Protágoras (320c-328c)
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320c |
— Claro que não recusarei, Sócrates.
Mas, em primeiro lugar, querem que o faça contando-vos uma
história,
como mais velho que fala aos mais novos, ou que o demonstre com
argumentos?
Muitos dos que estavam
sentados à sua volta deram-lhe, então,
a escolher demonstrá-lo como quisesse.
— Pois bem, parece-me
—
respondeu ele
—
que será mais
agradável contar-vos uma história:
Era uma vez... existiam somente os
deuses
e não havia ainda as raças
|
Protágoras aceita
demonstrar a sua tese: é possível ensinar a virtude
Protágoras
dá a escolher à audiência
a forma da demonstração: contar uma história (mythos)
ou apresentar
argumentos
(logos).
Com toda a sua astúcia e como professor de eloquência que é, Protágoras
escolhe o método mais agradável aos seus ouvintes —
o
mito
—
solução
que,
simultaneamente, o consagra na
sua posição de
mais velho.
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320d |
mortais. Quando chegou, então, o momento destinado ao seu
nascimento, os deuses modelaram-nas, no interior da terra, misturando terra
e fogo e os elementos que com estes se combinam. Quando estavam prontas para
ser conduzidas para a luz do dia, os deuses encarregaram
Prometeu e
Epimeteu de as
organizar e de atribuir a cada uma
capacidades que as distinguissem.
Epimeteu pediu, então, a Prometeu que o
deixasse fazer essa distribuição. «Depois de eu a ter feito», disse, «tu
passas-lhes uma revista». E assim, depois de o ter convencido, começou: atribuiu força aos |
Protágoras inicia a narração do
mito de Prometeu
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320e |
que não tornara rápidos e dotou com rapidez os mais
fracos; armou uns e para aqueles a quem dera uma natureza sem armas inventou
qualquer outro meio que assegurasse a sua sobrevivência; àqueles que
contemplou com a pequenez, deu-lhes a possibilidade de fugirem voando ou uma habitação subterrânea,
e aos que fez grandes em tamanho salvou-os com |
Epimeteu distribui as qualidades, poderes e defesas tendo em conta o
|
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321 |
essa mesma atribuição.
De modo igualmente equilibrado,
distribuiu
também as restantes qualidades. E fez tudo com cautela, para que nenhuma
espécie se extinguisse. Depois de lhes dar os meios necessários para que não
se destruíssem uns aos outros, arranjou maneira de os proteger contra as
estações enviadas por
Zeus,
cobrindo-os com pêlos abundantes e carapaças grossas, suficientes para se
defenderem do Inverno e eficazes para o fazerem do
sol escaldante, e que constituem, para cada |
equilíbrio e sobrevivência das espécies:
a
alguns deu velocidade, a outros força, ou asas, ou pelos para os cobrir,
ou carapaças para os proteger.
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321b |
um, o seu aconchego natural, quando
decidem deitar-se.
Calçou uns
com cascos e outros com couro grosso e sem sangue. Em seguida, providenciou
diferentes alimentos para as diferentes espécies: para uns, os pastos da
terra; para outros, ainda, os frutos das árvores; para os restantes, raízes.
A alguns destinou que fossem alimento de outras espécies; a estas últimas
deu pequenas ninhadas, enquanto que às que lhe servem de alimento deu a
fecundidade, providenciando assim a salvação da sua espécie.
Deste modo, Epimeteu
—
que não era lá muito esperto
—
esqueceu-se que |
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321c |
gastara todas as qualidades com os
animais irracionais; fora desta organização, restava-lhe ainda a raça dos
homens e sentia-se embaraçado quanto ao que fazer. Estava ele nesta aflição,
chega Prometeu para inspeccionar a distribuição e vê que, enquanto as outras
espécies estão convenientemente providas de tudo quanto necessitam, o homem
está nu, descalço, sem abrigo e sem defesa. E já estava próximo o dia
marcado, em que era preciso que também o homem saísse do interior da terra para a luz do dia.
Sem encontrar qualquer outra solução para
assegurar a |
Epimeteu
esgota as qualidades e quando chega a vez do homem, não tem
nada para lhe oferecer. Deixando-o nu, descalço e sem abrigo nem defesa
|
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321d |
sobrevivência do homem, Prometeu,
roubou a sabedoria artística de
Hefesto
e
Atena,
juntamente com o fogo
—
porque sem o fogo era-lhe impossível possuí-la
ou torná-la útil —
e, assim, ofereceu-a ao
homem. Com ela, este tomou posse da arte da vida, mas não da arte de gerir a
cidade, pois esta estava junto do próprio
Zeus.
Já não fora possível a Prometeu entrar na morada de Zeus, na acrópole
—
para mais que os guardas de Zeus
eram terríveis
—
mas entrara, sem ser visto, na sala partilhada
por |
De modo a evitar o
desaparecimento do homem,
Prometeu rouba o fogo e a sabedoria
artística aos
deuses e dá-as ao homem para que este possa sobreviver.
Homem e Deuses passaram assim a ter algo por ambos partilhado.
|
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321e |
Hefesto e Atena,
na qual ambos se dedicavam às suas artes, e
roubara
a arte do fogo a Hefesto e as outras artes a Atena, para as dar ao homem,
que delas retirou os meios necessários à vida.
Mas, no fim, por culpa de |
|
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322 |
Epimeteu
—
é o que dizem
— a
justiça
perseguiu
Prometeu por causa deste roubo. Deste modo, o homem participava da herança
divina e, devido ao parentesco com os deuses, foi o único dos animais a
acreditar neles. Assim, começou a construir altares e imagens suas. Depois,
rapidamente dominou a arte dos sons e
das palavras e descobriu casas, vestuário, |
|
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322b |
calçado, abrigos os alimentos vindos da terra.
Assim providos, inicialmente,
os homens viviam dispersos e não havia cidades. Mas viam-se destruídos
pelos animais selvagens, pois eram mais fracos que eles em todos os
sentidos. A arte que dominavam era-lhes suficiente na procura dos
alimentos, mas ineficaz na luta com as feras
—
com efeito, faltava-lhes a arte de gerir a cidade, da qual faz parte a arte
da guerra. Procuraram, então, associar-se e proteger-se, fundando cidades. Só
que, ao associar-se, tratavam-se injustamente uns aos outros, já que
não possuíam a arte de gerir a cidade. De modo que,
novamente dispersos, se iam destruindo... |
Protágoras afasta-se do
mito de
Prometeu e insere-lhe uma
significativa alteração:
O
mito é utilizado pelo sofista como
argumento em defesa da sua tese
|
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322c |
Zeus, então, inquieto, não fosse a nossa espécie desaparecer de todo,
ordenou a
Hermes
que
levasse aos homens respeito e justiça, para que houvesse na cidade
ordem e laços que suscitassem a amizade. Hermes perguntou a Zeus de que modo
haveria de dar aos homens justiça e respeito: «Distribuo-os do mesmo modo
que, no início, foram distribuídas as outras capacidades? As outras ficaram
assim repartidas: um
médico é suficiente para muitos leigos e o mesmo
acontece com os outros especialistas. Atribuo, também, justiça e respeito
aos homens deste modo,
|
Intervenção de
Zeus.
Receoso com o desaparecimento da humanidade, vem em seu auxílio e
ordena a
Hermes
que distribuísse o
respeito e a justiça por todos os homens.
Foram assim criadas as regras e os valores necessários à vida social. |
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322d |
ou distribuo-os por todos?»
«Por
todos
—
respondeu Zeus
—
e que todos partilhem desses predicados, porque não haverá cidades, se
somente uns poucos partilharem deles, como o fazem dos outros. Estabelece,
pois, em meu nome, uma lei que extermine, como se se tratasse de uma peste
para a cidade, todo aquele que não for capaz de partilhar de respeito e de
justiça.»
Deste modo e por este motivo,
Sócrates, quer os
outros povos quer os Atenienses, quando o discurso é na área da arte da
carpintaria ou de outra qualquer especialidade, consideram que só a alguns compete uma
|
Conclusão do primeiro
argumento de Protágoras
-
da competência.
A arte de gerir a cidade não é inata |
|
322e
323 |
opinião. E
se alguém, fora
desses poucos, se pronuncia, não aceitam, tal como tu dizes
—
e com muita razão, repito eu
— porém, quando
procuram uma opinião a propósito da arte de gerir a cidade,
em que é preciso proceder com toda a justiça e sensatez, com razão a aceitam
de qualquer homem, pois a qualquer um pertence partilhar efectivamente desta
arte ou não haverá cidades. Neste facto reside, Sócrates, a razão do que
perguntas.
Mas , para que não consideres que te estás a iludir, pensando que é por ser assim
que todas as pessoas crêem que qualquer homem partilha quer da justiça quer
das restantes qualidades políticas, repara em
mais uma prova: com efeito, no que diz respeito às outras qualidades, como tu dizes, se
|
A
aretê politica
não nasce com o homem mas todos podem e devem aprendê-la.
Todos os homens podem
portanto participar dos assuntos da cidade porque todos eles possuem, ou
devem possuir essa virtude.
Segundo argumento de
Protágoras: argumento |
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323b |
alguém diz
ser um bom tocador de flauta ou ter dotes em qualquer
outra arte, sem os ter, ou se riem dele ou se enfurecem e os familiares vêm
e dão-no como louco. Mas tratando-se da justiça ou das restantes qualidades
políticas, se sabem de alguém que é injusto e se esse mesmo alguém confessar
a verdade a seu respeito diante de todos, essa atitude (confessar a verdade)
que, noutra ocasião, pareceria inteligência, neste caso, parece loucura. E
afirmam que é preciso que todos digam que são
justos, quer sejam quer não, e que aquele que
não aparenta sê-lo enlouqueceu. Pois |
do tocador de flauta
(que será retomado adiante, em 327)
|
|
323c |
pretendem
que é forçoso que qualquer um
partilhe desta qualidade, de uma
maneira ou de outra, ou não poderá viver entre os homens. O que digo, pois,
é que é com razão que aceitam de qualquer homem uma opinião sobre esta
virtude, pelo facto de acreditarem que todos partilham dela. De seguida, pretendo demonstrar-te
que não acreditam que seja obra da natureza ou algo inato mas, antes,
ensinada e que aquele que o desenvolver consegui-lo-á graças ao treino.
Com efeito, na medida em |
|
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323d |
que os homens crêem que os
defeitos que os outros
possuem são obra da natureza ou do acaso, ninguém se irrita, nem repreende,
nem ensina, nem castiga aqueles que têm esses defeitos, para que não sejam
como são; antes, os lamentam. É possível que haja alguém tão louco que
tencione fazer uma coisa dessas com os feios, os baixos ou os fracos? Com
efeito, considero que sabem que é por obra da natureza ou do acaso que os
homens desenvolvem essas características, as boas e as más. Mas, na medida
em que consideram que os homens desenvolvem boas qualidades pelo treino, pela prática e pela |
Apresentação
do terceiro argumento de protágoras:
do
castigo e da punição.
|
|
323e |
aprendizagem, se alguém as
não possuir e, pelo contrário,
possuir os
defeitos correspondentes, sobre esses recaem, então, as irritações, os
castigos e as repreensões. Um desses defeitos é a injustiça, a
impiedade e,
em suma, tudo o que é contrário às
qualidades políticas.
Como, neste caso, |
|
|
324 |
qualquer um se irrita e repreende qualquer um, é óbvio
que têm essa virtude por adquirida graças ao treino e à aprendizagem. Com
efeito, Sócrates, se quiseres ponderar que punir é uma medida eficaz em
relação àqueles que praticam injustiças, esse facto provar-te-á que os
homens acreditam, realmente, que a virtude pode ser adquirida. Porque
ninguém castiga, por praticar injustiças, aqueles que as
praticam sem noção do que |
|
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324b |
fazem, a menos que se castigue irracionalmente,
como qualquer animal selvagem.
Mas, aquele que tenciona punir
racionalmente não castiga por causa das acções passadas
—
porque não
vale a pena chorar pelo leite derramado
— mas, como salvaguarda do que
poderá acontecer, para que nem esse mesmo, nem outro que tenha
presenciado a punição, pratique novas injustiças. Ora, com semelhante
modo de pensar, pressupõem, então, que a virtude se pode ensinar
—
se
se entender que, quando se pune, é com vista à correcção.
Todos aqueles que aplicam castigos, quer na vida privada, quer na vida comunitária, têm
esta mesma opinião. Todos os |
|
|
324c |
homens
—
e os
Atenienses, teus concidadãos, não menos que os outros
—
castigam e punem aqueles que consideram que praticaram acções injustas.
Deste
argumento
se depreende, então, que os
Atenienses estão entre aqueles que acreditam que a virtude pode ser
adquirida e ensinada.
Pela minha parte,
Sócrates,
parece-me que foi suficientemente demonstrado que é, pois, com razão que os
teus concidadãos aceitam que ferreiro e curtidor dêem a sua
opinião sobre os assuntos da cidade e que |
Conclusão do terceiro
argumento de Protágoras: se existem instituições de castigo e punição
é porque a virtude pode ser ensinada.
|
|
324d |
acreditam que a virtude pode ser
ensinada e adquirida.
Resta, contudo, ainda, uma questão: aquela que
levantas a propósito dos homens bons. Qual é, pois, a razão pela qual
os homens bons ensinam aos filhos essas outras matérias que competem aos
professores, fazendo-os sábios, mas quanto à virtude, em que eles próprios
são bons, não os tornam melhores que qualquer outro? Mas, a esta questão,
Sócrates, vou responder-te não com outra história mas através de
argumentos.
Pensa, então, da seguinte maneira: antes de mais, há ou não uma
qualidade da qual é forçoso que
|
Protágoras
refere agora o segundo argumento de Sócrates: que os
homens bons (Péricles) não conseguem ensinar a
virtude aos seus
filhos.
E, para responder a essa questão,
Protágoras decide
abandonar o mito e recorrer ao logos |
|
324e |
todos os cidadãos partilhem,
se realmente se quiser
que haja uma cidade? Com efeito, é neste imperativo, e não em qualquer outra
razão, que se encontra a solução da questão que tu levantas. Pois, se essa
qualidade realmente existe e não se encontra nem na carpintaria, nem na
metalurgia, |
|
|
325 |
nem na cerâmica, mas antes na justiça, na sensatez e na
piedade
—
em suma, numa qualidade à qual dou o nome de virtude humana
—; se é essa qualidade de que todos devem partilhar e qualquer homem
deve possuir, seja o que for que queira aprender ou fazer, pois sem ela
nada lhe será possível; se é preciso que aquele que dela não partilhe,
seja criança, homem ou mulher, seja ensinado e punido até que pela
punição se torne melhor e que aquele que não responda nem à acção
das punições nem dos ensinamentos, esse, seja tido como incurável e banido da cidade ou |
|
|
325b |
condenado à morte;
se a situação é
esta e se, sendo assim, os homens bons ensinam aos filhos as outras matérias
mas não esta, vê lá tu que estranhos são esses homens bons! Contudo, demonstrámos já que acreditam que esta qualidade pode ser
ensinada, tanto na vida particular como na comunitária. Mas, podendo esta
qualidade ser ensinada e aperfeiçoada, não é verdade que ensinam aos
filhos todas as outras matérias que, caso não conheçam, não
os conduzirão à pena de morte, e, pelo contrário, não lhes ensinam |
.
Quarto argumento de
Protágoras -
argumento da Paideia |
|
325c |
nem os aperfeiçoam
em matéria de virtude,
cujo desconhecimento pode levar os seus filhos à pena de morte e ao exílio e
com a morte à confiscação dos seus bens e, resumindo numa palavra, à ruína
de tudo quanto possuem? Estas matérias nem lhas ensinam nem lhes dedicam
qualquer cuidado, pois não? Pelo menos, Sócrates, assim parece. Contudo,
começam a ensiná-los desde que são crianças pequenas e continuarão a fazê-lo
enquanto eles viverem. Logo que alguém compreende o que se lhe diz, a |
O facto de haver um
tão grande cuidado
com
a
educação
das crianças
prova que a virtude é ensináve |
|
325d |
ama, a mãe, o pedagogo
e até
o pai fazem esforços nessa área,
para que a criança se torne o melhor possível.
Por cada palavra ou cada acto, ensinam-lhe e explicam-lhe o que é justo e o
que é injusto, o que é bom e o que é censurável, o que é pio e o que é
ímpio, «faz isto», «não faças isso». Se obedece voluntariamente, ainda bem;
se não, endireitam-no, com ameaças e pancadas, como se fosse um pau torto e
recurvo. Em seguida, quando o enviam para a escola, prescrevem que os mestres tomem muito mais cuidado com o bom comportamento das
crianças e que com a
aprendizagem |
Também o programa de estudos,
tanto a
ginástica como a
música e
a
literatura,
tem por objectivo o ensino da virtude |
|
325e |
das letras e da
cítara.
Os mestres, por sua vez, seguem a
prescrição e, então, assim que as crianças aprenderem as letras e
estiverem prontas para compreenderem os textos escritos do mesmo modo que,
até aí, compreenderam os sons, colocam-lhes sobre os bancos
poemas de bons poetas, para que os
leiam, e obrigam-nas a aprendê-los de cor, pois neles |
O valor educativo dos exemplos de
obras poéticas.
|
|
326 |
muitas advertências, muitas histórias e
elogios dos heróis
de outrora,
para que a criança, entusiasmada, os imite e se esforce por ser igual a
eles. A seguir, os citaristas tomam idêntico cuidado no que diz respeito à
moderação, para que os pequenos não venham a agir erradamente. Depois,
assim que souberem tocar cítara, ensinam-lhes, então, poemas de outros
bons poetas
—
os líricos, desta vez
— com o fim de
aprenderem a
música |
|
|
326b |
para serem tocados à
citara,
e obrigam
a que os ritmos e as melodias se tornem familiares às almas das
crianças, para que sejam mais delicadas; ao tornarem-se mais graciosas e
mais moderadas, serão melhores quer no falar quer no agir. Tudo na vida
do homem precisa de ritmo e de harmonia! E mais ainda,
a seguir mandam-nas ao pedotriba,
para
servirem o espírito |
o valor educativo da
música
o valor educativo da
ginástica |
|
326c |
bem formado com corpos
melhores e não serem obrigados a abster-se, por causa de deficiência
física, nem nas guerras nem em outras actividades. Os que têm mais
possibilidades
—
e os mais ricos são os que mais podem
—
é assim que actuam e os seus filhos começam a frequentar a escola muito cedo
e deixam-na muito tarde. Logo que saem da escola, é a vez de a cidade os
obrigar a aprender as leis e a viver de acordo com elas e
com os |
Após a escola, é a própria cidade que, com |
|
326d |
seus
paradigmas,
para não agirem apenas como bem lhes parecer. E, simplesmente, do mesmo modo
que os
mestres das primeiras letras, depois de traçarem linhas com o
estilete, dão as tabuinhas às crianças que ainda não sabem escrever e as
obrigam a seguir a direcção das linhas, assim também a cidade, depois de
traçar leis, obra de bons e antigos legisladores, obriga a que se governe e
a que se seja governado de acordo com elas, e pune aquele que, porventura, vier a transgredi-las. E o nome
para essa |
as suas leis, orienta a educação
dos
cidadãos.
|
|
326e |
punição, tanto aqui entre nós como em muitos outros lugares, é
corrigir, uma vez que a justiça corrige. Sendo tal o cuidado em torno da
virtude, quer na vida privada quer na comunitária, admiras-te,
Sócrates, e
questionas que a
virtude possa ser
ensinada? Pois não deves espantar-te;
deverias, antes, espantar-te muito mais se o não pudesse ser. Mas, por que
razão, afinal, a maioria dos filhos de pais notáveis resultam fracos? Ora,
repara no seguinte: na realidade, não é nada espantoso, se é mesmo verdade o que eu disse antes, que, se se quiser que haja uma cidade, é
necessário que |
Conclusão
do quarto argumento de Protágoras: O facto de haver um tão grande
cuidado com a
paideia prova que a virtude é ensináve |
|
327 |
ninguém ignore uma qualidade
—
a
virtude.
Se, com efeito, as coisas são como eu digo
—
e o mais
provável é que assim seja
—
considera uma qualquer outra actividade ou
assunto à tua escolha. Se não fosse possível que uma cidade existisse,
a menos que todos nós, na medida das nossas possibilidades, fôssemos
tocadores de flauta, cada um deveria poder ensinar o outro a tocar flauta,
quer em particular quer na comunidade, e censurar aquele que não o
fizesse bem, sem recusar esse ensino;
do mesmo modo |
Protágoras retoma agora o argumento
do tocador de flauta. |
|
327b |
que, o nosso caso, ninguém recusa o ensino da justiça e das leis, nem o
oculta, como no ensino das outras artes. Assim, considero que nos será
benéfico conjugar a justiça e a virtude, pois é por essa união que qualquer
um, zelosamente, explica e ensina ao outro os direitos estabelecidos pela
lei. Então, se no que toca à arte da flauta temos, assim, todo o zelo e
disponibilidade para ensinarmos os outros, consideras, porventura, Sócrates
— perguntou ele — que os filhos dos tocadores de flauta talentosos se
tornam melhores que os dos fracos? Não me parece! Antes, o filho que tem a sorte de nascer com melhores dotes para a arte da
flauta, |
|
|
327c |
esse, crescerá com
grande fama;
ao contrário, o nascido sem dotes permanecerá inglório. E,
muitas vezes, o filho do flautista talentoso poderá resultar fraco,
enquanto que, é frequente também, o do fraco resultar talentoso.
Contudo, mesmo assim, todos serão uns tocadores de flauta sofríveis
quando comparados com os leigos e com aqueles que não são conhecedores
da arte de tocar flauta. Assim, considera agora também que o homem que te
parecer de uma injustiça absoluta, numa comunidade que foi educada segundo as leis;
esse, passa a ser também justo e especialista |
Tal como acontece com a
flauta, todos os cidadãos |
|
327d |
nesta matéria, se for preciso compará-lo a homens que não têm nem
educação, nem tribunais, nem leis, nem qualquer tipo de restrição que
obrigue qualquer um a tomar cuidado em relação à virtude — homens que
sejam uns selvagens semelhantes àqueles que, no ano passado, o
poeta
Ferécrates
encenou nas
Leneias.
Pois, se te visses no meio de homens dessa espécie, como os misantropos
do tal coro, alegrar-te-ias por encontrar
Euríbato
e Frinondas
e, com saudade, lamentarias, a viva
voz, a fraqueza |
(mesmo os mais
injustos) estão educados segundo a lei mas há uns mais habilitados do que outros.
|
|
327e |
dos nossos homens.
Mas agora, Sócrates,
amuas porque todos se metem a mestres de virtude, cada
um na medida em que pode, e tu não reconheces nenhum como tal.
Ora bem, do mesmo modo, se procurasses |
.
|
|
328 |
um professor de língua grega, não encontrarias nenhum,
nem, quer-me parecer, se procurasses alguém que ensinasse aos filhos dos
nossos artesãos essa mesma arte que eles aprenderam junto do pai, na medida
em que foi possível ao pai e aos seus companheiros de ofício ensinarem-lha.
Ainda que alguém quisesse ensiná-los, não considero, Sócrates, que fosse
fácil encontrar-lhes um professor, como com facilidade, certamente, se
encontra para os ignorantes, quer em matéria de virtude quer em qualquer
outra matéria. Mas se houver alguém que nos conduza,
ainda que um |
Nestas circunstâncias, os mais bem habilitados |
|
328b |
pouco, na direcção da virtude, já é bom.
Quanto a
mim, acho que sou um desses que excede os outros na possibilidade de
tornar perfeito qualquer homem e que merece o salário — o que é
estipulado por mim e ainda mais, se o aluno assim entender. Por esta
razão estabeleci o salário das minhas lições da seguinte maneira:
sempre que alguém aprender comigo, se quiser, paga-me a quantia que eu
estipulei; se não, depois de ter ido a um templo
e |
(ainda que pouco mais) devem
ensinar os menos bem habilitados.
É o caso de Protágoras que assim
justifica a importância do seu ensino e, consequentemenete, do pagamento
que recebe |
|
328c |
ter ponderado qual diz ser o valor dos meus ensinamentos,
entrega-me essa mesma quantia.
Deste modo, Sócrates, fica provado, por uma história
e por argumentos, que a virtude se pode ensinar, que assim o crêem os
Atenienses e que não é espantoso que os filhos de pais talentosos
resultem fracos, nem os dos fracos talentosos. E até os filhos de
Policleto,
que têm a mesma idade aqui de
Páralo
e Xantipo, não
têm nada a ver com o pai, o mesmo acontecendo também com os filhos de
outros artistas. Mas, quanto a estes aqui não vale a pena denunciar já
esta diferença, porque ainda é possível ter esperança neles. São novos!
|
Protágoras recapitula.
Através de um mito e da apresentação de
quatro argumentos,
fica concluída a demonstração de que a virtude se ensina.
|

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