Protágoras (360e— 362)
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tornasse mais clara, poderia tornar bem mais nítida também a questão à volta da qual estivemos, tu e eu, cada um por sua vez, a tecer longos discursos — eu dizendo que a virtude não se pode ensinar e tu que pode. E parece-te que a conclusão a que chegámos com toda esta nossa conversa de há pouco está a acusar-nos e a troçar de nós como se fosse um homem de carne e osso. E, se falasse, diria: «Mas que bizarro que me saíram vocês os dois, Sócrates e Protágoras! Tu, antes, dizias que a virtude não podia ser |
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ensinada, agora insistes no contrário, querendo sem demonstrar que todas essas qualidades, a justiça, a sensatez, a coragem, são conhecimento; deste modo, bem pareceria que a virtude fosse qualquer outra coisa que não conhecimento, como Protágoras tentou defender, é claro que não poderia ser ensinada. Agora, se, pelo contrário, parece ser, na sua totalidade, conhecimento — tal como tu insistes, Sócrates — será surpreendente que não se possa ensinar. Por sua vez, Protágoras, depois de ter partido do princípio de que a virtude podia ser ensinada, agora parece insistir no contrário, em mostrar que bem poderia ser um pouco de tudo, menos |
A paradoxal inversão dos argumentos
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conhecimento, e assim de modo algum poderia ser ensinada».
No que me diz respeito, Protágoras, vendo toda a confusão de opiniões, ora numa direcção, ora noutra, tenho um enorme desejo de as clarificar e gostaria que continuássemos a nossa análise sobre o que é a virtude e investigássemos, de novo, se ela pode ser ensinada ou se não pode ser ensinada. Não vá às vezes, esse teu Epimeteu ter-nos encaminhado para |
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conclusões erradas, domesmo modo que nos lesou na atribuição das capacidades, como tu contaste. É que, no mito, agradou-me mais Prometeu do que Epimeteu; seguindo o seu exemplo, tenho sido previdente toda a minha vida, dedicando-me a todos estes assuntos, e, se tu quiseres, tal como todo o prazer. Protágoras respondeu, então: — Eu louvo esse teu interesse e o modo como conduzes a argumentação. |
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Não penso ser um homem mau em nenhum outro aspecto, mas, sobretudo, não invejo ninguém. Até já disse de ti a muita gente que, daqueles que conheço, és o que mais admiro, especialmente entre os da tua idade. E digo mesmo que não me espantaria se te tornasses famoso entre os homens pela tua sabedoria. Quanto a esses assuntos, discuti-lo-emos uma outra vez, se quiseres. Agora está na minha hora de retomar um outro tema. |
de Protágoras do valor de Sócrates. Um dos homens mais prestigiados do seu tempo, manifesta de forma clara a admiração que nutre pelo jovem Sócrates Protágoras tem mesmo a grandeza de ser capaz de perceber que está perante um gigante do |
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— Bom, assim faremos, se te parecer. De facto, eu também já tinha dito que me ia embora, há algum tempo atrás; só fiquei, em atenção à amabilidade de Cálias. E, depois de assim termos falado e escutado, viemos embora. |
pensamento: alguém que irá tornar-se famoso entre os homens pela sua sabedoria".
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Olga Pombo: opombo@fc.ul.pt
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