Protágoras (319-320b)

 

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—Possuis, então, um belo ofício... se o possuíres realmente. Bom, não vou dizer-te senão o que penso. Na verdade, Protágoras, eu não considerava que essa  arte  pudesse  ser ensinada,   mas  não   vejo  de   que  modo  duvidar 

Sócrates apresenta a sua tese:  a virtude não pode ser ensinada 

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das  tuas afirmações. Contudo, é justo que explique por que razão não creio que essa arte possa ser ensinada, nem transmitida aos homens por outros homens. Com efeito, eu (tal como os outros Helenos) tenho os Atenienses na conta de sábios. Ora, bem vejo que quando nos reunimos na Assembleia, sempre que for preciso que a cidade realize algo na área da construção civil são convocados os arquitectos, para se pronunciarem sobre o assunto. E, quando é na área da construção naval, os armadores, e assim com todas as matérias  que  se  crêem   susceptíveis  de  serem  ensinadas  e  aprendidas.

 

Apresentação do argumento relativo á virtude publica: 

1) os atenienses pensam que só as pessoas com  competências técnicas susceptíveis de ser ensinadas se podem pronunciar sobre determinados assuntos;

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Mais, se alguma outra pessoa, que eles não consideram como sendo especialista, pretender pronunciar-se nestas matérias, por mais belo, rico ou nobre que seja, não lhe aceitam qualquer opinião e ainda fazem troça e barulho, até que aquele que tencionava falar tome a iniciativa de se calar, face ao barulho, ou até que os archeiros o arrastem e o prendam, por ordem dos prítanes. É assim que eles procedem, tratando-se de matérias que consideram  técnicas.  Pelo  contrário,  sempre que  for  preciso resolver algo

 

2) para os Atenienses, qualquer cidadão,

independentemente da sua profissão ou riqueza, possui a virtude política;

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na área da administração da cidade, sobre essa matéria levanta-se e dá a sua opinião, indiferentemente, carpinteiro, ferreiro ou curtidor, mercador ou marinheiro, rico ou pobre, nobre ou plebeu, e ninguém lhes põe as objecções dos casos anteriores: que nunca aprendeu ou nunca ninguém lhe ensinou nada sobre a matéria em que tenciona dar opinião. É óbvio que não crêem  que  essa  arte  possa  ser  ensinada.  Bem,  e  não  é  assim  apenas 

3) logo os Atenienses não acreditavam que a virtude política pudesse ser ensinada pois caso contrário não permitiriam que qualquer um desse a sua opinião, limitando-a a ouvir unicamente quem a tivesse aprendido.  

 

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com os interesses públicos da cidade; também na vida particular, os mais sábios e mais nobres dos nossos cidadãos não têm possibilidades de transmitir a outros essa virtude que possuem. Até Péricles, o pai destes dois jovens aqui presentes, os educou perfeitamente nas matérias que dizem respeito aos professores, mas  naquelas  em que ele próprio é sábio, nem  os

Apresentação do 2º argumento relativo à vida familiar. Aqui pretende mostrar a incapacidade dos sábios e nobres cidadãos em transmitir aos outros a sua virtude através de dois contra-exemplos:

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ensinou, nem os confiou a outro. De modo que lá andam eles por aí, vagueando, à rédea solta, à espera de, por obra do acaso, encontrarem sozinhos a virtude. E, se quiserem mais, este mesmo Péricles, que era tutor de Clínias, o irmão mais novo aqui do nosso Alcibíades, com receio de que aquele fosse corrompido pelo irmão, afastou-o dele e enviou-o para ser educado  junto  de  Árifron,  que,  antes  que  se  tivessem  completado  seis

1) Péricles não ensinou os seus filhos nem aos filhos dos outros as matérias em que ele próprio é sábio;

 

2) Árifron,  irmão de Péricles, que com ele partilhava

 a tutela de Clínias e Alcibíades, e que não

  conseguiu educar o jovem Clínias como

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meses, lho devolveu sem saber o que fazer com ele. E posso, ainda, referir-te muitos outros que, sendo bons, não conseguiram tornar ninguém melhor, nem dos seus, nem dos outros. Assim eu, Protágoras, ao observar estes exemplos, não creio que a virtude se possa ensinar. Contudo, depois de te ouvir dizer que pode, rendo-me a considerar que algo há no que dizes, porque creio que és conhecedor de muitos assuntos, muitos que aprendeste e outros que tu próprio descobriste. Portanto, se entenderes possível, demonstra-nos de que modo se ensina a virtude. Não nos recuses essa demonstração.  

Péricles lhe havia solicitado.

 

Conclusão do argumento: a virtude não pode ser ensinada.

Socrates pede no entanto a Protágoras que  demonstre a sua tese: a virtude pode-se ensinar

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt