Aretê

 

 

Aretê é traduzido geralmente por virtude, mas também pode significar excelência, conhecimento ou coragem; "Ela designava a qualidade daquele que era detentor em mais alto grau de uma qualquer qualidade" [1]. E é esta a questão nuclear deste diálogo que pretende responder às questões: O que é a virtude? A virtude é ensinável?

Neste diálogo Protágoras e Sócrates mostram claramente a diversidade de sentidos da palavra aretê. No contexto da primeira tese defendida por Sócrates, aretê é encarada como sendo sobretudo a excelência na participação cívica, na qual assentava a concepção de democracia em Atenas. E isso mostra-se claramente devido à constante referência à governação de Atenas, tanto pelo exemplo do funcionamento da Assembleia como pelos exemplos ligados a Péricles, responsável pela governação de Atenas no momento histórico em que o diálogo é encenado. No contexto da segunda discussão, aretê é encarado de modo ligeiramente diferente: torna-se, sobretudo, sinónimo de excelência humana, o que é atestado pela discussão sobre se aretê é um todo e se dela farão parte outras virtudes, como a justiça, a sensatez, a piedade, a sabedoria e a valentia.

Em todas as culturas a educação sempre teve um papel fundamental, desta fizeram sempre parte uma componente prática e uma moral. Os Gregos não foram excepção. Do ponto de vista moral, a educação grega era composta por um conjunto de valores que se apresentavam sob a forma de 'mandamentos' (honrar os deuses, pai e mãe, respeitar os estrangeiros, etc.) e por uma série de regras de comportamento social; na componente prática eram transmitidas conhecimentos e aptidões profissionais, designadas por techne (Jaeger: 1936: 23).

A educação era a tentativa da formação do homem de acordo com um ideal; para os gregos, esse ideal fundamental era a beleza, no sentido não apenas físico mas, essencialmente, espiritual. Como tal, o modo como era efectuada a educação manifestava-se na totalidade do homem, desde a sua conduta e comportamento exterior, até à sua atitude interior.

Inicialmente, estes valores e ideais estavam reservados aos nobres. No entanto, à media que a sociedade burguesa os foi adoptando, foram-se tornando universais. Eles configuram um modelo moral que os gregos designam por aretê — para Jaeger, a palavra fundamental da história da educação grega. O ideal de educação desta altura centra-se nesta palavra, no ideal que representa. É difícil, com uma palavra só, fazer a tradução de aretê; não existe uma palavra que correctamente transmita a totalidade de sentidos que o grego apresenta na sua origem. No entanto, 'virtude', encarada não apenas no seu sentido de moralidade, mas "como expansão do mais alto ideal cavalheiresco unido a uma conduta cortês e distinta ao heroísmo guerreiro" (Jaeger:25), talvez transmita o sentido que lhe era dado — aretê está ligada sobretudo à excelência.

No entanto, tal como inicialmente concebida, não estava presente no comum dos homens; era algo inerente à classe aristocrática em geral. Por exemplo, na Grécia era convicção que a um escravo descendente de família de alta estirpe, Zeus retirava metade da aretê, deixando de ser quem antes fora. Por sua vez, aristocrata e aretê andam de mãos dadas — aliás, a raiz destas duas palavras é comum: aristos, adjectivo superlativo de distinto e escolhido, utilizado no plural para definir a nobreza. Ainda assim, apesar de característica exclusiva da nobreza, a aretê não era passível de ser atingida por todos. Apenas os escolhidos, ou melhor, a alma dos escolhidos, é que atingia a perfeição.

Foi na Ilíada e na Odisseia que aretê apareceu pela primeira vez. Homero dava-lhe um sentido mais amplo do que o descrito acima: não designa apenas excelência humana, também define a superioridade de seres não humanos. Era associada, por exemplo, à força dos Deuses ou à coragem e rapidez dos cavalos de raça. A aretê era associada a uma força, capacidade ou característica que era o fim supremo daquilo que define. Por exemplo, a saúde e o vigor eram a aretê do corpo, as características supremas desejadas ao corpo, o seu objectivo último. A sagacidade e a penetração eram a aretê do espírito. A aretê dos cães era a sua fidelidade. Assim, verifica-se que originalmente a palavra surge associada a um valor objectivo naquele que qualifica, uma força ou uma característica que constitui a sua perfeição.

Só num momento, na Ilíada, Homero usa aretê para designar as qualidades morais ou espirituais. No entanto, na Odisseia (posterior à Ilíada), aretê já é mais vezes utilizada com este último sentido. Como tal, de acordo com o pensamento da altura, aretêdesigna a força e a destreza dos guerreiros ou lutadores e, acima de tudo, o heroísmo associado à força (e não à acção moral). É, assim, verosímil que a palavra aretê tenha, na altura em que foram escritas as duas epopeias, mais sentidos do que aquele usado predominantemente por Homero. É necessário compreender sob o seu significado outras excelências para além da força intrépida, no entanto, o seu enraizamento nestes poemas deve ter contribuído para que perdurasse. Aliás, as palavras deste grupo têm em Homero um sentido ético mais geral, para além do seu sentido guerreiro. Designam o nobre que, na vida privada e na guerra, se rege por normas estranhas ao comum dos homens. Deste modo, o código da nobreza heróica teve uma dupla influência na educação grega: dela herdou a posterior ética da polis (como uma das mais altas virtudes) e a exigência, sempre subentendida, de coragem.

Assim, à palavra aretê estão associados dois sentidos; um relativo a uma componente social, outro a uma componente ética — em certas alturas claramente distinguidas, noutras confundidas.

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt