Protágoras (309-310)

 

309

Comp. — De onde vens tu, Sócrates? Está-se mesmo a ver que da caça ao jovem Alcibíades, não? A propósito, quando o vi, de manhã, pareceu-me já um belo homem. E — isto aqui entre nós, Sócrates — um homem feito, até com a barba a despontar.

Primeiro cenário. Numa rua de Atenas, em finais da década de trinta do século V — provavelmente em 434/433 a.C., Sócrates estabelece um diálogo directo com um personagem anónimo 

309b

Sóc. — Ora, e então? Não és tu admirador de Homero, que diz que a idade mais grata é a da primeira barba, justamente a que tem agora Alcibíades?

Comp. — É verdade. E o que há de novo? Vens de junto dele, não vens? Que tal te tratou o nosso jovem?

Sóc. — Bem — pelo menos, pareceu-me — sobretudo hoje, pois pôs-se do meu lado e fez várias intervenções em meu favor. Sim, venho agora mesmo de junto dele. Quero até contar-te algo notável: apesar de ele estar presente, não lhe prestei grande atenção e, muitas vezes, até me esqueci dele.

A referência a Homero (Ilíada 24.348) mostra bem o nível cultural do ateniense médio. 


 

Socretes refere o carácter competitivo do diálogo que tinha acabado de ter com Protágoras.

 

309c

Comp. — Mas que coisa tão extraordinária vos terá acontecido, a ti e a ele? Não me digas que encontraste algum outro mais belo do que ele aqui na nossa cidade?

Sóc. — E muito mais!

Comp. — O que dizes? Aqui da cidade ou estrangeiro?

Sóc. Estrangeiro.

Comp. — De onde?

Sóc. — De Abdera.

Comp. — E pareceu-te ser assim tão belo esse estrangeiro ao ponto de o achares mais belo que o filho de Clínias?

Sóc. — Como é que quem é mais sábio, meu caro, não há-de parecer o mais belo?

Comp. — Então, vens de te encontrar com um sábio, Socrates?

 É surpreendente que Platão tenha querido fazer  referencia à vida privada de Socrates pondo na boca do cidadão anónimo uma pergunta tão impertinente. 

 

 

 

 

 

 

Para Sócrates, o mais sábio é o mais belo. Assim se explica a relação de amor entre mestre e discípulos.

 

309d

Sóc. — E, certamente, o mais sábio de todos quantos por aí há, se concordares que Protágoras é o mais sábio de todos.

Comp. — O que dizes? Protágoras está na cidade?

Sóc. — Está, e há três dias.

Comp. — E vens agora mesmo de conversar com ele?

Apesar de ser conhecida a oposição que Sócrates sente pelos sofistas, é notável a admiração que neste diálogo Sócrates manifesta para com Protágoras.

310

Sóc. — Precisamente, de ter dito e ouvido muita coisa.

Comp. — E, então, não nos vai descrever esse encontro? Se não tens nada que te prenda, manda levantar aí o escravo e senta-te aqui.

Sóc. — Pois, muito bem. E vou ficar-vos grato, se me escutarem.

Comp. — E nós a ti, se contares.

Sóc. — Bem, assim será um agradecimento mútuo. Escutem então:

 

 


Fim do diálogo directo.
Solicitado pelo companheiro, Sócrates irá descrever (em flash back) e num longo monólogo o encontro com Protágoras.