Academia

A Academia era originalmente um parque público
com alamedas e belas árvores, adornada com estátuas, templos e sepulcros de
homens ilustres onde haviam sido plantadas oliveiras, uma área localizada num
dos mais bonitos subúrbios de
Atenas. A estrada
principal para a Academeia era uma avenida cerimonial com cerca de trinta metros
de largura, em linha recta. A
Akademia era pois um lugar afastado e solitário, dedicado a um lendário heroi
ático chamado Akademos.
No interior do parque, cheio de árvores e atravessado por vários caminhos
ladeados por altares dedicados a alguns deuses e heróis, havia também um
ginásio,
um dos três existentes em Atenas na época, uma palestra com pórticos ladeados
por colunas, e um complexo que compreendia um pequeno edifício com balneários e
outras zonas de diversos usos. Embora a maior parte das palestras fossem
privadas, a que se situava na Academeia era pública. Já os gináseos eram, em
geral, instituições públicas e o de Academeia não era exepção. Para além dos
monumentos sagrados, podiam ainda encontrar-se vários jardins, pequenas casas e
residências suburbanas de atenienses abastados.
Também
Platão possuía uma pequena propriedade
no interior desta área. Como cidadão ateniense, tinha o direito de comprar
terrenos, e como obviamente não podia comprar toda a Academeia que era um lugar
público, comprou apenas uma pequena parte.
"Platão foi capaz de definir a sua escola e de lhe dar permanência física de
uma maneira que muitos outros professores não conseguiram: comprou uma pequena
propriedade perto da Academia, o que permitiu que a sua escola tivesse uma
dimensão pública e privada (...) os seus sucessores estavam assim capacitados
para usar a parte privada da escola bem como os edifícios e os terrenos próximos
das redondezas do santuário público" (J. Patrick, Aristotles school. A
study of greek educational institution, 1972)
Foi nesta propriedade que, por volta de 388/7, depois da sua primeira viagem a
Siracusa,
Platão
abriu a sua escola na qual escreveu e a ensinou regularmente os seus alunos e
seguidores.
A escolha de Platão é certeira. Na verdade, poucos lugares poderiam constituir
um retiro mais favorável ao estudo e à inspiração das musas. Por outro lado
ainda, porque a academia se situava nas proximidades de palestras e de um
ginásio, verdadeiras instituições culturais da
Atenas
clássica às quais recorriam com regularidade muitos rapazes, entre os quinze e
os vinte anos, para praticarem exercícios de
ginástica,
atletismo e luta, para
tocar flauta ou apenas conversar sobre
assuntos filosóficos ou políticos. Locais portanto privilegiados em termos de
afluência de jovens potencialmente interessados em adquirir conhecimentos que
prolongassem a sua
educação.

Se entrássemos nos aposentos de
Platãona
Academia, provavelmente encontraríamos um quarto simples, que servia de aposento
de dormir, de sala de leitura e de sala de trabalho. Este quarto estaria
ornamentado com dois quadros representando
Sócrates
no seu auge e no final da sua vida (C. Planeaux, 1998).
Um deles seria uma cena do diálogo de Protágoras de Platão:
Sócrates
está levantado em posição de se ir embora mas
Cálias,
segurando-lhe na mão, exigia que o filósofo continuasse a discussão com
Protágoras. Retratados nesta cena estariam também
Hípias,
Pródico,
Eriximaco,
Fedro,
Pausanias,
Agaton,
Crítias,
Hipócrates
e
Alcibíades.
A Academia estava organizada como uma comunidade constituída
pelos membros mais avançados e pelos jovens estudantes. Não se tratava de modo
algum de um grupo em que um era o sábio e os outros se encontravam à procura das
doutrinas ou dos serviços do mestre mas de uma comunidade de estudiosos com
diferentes graus de desenvolvimento. Embora Platão fosse o fundador da escola (scholarchos),
parece ter desenvolvido em relação aos membros mais avançados da sua escola uma
relação do tipo "primeiro entre iguais", sem nenhum lugar de destaque.
"O papel de Platão parece ter sido não o de um "mestre"
ou até de um director do seminário, distribuindo temas para pesquisa ou prémios
de ensaios, mas o de um pensador individual cujo discernimento e capacidade na
formulação de um problema lhe permite oferecer um concelho geral ou uma crítica
metódica a outros pensadores individuais que respeitem a sua sabedoria e que
possam ser dominados pela sua personalidade, mas que se considerem igualmente
competentes a lidar com os detalhes dos diversos assuntos".(Patrick,1972)
Num gesto de imensa sabedoria, Platão dotou a
Academia de um regulamento interno que previa a sua continuidade para além da
morte do seu fundador
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Eis como entendo que se utilize o que me veio de
Hiparco: acabar as construções próximas ao Museion e às Deusas, e tentar
embelezá-las. Colocar no santuário a estátua de Aristóteles e todas as
oferendas que aí se encontram já antes da minha morte. Construir junto
do Museion um segundo pórtico tão belo como o primeiro. Colocar no
pórtico de baixo os mapas onde estão desenhados os movimentos da terra.
Construir também um altar, o mais belo e o mais perfeito que se possa
fazer. Fazer executar uma estátua de Nicómaco, em tamanho natural. O
trabalho será confiado a Praxiteles, que terá toda a liberdade para as
despesas. Colocá-la lá, onde os executores testamentários decidirem.
Para o templo e para as oferendas, seja pois assim. O terreno que tenho
em Estágira, lego-o a Callinos.
Dou todos os meus livros a Neleu.
Deixo o meu jardim, o meu parque e
as casas adjacentes aos meus amigos cujo nome aqui inscrevo, que queiram
manter escola e filosofar em conjunto, pois não é possível aos homens
estarem sempre em viagem, na condição de que estes bens não sejam nem
alienados, nem possuídos privadamente por nenhum deles, mas que
permaneçam indivisos como um santuário, e que todos os usem em comum,
amigavel e familiarmente, como é conveniente e justo.
Testamento de Teofrasto (excerto) |
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A Escola de Atenas
vista por Rafael

Rafael, A escola de Atenas (pormenor)

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