Ulisses

Ulisses aparece, pela primeira vez, no fim da Ilíadas. Vejamos um excerto em que Ulisses e Diomedes são escolhidos para espiarem o acampamento dos troianos e procederem aos preparativos da invasão:

Mérion oferece a Ulisses o seu arco, carcaz
E espada. À volta da fonte coloca-lhe um elmo
Feito de couro: no interior múltiplas correias
Teciam-no com solidez e no exterior luzentes presas
De javali dispunham-se inúmeras de um e outro lado,
Com arte e engenho. No centro guarnecia-o um penacho de feltro.

Ilíada, 10.260-265

No entanto, é na Odisseia que Ulisses é o herói principal. A Odisseia não é mais do que a longa narrativa do regresso de Ulisses à sua terra, Ítaca. Nos dez anos que se seguiram à queda de Tróia, Ulisses vai viver as mais surpreendentes aventuras.

Mapa da viagem de Ulisses na Odisseia

Atacou primeiro os Cícones em Ismarus e visitou de seguida o país dos Lotófagos e, mais tarde o dos Ciclopes, que eram seres gigantescos com um só olho situado na testa e que eram pastores.


Fuga de Ulisses em Cíclopes

 

Aqui, Ulisses caiu nas mãos de Polifemo, mas conseguiu escapar cegando o olho do gigante, só se vendo livre deste depois dele ter devorado 6 dos seus companheiros.


Ulisses escapa cegando Polifermo

Chegou mais tarde à Eólia, onde lhe foi oferecido um saco com todos os ventos, excepto aquele que o levaria a Ítaca. Houve uma noite em que Ulisses dormia e a sua tripulação abriu o saco, mas os ventos sopraram de imediato, tendo o barco sido levado de imediato a Eólia.

De volta ao mesmo sítio, Ulisses pede ajuda aos habitantes para os ajudarem, sendo este pedido recusado. Assim, depois de 6 dias de navegação, chegam à cidade dos letrigões, cujos habitantes eram gigantes antropófagos. Escapou ao perigo apenas para atracar em Ea, onde vivia a feiticeira Circe, que era uma deusa, e que com as suas artes mágicas podia transformar homens em animais. E foi assim que transformou os companheiros de Ulisses, enviados para reconhecimento, em porcos.


Encontro com os Letrigões

Contudo, com a ajuda de Hermes, um mensageiro dos deuses que lhe deu uma raiz de ervas para contrariar os encantos, conseguiu restituir a forma humana aos seus companheiros. Com Circe Ulisses passou um ano, tendo nascido desta relação Telégono.


Representação da passagem de Ulisses por Circe

Por ordem de Circe Ulisses viajou até à terra dos Cimérios onde entrou no Hades. Aí encontrou Tirésias, uma personagem cega, que ainda conservava os seus poderes de adivinho, para o interrogar sobre a forma de regressar a Ítaca. Este mostrou a Ulisses fantasmas do mundo inferior e aconselhou-o a fazer um sacrifício a Posêidon, deus grego dos tremores de terra e água, para apaziguar a ira causada pela injuria feita a seu filho Polifemo. Conta agora a conversa enter Ulisses e a psyché de Aquiles:

"Outrora, quando vivias, honrámos-te como um deus,
nós os arguivos; hoje, aqui exerces o teu poder sobre os mortos.
A ti, nem mesmo a morte te causa tristeza, Aquiles."
Assim falei. De imediato, disse-me em resposta:
"Não me elogies a morte, ilustre Ulisses.
Eu preferia trabalhar a terra como teta de alguém,
De um homem pobre que não tivesse grandes recursos,
A reinar sobre quantos mortos pereceram.

Odisseia, 11.484-491


Ulisses na chegada ao Hades

Após o seu regresso a Ea, Ulisses foi enviado numa viagem que o levou à ilha das Sereias, situada entre Cila e Caribdis, onde, durante a viagem perdeu vários membros da tripulação.


Retratação da viagem até à ilha das Sereias

Ulisses chega então à ilha onde pastava o gado de Hélios, deus grego do sol que tinha o poder de ver e ouvir tudo. Os seus homens mataram alguns dos animais para se alimentarem, enfurecendo Hélios, o que levou Zeus a destruir os navios com um raio só. Assim, só Ulisses se salvou, andando à deriva num fragmento do barco até Ogígia, onde vivia a ninfa Calipso. Esta manteve-o em cativeiro durante 7 anos, tendo sido libertado, por ordem de Zeus devido à intervenção de Atena, e construiu um barco com o qual se aproximou da ilha de Esquéreia, terra dos feaces.

Ulisses a ser salvo pela ninfa Calipso

Mas, para grande infortúnio, naufragou outra vez, por ordem de Poseídon, já com terra à vista, conseguindo-se salvar ao nadar até à terra onde foi encontrado por Nausícaa, filha de Alcino, rei dos feaces, que o levou para a corte de seu pai. Assim, Atena disfarçada de filha do rei indica-lhe o caminho:

Então replicou-lhe a deusa Atena de alvos braços:
"Estrangeiro, a casa por quem perguntas
eu ta indicarei, pois o meu ínclito pai habita perto.
Segue-me em total silêncio, que eu mostro-te o caminho.
Não olhes pessoa alguma nem perguntes nada;
Os naturais não suportam os estrangeiros
Nem acolhem com alegria e amizade quem vem de fora"

Odisseia, 7.26-33


Encontro de Ulisses com Nausícaa

Aí Ulisses contou as suas aventuras e infortúnios. De seguida recebeu um barco para, finalmente voltar para Ítaca. Quando lá chegou disfarçou-se de pedinte, sendo reconhecido apenas por o seu fiel cão Argos.

É Eurímaco, um dos pretendentes de Penélope, que se dirige a Ulisses, disfarçado de mendigo.

Falou e em seguida dirigiu-se a Ulisses destruidor de cidades:
"Estrangeiro, não queres ser tu meu teta? Enviar-te-ei
para os campos no outro lado da ilha e receberás um salário seguro,
por acarretar pedra e plantar grandes árvores.
Aí o alimento de cada dia te fornecerei,
Com roupa te vestirei e para os pés te darei sandálias.
Mas tu, que estás habituado a vis tarefas, não queres
Trabalhar e preferes mendigar pelas cidades
Com que possas encher o teu estômago insaciável."

Odisseia, 18.356-364

 


Representação de Penélope e dos seus pretendentes

Com a ajuda de Telémaco, seu filho, agora um homem já feito, venceu os pretendentes de sua mulher Penélope, matando-os com o arco que apenas ele conseguia disparar. Assim, após 20 anos, conseguiu reconciliar-se com a sua família.


Com a ajuda de seu filho Ulisses derrota todos os pretendentes da sua esposa

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt