Protágoras (310b-314b)
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310b |
Esta noite passada, ainda antes do amanhecer,
Hipócrates,
o filho de
Apolodoro e irmão de
Fáson, bateu com o bastão na minha porta, com toda a
força e, quando lha abriram, precipitou-se imediatamente para o interior, a gritar, com
voz forte:
—Sócrates, já acordaste ou ainda dormes?
E
eu, reconhecendo-lhe a voz, exclamei:
— Este é
o
Hipócrates!
Não me vens trazer nenhuma má notícia, não?
— Não — respondeu ele. — Nada, senão boas
notícias.
—Diz lá, então
— repliquei
eu. — O que há? A que propósito vieste cá a esta hora?
— Chegou
Protágoras!
— respondeu ele, de pé junto de
mim.
— Antes de ontem. Só agora é que soubeste?
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Segundo cenário.
Em
casa de
Sócrates.
Início do
diálogo indirecto.
Daqui para a fernte estamos
sempre face a um
longo monólogo de Socrates, que se prolonga até ao fim (em 362), face a um
cidadão
anónimo
que encontra por acaso numa rua de
Atenas.
Platão está a atribuir a Socrates uma imensa capacidade de recordação
(anamnese)
Hipócrates
é a imagem dos jovens oriundos das
melhores familias atenienses. O conteúdo da
Paideia
havia-se tornado insuficiente. As aspirações a uma carreira política levavam
estes jovens a ansiar pelo ensino dos
sofistas. Assim
se explica a ansiedade de Hipócrates para ir receber liçoes de
Protágoras.
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310c |
— Sim,
pelos
deuses, só à noitinha.
— E, ao mesmo tempo, tacteando o leito, sentou-se aos meus pés e disse:
— À noitinha e bastante tarde, quando voltei de
Énoe;
pois, vê lá bem que o meu
escravo, o
Sátiro, tinha-me fugido e eu estava mesmo para te avisar que ia procurá-lo, mas esqueci-me,
por causa de qualquer outra coisa. Quando voltei, tínhamos acabado de jantar
e estávamos para nos deitarmos, quando o meu irmão me disse que Protágoras
tinha chegado. Estive para
vir logo ter contigo mas depois pareceu-me que já era demasiado
tarde. Mas, assim que o sono em que |
É bem visível a familiaridade entre
Sócrates
e o
jovem
Hipócrates que
não hesita em bater tão cedo à porta de
Sócrates,
que é recebido
por
Sócrates
no seu quarto, que se senta mesmo na cama do filósofo.
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310d |
caíra, por causa
da fadiga, me deixou, levantei-me e corri para cá, sem demora.
Eu, que lhe conheço a energia e a paixão, perguntei:
— O que tens tu com isso? Por acaso ofendeu-te,
Protágoras?
— Sim, pelos
deuses
— respondeu ele, com um sorriso — porque só ele é sábio e não me faz
sê-lo a mim.
— Mas, por
Zeus
— disse-lhe
eu — se lhe deres dinheiro
e o persuadires, ele há-de te fazer sábio a ti também. |
Ao contrário de todos os outros sábios,
o
sofista ão partilha gratuitamente a sua sabedoria com toda a gente.
Insinuação crítica de
Sócrates
a propósito dos
sofistas.
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310e |
— Ó
Zeus
e deuses,
se na verdade, fosse
assim! Não pouparia nem o que é meu nem o dos meus amigos. Mas, é
mesmo por essa razão que venho agora ter contigo, para lhe falares de mim;
porque eu não só sou muito
novo como ainda nunca vi nem ouvi Protágoras, pois da última vez que ele cá esteve eu
ainda era uma criança. Mas todos o aplaudem, Sócrates, e dizem que a falar é o mais
hábil dos homens. Porque não vamos já para lá, para o
|
Hipócrates está disposto a pagar o que for necessário
Qual a razão da visita de
Hipócrates?
Por que procura
Hipócrates
a ajuda de Socrates no contacto com Protágoras?
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311 |
apanharmos em
casa? Pelo que ouvi dizer, está hospedado em
casa
de
Cálias, o filho de
Hipónico. Vamos
lá!
— Não vamos ainda, meu amigo, que é muito cedo;
vamos antes para o pátio e façamos tempo a dar umas voltas, enquanto não nasce o
dia. Logo a seguir saímos. E mais,
Protágoras passa a maior parte do tempo em casa,
de modo que não te preocupes; quer-me bem parecer que o
encontraremos lá.
Levantámo-nos, então, e fomos dar uma volta pelo
pátio, e eu resolvi
|
Itinerante, o sofista
está instalado na casa de
Cálias.
Sócrates
conhece os
hábitos dos
sofistas
No pátio da casa de
Sócrates:
Sócrates
inicia um
exame
informal a
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311b |
experimentar
Hipócrates e pô-lo à prova, fazendo-lhe algumas perguntas:
— Diz-me uma coisa,
Hipócrates, estás
disposto agora a procurar Protágoras
e a oferecer-lhe o teu dinheiro como salário
por
ele
se ocupar de ti, mas
porque é que o procuras e para te tornares o quê? Se, por hipótese,
tivesses intenção de procurar o teu homónimo,
Hipócrates
de Cós, o dos
Asclepíades, para lhe ofereceres o teu dinheiro como salário por se ocupar de ti, e se
alguém te perguntasse «Diz-me,
Hipócrates, estás disposto a |
Hipócrates sobre as razões que o levam a procurar
Protágoras.
Jogo entre dois
personagens com o mesmo nome.
Hipótese 1: qual a razão que o levaria a procurar a
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311c |
pagar um salário
a
Hipócrates por ele ser o quê?»,
o que responderias?
— Responderia que por ele ser
médico.
— E para te tornares o quê?
— Para me tornar médico.
— E se tencionasses procurar
Policleto de
Argos, e
Fídias de
Atenas, para lhes
pagares um salário por eles
se ocuparem de ti, se alguém te perguntasse «Pagas esse dinheiro a Policleto
e a Fídias
porque achas que eles são o quê?», o que responderias?
— Responderia que porque
são escultores.
— E para te tornares tu
o quê?
— É óbvio que
um
escultor! |
companhia de um
médico e a oferecer-lhe um salário por
isso?
Hipótese 2: e se pretendesses os serviços de um escultor?
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311d |
— Muito bem! — disse-lhe eu. — Agora vamos, tu e eu, procurar Protágoras,
dispostos a pagar-lhe um salário por se ocupar de ti... se os nossos bens
forem suficientes para, com eles, o persuadirmos, mas, se não, a gastarmos
até os dos nossos amigos. Se, por acaso, alguém, por estarmos assim tão empenhados
neste propósito,
perguntasse: «Digam lá, Sócrates e
Hipócrates,
vocês têm intenção de oferecer os vossos bens a Protágoras por |
De assinalar a passagem
do singular ao plural. Sócrates é um
corrosivo interrogador mas também um amigo afável. |
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311e |
ele ser o
quê?», o que lhe responderíamos? Que outro nome ouvimos
já
referir a propósito de
Protágoras? Tal como de
Fídias
que
é escultor e de
Homero
.que
é poeta, que designação ouvimos dar a
Protágoras?
— Bom, costumam dizer do nosso
homem que é sofista.
— De modo que vamos entregar os nossos bens a
um
sofista?
— Precisamente! |
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312 |
— Então, e se alguém te fizesse ainda mais
esta pergunta: «E procuras Protágoras
para te tornares o quê?»
Ele corou — percebeu-se porque começava já
a surgir alguma claridade — e disse:
— Se o caso é semelhante aos anteriores,
evidentemente que é para me tornar um sofista.
— Mas, pelos
deuses! — exclamei eu. —
E
não terás tu vergonha de te apresentares aos Helenos na qualidade de
sofista?
—
Claro,
Sócrates, por
Zeus;
isto, se for mesmo preciso que diga o que penso.
— Ora bem, Hipócrates, talvez não te
pareça semelhante o ensino que vais
|
Por que razão terá Hipócrates
corado?
Ambos consideram que é uma vergonha que
Hipócrates
queira ser sofista.
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312b |
encontrar junto de
Protágoras e aquele que recebeste junto dos
professores das primeiras
letras, de
citara
e de
ginástica. Com efeito, estudaste cada uma dessas
disciplinas não como uma técnica, para te tornares um profissional, mas para teres
cultura, como convém ao leigo e ao homem livre.
— Parece-me, precisamente, que o ensino de
Protágoras é semelhante a esse.
— Sabes, então, o que estás agora a ponto de fazer ou desconhece-lo?
— Queres dizer o quê? |
Referência à
Paideia.
Afinal, é Sócrates quem acaba por dar uma solução aceitável para
a pergunta que ele mesmo havia colocado
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312c |
— Que estás a ponto de confiar a tua alma
aos cuidados de um homem que é, segundo
dizes, um sofista. Contudo
admirar-me-ia muito se soubesses o que é um
sofista. E, se o ignoras, não
sabes nem a quem entregas a tua alma, nem se
é uma coisa boa ou má.
— Mas, eu acho que sei — respondeu
ele.
—
Diz-me lá, então, o que pensas que é um
sofista?
— Bem, penso que, como o
próprio nome indica, é aquele que possui uma
sabedoria.
— Ora bem — repliquei eu —
essa é também a definição que se dá a propósito dos pintores e
dos arquitectos, que são aqueles que
possuem |
Mas, o que é um
sofista?
Definição meramente nominal de sofista como alguém que "possui uma sabedoria" |
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312d |
uma sabedoria,
mas se alguém nos perguntasse: «Que sabedoria
possuem os pintores?», dir-lhe-íamos que a da reprodução das imagens e o
mesmo dos outros.
Mas,
se alguém nos perguntar: «Em que é que o
sofista
é sábio?», o que lhe
responderemos? É mestre em que ofício?
— O
que diremos, Sócrates, se não que é mestre em habilitar os outros a falar?
—Talvez
disséssemos a verdade, mas,
claro está que não é suficiente, porque a nossa resposta levantaria ainda
outra pergunta, sobre o assunto em que o |
Procura
de uma definição não nominal de sofista.
Uma nova
definição de sofista,
também insuficiente, mostrando que Hipocrates desconhece o conteúdo do ensino
dos sofstas.
reformulação da pergunta |
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312e |
sofista
habilita os outros
a falarem. Do mesmo modo como o
citarista,
presumo eu, habilita a que se fale sobre a matéria de que sabe, sobre a
arte de tocar a citara, não é verdade?
— É.
—
Pois bem, e o
sofista
habilita os outros a
falarem sobre o quê?
—É óbvio que também sobre a arte que
conhece.
—
É bem provável! Mas que matéria é essa em que ele,
sofista, é sabedor e torna sabedor o seu discípulo?
— Por
Zeus
— respondeu ele — já não sei mais que te possa dizer. |
Pergunta incisiva de
Sócrases
Resposta circular de
Hipócrates.
Nova reformulação da pergunta
Hipocrates reconhece
não saber o que o sofista ensina |
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313 |
Em seguida, continuei eu:
—
E agora? Vês o tipo de
risco a que vais expor a tua alma? Se
te fosse preciso confiar o corpo a algo
que implicasse riscos, quer fosse
bom, quer fosse mau, ponderarias durante muito tempo se o confiavas ou não e chamarias os teus amigos e
familiares para te aconselhares, reflectindo durante dias a fio. Tratando-se, contudo, de
algo muito mais importante que o corpo, a tua alma, na qual se sediam todas as tuas
acções, boas ou más, consoante ela for boa ou má, a este propósito, não consultas nem o teu |
O grande risco a que
Hipócrates expõe a sua alma.
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313b |
pai, nem o teu
irmão, nem nenhum de
nós que somos teus companheiros, para saberes se hás-de confiar ou não a tua
alma a este
estrangeiro
recém-chegado.
Antes,
pelo que dizes, ouviste à noitinha que ele tinha chegado e vens, mal o dia amanhece, sem
ouvires uma palavra ou um conselho sobre essa questão — se deves ou não
confiar-te a ele — disposto a gastar os teus bens e os dos teus amigos,
já que decidiste, custe o que custar, frequentar a companhia de Protágoras,
que não conheces — pelo que
dizes —
e com quem nunca falaste. Chamas-lhe sofista, mesmo parecendo não saberes o |
Atitude negativa
de Sócrates face aos
estrangeiros
|
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313c |
que é esse sofista, a quem estás
disposto a confiar-te.
E ele, depois de me ouvir, assentiu:
— Pelo que tu dizes, é o que parece.
— Pois é,
Hipócrates, não achas que o
sofista
é uma espécie de
comerciante ou retalhista de produtos, com os quais a alma se
alimenta? Pois
a mim é o que me parece.
— E a alma alimenta-se de quê, Sócrates?
— De ciência, creio eu — respondi-lhe. —
E não é bom, meu amigo, que o |
Sócrates
compara os sofistas
a
retalhistas ou comerciantes.
Curiosamente, é agora o jovem
Hipócrates
que coloca uma pergunta:
Qual o alimento da alma?
|
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313d |
sofista, elogiando
os artigos que vende, nos seduza como o fazem o
comerciante e o retalhista com os alimentos para o corpo. Porque esses não
sabem se os produtos que trazem são bons ou maus para o corpo (antes,
elogiam tudo o que vendem) e nem o sabem também os clientes, a menos que se
trate, por acaso, de um professor de
ginástica ou de um
médico. Do mesmo
modo, também aqueles que levam a ciência de cidade em cidade, vendendo-a a
retalho, elogiam sempre ao interessado tudo quanto vendem, mas talvez alguns
deles, meu caro, desconheçam o que é que desses artigos que vendem é bom ou
mau para a alma. E o mesmo se passa também com |
Sócrates
explora a comparação que estabeleceu entre os sofistas e os mercadores
Crítica arrasadora de
Sócrates aos
sofistas: eles são, não apenas comerciantes e vendilhões, mas inconscientes,
capazes de enganar os seus clientes porque, eles mesmo, não sabem o que
vendem
|
|
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os seus clientes, a não ser que, por acaso, algum seja médico
da alma. Se, pelo menos, fizeres uma ideia do que é bom ou do que é mau,
então não te fará mal comprar a ciência de Protágoras
ou a de qualquer outro. Mas, se não, vê bem, meu amigo, não jogues
os dados à sorte, nem corras riscos |
Socrates refere-se
implicitamente aos
filósofos como médicos da alma |
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314 |
em matérias tão delicadas. Porque o perigo é
muito maior na compra da ciência do que na compra de alimentos. Com efeito,
ao comprares alimentos ou bebidas ao retalhista ou ao comerciante, podes
transportá-los noutros recipientes, e, antes de beberes ou comeres, podes
levá-los para te aconselhares, informando-te junto de quem souber, sobre se
os deves comer e beber, ou não, e quando e em que quantidade. Assim, o perigo na compra |
Um problema de vasilhas. |
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314b |
não é grande. Pelo
contrário, a ciência não se pode meter noutro recipiente; é preciso
pagá-la e metê-la na alma, e, uma vez assimilada, ir para casa, ou para
sofrer dissabores ou para usufruir vantagens. Examinemos, então, todas
estas questões junto com outros
mais velhos que nós, porque somos ainda muito
novos para estarmos a discutir assuntos desta natureza. E agora, tal como começámos por
planear, vamos lá ouvir o nosso homem. Ouvi-lo e conversar com outros, porque Protágoras
não está lá sozinho, está
lá também
Hípias de Élide e julgo mesmo que
Pródico de
Ceos,
e ainda muitos
outros sábios. |
Um conhecimento adquirido
é um conhecimento assimilado. É a própria pessoa que sofre uma
transformação.
Sócrates dá por encerrada
esta questão e aceita o desafio que
Hipócrates lhe
colocara, manifestando-se pronto para ir falar com Protágoras.
Partida para o encontro com Protágoras.
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