| Porquê ler o Protágoras de
Platão?
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Antes
de mais, porque ler Platão
é um grande prazer.
Como diz Koyré:
“Os seus textos admiráveis, em que uma perfeição única da forma se
alia a uma profundidade única do pensamento, resistiram à usura do tempo. Não
envelheceram. Continuam vivos. Vivos como nos dias longínquos em que foram
escritos. As questões indiscretas e perturbantes – o que é a virtude?, a
coragem?, a piedade?, que querem estes termos dizer? – questões com as quais
Sócrates aborrecia e exasperava os seus concidadãos, são tão actuais e
embaraçantes como outrora” (Koyré, 1963: 9-10).
Beleza, pofundidade, vivacidade, actualidade: Um leque de qualidades que, no entanto, não
anulam a incomodidade, o desconforto, mesmo a desconfiança que os textos de
Platão podem causar a quem os lê de forma desprevenida. De novo nas palavras de Koyré, não é de espantar
que :
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"O leitor
de Platão sinta por vezes um certo mal-estar, um certo embaraço. O mesmo, sem
dúvida, que sentiam outrora os contemporâneos de Sócrates.
O leitor gostaria
de receber respostas aos problemas postos por Sócrates. Ora, Sócrates, na
maior parte dos casos, recusa-lhe essas respostas. Os diálogos – pelo menos
os diálogos ditos «socráticos» - não chegam a nenhuma conclusão. A discussão
termina inconclusivamente por uma confissão de ignorância. Pelas suas
perguntas insidiosas e precisas, pela sua dialéctica impiedosa e subtil, Sócrates
depressa nos demonstra a fraqueza dos argumentos do seu interlocutor, o
infundado das suas opiniões, a inanidade das suas crenças… mas logo que, sem
fôlego, este se volta contra Sócrates e lhe pergunta: «E tu, Sócrates, que
pensas?», Sócrates foge à resposta. O seu papel não é, diz-nos, emitir
opiniões e formular teorias. O seu papel é examinar os outros. Quanto a si próprio,
a única coisa que sabe é que nada sabe (Koyré, 1963:
9-10).
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Mas,
por quê
ler o diálogo Protágoras no contexto de
uma cadeira de História e Filosofia da Educação?
Doze
boas razões:
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Porque, para além de ser uma obra de elevado
valor literário e filosófico, o Protágoras
de Platão constitui uma das principais fontes de conhecimento sobre o mundo
dos sofistas e das suas práticas de ensino,
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Porque, apesar de Platão ter sido um dos grandes críticos
da sofística, o Protágoras de Platão tem uma enorme importância
no conhecimento e reconhecimento das corajosas novidades da prática de ensino dos sofistas,
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Porque, no Protágoras de Platão se pode
assistir, como se fosse em directo, a diversos momentos da
invenção da escola, das suas determinações formais, das suas regras, dos
seus modos de ser e de fazer,
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Porque no Protágoras se deixam recortar, de
forma magistral, os
contornos ideias dessas figuras decisivas da instituição escolar que são
os professores e os alunos
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Porque o Protágoras de Platão descreve o diálogo
entre Sócrates e um dos primeiros professores que ensina
em troca
de remuneração. Protágoras, que Platão não se cansa de elogiar como o mais sábio de
todos os sofistas (309 d, 318 b, 337 d, 338 c), é descrito como um homem simpático,
cordial, bem humorado, consciente da sua autoridade de mais velho, avisado
relativamente aos perigos da arte sofistica que pratica, mas,
simultaneamente, afirmando a legitimidade da sua profissão e dos seus
direitos,
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Porque o Protágoras de Platão coloca em cena,
não apenas vários intervenientes, mas vários sofistas, nomeadamente
Hipias e Pródico, ou seja, dá-nos a ver aquilo que a Sofística teve em
comum sem descurar o reconhecimento das diferenças entre os vários
sofistas, ou seja, dá conta da diversidade de programas de ensino que a
sofistica ofereceia aos jovens atenineses,
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Porque fazem parte do diálogo pequenas discussões entre Protágoras
e Sócrates as quais, não apenas exibem distintos modos de argumentar,
como tematizam a forma mesma da argumentação e, nesse mesmo gesto,
esclarecem a própria natureza do processo de ensino,
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Porque, de forma imediatamente certeira, o Protágoras
de Platão aponta para uma escola cuja tarefa central é cognitiva. As
discussões organizam-se em função da possibilidade de ensino da «aretê» política,
da relação existente entre as
diversas partes da «aretê» e, finalmente, da redução da «aretê» ao conhecimento.
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Porque, já no final do diálogo, Protágoras, o professor, tem a capacidade e a grandeza de reconhecer o imenso valor de
Sócrates, o aluno.
Como diz num moderado auto-elogio: " Não penso ser um homem mau em nenhum outro
aspecto, mas, sobretudo, não invejo ninguém. Até já disse de ti a muita
gente que, daqueles que conheço, és o que mais admiro, especialmente entre os
da tua idade. (…) não me espantaria se te tornasses famoso pela tua
sabedoria" (361 d-e).
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Porque, o Protágoras de Platão, se termina com a
vitória de Sócrates, não é para afirmar o maior poder de quem mais
sabe mas, justamente, para dizer que a grandeza passa pelo reconhecimento do
não saber.
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Porque no Protágoras de Platão se pressente desde o
início que o melhor professor é aquele que quer continuar a ser
aluno
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Porque no Protágoras de Platão, a verdade só faz
sentido se for de todos. Como diz Sócrates citando Homero "quando dois
homens caminham juntos, um pode ver antes do outro"
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