Protágoras (349b-362)
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| 349b |
A pergunta salvo erro era esta: sabedoria, sensatez, coragem, justiça e piedade são cinco nomes para uma única qualidade ou cada um desses nomes corresponde a uma entidade com propriedades particulares e uma função individual, não sendo nenhuma delas idêntica à outra? |
“sabedoria, sensatez, coragem, justiça e piedade são cinco nomes para uma única qualidade ou cada um desses nomes corresponde a uma entidade com propriedades particulares e uma função individual, não sendo nenhuma delas idêntica à outra?” |
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| 349c | Dizias tu, então, que não são nomes de uma única coisa mas que cada um desses nomes designa uma entidade particular e que todas elas são parte da virtude; não do mesmo modo que as partes do ouro são iguais umas às outras e iguais ao todo, mas antes como as partes do rosto não são iguais umas às outras nem ao todo, pois tem cada uma delas uma função particular. Se ainda mantiveres a tua opinião de há pouco, diz-mo; mas se pensas de outro modo não o escondas, para que eu não te esteja a pedir contas, se agora deres outra resposta. |
Neste momento, Sócrates recapitula o argumento de Protágoras. Sócrates dá a Protágoras a hipótese de reformular a sua posição. |
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| 349d |
Até porque não me admiraria se tivesses feito antes essas afirmações para me pores à prova. - Bem, Sócrates, digo-te eu que todas elas são partes da virtude e, mais, que quatro delas são razoavelmente próximas umas das outras, só a coragem é que é completamente diferente das restantes. Compreenderás que é verdade o que eu te digo com este exemplo: encontrarás, por certo, muitos homens, que são, por um lado, tremendamente injustos, tremendamente ímpios, tremendamente desenfreados, e tremendamente ignorantes, mas, por oposição, superiormente corajosos. |
Em jeito irónico, Sócrates questiona as afirmações feitas anteriormente por Protágoras. Protágoras reformula a sua tese “Compreenderás que é verdade o que eu te digo com este exemplo: encontrarás, por certo, muitos homens, que são, por um lado, tremendamente injustos, tremendamente ímpios, tremendamente desenfreados, e tremendamente ignorantes, mas, por oposição, superiormente corajosos.” |
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| 349e |
- Espera lá - interrompi eu -, vale a pena examinar o que estás a dizer. Antes de mais, dizes que os corajosos são destemidos ou outra coisa? - Sim, claro, bem destemidos e avançam em situações que outros receiam. - Vamos ver, dizes que a virtude é uma qualidade louvável e que, como qualidade louvável que é, tu pretendes ensiná-la? - É, de facto, a mais louvável de todas as qualidades - concordou ele -, a menos que eu esteja louco de todo. E, então, uma das suas partes pode ser louvável e outra censurável, ou é louvável na sua totalidade? É louvável na totalidade mais do que qualquer outra coisa pode ser. Sabes, então, quem são aqueles que, mergulham destemidamente nem poço? |
Sócrates considera que vale a pena examinar a questão à luz da reformulação que Protágoras acaba de apresentar. Contra argumentação de Sócrates A virtude é vista como uma qualidade bonita, nobre no seu todo. Como a coragem é uma parte da virtude não pode ser um defeito. |
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| 350 |
- Os mergulhadores, julgo eu.
- E porque sabem desta arte ou por qualquer outra razão? - Porque sabem. - E quem são os destemidos no combate a cavalo? Os cavaleiros ou os que não sabem andar a cavalo? - Os cavaleiros. - E quem o é daqueles que combatem com escudos? Os que sabem manejar o escudo ou os que não o sabem fazer? - Os que sabem manejar o escudo. E é assim também em todas as outras actividades, se essa é a pergunta que desejas fazer; aqueles que sabem são mais destemidos que os que não sabem e são-no mais depois de aprenderem do que antes de terem aprendido. |
Ao possuir a arte de mergulhar, têm que possuir o conhecimento.
O mesmo acontece com os cavaleiros: os que possuem a arte é porque possuem também o conhecimento. |
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| 350b |
- E já viste alguns que, sem conhecerem essas actividades, sejam destemidos em cada uma delas?
- Eu já, e bem destemidos até. - E, então, esses homens destemidos não são também corajosos? - No caso, seria uma vergonhosa forma de coragem. Esses o que são é loucos! - Ora - repliquei eu -, e o que dizes tu dos corajosos? Não é que são destemidos? |
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| 350c |
- E continuo a dizer!
- Mas esses, os que são destemidos desta última maneira, não são corajosos e, antes, parecem loucos, não? E, por sua vez, aqueles que são mais sábios são também mais destemidos, e sendo mais destemidos são mais corajosos? E, com este raciocínio, a sabedoria também poderia ser coragem? - Não lembras com precisão, Sócrates, o que eu disse e o que te respondi. Tu a mim perguntaste-me se os corajosos são destemidos, eu concordei. Mas não me perguntaste se os destemidos também são corajosos - e, se mo tivesses perguntado, ter-te-ia respondido que nem todos - nem, quanto aos corajosos, se podem não ser destemidos, e agora tentas demonstrar que, quando concordei contigo, não o fiz correctamente. |
Mais uma vez, Protágoras reforça a sua opinião. Sócrates insiste na ideia de que quem possui o conhecimento, ou seja, depois dessa aquisição, é quem é mais confiante e mais ousado.
Protágoras afirma que os corajosos são destemidos, o que não implica a recíproca.
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| 350d | Em seguida, mostraste que aqueles que são conhecedores são mais destemidos do que esses mesmos, ou do que outros, quando não têm conhecimento, e, com estas demonstrações, parece-te que a coragem e a sabedoria são a mesma coisa. E, se fosses pelo mesmo caminho, pensarias que a sabedoria é igual à força. E então se, em primeiro lugar, me fores perguntando só os fortes têm capacidades, responder-te-ei que sim; | |||
| 350e | e, em seguida, se os que sabem lutar são mais capazes que os que não sabem lutar, e, depois de aprenderem, mais do que antes de terem aprendido, responder-te-ei que sim. E depois de eu ter concordado contigo nestas questões, fazendo uso dos meus argumentos, tu poderias avançar dizendo que eu concordara que a sabedoria é o mesmo que a força. Mas eu não concordei, nem aqui nem em sítio algum, que os que têm capacidades são fortes, e sim que os fortes têm capacidades. | |||
| 351 | É claro que a capacidade e força não são a mesma coisa; antes, enquanto a capacidade vem do conhecimento, e também da inspiração e da impetuosidade, a força, por sua vez, vem da natureza e da robustez dos corpos. Do mesmo modo, também o destemor e a coragem não são a mesma coisa; assim, os corajosos podem ser destemidos, mas não é por esse motivo que todos os destemidos vão ser corajosos. |
Protágoras realça a sua posição diferenciando capacidade e força.
Da mesma forma, distingue destemor e coragem. |
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| 351b |
- Destemor advém aos homens da habilidade, mas também do desejo e até da loucura, tal como a capacidade; agora a coragem advém da natureza e da robustez das almas.
- E dizes tu, Protágoras, que alguns homens vivem bem e que outros vivem mal? - Digo. - Bom, e parece-te, por caso, que um homem pode viver bem se viver na miséria e no sofrimento? - Não. - E se viver a vida de modo agradável até ela terminar? Parece-te que assim poderá ter vivido bem? - A mim parece-me. |
Protágoras concorda com Sócrates, na medida em que nenhum homem vive bem se viver na miséria e no sofrimento. |
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| 351c |
- Então viver a vida de modo agradável é bom e viver a vida de modo desagradável é mau, não?
- Se, na verdade, se viver a vida tirando prazer das coisas que realmente valem a pena. - Como assim, Protágoras? Não chamas tu também, como a maioria, agradáveis a algumas coisas boas e penosas a coisas más? Pois eu pergunto-te se, na medida em que são agradáveis, não são então, por esse motivo, coisas boas, ainda que não e tenham em conta as suas outras características? E, por sua vez, não é assim também com as coisas penosas: na medida em que são penosas não são também coisas más? - Não sei, Sócrates, se a minha resposta ao que tu perguntas pode ser assim tão simples, que as coisas agradáveis são todas coisas boas e as penosas más. |
A conclusão a que Sócrates chega é que viver a vida de maneira agradável é bom e vice-versa. Isto implica que viver agradavelmente é equivalente a viver bem. |
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| 351d |
Antes, me parece mais seguro responder - tendo em conta não apenas a minha resposta de agora, mas todas as outras experiências ao longo da minha vida - que há, de facto, coisas agradáveis que não são boas e que há também, por sua vez, coisas penosas que não são más, embora haja aquelas que o são; e, ainda, que há as de uma terceira categoria, que não são nem uma coisa nem outra, nem boas nem más.
- Mas não chamas agradáveis - insisti eu -, àquelas que têm participação no prazer ou que produzem prazer? |
Protágoras, ainda que de forma suave, apela à calma. Afirma não ser assim tão simples a resposta que Sócrates pretende. É necessária uma análise cuidada para que não se cometam erros e não se façam afirmações precipitadas. Nem a tudo se pode responder apenas sim ou não.
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| 351e |
- Certamente.
- Pois é isso mesmo que eu estou a dizer, e se não são coisas boas na medida em que são agradáveis, pergunto-me se o próprio prazer pode ser algo bom. - Como tu dizes, a cada passo, Sócrates, examinemos a questão! E, se a tese parecer razoável e mostrar que prazer é o mesmo que bom, estaremos de acordo; mas, se não, discuti-lo-emos de seguida. - E queres tu conduzir a investigação ou faço-a eu? - É justo - respondeu ele - que sejas tu a conduzi-la, pois foste tu que iniciaste a discussão. |
Tal como nos raciocínios matemáticos, se se encontrar uma tese que satisfaça o que se pedia, então a demonstração dá-se por concluída. Caso contrário, é necessário prosseguir a investigação para encontrar a demonstração. Protágoras concorda que as coisas agradáveis estão relacionadas com o prazer. No entanto, há coisas que não são boas e que são agradáveis. Surge então a questão: ”pergunto-me se o próprio prazer pode ser algo bom?”. Sugere então que se analise a questão, sendo a discussão conduzida por Sócrates. |
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| 352 | - Haverá maneira de clarificarmos esta questão? É como se alguém, ao examinar um homem para saber da sua saúde ou de qualquer outra das funções do seu corpo, lhe olhasse para as mãos e dissesse: « Anda cá, descobre-te e mostra-me o peito e as costas para que eu te possa observar com mais clareza.» eu anseio por um tipo de investigação semelhante. Depois de ter constatado, pelas tuas palavras o que entendes por bom e por prazer, quero fazer-te um pedido semelhante: |
Sócrates recorre a um exemplo, o do homem que, para saber da sua saúde, tem de se desnudar e mostrar o seu corpo. Ora, para que se clarifique algo é necessário investigar, procurar e ir ao fundo das questões, ou seja, desnudá-las e pô-las a nu. Só depois de descobertas se podem trabalhar e analisar. |
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| 352b | «Anda cá, Protágoras, e descobre-me o teu espírito: o que entendes por conhecimento?» Antes de mais, é o teu parecer idêntico ao da maior parte dos homens ou pensas de outro modo? É que a maioria das pessoas pensa sobre o conhecimento que não é o género e coisa que tenha força ou seja capaz de liderar ou governar. Não pensam que se trate de uma qualidade deste género, antes que ao homem que possui conhecimento, muitas vezes, não é o conhecimento que o governa mas qualquer outra razão: por um lado, o ímpeto; por outro, o prazer; ou, ainda, o sofrimento; algumas vezes, o amor; e, muitas vezes o medo. |
Sócrates questiona Protágoras sobre o que este entende por conhecimento, se está de acordo com a posição de Sócrates ou com a posição dos Homens, onde o conhecimento é uma qualidade louvável, capaz de governar o mundo. |
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| 352c | Pensam no conhecimento, simplesmente, como num escravo arrastado por todos os outros conhecimentos. Pensas tu, por acaso, algo semelhante a este propósito? Ou achas que o conhecimento é uma qualidade louvável, capaz de governar um homem e que se alguém conhecer o que é bom e o que é mau nunca será subjugado por coisa alguma e agirá segundo as regras que o conhecimento ditar? Achas que a inteligência é suficiente para proteger o homem? | |||
| 352d |
- Concordo com o que tu dizes, Sócrates, e, mais, seria para mim uma vergonha se não dissesse que a sabedoria e o conhecimento são mais importantes do que qualquer outra de todas as capacidades humanas.
- O que tu dizes está certo e é verdade. Mas sabes que a maioria dos homens não se deixa convencer nem por mim nem por ti; dizem antes que muitos, sabendo o que é melhor, não querem agir desse modo, quando podiam fazê-lo, mas agem de outra maneira. e aqueles a quem eu tenho perguntado qual a razão desse comportamento respondem que são obrigados a fazer o que fazem, dominados pelo prazer, pela dor ou por qualquer desses outros sentimentos de que eu falava ainda agora. |
Protágoras concorda com a posição de Sócrates, afirmando que as capacidades humanas mais importantes são a sabedoria e o conhecimento. Sócrates convida Protágoras a juntar-se a ele, para ambos ensinarem aos homens o que é a sensação de ser dominado pelo prazer. Estamos perante dois homens unidos em busca de um objectivo comum: o conhecimento e a sua transmissão aos homens, e não na presença de dois rivais, em que cada um procura sair vencedor. O objectivo de Sócrates é claro: criar condições dialógicas para a procura da verdade. |
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| 352e |
- Creio, Sócrates, que as pessoas também fazem muitas outras afirmações que não estão correctas.
- Anda comigo, então, tentar convencer esses homens e ensinar-lhes o que é essa sensação a que eles chama ser dominado pelo prazer e a razão pela qual não fazem o que é melhor, embora o conheçam bem. |
Protágoras questiona a atitude de Sócrates, uma vez que este pretende analisar o pensamento dos homens. Será que daí advém algum proveito? Questiona Protágoras, pondo em causa o método de Sócrates.
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| 353 |
É que talvez se lhes dissermos: «Meus amigos, o que vocês dizem não está certo; estão até enganados», eles nos perguntem: «Protágoras e Sócrates, se essa tal sensação não é ser dominado pelo prazer, é então o quê? O que dizem você, então, que é? Respondam-nos os dois.»
- Mas, Sócrates, é preciso estarmos nós a examinar a opinião da maior parte dos homens, quando eles dizem o que, porventura, lhes ocorre? |
Sócrates reage dando-lhe de novo a oportunidade de ser ele a conduzir a discussão, dado que somente aborda aquilo que considera relevante. |
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| 353b |
- Parece-me - respondi eu - que esta investigação nos é útil para a descoberta do que seja a coragem, do modo como se relaciona ela com as outras partes da virtude. Se quiseres, então, manter o que acordámos há pouco, que eu conduziria a investigação nos aspectos que me parecessem mais relevantes para clarificar a questão, acompanha-me. Mas, se não quiseres, se preferires, estou disposto a deixar ficar.
- Não, o que dizes está certo. Continua lá do modo como começaste. |
Protágoras apercebe-se que, de facto, não deveria ter posto em causa o método de Sócrates e ainda que não lhe peça desculpa explicitamente, dá-lhe razão e diz-lhe para prosseguir a investigação. | ||
| 353c | - Bom, vejamos mais uma vez... se alguém nos perguntar. «Ora, e que dizem vocês que é essa sensação a que nós chamamos ser dominados pelos prazeres?» Eu, pela minha parte, responder-lhes-ia o seguinte: «Escutem, então, porque Protágoras e eu vamos tentar explicar-vos. Dizem vocês, meus amigos, que acontece, nalgumas circunstâncias - pode até ser que muitas vezes -, ser-se dominado pelos prazeres, da comida, da bebida, do sexo, e que se age de acordo com eles, mesmo sabendo que são coisas prejudiciais?» Diriam que sim. Então, de novo, seríamos tu e eu a perguntar-lhes: «Em que medida dizem que essas coisas são prejudiciais?» |
Sócrates recomeça a discussão anteriormente proposta. Sócrates tenta mostrar o que é a sensação dominada pelos prazeres. Identifica o tipo de prazeres: comida, bebida e sexo. No entanto, identifica-os como sendo coisas prejudiciais. |
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| 353d | Porque proporcionam esse prazer, nesse mesmo momento, e cada uma delas é agradável ou porque, tempo depois, provocam doenças e pobreza e causam muitas outras desgraças semelhantes? Ou, mesmo que, porventura, tempos depois não causassem nenhuma destas consequências negativas, antes contribuíssem apenas para trazer prazer?» Será possível acharmos, Protágoras, que nos darão alguma outra resposta salvo que não são más pela produção desse prazer momentâneo mas pelo que advém posteriormente, doenças e outras desgraças? | |||
| 353e |
- Eu, por mim, penso - assentiu Protágoras que a maior parte responderá dessa maneira.
- «Ora e, então, trazendo doenças não trazem desgraça e, trazendo pobreza, não trazem desgraça?» Penso eu que também concordariam. Protágoras tornou a dizer que sim. - «E não vos parece também, meus amigos, que, tal como afirmamos Protágoras e eu, estas coisas não são más por nenhum outro motivo que não seja por culminarem em desgraça e privarem o homem dos outros prazeres?» Iriam concordar? |
Ambos concordam que, as pessoas no geral, acham que estes prazeres são prejudiciais, não porque produzem prazer momentâneo mas, porque podem causar sofrimento e retirar o lugar a outros prazeres. | ||
| 354 |
A ambos nos pareceu que sim.
