Protágoras (320c-328c)

320c - Claro que não recusarei, Sócrates. Mas, em primeiro lugar, querem que o faça contando-vos uma história, como mais velho que fala aos mais novos, ou que o demonstre com argumentos?
Muitos dos que estavam sentados à sua volta deram-lhe, então, a escolher demonstrá-lo como quisesse.
- Pois bem, parece-me - respondeu ele - que será mais agradável contar-vos uma história:
Protágoras acede ao pedido de Sócrates para explicitar a sua posição. Numa postura simpática, cheia de auto-confiança e versalitilidade, dá a escolher à audiência a forma de o fazer: contar uma história (mythos) ou apresentar argumentos (logos).
320d Era uma vez... existiam somente os deuses e não havia ainda as raças mortais. Quando chegou, então, o momento destinado a o seu nascimento, os deuses modelaram-nas, no interior da terra, misturando terra e fogo e os elementos que com estes se combinam. Quando estavam prontas para ser conduzidas para a luz do dia, os deuses encarregaram Prometeu e Epimeteu de as organizar e de atribuir a cada uma capacidades que as distinguissem. Epimeteu pediu, então, a Prometeu que o deixasse fazer essa distribuição. «Depois de eu a ter feito», disse, «tu passas-lhes uma revista». Com toda a sua astúcia e como professor de eloquência que é, Protágoras escolhe o método mais agradável aos seus ouvintes - a história - método que, simultaneamente lhe atribui a autoridade que caracteriza a posição de mais velho.

Protágoras narra o mito de Prometeu. Trata-se de um mito antropogónico que explica como surgiram os seres vivos e como Prometeu e Epimeteu distribuiram as qualidades.

320e E assim, depois de o ter convencido, começou: atribuiu força aos que não tornara rápidos e dotou com rapidez os mais fracos; armou uns e para aqueles a quem dera uma natureza sem armas inventou qualquer outro meio que assegurasse a sua sobrevivência; àqueles que contemplou com a pequenez, deu-lhes a possibilidade de fugirem voando ou uma habitação subterrânea, e aos que fez grandes em tamanho salvou-os com essa mesma atribuição. Epimeteu distribui as qualidades, poderes e defesas tendo em conta o equilíbrio das espécies.
321 De modo igualmente equilibrado, distribuiu também as restantes qualidades. E fez tudo com cautela, para que nenhuma espécie se extinguisse. Depois de lhes dar os meios necessários para que não se destruíssem uns aos outros, arranjou maneira de os proteger contra as estações enviadas por Zeus, cobrindo-os com pêlos abundantes e carapaças grossas, suficientes para se defenderem do Inverno e eficazes para o fazerem do sol escaldante, e que constituem, para cada um, o seu aconchego natural, quando decidem deitar-se. A alguns deu velocidade, a outros força, ou asas, ou pelos para os cobrir, ou carapaças para os proteger.
321b Calçou uns com cascos e outros com couro grosso e sem sangue. Em seguida, providenciou diferentes alimentos para as diferentes espécies: para uns, os pastos da terra; para outros, ainda, os frutos das árvores; para os restantes, raízes. A alguns destinou que fossem alimento de outras espécies; a estas últimas deu pequenas ninhadas, enquanto que às que lhe servem de alimento deu a fecundidade, providenciando assim a salvação da sua espécie.
321c Deste modo, Epimeteu — que não era lá muito esperto — esqueceu-se que gastara todas as qualidades com os animais irracionais; fora desta organização, restava-lhe ainda a raça dos homens e sentia-se embaraçado quanto ao que fazer. Estava ele nesta aflição, chega Prometeu para inspeccionar a distribuição e vê que, enquanto as outras espécies estão convenientemente providas de tudo quanto necessitam, o homem está nu, descalço, sem abrigo e sem defesa. E já estava próximo o dia marcado, em que era preciso que também o homem saísse do interior da terra para a luz do dia. Epimeteu esgota o seu stock de poderes, e quando chega a vez do homem, não tem nada para lhe oferecer. Deixando-o nu, descalço e sem abrigo nem defesa
321d Sem encontrar qualquer outra solução para assegurar a sobrevivência do homem, Prometeu, roubou a sabedoria artística de Hefesto e Atena, juntamente com o fogo — porque sem o fogo era-lhe impossível possuí-la ou torná-la útil — e, assim, ofereceu-a ao homem. Com ela, este tomou posse da arte da vida, mas não da arte de gerir a cidade, pois esta estava junto do próprio Zeus. Já não fora possível a Prometeu entrar na morada de Zeus, na acrópole — para mais que os guardas de Zeus eram terríveis —, mas entrara, sem ser visto, na sala partilhada por Hefesto e Atena,

Prometeu decide então compensar o homem e, para isso, rouba o fogo e a sabedoria artística aos deuses e dá-as ao homem para que este possa sobreviver.

321e na qual ambos se dedicavam às suas artes, e roubara a arte do fogo a Hefesto e as outras artes a Atena, para as dar ao homem, que delas retirou os meios necessários à vida.
322 Mas, no fim, por culpade Epimeteu — é o que dizem —, a justiça perseguiu Prometeu por causa deste roubo. Deste modo, o homem participava da herança divina e, devido ao parentesco com os deuses, foi o único dos animais a acreditar neles. Assim, começou a construir altares e imagens suas. Depois, rapidamente dominou a arte dos sons e das palavras e descobriu casas, vestuário, calçado, abrigos e os alimentos vindos da terra. É nesta altura que Protágoras se afasta do mito de Prometeu e lhe insere uma significativa alteração. Estamos perante o deslizar de um mundo para o outro: o texto narrativo (que permanecia imóvel ao longo dos tempos e passava de geração em geração contado pelos mais velhos) é agora utilizado pelo sofista para mostrar algo mais, algo que só ele sabe, fruto do seu conhecimento próprio.
322b Assim providos, inicialmente, os homens viviam dispersos e não havia cidades. Mas viam-se destruídos pelos animais selvagens, pois eram mais fracos que eles em todos os sentidos. A arte que dominavam era-lhes suficiente na procura dos alimentos, mas ineficaz na luta com as feras — com efeito, faltava-lhes a arte de gerir a cidade, da qual faz parte a arte da guerra. Procuraram, então, associar-se e proteger-se, fundando cidades. Só que, ao associar-se, tratavam-se injustamente uns aos outros, já que não possuíam a arte de gerir a cidade. De modo que, novamente dispersos, se iam destruindo... O homem recebe assim uma centelha divina. Não se trata de o homem ser a imagem dos deuses mas de ficar detentor de alguns dos seus poderes, o fogo como símbolo do espírito e as artes, como símbolos da capacidade de transformação do mundo.
Em virtude da sua afinidade com os deuses, o homem é por isso o único animal a reconhecê-los, a esculpir as suas imagens e a erguer-lhes altares.

Os homens tinham recebido capacidades para se defrontarem com a natureza através das dádivas prometeicas (havia equilíbrio, porque a falta de certas aptidões era compensada pela posse do fogo e da inteligência), no entanto morriam sob os ataques de animais selvagens. Surge então a necessidade de se agruparem e viverem em cidades. Não o conseguem fazer por não possuírem a arte de gerir a cidade, que inclui o sentido de justiça (dike) e o respeito mútuo, por si próprio e pelos outros, razão pela qual se iam destruindo. Como resultado acabaram por se separar, ficando novamente à mercê dos animais e colocando-se em perigo de extinção.

322c Zeus, então, inquieto, não fosse a nossa espécie desaparecer de todo, ordenou a Hermes que levasse aos homens respeito e justiça, para que houvesse na cidade ordem e laços que suscitassem a amizade. Hermes perguntou a Zeus de que modo haveria de dar aos homens justiça e respeito: «Distribuo-os do mesmo modo que, no início, foram distribuídas as outras capacidades? As outras ficaram assim repartidas: um médico é suficiente para muitos leigos e o mesmo acontece com os outros especialistas. Atribuo, também, justiça e respeito aos homens deste modo, ou distribuo-os por todos?» Zeus, receoso com o desaparecimento da humanidade, ordenou a Hermes que distribuisse respeito e justiça por todos os homens. Só sendo estas qualidades partilhadas por todos é que podem existir cidades.
322d «Por todos — respondeu Zeus — e que todos partilhem desses predicados, porque não haverá cidades, se somente uns poucos partilharem deles, como o fazem dos outros. Estabelece, pois, em meu nome, uma lei que extermine, como se se tratasse de uma peste para a cidade, todo aquele que não for capaz de partilhar de respeito e de justiça.»
Deste modo e por este motivo, Sócrates, quer os outros povos quer os Atenienses, quando o discurso é na área da arte da carpintaria ou de outra qualquer especialidade, consideram que só a alguns compete uma opinião.
Nesse sentido, Zeus decretou que fosse instituída uma lei que exterminasse quem não os possuísse.
Deste modo, a arte de gerir a cidade não é inata, a
aretê não nasce com o homem. Face às agressões dos animais selvagens e dos da sua própria espécie, o homem revelou a sua incompletude congénita. É por isso que se dá uma nova intervenção divina.
322e E se alguém, fora desses poucos, se pronuncia, não aceitam, tal como tu dizes — e com muita razão, repito eu — ; porém, quando procuram uma opinião a propósito da arte de gerir a cidade, Zeus vem em auxílio do homem criando as regras e os valores necessários à constituição da vida social.
323 em que é preciso proceder com toda a justiça e sensatez, com razão a aceitam de qualquer homem, pois a qualquer um pertence partilhar efectivamente desta arte ou não haverá cidades. Neste facto reside, Sócrates, a razão do que perguntas. Mas, para que não consideres que te estás a iludir, pensando que é por ser assim que todas as pessoas crêem que qualquer homem partilha quer da justiça quer das restantes qualidades políticas, repara em mais uma prova: com efeito, no que diz respeito às outras qualidades, como tu dizes, se alguém diz ser um bom tocador de flauta ou ter dotes em qualquer outra arte, sem os ter, ou se riem dele ou se enfurecem e os familiares vêm e dão-no como louco.

Protágoras responde ao primeiro argumento da tese de Sócrates: todos os homens podem participar dos assuntos da cidade porque todos eles possuem, ou participam desta virtude: o sentido de justiça e de respeito (que a todos foi dado por Zeus).

 

Referência ao argumento do tocador de flauta, que mais tarde irá retomar.

323b Mas tratando-se da justiça ou das restantes qualidades políticas, se sabem de alguém que é injusto e se esse mesmo alguém confessar a verdade a seu respeito diante de todos, essa atitude (confessar a verdade) que, noutra ocasião, pareceria inteligência, neste caso, parece loucura. E afirmam que é preciso que todos digam que são justos, quer sejam quer não, e que aquele que não aparenta sê-lo enlouqueceu.
323c Pois pretendem que é forçoso que qualquer um partilhe desta qualidade, de uma maneira ou de outra, ou não poderá viver entre os homens. O que digo, pois, é que é com razão que aceitam de qualquer homem uma opinião sobre esta virtude, pelo facto de acreditarem que todos partilham dela. De seguida, pretendo demonstrar-te que não acreditam que seja obra da natureza ou algo inato mas, antes, ensinada e que aquele que o desenvolver conseguí-lo-á graças ao treino. Apresentação do argumento do castigo e da punição.
323d Com efeito, na medida em que os homens crêem que os defeitos que os outros possuem são obra da natureza ou do acaso, ninguém se irrita, nem repreende, nem ensina, nem castiga aqueles que têm esses defeitos, para que não sejam como são; antes, os lamentam. É possível que haja alguém tão louco que tencione fazer uma coisa dessas com os feios, os baixos ou os fracos? Com efeito, considero que sabem que é por obra da natureza ou do acaso que os homens desenvolvem essas características, as boas e as más. Mas, na medida em que consideram que os homens desenvolvem boas qualidades pelo treino, pela prática e pela aprendizagem, se alguém as não possuir e, pelo contrário, Protágoras infere que Sócrates está errado ao supor que os homens comuns negam o facto da virtude poder ser ensinada e errado está ao pensar que a sua recusa a chamar "peritos morais" para os aconselhar é prova disso.
O sofista refere que a instituição do castigo e da punição pressupõe que a virtude pode ser ensinada.
323e possuir os defeitos correspondentes, sobre esses recaem, então, as irritações, os castigos e as repreensões. Um desses defeitos é a injustiça, a impiedade e, em suma, tudo o que é contrário às qualidades políticas.
324 Como, neste caso, qualquer um se irrita e repreende qualquer um, é óbvio que têm essa virtude por adquirida graças ao treino e à aprendizagem. Com efeito, Sócrates, se quiseres ponderar que punir é uma medida eficaz em relação àqueles que praticam injustiças, esse facto provar-te-á que os homens acreditam, realmente, que a virtude pode ser adquirida. Porque ninguém castiga, por praticar injustiças, aqueles que as praticam sem noção do que fazem, a menos que se castigue irracionalmente, como qualquer animal selvagem.
324b Mas, aquele que tenciona punir racionalmente não castiga por causa das acções passadas — porque não vale a pena chorar pelo leite derramado —, mas, como salvaguarda do que poderá acontecer, para que nem esse mesmo, nem outro que tenha presenciado a punição, pratique novas injustiças. Ora, com semelhante modo de pensar, pressupõem, então, que a virtude se pode ensinar — se se entender que, quando se pune, é com vista à correcção.
324c Todos aqueles que aplicam castigos, quer na vida privada, quer na vida comunitária, têm esta mesma opinião. Todos os homens — e os Atenienses, teus concidadãos, não menos que os outros — castigam e punem aqueles que consideram que praticaram acções injustas. Deste argumento se depreende, então, que os Atenienses estão entre aqueles que acreditam que a virtude pode ser adquirida e ensinada.
Pela minha parte, Sócrates, parece-me que foi suficientemente demonstrado que é, pois, com razão que os teus concidadãos aceitam que ferreiro e curtidor dêem a sua opinião sobre os assuntos da cidade e que acreditam que a virtude pode ser ensinada e adquirida.
324d Resta, contudo, ainda, uma questão: aquela que levantas a propósito dos homens bons. Qual é, pois, a razão pela qual os homens bons ensinam aos filhos essas outras matérias que competem aos professores, fazendo-os sábios, mas quanto à virtude, em que eles próprios são bons, não os tornam melhores que qualquer outro? Mas, a esta questão, Sócrates, vou responder-te não com outra história mas através de argumentos. Pensa, então, da seguinte maneira: antes de mais, há ou não uma qualidade da qual é forçoso que todos os cidadãos partilhem, se realmente se quiser Protágoras abandona o mythos e recorre ao logos para responder ao segundo argumento de Sócrates: que os homens bons não conseguem ensinar a virtude aos seus filhos.
324e que haja uma cidade? Com efeito, é neste imperativo, e não em qualquer outra razão, que se encontra a solução da questão que tu levantas. Pois, se essa qualidade realmente existe e não se encontra nem na carpintaria, nem na metalurgia, nem na cerâmica, mas antes na justiça, na sensatez e na piedade
325 — em suma, numa qualidade à qual dou o nome de virtude humana —; se é essa qualidade de que todos devem partilhar e qualquer homem deve possuir, seja o que for que queira aprender ou fazer, pois sem ela nada lhe será possível; se é preciso que aquele que dela não partilhe, seja criança, homem ou mulher, seja ensinado e punido até que pela punição se torne melhor e que aquele que não responda nem à acção das punições nem dos ensinamentos, esse, seja tido como incurável e banido da cidade ou condenado à morte; Protágoras diz que toda a socialização é um processo de ensinar a virtude, pela simples razão de que sem a virtude não pode haver vida social.
325b se a situação é esta e se, sendo assim, os homens bons ensinam aos filhos as outras matérias mas não esta, vê lá tu que estranhos são esses homens bons! Contudo, demonstrámos já que acreditam que esta qualidade pode ser ensinada, tanto na vida particular como na comunitária. Mas, podendo esta qualidade ser ensinada e aperfeiçoada, não é verdade que ensinam aos filhos todas as outras matérias que, caso não conheçam, não os conduzirão à pena de morte, e, pelo contrário, não lhes ensinam nem os aperfeiçoam em matéria de virtude,
325c cujo desconhecimento pode levar os seus filhos à pena de morte e ao exílio e com a morte à confiscação dos seus bens e, resumindo numa palavra, à ruína de tudo quanto possuem? Estas matérias nem lhas ensinam nem lhes dedicam qualquer cuidado, pois não? Pelo menos, Sócrates, assim parece. Contudo, começam a ensiná-los desde que são crianças pequenas e continuarão a fazê-lo enquanto eles viverem. Logo que alguém compreende o que se lhe diz, a ama, a mãe, o pedagogo e até o pai fazem esforços nessa área, para que a criança se torne o melhor possível. Quem castiga não pune por causa da injustiça, mas fá-lo com vista a ensinar e atendendo ao futuro. Quem pune tem de ter sentido de justiça.

Protágoras conclui que os Atenienses acreditam que a virtude pode ser ensinada. Utiliza aqui um argumento por dedução, uma vez que se os deuses distribuiram as capacidades pelos homens, então estes devem possuí-las. Quem não as tiver, tendo sido estas distribuídas, será punido.

325d Por cada palavra ou cada acto, ensinam-lhe e explicam-lhe o que é justo e o que é injusto, o que é bom e o que é censurável, o que é pio e o que é ímpio, «faz isto», «não faças isso». Se obedece voluntariamente, ainda bem; se não, endireitam-no, com ameaças e pancadas, como se fosse um pau torto e recurvo. Em seguida, quando o enviam para a escola, prescrevem que os mestres tomem muito mais cuidado com o bom comportamento das crianças e que com a aprendizagem das letras e da cítara. O objectivo de Protágoras é mostrar que havendo um tão grande cuidado e preocupação com a educação das crianças é porque a virtude é ensinável.
Desde a mais tenra idade que as crianças são ensinadas a distinguir o que é justo do injusto, o bonito do feio ou o que é nobre do que é vergonhoso. Se falham na aprendizagem são castigadas. Toda a sua educação, tanto em ginástica ou em música e literatura, é dirigido para esse propósito, e o processo continua, sobre as regras da sua cidade, durante toda a sua vida.
325e Os mestres, por sua vez, seguem a prescrição e, então, assim que as crianças aprenderem as letras e estiverem prontas para compreenderem os textos escritos do mesmo modo que, até aí, compreenderam os sons, colocam-lhes sobre os bancos poemas de bons poetas, para que os leiam, e obrigam-nas a aprendê-los de cor, pois neles há muitas advertências, muitas histórias e elogios dos heróis de outrora, Protágoras começa por corrigir a afirmação que Sócrates fez no início, no que diz respeito à virtude, que os pais não cuidam do seu ensino. Pelo contrário, sendo uma qualidade de que todos precisam de possuir, de forma a poderem co-habitar na cidades, são desde pequenos iniciados nessa aprendizagem que se irá prolongar pela vida fora. Assim que se considera que a criança já sabe compreender, todos tentam incutir-lhe sentido de justiça, sensatez e piedade.
326 para que a criança, entusiasmada, os imite e se esforce por ser igual a eles. A seguir, os citaristas tomam idêntico cuidado no que diz respeito à moderação, para que os pequenos não venham a agir erradamente. Depois, assim que souberem tocar cítara, ensinam-lhes, então, poemas de outros bons poetas — os líricos, desta vez —, com o fim de aprenderem a música para serem tocados à cítara, Já na escola, os mestres zelam para que as crianças tenham cuidado com o comportamento, recolhendo exemplos de obras poéticas.
326b e obrigam a que os ritmos e as melodias se tornem familiares às almas das crianças, para que sejam mais delicadas; ao tornarem-se mais graciosas e mais moderadas, serão melhores quer no falar quer no agir. Tudo na vida do homem precisa de ritmo e de harmonia! E mais ainda, a seguir mandam-nas ao pedotriba, para servirem o espírito bem formado com corpos melhores e não serem obrigados a abster-se, por causa de deficiência física, nem nas guerras nem em outras actividades.
326c  Os que têm mais possibilidades — e os mais ricos são os que mais podem — é assim que actuam e os seus filhos começam a frequentar a escola muito cedo e deixam-na muito tarde. Logo que saem da escola, é a vez de a cidade os obrigar a aprender as leis e a viver de acordo com elas e com os seus paradigmas,
326d para não agirem apenas como bem lhes parecer. E, simplesmente, do mesmo modo que os mestres das primeiras letras, depois de traçarem linhas com o estilete, dão as tabuinhas às crianças que ainda não sabem escrever e as obrigam a seguir a direcção das linhas, assim também a cidade, depois de traçar leis, obra de bons e antigos legisladores, obriga a que se governe e a que se seja governado de acordo com elas, e pune aquele que, porventura, vier a transgredi-las. Após a escola, é a própria cidade que, com o poder das leis, orienta o comportamento dos cidadãos.
326e E o nome para essa punição, tanto aqui entre nós como em muitos outros lugares, é corrigir, uma vez que a justiça corrige. Sendo tal o cuidado em torno da virtude, quer na vida privada quer na comunitária, admiras-te, Sócrates, e questionas que a virtude possa ser ensinada? Pois não deves espantar-te; deverias, antes, espantar-te muito mais se o não pudesse ser. Mas, por que razão, afinal, a maioria dos filhos de pais notáveis resultam fracos? Ora, repara no seguinte: na realidade, não é nada espantoso, se é mesmo verdade o que eu disse antes, que, se se quiser que haja uma cidade, é necessário que ninguém ignore uma qualidade — a virtude.
327 Se, com efeito, as coisas são como eu digo — e o mais provável é que assim seja — considera uma qualquer outra actividade ou assunto à tua escolha. Se não fosse possível que uma cidade existisse, a menos que todos nós, na medida das nossas possibilidades, fôssemos tocadores de flauta, cada um deveria poder ensinar o outro a tocar flauta, quer em particular quer na comunidade, e censurar aquele que não o fizesse bem, sem recusar esse ensino; O sofista volta a referir-se ao argumento do tocador de flauta.
327b do mesmo modo que, o nosso caso, ninguém recusa o ensino da justiça e das leis, nem o oculta, como no ensino das outras artes. Assim, considero que nos será benéfico conjugar a justiça e a virtude, pois é por essa união que qualquer um, zelosamente, explica e ensina ao outro os direitos estabelecidos pela lei. Então, se no que toca à arte da flauta temos, assim, todo o zelo e disponibilidade para ensinarmos os outros, consideras, porventura, Sócrates — perguntou ele —, que os filhos dos tocadores de flauta talentosos se tornam melhores que os dos fracos? Não me parece! Antes, o filho que tem a sorte de nascer com melhores dotes para a arte da flauta, esse, crescerá com grande fama;
327c ao contrário, o nascido sem dotes permanecerá inglório. E, muitas vezes, o filho do flautista talentoso poderá resultar fraco, enquanto que, é frequente também, o do fraco resultar talentoso. Contudo, mesmo assim, todos serão uns tocadores de flauta sofríveis quando comparados com os leigos e com aqueles que não são conhecedores da arte de tocar flauta. Assim, considera agora também que o homem que te parecer de uma injustiça absoluta, numa comunidade que foi educada segundo as leis;
327d esse, passa a ser também justo e especialista nesta matéria, se for preciso compará-lo a homens que não têm nem educação, nem tribunais, nem leis, nem qualquer tipo de restrição que obrigue qualquer um a tomar cuidado em relação à virtude — homens que sejam uns selvagens semelhantes àqueles que, no ano passado, o poeta Ferécrates encenou nas Leneias. Pois, se te visses no meio de homens dessa espécie, como os misantropos do tal coro, alegrar-te-ias por encontrar Euríbato e Frinondas e, com saudade, lamentarias, a viva voz, a fraqueza dos nossos homens. A conclusão a que Protágoras chega com o flautista é irrebatível. Ao fazer a analogia com a virtude, se o público aceitar, está demonstrado.
327e Mas agora, Sócrates, amuas porque todos se metem a mestres de virtude, cada um na medida em que pode, e tu não reconheces nenhum como tal. A natureza concede a arte da virtude mas não a capacidade de a desenvolver, daí a necessidade de esta ser ensinada.
328 Ora bem, do mesmo modo, se procurasses um professor de língua grega, não encontrarias nenhum, nem, quer-me parecer, se procurasses alguém que ensinasse aos filhos dos nossos artesãos essa mesma arte que eles aprenderam junto do pai, na medida em que foi possível ao pai e aos seus companheiros de ofício ensinarem-lha. Ainda que alguém quisesse ensiná-los, não considero, Sócrates, que fosse fácil encontrar-lhes um professor, como com facilidade, certamente, se encontra para os ignorantes, quer em matéria de virtude quer em qualquer outra matéria. Mas se houver alguém que nos conduza, ainda que um pouco, na direcção da virtude, já é bom.

Todos estão habituados s ensinar a aretê a quem a natureza desfavoreceu. No entanto, apesar de todos estarem habilitados para tal, existem uns mais habilitados (entre os quais está ele próprio) do que outros, justificando desta forma a importância do seu ensino e razão pela qual recebe dinheiro pela sua tarefa.

 

328b Quanto a mim, acho que sou um desses que excede os outros na possibilidade de tornar perfeito qualquer homem e que merece o salário — o que é estipulado por mim e ainda mais, se o aluno assim entender. Por esta razão estabeleci o salário das minhas lições da seguinte maneira: sempre que alguém aprender comigo, se quiser, paga-me a quantia que eu estipulei; se não, depois de ter ido a um templo e ter ponderado qual diz ser o valor dos meus ensinamentos, entrega-me essa mesma quantia.
328c Deste modo, Sócrates, fica provado, por uma história e por argumentos, que a virtude se pode ensinar, que assim o crêem os Atenienses e que não é espantoso que os filhos de pais talentosos resultem fracos, nem os dos fracos talentosos. E até os filhos de Policleto, que têm a mesma idade aqui de Páralo e Xantipo, não têm nada a ver com o pai, o mesmo acontecendo também com os filhos de outros artistas. Mas, quanto a estes aqui não vale a pena denunciar já esta diferença, porque ainda é possível ter esperança neles. São novos! Assim, através de uma história e da apresentação de quatro argumentos, Protágoras dá por concluída a sua demonstração.

Repare-se como o discurso sofístico se encontra organizado: está dividido em várias partes orgânicas, que o tornam belo e persuasivo. O preâmbulo no início do discurso, seguido por uma certa exposição, depois dos seus testemunhos; as provas seguindo-se as conclusões verosímeis. À prova, segue-se o suplemento da prova.

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt