Protágoras (338e-341e)
| 338e |
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Começou,
então, por perguntar qualquer coisa do género:
- Creio eu, Sócrates, que para um homem a parte mais importante da educação
consiste em ser perito em matéria de poesia, e essa perícia significa
poder entender e saber distinguir, na obra dos poetas, o que está feito de
modo correcto e o que não está e justificar-se perante qualquer dúvida.
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Protágoras,
ao ter oportunidade de questionar Sócrates, regressa ao tema da virtude
utilizando de novo a poesia, campo onde se sente visivelmente mais à
vontade e que é uma das formas essenciais da paideia sofística.
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| 339 |
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Pois a minha pergunta de agora é precisamente sobre esse assunto acerca do
qual tu e eu temos estado a discutir, acerca da virtude, só que transferido
para a poesia. Difere apenas nesse pormenor. Simónides diz algures a
Escopas, filho de Creonte da Tessália:
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De
facto, Protágoras revela estar muito preso à tradição oral e poética
e aos longos discursos, ao passo que Sócrates se apoia apenas no poder da
argumentação.
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| 339b |
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Ora, é difícil tornar-se, de
verdade, um homem de bem, perfeito de mãos e pés e espírito, obra
lapidada sem falha.
- Conheces este poema ou queres que to recite todo?
- Não é preciso; eu também o conheço e, por acaso, até me tenho ocupado
bastante dele.
- Ainda bem que o dizes! E achas que está composto com beleza e correcção,
ou não?
- Com muita beleza e correcção, até.
- E
parecer-te-á na mesma composto com beleza, se o poeta se contradisser assim
mesmo?
- Não, assim não terá beleza - respondi eu.
- Vê, então, melhor.
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Ao regressar à poesia, Protágoras está a seguir um método sofístico e
a reclamar para si a autoridade dos poetas.
Protágoras
mostra mais uma vez a sua forte ligação à tradição oral, revelando um
certo orgulho em conhecer um poema de cor, como era característico dos
aedos.
Sócrates também conhece o poema.
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| 339c |
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- Mas, meu caro, eu já o examinei que chegue!
- Sabes, então, que alguns versos mais à frente, nesse poema diz:
Não julgo razoável a máxima de Pítaco,
embora tenha sido um homem sábio a
proferi-la: disse que é difícil ser nobre.
Sabes que a mesma pessoa disse estas palavras e aquelas que estavam antes?
- Tenho a certeza!
- Parece-te então que estas palavras concordam com as outras?
- A
mim, de facto, parece-me que sim (mas, ao mesmo tempo, fiquei com medo do
que ele fosse argumentar); a ti não te parece?
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Protágoras
assinala uma possível contradição no poema de Simónides.
Coisa que um aedos jamais faria uma vez que a sua função era apenas
saber o poema de cor (junto ao coração).
Sócrates
receia a questão colocada por Protágoras, apesar de não o mostrar aos
presentes.
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| 339d |
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- Como
é que alguém poderá parecer estar de acordo consigo mesmo, se disser
estas duas coisas: em primeiro lugar, ele próprio declara que é difícil
tornar-se, verdadeiramente, um homem bem; mas esquece-o, um pouco mais à
frente, ao continuar o poema, e quando Pítaco diz a mesma coisa que ele próprio
dissera, que é difícil ser nobre censura-lhe essas palavras e diz não
aceitar do outro a afirmação que ele próprio tinha feito? É que, ao
censurá-lo, por falar assim, é óbvio que se censura a si próprio. De
modo que algo do que disse, ou antes ou depois, não está correcto.
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Protágoras
apresenta a contradição. Mais do que uma mera análise gramatical (prática
comum entre os grammatistés), o sofista
procede a uma análise do discurso e da lógica que lhe está subjacente.
Sai de um universo de pura repetição (aedos) e análise gramatical
(grammatistés) para um universo em que se fazem análises críticas.
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| 339e |
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Estas
palavras provocaram entusiasmo e os aplausos de muitos dos ouvintes e eu, a
princípio, como que derrubado por um bom pugilista, senti que perdia a
vista e os sentidos, por causa do que ele dissera e do entusiasmo dos
outros. Em seguida - para te dizer da verdade, com o intuito de ganhar tempo
para ponderar o que o poeta teria querido dizer -, virei-me para Pródico e
chamei-o:
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A
audiência aplaude o discurso de Protágoras e o entusiasmo vivido leva Sócrates
a sentir-se, por momentos, "derrubado por um bom pugislista".
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| 340 |
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- Ó Pródico,
Simónides é teu concidadão. É justo que ajudes o nosso homem. Parece-me
bem recorrer, tal como diz Homero que o
Escamandro, ante a investida de
Aquiles, recorresse ao Simuente, dizendo:
Querido irmão, enfrentemos juntos a força deste homem.
Pela
mesma razão, eu recorro a ti, para que Protágoras não nos destrua Simónides
de vez. É que, decerto, a defesa de Simónides precisa da correcção da
tua arte, pela qual distingues que querer e desejar não são a mesma coisa,
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Resposta
de Sócrates:
Sócrates recorre a Pródico
que, como já foi referido anteriormente, era um conhecido mestre em sinonímia,
para que este o ajude a esclarecer a intenção do poeta.
Sócrates
justifica o recurso a Pródico
e pede-lhe que ouça e analise a sua opinião.
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| 340b |
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e que fazes todas aquelas distinções formidáveis de há pouco. Observa lá
bem, então, se a tua opinião coincide com a minha. A mim não parece que
Simónides se contradiga a si mesmo.
Mas,
adianta-nos tu, Pródico, a tua opinião: parece-te que tornar-se é o mesmo
que ser ou algo diferente?
- Diferente, por Zeus! - respondeu não.
- Ora bem, não é verdade que Simónides, nos primeiros versos, mostrava a
sua própria opinião, que é difícil tornar-se, verdadeiramente, um homem
de bem.
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Sócrates
pergunta a Pródico
se "tornar" é o mesmo que "ser".
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| 340c |
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- Tens razão no que dizes - confirmou Pródico.
- E censura Pítaco, precisamente, não como pensa Protágoras, por dizer o
mesmo que ele mas outra coisa, porque Pítaco não diz que isso é difícil,
tornar-se nobre, como Simónides, mas sim sê-lo. Não é a mesma coisa,
Protágoras, tal como diz o nosso Pródico, ser e tornar-se. E se ser não
é o mesmo que tornar-se, Simónides não se contradiz a si mesmo.
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| 340d |
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De igual
modo, o nosso Pródico e muitos outros, a partir de Hesíodo, hão-de dizer
que é difícil tornar-se um homem de bem
- porque, anteposto ao mérito,
colocaram os deuses o suor -
e que, quando alguém atinge o cume desse mérito,
torna-se fácil depois, por difícil que seja, conservá-lo.
Pródico
ouviu as minhas palavras e aplaudiu-as. Mas Protágoras replicou:
- A tua defesa, Sócrates, acrescenta um erro maior à tese que te empenhas
em defender.
Respondi-lhe, então:
- Bem, pelo que me parece sai-me mal - não é verdade, Protágoras? - e sou
uma espécie de médico caricato, que torna maior a doença que trata.
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Pródico
ouve Sócrates e concordou, aplaudindo a sua resposta.
Protágoras replica para mostrar que os argumentos de Sócrates não são
válidos.
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| 340e |
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- É isso mesmo.
- Como assim? - quis eu saber.
- Seria muita ignorância do poeta se dissesse que conservar a virtude é
algo assim tão simples, quando a todos os homens parece que é mais difícil
de todas as coisas.
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| 341 |
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- Por
Zeus, vem mesmo a propósito termos aqui o Pródico a participar no diálogo.
Porque, decerto, Protágoras, a arte de Pródico é algo de divino e antigo,
iniciada com a de Simónides ou até mais antiga. Tu que és conhecedor de
tantas coisas pareces desconhecer esta, mas eu conheço-a porque fui discípulo
do próprio Pródico. É que me está a parecer que não sabes que talvez
Simónides não entendesse esse "difícil" do mesmo modo que tu o
entendes. É como, por exemplo, a propósito de "terrível", para
o qual Pródico me chama a atenção frequentemente.
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Sócrates
faz novamente apelo à sabedoria de Pródico
para resolver este novo problema conseguindo, desta forma, uma arma contra
Protágoras visto que Sócrates conhece muito bem Pródico
uma vez que foi seu discípulo.
Sócrates critica Protágoras por desconhecer a intenção de Simónides
ao utilizar a palavra "difícil", mostrando-se, ironicamente,
espantado, uma vez que Protágoras é conhecido como o mais sábio dos sábios.
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| 341b |
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Quando
te aplaudo a ti ou qualquer outro digo que Protágoras é um homem
"terrivelmente sábio" e ele pergunta-me se não me envergonho de
chamar "terríveis" as coisas boas. Porque o que é «terrível»,
diz ele, é mau; pelo menos, não é comum falar-se de "uma terrível
riqueza", nem de "uma terrível paz", nem de uma «terrível
robustez», mas sim de "uma terrível doença", de "uma terrível
guerra" e de "uma terrível pobreza" - como se o que é
"terrível" fosse mau. Provavelmente, os habitantes de Ceos e Simónides
entendem este «difícil» ou como algo mau ou noutro sentido que tu
desconheces. Perguntemos então a Pródico - é justo interrogá-lo a ele
sobre o dialecto de Simónides -: a que chama Simónides "difícil",
Pródico?
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Sócrates
discute o significado das palavras "difícil" e "terrível",
afirmando que esta última poderá ter vários significados.
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| 341c |
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- Ao que é mau - respondeu ele.
- Ora, por isso mesmo - não é, Pródico? -, censura Pítaco porque diz que
é difícil ser nobre, como se lhe tivesse ouvido dizer que é mau ser
nobre.
- Mas, Sócrates - interrompeu ele -, parece-te então que Simónides diz
outras palavras de não sejam as que ouvimos e que ataca Pítaco por ele não
saber distinguir correctamente os significados, uma vez que, sendo de
Lesbos, foi criado numa língua bárbara?
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Sócrates vai questionando Pródico
de forma inteligente com o objectivo de mostrar que tem razão e apela
mesmo ao conhecimento dos dialectos por parte de Pródico.
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| 341d |
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- Estás a ouvir aqui o Pródico, Protágoras... Queres dizer mais alguma
coisa?
Protágoras replicou:
- As coisas não podem ser assim de modo nenhum, Pródico! Sem sombra de dúvida,
Simónides chama "difícil" ao mesmo que todos nós, não ao que
é mau, mas ao que não é fácil e que só se consegue através de muitas
provações.
- Pois
a mim também me parece, Protágoras, que é isso que Simónides diz, e Pródico
bem o sabe, mas está a brincar e a pôr-te à prova para ver se podes
sustentar a tua argumentação.
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Aqui
se constata que o facto de Sócrates ter apelado à participação de Pródico
no diálogo foi uma atitude bastante inteligente, uma vez que, com a ajuda
deste, conseguiu mostrar que Protágoras estava errado.
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| 341e |
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Mais, de que Simónides não diz dificil com sentido de mau, há uma boa
prova logo seguir a estas palavras. Ao dizer que
somente um deus poderá
obter tal dádiva
é óbvio que não faz a tal afirmação - que é mau ser
nobre-, se esclarece, em seguida, que só um deus pode obtê-lo e que só a
um deus é concedida essa dádiva. Se assim fosse, Pródico estaria a fazer
de Simónides um falsário e nunca um homem de Ceos.
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Os habitantes de Ceos eram conhecidos pela sua rectidão.
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