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Comp. — De onde vens tu, Sócrates? Está-se mesmo a ver que da caça ao jovem Alcibíades, não? A propósito, quando o vi, de manhã, pareceu-me já um belo homem. E — isto aqui entre nós, Sócrates — um homem feito, até com a barba a despontar. |
Primeiro cenário. Numa rua de Atenas, em finais da década de trinta do século V — provavelmente em 434/433 a.C., Sócrates estabelece um diálogo directo com um personagem anónimo |
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Sóc. — Ora, e então? Não és tu admirador de Homero, que diz que a idade mais grata é a da primeira barba, justamente a que tem agora Alcibíades? Comp. — É verdade. E o que há de novo? Vens de junto dele, não vens? Que tal te tratou o nosso jovem? Sóc. — Bem — pelo menos, pareceu-me — sobretudo hoje, pois pôs-se do meu lado e fez várias intervenções em meu favor. Sim, venho agora mesmo de junto dele. Quero até contar-te algo notável: apesar de ele estar presente, não lhe prestei grande atenção e, muitas vezes, até me esqueci dele. |
A referência a Homero (Ilíada 24.348) mostra bem o nível cultural do ateniense médio.
Socretes refere o carácter competitivo do diálogo que tinha acabado de ter com Protágoras.
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Comp. — Mas que coisa tão extraordinária vos terá acontecido, a ti e a ele? Não me digas que encontraste algum outro mais belo do que ele aqui na nossa cidade? Sóc. — E muito mais! Comp. — O que dizes? Aqui da cidade ou estrangeiro? Sóc. — Estrangeiro. Comp. — De onde? Sóc. — De Abdera. Comp. — E pareceu-te ser assim tão belo esse estrangeiro ao ponto de o achares mais belo que o filho de Clínias? Sóc. — Como é que quem é mais sábio, meu caro, não há-de parecer o mais belo? Comp. — Então, vens de te encontrar com um sábio, Socrates? |
É surpreendente que Platão tenha querido fazer referencia à vida privada de Socrates pondo na boca do cidadão anónimo uma pergunta tão impertinente.
Para Sócrates, o mais sábio é o mais belo. Assim se explica a relação de amor entre mestre e discípulos.
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Sóc. — E, certamente, o mais sábio de todos quantos por aí há, se concordares que Protágoras é o mais sábio de todos. Comp. — O que dizes? Protágoras está na cidade? Sóc. — Está, e há três dias. Comp. — E vens agora mesmo de conversar com ele? |
Apesar de ser conhecida a oposição que Sócrates sente pelos sofistas, é notável a admiração que neste diálogo Sócrates manifesta para com Protágoras. |
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Sóc. — Precisamente, de ter dito e ouvido muita coisa. Comp. — E, então, não nos vai descrever esse encontro? Se não tens nada que te prenda, manda levantar aí o escravo e senta-te aqui. Sóc. — Pois, muito bem. E vou ficar-vos grato, se me escutarem. Comp. — E nós a ti, se contares. Sóc. — Bem, assim será um agradecimento mútuo. Escutem então: |
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