- Bem, e se lhes fizéssemos uma nova pergunta, ao contrário: «Meus amigos, aqueles de vocês que dizem que há coisas boas penosas, não o dirão, por acaso, daquelas que podem, por exemplo, resultar do exercício físico, das campanhas militares, do tratamento feito pelos médicos, através de cautérios, amputações, medicamentos e privação de alimentos - porque essas, embora penosas, são boas?» Diriam que sim? - Também me parece. |
Sócrates tenta demonstrar que algumas coisas boas culminam em desgraça, como por exemplo o exercício físico, campanhas militares, tratamento médico, medicamentos e fome. |
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| 354b |
- «Então, antes de mais, chamam boas a essas coisas porque, tempos depois, delas advêm robustez e boa condição física para os corpos, salvação para as cidades, poder sobre os outros e riquezas?» Por mim, penso que seria por esta última razão.
- Também me parece. «Então, essas coisas são boas por qualquer outro motivo ou porque culminam em prazer, libertando e prevenindo de dores? Ou, observando estas coisas a que chamam boas, dirão vocês que têm qualquer outro fim que não prazeres e dores?» |
Razões pelas quais, os exemplos em cima apresentados, são coisas boas. |
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| 354c |
Quero admitir que diriam que sim.
- A mim também me parece - continuou Protágoras. - «Então procuram o prazer porque é bom e fogem da dor porque é má, não?» - Acho que sim. - «E, por certo, pensam que a dor é algo mau e que o prazer é bom; embora afirmem que mesmo o que agrada também é mau, quando priva de prazeres maiores que os que ele próprio proporciona, ou quando culmina em dores maiores que esse mesmo prazer. |
Estas coisas são boas porque transformam-se em prazer e evitam a dor.
O prazer é mau apenas quando priva as pessoas de prazeres maiores do que ele próprio. |
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| 354d |
Contudo, se
chamam mau a ter prazer por qualquer outra razão ou pela observação de qualquer outro resultado, então, avisem-nos. Decerto, não vos será possível!»
- Também me parece que não - concordou Protágoras. «Agora, mais uma vez, pode o mesmo raciocínio aplicar-se ao sofrimento das dores? Chamam bom a ter uma dor quando ela liberta de dores maiores que essa ou quando culmina em prazeres maiores que as dores? Claro que se vocês tiverem observado algum outro resultado, para poderem chamar bom a ter dores, que não apenas o que eu digo, avisem-nos, por favor. Decerto não vos será possível!» |
Por outro lado, a dor é boa quando liberta uma dor maior ou produz maior prazer do que a própria dor. |
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| 354e |
- É verdade o que dizes - concordou Protágoras.
«Uma vez mais, ainda meus amigos - insisti eu -, se me perguntassem: " Mas por que razão te demoras a levantar tantas e tão variadas questões sobre este assunto?". Desculpem-me - diria eu -, em primeiro lugar, não é fácil demonstrar o que é essa sensação a que se chama ser dominado pelo prazer; depois, só a partir dessa demonstração posso esclarecer todas as outras dificuldades. |
Mais uma vez, Protágoras concordou com Sócrates. |
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| 355 | Mas agora ainda é possível recuar, se quiserem dizer que o que é bom é qualquer outra coisa que não prazer e o mal qualquer outra coisa que não a desgraça. Ou chega-vos que o prazer seja viver a vida sem dores? Se chega e não são capazes de distinguir uma coisa boa de uma coisa má, a não ser que resulte nesse estado, escutem o seguinte: digo-vos, com efeito, que essa opinião invalida a nossa discussão, uma vez que dizem que, muitas vezes, o homem sabe que as más acções são más acções e pratica-as na mesma, sem ser obrigado a fazê-lo, empurrado e oprimido pelos prazeres. |
Sócrates dá a hipótese de uma mudança de opinião, a Protágoras e a todos. |
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| 355b | E, logo a seguir, dizem que o homem que conhece quais as boas acções não está disposto a praticá-las, por causa de prazeres momentâneos, por ser dominado por eles. Que se trata de um raciocínio ridículo ficará bem claro, se não utilizarmos tantos nomes ao mesmo tempo, prazer e dor, bom e mau; mas, já que parecem ser apenas duas as situações, demos-lhes apenas dois nomes, em primeiro lugar bom e mau, depois prazer e dor. |
Sócrates conclui que a posição de Protágoras e dos outros é: o homem sabe que as más acções são más e pratica-as na mesma, oprimido pelos prazeres; quanto às boas acções não as pratica, embora sabendo que são boas, dominado pelos prazeres momentâneos. |
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| 355c | Fiquemos assim e digamos que o homem que sabe que as más acções são más, as pratica na mesma». E se alguém, então, nos perguntar: «Por que razão?», responderemos: « Porque está dominado.» «Por quem?», perguntar-nos-á ele. Nós, aí, já não vamos poder dizer que pelo prazer - é que o outro nome que substitui esse prazer é o bom. Assim, se respondermos dizendo «Dominado», ele perguntará: «Por quem?», e nós, por Zeus, responder-lhe-emos que pelo que é bom. Ora, se se der o caso de o nosso interlocutor ser um insolente, vai ficar a a rir-se e a dizer: «Mas que resposta disparatada! | |||
| 355d | Que alguém pratica más acções, sabendo que são más e que não as deve praticar, por estar dominado por coisas boas. Pensam vocês, por acaso - continuará ele -, que as coisas boas não são merecedoras de vencer as más... ou que o são?» É óbvio que ao responder diremos que não são; caso contrário, este homem que dizemos ser dominado pelos prazeres não cometeria qualquer falta. «Mas por que razão - perguntará ele talvez - têm as coisas boas menos valor que as más ou as más que as boas? Por alguma outra razão que não seja serem umas maiores e outras menores? | |||
| 355e | Por haver maior quantidade de umas e menor quantidade de outras?» Não teremos possibilidade de dar outra resposta. «É óbvio, então - dirá -, que essa sensação a que chamam ser dominado é trocar grandes males por pequenos bens». E assim é! Reponhamos, então, os nomes de prazer e dor para estas mesmas coisas e digamos que um homem pratica acções, a que antes chamámos más e agora chamaremos penosas, sabendo que são penosas, dominado pelos prazeres que, é óbvio, não merecem vencer. |
As coisas boas e más têm mais ou menos valor devido ao facto de umas serem em maior ou menor quantidade. Sócrates realça que o ser dominado é trocar grandes males por pequenos bens. |
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| 356 | E em que outra medida falta valor ao prazer face à dor, senão por excesso ou falta de um em relação ao outro? E este desequilíbrio advém de terem maior ou menor tamanho, maior ou menor quantidade, mais ou menos força. Com efeito, se alguém disser. «Mas, Sócrates, há uma grande diferença entre prazer momentâneo e o prazer e a dor que vêm com o tempo», eu, pela minha parte, responder-lhe-ei que não, decerto, por outra razão senão por serem prazer ou dor. Não há mesmo outro motivo! | |||
| 356b | Mais, é como se um homem bom em pesagens, somando prazeres com prazeres e somando dores com dores, depois de ajustar na balança a proximidade e a distância, disser quais são as maiores; porque se pesares prazeres com prazeres terás que aceitá-los sempre com dores em menor número e em menor tamanho. Agora, se forem prazeres com dores, se os prazeres as excederem, seja a proximidade menor que a distância ou a distância menor que a proximidade, terás que agir segundo o que estes ditarem. Se forem as dores a exceder os prazeres, não terás que o fazer. |
Realça, mais uma vez, a ideia de que o desequilíbrio entre prazer e dor é devido ao maior ou menor tamanho ou mais e menos força de cada um. |
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| 356c |
«Não é assim, meus amigos?», perguntei eu. Sei bem que não poderiam responder oura coisa.
Ele era da mesma opinião. - «Bom, já que é assim, pedirei que me respondam ao seguinte: parece-vos que, aos nossos olhos, o tamanho das mesmas coisas é maior se estão perto e menor se estão longe, ou não?» Vão responder que sim. «E não é o mesmo com as espessuras e as quantidades? E os mesmos sons não são mais fortes se estão perto e mais fracos se estão longe?» Diriam que sim. |
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| 356d | «Ora se o nosso bem-estar reside nesse pormenor, no de lidar e escolher segundo as grandes quantidades e evitar agir segundo as pequenas, em que julgaremos nós que se encontra a salvação da nossa via? Na arte do comedimento ou no poder das aparências? enquanto este nos ilude e leva, muitas vezes, a altos e baixos na adopção das mesmas coisas e a recuar diante dessas acções ou das escolhas das coisas grandes e das pequenas; o comedimento, pelo contrário, poderá afastar essa ilusão e, mostrando a verdade, dar à alma a posse de uma serenidade que lhe permita conservar essa verdade e salvar a nossa vida». | |||
| 356e |
Depois desta exposição será que os nossos interlocutores concordariam que é na arte do comedimento que poderá estar a nossa salvação, ou na outra?
- Na do comedimento. Ora, e se a salvação da nossa vida estivesse em escolher entre par ou ímpar, ou na necessidade de fazer uma escolha correcta, numa determinada altura, de uma grande quantidade e, noutra, de uma pequena, ou entre uma coisa e essa mesma coisa, ou entre uma coisa e outra diferente, ou entre algo que está perto e algo que está longe? O que poderia salvar a nossa vida? O conhecimento, não? |
Sócrates tenta realçar que é na arte do comedimento, onde é mostrada a verdade e permitida a conservação dessa mesma verdade. e não no poder das aparências, que reside a salvação da vida. Protágoras concorda. A forma como Sócrates formula esta questão, referindo-se a "nós" como um todo, faz parecer que o raciocínio foi construído por todos em conjunto, quando na verdade os presentes apenas concordaram com o que disse. |
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| 357 |
E, decerto, também algum comedimento já que é a arte que está ligada ao excesso e à falta, não? E tratando-se de pares e ímpares, seria precisa outra qualquer arte para além da aritmética? Os nossos interlocutores concordariam ou não?
A Protágoras parecia-lhe que sim. - «Óptimo, meus amigos. Já que chegámos à conclusão de que a salvação da nossa vida está na escolha correcta entre prazer e dor, em maior e menor número, em maior e menor tamanho, maior ou menor distância, não parecerá, em primeiro lugar, que está no comedimento, uma vez que é a observação do que é excesso, falta ou igualdade face às outras coisas?» |
Ainda assim é curioso que o faça, na medida em que nos dá realmente a sensação de que se procura o conhecimento e a sabedoria para todos se tornarem melhores homens e mais sabedores. |
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| 357b |
- Ora, é forçoso que sejam assim.
- «E já que se trata de comedimento, suponho que forçosamente será também uma arte de conhecimento». - Hão-de dizer que sim. - «Já veremos, daqui a pouco, que tipo de arte e de conhecimento são estes. Que se trata de conhecimento, eis o que é suficiente para a demonstração de que Protágoras e eu necessitamos para respondermos ao que nos foi perguntado. |
Mais uma vez Sócrates se refere à investigação como sendo dele e de Protágoras, algo conjunto e com um objectivo comum, não uma competição de que se procura um vencedor. Note-se que a forma como Sócrates conduz a sua investigação, não é de todo inocente, no sentido em que leva os presentes a concordar com as várias afirmações que faz, todas elas relacionadas com aquilo que pretende concluir. Já na posse do apoio dos presentes, ou seja, depois de todos os presentes terem concordado com o que dizia, não mais poderiam contradizer-se. |
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| 357c | Essa pergunta foi feita, se estão lembrados, quando nós acordámos, um com o outro, que nada é superior ao conhecimento e que ele supera sempre as restantes qualidades, onde quer que esteja, quer se trate de prazer quer se trate de todas as demais. Ora, diziam vocês que o prazer, muitas vezes, supera até o homem que possui conhecimento, e, quando nós discordámos, nessa altura, perguntaram-nos: " Protágoras e Sócrates, se essa situação, o ser dominado pelo prazer, não existe, então é o quê, que lhe chamam vocês? Digam lá." |
Posto isto, reúne todas as conjecturas com que haviam concordado e deduz a sua conclusão com o apoio de todos e sem que ninguém o questione. Ora, quando se dirige aos presentes, para que sejam eles a responder-lhe, Sócrates confere ao seu discurso um tom irónico. Não se dirige directamente a Protágoras (é com ele que discute), mas sim aos presentes, para tirar algumas das suas conclusões, com as quais Protágoras também se vê obrigado a concordar. |
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| 357d | Se vos tivéssemos respondido, logo de imediato: "Ignorância", ter-se-iam rido de nós. Mas agora se se rirem de nós, estarão a rir-se também de vocês próprios, uma vez que concordaram que, quando se erra na escolha em matéria de prazeres e dores - ou, o mesmo será dizer, de coisas boas e más - se erra por falta de conhecimento; e não só de conhecimento mas também - ainda há pouco concordaram - de comedimento. e sabem, certamente, também que errar por falta de conhecimento é agir com ignorância. |
Sócrates reforça a importância da forma como organizou o seu raciocínio, referindo que, se pura e simplesmente tivesse colocado a questão, ninguém teria concluído o que pretendia. Com isto, pretende não só esclarecer a sua forma de proceder mas realçar a importância da análise cuidada e detalhada como única forma de encontrar a verdade e o conhecimento. |
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| 357e | De modo que o ser dominado pelo prazer é isto, a maior das ignorâncias, para qual aqui o nosso Protágoras diz ser médico, e também Pródico e Hípias. Mas vocês, que pensam que é outra coisa qualquer que não ignorância, em vão nem enviam os vossos filhos para junto dos que são mestres nestas matérias, os Sofistas aqui presentes. Como não o vêem como algo ensinável, guardam o vosso dinheiro, em vez de lho dar a eles, e agem de modo errado tanto nos assuntos particulares como nos comunitários». Esta é, pois, a resposta que teríamos dado à maioria. | |||
| 358 |
Agora, pergunto-vos -e da parte de Protágoras também,- ó Hípias e Pródico (podem bem responder os dois em conjunto), parece-vos que estive a dizer a verdade ou a mentir?
A todos, unanimemente, parecia que o que eu dissera era verdade. - Concordam, então - continuei eu -, que o prazer é uma coisa boa e a pena uma coisa má. Mas vou pôr de parte a distinção dos nomes do nosso Pródico! Seja lá o que for que tu lhe chames, prazer, deleite, gosto, ou qualquer outro nome que te agrade, meu caro Pródico, quero que me respondas ao que pergunto. |
Pródico, discípulo de Protágoras, dedicava-se ao estudo, à génese e à distinção dos nomes. Por isso, Sócrates apela a que se deixe de lado tal assunto, com o intuito de não ocorrerem desvios do tema principal.
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| 358b |
Pródico, então, riu e concordou comigo, tal como os outros.
- Como é, então, meus senhores? - perguntei eu. - Todas as acções que conduzem a este fim, que conduzem a uma vida de prazer e isenta de dor, não são louváveis? E uma actividade louvável não é boa e útil? Ele concordou. - Se, então, o prazer é bom, nenhum homem, nem aquele que sabe que sabe, nem aquele que pensa que há coisas melhores do que as que faz, e pode fazer, fará essas, podendo fazer as melhores; nem ser-se dominado por algo é mais que ignorância, nem ser senhor de si próprio mais que sabedoria. |
Pródico ri-se em tom irónico visto ter-se apercebido que Sócrates conhecia a sua opinião. Mas acaba por concordar explicitamente, dando-a a conhecer. | ||
| 358c |
Todos concordaram.
- E então? É a esse estado que chamam ignorância? A ter uma falsa opinião e estar enganado a propósito de muitos assuntos importantes? Também neste ponto concordaram todos. - Ora, decerto, ninguém escolhe voluntariamente o caminho para as coisas más, nem para as que pensa serem más. Uma atitude dessas, querer ir atrás das coisas que se pensa serem más, preterindo as que são boas, não é, pelo que me parece, própria da natureza humana. |
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| 358d |
E quando é forçoso que se escolha uma de duas coisas más, escolhe alguém a maior, podendo escolher menor?
Todos nós estávamos de acordo com tudo o que fora dito. - E agora, a que chamam vocês temor e medo? Ao mesmo que eu, não? (Pergunto-te a ti, Pródico.) Eu dou esse nome a uma certa expectativa face a algo mau, quer lhe chamem temor, quer lhe chamem medo. Protágoras e Hípias achavam que era tanto temor como medo; para Pródico, temor sim mas não medo. |
No seguimento da sua argumentação, Sócrates refere que todos os actos têm em vista a obtenção de prazer e de preferência não envolvendo qualquer dor ou sacrifício. Esses actos são nobres e bonitos e até excelentes e, como vimos, o que é nobre é bom e por sua vez benéfico. Então, se o prazer é bom, não há ninguém que acredite existir melhor acção do que aquela que conduz à escolha do bom, isto é, ninguém voluntariamente procura o que acredita ser mau. Até porque, tal seria contrário à natureza do homem, dado que nenhum procuraria o mau em vez do bom ou a dor em vez do prazer e, ainda que forçado a escolher entre males, ninguém escolheria o mal maior se pudesse fazer o contrário. |
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| 358e | - Mas esse pormenor não faz diferença, Pródico. A questão é esta: se o que foi dito antes é verdade, algum homem, por acaso, quererá seguir esse caminho, o das coisas que causam temor, podendo seguir esse caminho, o das coisas que causam temor, podendo seguir o das que não o fazem? Ou é impossível, depois do que concluímos? é que, quanto às coisas que causam temor, ficou acordado que são tidas como más. E ninguém segue nem escolhe, voluntariamente, para si as coisas que acreditam serem más. Assim pareceu também a todos. |
Com isto todos concordaram, sem qualquer hesitação ou contra argumentação! |
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| 359 | - Bom, agora que formulámos estas hipóteses, Pródico e Hípias, o nosso Protágoras que defenda, diante de nós, até que ponto está correcto o que respondeu em primeiro lugar - não o que disse logo, logo no início, porque nessa altura, disse que tendo a virtude cinco partes, nenhuma delas é igual à outra, antes cada uma delas tem uma função particular -, mas não falo dessa resposta e sim do que disse depois. É que depois disse que quatro eram razoavelmente próximas umas das outras em matéria de semelhanças, mas uma, a coragem, diferia substancialmente das outras e explicou-mo com o seguinte exemplo: |
A união da coragem e da sabedoria Sócrates recorda, nas suas exactas palavras, a tese que Protágoras havia formulado em 349d. |
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| 359b | «Descobrirás, com efeito, Sócrates, homens que são tremendamente ímpios, tremendamente injustos, tremendamente desenfreados, tremendamente ignorantes mas superiormente corajosos. Com este exemplo, compreenderás que a coragem difere das outras partes da virtude.» De imediato, fiquei surpreendidíssimo com a resposta e ainda o estou mais, depois de ter percorrido convosco a questão. Na altura, perguntei-lhe, ainda, se chamaria corajosos aos - destemidos. Ele respondeu: «Sim, e sempre determinados.» |
De forma algo irónica, Sócrates revela ter-se sentido surpreso aquando da afirmação de Protágoras, no que respeita à sua formulação acerca dos homens serem corajosos e ignorantes, em simultâneo. |
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| 359c |
Lembras-te, Protágoras, de me teres dado essa resposta?
- Lembro. - Vá lá, conta-nos, para que dizes tu que são os corajosos determinados? Será para as mesmas situações que os cobardes? - Não. - Então, para outras situações? - Sim. - Mas enquanto os cobardes vão atrás de situações que não atemorizam, os corajosos procuram situações que causam temor. - Assim dizem as pessoas, Sócrates. |
Com isto pretende, não ridicularizá-lo, mas realçar que o seu raciocínio não é o mais correcto. |
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| 359d |
- É verdade - confirmei -, mas não é isso que eu te estou a perguntar, e sim para que situações dizes tu que os corajosos estão prontos? Será para situações que causam temor, porque acreditam que elas causam temor, ou para as que não causam?
- Mas foi mesmo essa hipótese que, com os teus argumentos de há pouco, demonstraste que era impossível! - Pois é verdade o que dizes. De modo que se passa se essa demonstração estava certa, ninguém vai atrás de situações que acredita causarem temor, porque o ser dominado por si próprio revelou-se ser ignorância. Ele concordou. - Mas, na medida em que todos, quer cobardes quer corajosos, vão atrás de situações em que se sentem confiantes então, quer os cobardes quer os corajosos, certamente vão atrás das mesmas coisas. |
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| 359e |
- Por favor, Sócrates! As coisas de que os cobardes vão atrás são precisamente o contrário daquelas que seguem os corajosos. Enquanto uns, por exemplo, querem ir à guerra, os outros, pelo contrário, não querem.
- E esse ir é louvável ou censurável? - Louvável. - Então, se é realmente louvável, concordámos, lá atrás na nossa conversa, que também é bom, porque concordámos que todas as acções louváveis são boas. - É verdade o que dizes, e a mim continua a parecer-me que é assim. - E muito bem! - confirmei eu. - Mas, qual dos dois dizes tu que não quer ir à guerra, sendo esta louvável e boa? |
Sócrates confronta Protágoras com a sua própria contradição. |
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| 360 |
- Os cobardes - respondeu ele.
- Ora bem, mesmo sendo louvável, bom e agradável? - Pelo menos foi o que concordámos. - Acaso, então, os cobardes, mesmo se têm conhecimento de que é assim, não querem ir para o que é mais louvável, melhor e mais agradável? - Bom, se formos dizer que sim, caem por terra as nossas conclusões anteriores. - Ora, e o homem corajoso? Não vai ele atrás do que é mais louvável, melhor e mais agradável? - Sou obrigado a concordar. |
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| 360b |
- Então, no geral, os corajosos, quando têm medo, é de coisas que causam medo mas não são censuráveis e destemem coisas que, não provocando temor, também não são censuráveis. É assim?
- Tens razão. - E se não são coisas censuráveis, então são coisas louváveis, pois são? Ele concordou. - E, se são louváveis, também são boas, não? - Sim. - Ora, os cobardes, os destemidos e os loucos, pelo contrário, temem coisas que causam medo mas que são censuráveis e destemem também coisas que, não provocando temor, são censuráveis? Ele concordou. - E essa confiança em coisas censuráveis e más resulta de qualquer outra razão que não de desconhecimento e ignorância? - Não, tens razão! |
Protágoras entra em perdição, a partir desta fase do diálogo. Não mais faz qualquer afirmação com o intuito de contrariar ou contrapor os raciocínios de Sócrates. Restringe-se à confirmação dos argumentos utilizados por ele.
À medida que avançamos no diálogo, Protágoras vai-se deparando com maiores dificuldades, vendo-se obrigado, ainda que a custo, a concordar com Sócrates. |
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| 360c |
- E então? Ao motivo pelo qual os cobardes são cobardes chamas cobardia ou coragem?
- Chamo-lhe cobardia! - E não parece que os cobardes são cobardes por ignorância do que são as coisas temíveis? - Exactamente - respondeu. - E é por causa dessa mesma ignorância que são cobardes, não? Ele concordou. - E tu também estás de acordo que é por essa mesma razão que são cobardes, por causa da cobardia? Ele disse que sim. - E, então, será a cobardia a ignorância das coisas temíveis e das coisas não temíveis? Ele acenou afirmativamente. - Ora bem - continuei eu -, coragem é o contrário de cobardia? |
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| 360d |
- É.
- E a sabedoria das coisas temíveis e das coisas não temíveis é o contrário da ignorância dessas mesmas coisas? Também a esta pergunta repetiu o sinal de assentimento. - E a ignorância dessas coisas não é cobardia? A custo, lá acenou que sim mais uma vez. - E a sabedoria das coisas que causam temor e das que não o causam é coragem, uma vez que é o contrário da ignorância dessas mesmas coisas, não? A esta pergunta, embora quisesse acenar que não, ficou calado. E eu perguntei: - Então, Protágoras, não respondes às minhas palavras nem que sim nem que não? - Tira tu as conclusões. |
A certo ponto, não mais o faz falando, mas sim acenando com a cabeça, o que é bastante revelador da dificuldade que dele se apoderou. Protágoras
reconhece a derrota: |
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| 360e |
- Só te quero fazer mais uma pergunta, ainda: se te continua a parecer, como de início, que alguns homens sendo tremendamente ignorantes são superiormente corajosos?
- Parece-me, Sócrates, que te delicia a ideia de ser eu a responder. Vou fazer-te a vontade, então, e digo-te que, pelo que acordámos, acho que é impossível. Bom, o que é certo é que não te estou a fazer estas perguntas todas com outra intenção que não seja querer examinar qual a ideia que se tem da virtude e o que é ela própria, essa virtude. |
Não importa vencer, mas procurar a verdade: ainda que Sócrates já se tenha apercebido que Protágoras reconhecera a sua derrota (360e-361), transmite-lhe a ideia de que não pretende humilhá-lo ou examiná-lo, mas sim procurar o significado da virtude. |
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| 361 | Porque sei que se esta análise se tornasse mais clara, poderia tornar bem mais nítida também a questão à volta da qual estivemos, tu e eu, cada um por sua vez, a tecer longos discursos - eu dizendo que a virtude não se pode ensinar e tu que pode. E parece-te que a conclusão a que chegámos com toda esta nossa conversa de há pouco está a acusar-nos e a troçar de nós como se fosse um homem de carne e osso. E, se falasse, diria: «Mas que bizarro que me saíram vocês os dois, Sócrates e Protágoras! |
Através desta passagem, podemos identificar o espírito filosófico de que era detentor. Da investigação e da discussão de ideias retirava, não só conhecimento e experiência, como também prazer e realização pessoal, reconhecendo inclusive que ele próprio nada sabe. Assim, confere bastante relevo à investigação e clarificação dos assuntos, visto aí residir, no acto de questionar a própria arte de filosofar. |
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| 361b | Tu, antes, dizias que a virtude não podia ser ensinada, agora insistes no contrário, querendo sem demonstrar que todas essas qualidades, a justiça, a sensatez, a coragem, são conhecimento; deste modo, bem pareceria que a virtude fosse qualquer outra coisa que não conhecimento, como Protágoras tentou defender, é claro que não poderia ser ensinada. Agora, se, pelo contrário, parece ser, na sua totalidade, conhecimento - tal como tu insistes, Sócrates - será surpreendente que não se possa ensinar. Por sua vez, Protágoras, depois de ter partido do princípio de que a virtude podia ser ensinada, agora parece insistir no contrário, em mostrar que bem poderia ser um pouco de tudo, menos conhecimento, e assim de modo algum poderia ser ensinada». |
Inversão dos Argumentos - Paradoxo Estamos perante o momento sublime do diálogo. Necessidade de continuar a investigação: uma das características marcantes deste diálogo é a ideia, incessantemente retomada, de que a investigação é algo essencial e que não se pode descuidar. Tanto Sócrates, como Protágoras o defendem. |
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| 361c | No que me diz respeito, Protágoras, vendo toda a confusão de opiniões, ora numa direcção, ora noutra, tenho um enorme desejo de as clarificar e gostaria que continuássemos a nossa análise sobre o que é a virtude e investigássemos, de novo, se ela pode ser ensinada ou se não pode ser ensinada. |
No final do diálogo, fica a promessa de, no futuro, continuarem a procurar a verdade por forma a clarificar, não só a análise do que é a virtude e se esta pode ou não ser ensinada, mas também discutir todos demais assuntos. |
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| 361d |
Não
vá às vezes, esse teu Epimeteu ter-nos encaminhado para conclusões erradas, do mesmo modo que nos lesou na atribuição das capacidades, como tu contaste. É que, no mito, agradou-me mais Prometeu do que Epimeteu; seguindo o seu exemplo, tenho sido previdente toda a minha vida, dedicando-me a todos estes assuntos, e, se tu quiseres, tal como todo o prazer.
Protágoras respondeu, então: - Eu louvo esse teu interesse e o modo como conduzes a argumentação. |
Carácter aporético do diálogo: é de notar que, neste, tal como em muitos outros diálogos, não se chega a qualquer conclusão propriamente dita. Estamos na presença de um dos mais claros exemplos de diálogo aporético. A procura do conhecimento e do esclarecimento de questões é uma constante; a ausência de conclusão, a incapacidade de alcançar uma solução, um veredicto ou mesmo um vencedor, uma determinação decisiva. |
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| 361e | Não penso ser um homem mau em nenhum ouro aspecto, mas, sobretudo, não invejo ninguém. Até já disse de ti a muita gente que, daqueles que conheço, és o que mais admiro, especialmente entre os da tua idade. E digo mesmo que não me espantaria se te tornasses famoso entre os homens pela tua sabedoria. Quanto a esses assuntos, discuti-lo-emos uma outra vez, se quiseres. Agora está na minha hora de retomar um outro tema. |
O diálogo termina pois com o reconhecimento por parte de Protágoras do valor de Sócrates. O velho sofista, um dos mais célebres sábios da época, manifesta de forma clara a admiração que nutre pelo jovem Sócrates e o prazer que sentiria se no, futuro tivesse oportunidade de, com ele, proceder a mais investigações e discussões. |
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| 362 |
- Bom, assim faremos, se te parecer. De facto, eu também já tinha dito que me ia embora, há algum tempo atrás; só fiquei, em atenção à amabilidade de Cálias.
E, depois de assim termos falado e escutado, viemos embora. |
Protágoras louva, não só o ardor com que Sócrates se dedica à procura da verdade como o modo como conduz as suas investigações. Protágoras tem mesmo a grandeza de ser capaz de perceber que está perante um gigante do pensamento, uma figura ímpar da história do Homem, alguém que, como diz, irá tornar-se famoso entre os homens pela sua sabedoria". Protágoras não se enganou! |
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Olga Pombo: opombo@fc.ul.pt
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