estrangeiros (originários de outras cidades que não Atenas).

Assim, de 460 A.C. até à sua morte, em 429 A.C., Péricles dominou os assuntos ligados com Atenas. Durante este período, foi sempre eleito como um dos 10 Generais, que eram os estrategos de Atenas. O mais espectacular destas eleições é que foram sempre efectuadas pelo conjunto da comunidade cívica Ateniense, o que denota bem o modo como Péricles conseguiu convenceu o povo a marchar pelo caminho que ele ditava.

A política de Péricles consistia em continuar as reformas democráticas em Atenas bem como expandir a sua importância no centro e norte da Grécia. Devido à grande paixão que Péricles nutria pela sua Atenas, após o fim das guerras Persas em 448 A.C., os 15 anos seguintes foram passados na evolução de Atenas como o centro cultural do mundo. Isto foi feito com da entrada de muito dinheiro, vindo das cidades-estado que formavam a liga de Delos, que tinha inicialmente sido formada com um objectivo militar:

athena.jpg (12429 bytes) continuar no mar as hostilidades contra a Pérsia, libertar as cidades helénicas ainda submetidas pelo Rei e tornar impossível uma nova invasão da Grécia pelos Persas. Devido a Atenas ter um papel de destaque nesta Liga, devido à sua grande frota, tinha o comando das operações militares, donde resultava o livre uso das finanças da liga. Estas iam sendo engrossadas com o contributo das outras cidades-estado que, como não tinham uma frota moderna, em vez de contribuírem com navios, contribuíam com dinheiro. Com o fim da Guerra com os Persas, Péricles usou este mesmo dinheiro para reconstruir Atenas (muito fustigada durante as Guerras Persas). Ao mesmo tempo que ia reconstruindo e embelezando Atenas, com inúmeros templos (entre eles o Parténon e o templo de Atena-Niké, cuja fotografia está acima), Péricles ia dando trabalho a inúmeros habitantes de Atenas, o que lhe granjeava elogios de todos os sectores da população, tanto das classes altas, devido à elevação de Atenas como centro cultural do Mundo, bem como das classes mais desfavorecidas, com a criação de novos postos de trabalho.

Para finalizar, fica aqui uma passagem do discurso de Péricles (citado por Tucídides), no funeral daqueles que morreram na guerra do Peloponeso, que demonstra bem a sua personalidade e os ideais que defende:

"O nosso sistema político não compete com instituições que estão noutros locais implantadas pela força. Nós não copiamos os nossos vizinhos, mas tentamos ser um exemplo. A nossa administração favorece a maioria em vez da minoria: é por isso que é chamada uma democracia. As leis dão justiça para todos de igual modo, nas suas disputas privadas, mas não ignoramos a demonstração da excelência. Quando um cidadão se distingue, então será chamado para servir o estado, em detrimento de outros, não devido a privilégios, mas como um prémio para o mérito; e a pobreza não é obstáculo para tal.
...A liberdade que apreciamos estende-se também à nossa vida particular; não desconfiamos uns dos outros, e não aborrecemos o nosso vizinho se ele escolher seguir o seu próprio caminho. ... Mas esta liberdade não faz de nós seres sem lei. Somos educados para respeitar os magistrados e as leis, e a nunca esquecer que devemos proteger os feridos. E somos também ensinados a observar aquelas leis que não estão escritas cuja sanção está apenas na sensação universal do que está correcto...
A nossa cidade está aberta ao mundo; nunca expulsamos um estrangeiro... Somos livres de viver exactamente como desejamos, e no entanto, estamos sempre preparados para enfrentar qualquer perigo... Amamos a beleza sem nos tornarmos vaidosos, e apesar de tentarmos melhorar o nosso intelecto, isto não enfraquece a nossa vontade... admitir a pobreza de uma pessoa não é uma desgraça para nós; mas consideramos desgraçante não fazer nada para o evitar. Um cidadão Ateniense não negligencia os aspectos públicos quando atende aos seus negócios privados... Consideramos um homem que não tem qualquer interesse no estado não como perigoso, mas como inútil; e apesar de apenas uns poucos poderem originar uma política, todos nós somos capazes de a julgar. Não olhamos a discussão como uma parede bloqueando a acção política, mas como um preliminar indispensável para agir com sabedoria. ..."

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt