Protágoras (328d-335c)

 

328d

 

Protágoras, depois de ter exibido demoradamente a sua arte, deu por concluído o discurso. E eu, enfeitição ainda durante muito tempo, olhava-o, na esperança de que dissesse alguma coisa mais e ansioso por ouvi-lo. Depois, no momento em que percebi que ele realmente teria chegado ao fim, bem a custo, recuperei o meu alento e disse, olhando para Hipócrates:

— Ó filho de Apolodoro, como te agradeço teres-me feito vir até aqui! Com efeito,  muito  prezo  ter  ouvido  as  coisas  que ouvi a Protágoras. Porque eu

Socrates reage ào longo discurso de Protágoras

328e

 

antes não acreditava que houvesse cuidado humano pelo qual os bons se tornassem bons. Mas agora estou convencido! Resta-me só um pequeno obstáculo, que, é óbvio, Protágoras facilmente me ajudará a transpor, depois da quantidade de coisas que ele explicou. É que, se alguém consultasse sobre   estes    mesmos    assuntos   qualquer   um    dos   nossos   oradores,





Socrates acusa
Protágoras de ser um orador habilidoso

329

provavelmente ouviria discursos semelhantes, quer a Péricles, quer a qualquer outro dos que falam com habilidade. Mas se lhes perguntarem mais alguma coisa, é como se fossem livros, nem podem responder nem perguntar eles próprios. Antes, se alguém questionar alguma coisita do que disseram, tal como as peças de bronze, quando batem, ressoam longa e demoradamente, caso ninguém as trave, assim também  os  oradores  esticam sem  fim o  discurso  mesmo se interrogados sobre pequenas coisas.

     

     a comparação entre o orador e o livro é negativa. Em ambos os casos, o dialogo é impossivel

329b

Mas, aqui o nosso Protágoras é capaz de proferir grandes e belos discursos, como acaba de mostrar, mas também é capaz de responder, falando com brevidade, e de, quando interrogado, esperar e aceitar as respostas, qualidades que poucos possuem. Pois agora, Protágoras, falta-me um pequeno pormenor para entender tudo, se me deres esta resposta. Dizes que a virtude pode ser ensinada e eu deixo-me persuadir por ti mais do que me deixaria persuadir por qualquer outra pessoa.  Satisfaz-me  só,  no fundo da alma, um  aspecto  do que disseste que espantou. É que tu afirmaste que

Oposição entre discursos longos e breves 

Sócrates elogia as capacidades persuasivas de Protágoras mas aponta para a necessidade de passar ao dialogo, sugerindo  que é desse modo que

 deverá continuar a conversa.

329c

 

Zeus enviou aos homens a justiça e o respeito, e, a seguir, disseste também, em diversas partes do teu discurso, que a justiça, a sensatez, a piedade e outras qualidades seriam, em suma, uma qualidade única — virtude. Começa então por me explicares, com um discurso mais preciso, se a virtude é um todo e, em seguida, se a justiça, a sensatez e a piedade são partes dessa virtude ou se estes nomes, que enumerei  agora, são os  vários  nomes

Mudança de tema da discussão: da ensinabiliadde à unidade da virtude

Sócrates introduz a questão da unidade da virtude

 

Sócrates: as  diferentes virtudes serão apenas diferentes nomes de uma mesma realidade?

329d

de uma mesma e única qualidade. É este pormenor que eu desejaria ainda conhecer.

— Mas, a essa questão é bem fácil responder, Sócrates; essas qualidades sobre as quais me interrogas são partes de uma única, da virtude.

— E são partes como as partes do rosto, a boca, o nariz, os olhos e as orelhas, ou como as partes do ouro, que não diferem nada umas das outras, nem cada uma delas do todo, excepto no tamanho?

 

 

O seguimento mostrará que a questão da unidade da virtude, não só não é fácil, como vai serem torno dela que Protágoras vai ser derrotado  

Sócrates: as  diferentes partes da virtude mantêm entre si uma relação orgânica ou aditiva

329e

— Parece-me, Sócrates, que do primeiro modo, tal como as partes do rosto estão para o rosto inteiro.

— Mas, então, os homens participam destas partes da virtude, uns de umas, outros de outras, ou é forçoso que, se alguém possuir uma, as tenha todas?

— De maneira nenhuma — respondeu ele —, porque muitos são corajosos mas injustos e, outras vezes, justos mas não sábios.

Sócrates e Protágoras concordam que virtude é una e que as suas partes, apesar de diferentes, mantêm entre si alguma  coisa em comum

 

330

— Ah! Então, sabedoria e coragem também são partes da virtude?

— Certamente, as mais importantes de todas. E a sabedoria é a maior dessas partes.

— E cada uma delas ou é uma qualidade ou é outra?

— Sim.

— E cada uma tem uma função particular, do mesmo modo que, no rosto, os olhos não são iguais aos ouvidos, nem a sua função é a mesma, nem nenhuma das partes é igual à outra, nem na sua função nem noutros aspectos?  É também  assim com as partes da virtude,  não é?  Nenhuma  se

Sócrates vai agora interrogar Protágoras em relação à cada uma das partes da virtude procurando  determinar a sua natureza, estabelecer a sua hierarquia e compreender as suas relações

330b

 

assemelha à outra, nem em si própria nem na sua função? É óbvio que tem de ser assim, para que se identifique com o exemplo proposto.

— É assim mesmo, Sócrates.

— Ora então — perguntei eu —, nenhuma das outras partes da virtude é igual ao conhecimento, nem igual à justiça, nem igual à coragem, nem igual à sensatez, nem igual à piedade?

— Pois não.

— Vejamos bem:  consideremos,  os  dois em  conjunto,  o que é  cada  uma

 

 

 

 

 

 

 


Sócrates inicia a análise das partes da virtude

330c

 

delas. Em primeiro lugar o seguinte: a justiça é uma realidade ou não? A mim parece-me que é. E a ti?

— A mim também.

— E qual, então? Se alguém nos perguntasse, a ti e a mim: «Protágoras, Sócrates, digam-me lá os dois, essa realidade de que falavam há pouco, a justiça, é algo justo ou injusto?» Eu responder-lhe-ia que justo. E tu que voto darias? Igual ao meu ou outro?

— Igual.

— Eu, por mim, ao responder a quem me perguntava, diria que a justiça é semelhante ao ser-se justo. Tu dirias o mesmo?

sobre a justiça

330d

 

— Sim.

— E então, se, em seguida, nos perguntassem: «Pois, e não dizem que existe também uma coisa chamada piedade?», creio eu que responderíamos que sim.

— Sim — concordou ele.

— « E não dizem também que é uma realidade?» Diríamos que sim, ou não?

— Também estou de acordo neste ponto.

— «E dizem que essa mesma realidade se manifesta do mesmo modo que ser-se ímpio ou que ser-se pio?» A mim, tal pergunta, ia irritar-me e obrigar-me a responder: «Cuidado com o que dizes, amigo! Só com dificuldade algo seria   pio,  se  não  fosse   pia  a  própria   piedade.»  E  tu  que  dirias?  Não



Primeira dicotomia: a justiça e a piedade

 

 

 

 

 

 

330e

responderias deste modo?

— Exactamente assim — corroborou ele.

— E se se dirigisse a nós com novas perguntas: «Então que estavam vocês a dizer? Por acaso, não vos terei ouvido bem? Parecia-me que diziam que as partes da virtude estavam umas para as outras de modo a nenhuma delas ser igual à outra.» Quanto a mim, dir-lhe-ia: «Ouviste correctamente o resto, mas percebeste mal quando pensas que quem disse essas coisas fui eu. Com efeito, foi aqui o nosso amigo Protágoras quem deu essas respostas, eu

 

 

 

 

 

 

as partes da virtude não são iguais umas às outras

 

331

 

só o interroguei.» Se ele, então, dissesse: «É verdade o que ele diz, Protágoras? Dizes tu que cada uma das partes da virtude não é igual à outra? São estas as tuas palavras?», que lhe responderias?

— Ser-me-ia forçoso concordar, Sócrates.

— E que lhe responderíamos, então, Protágoras, ao fim de termos concordado nestes pontos, se insistisse em perguntar: «Ora, pelos vistos, piedade não é uma realidade semelhante a ser-se justo, nem justiça a ser-se pio  mas antes  a  não  se ser pio; e  a piedade não é ser-se justo, mas antes,

 

 

 


A piedade não é semelhante a ser justo e  a justiça não é o mesmo que ser pio - quer isto dizer que a a justiça é semelhante a não ser pio, logo a ser ímpio?

331b

 

por acaso, ser-se injusto e a justiça diz-se ímpio?», que lhe responderíamos? Eu, falando por mim, diria que a justiça é pia e a piedade é justa; e falando por ti também — se mo permitisses — responder-lhe-ia precisamente o mesmo: que a justiça é idêntica à piedade, ou muito parecida, e, mais do que todas as outras, a justiça se assemelha à piedade e a piedade à justiça. Mas vê se não queres que eu responda ou se tu também pensas assim.

— Não acho, Sócrates, que seja  assim tão simples, a  ponto de eu concordar

 


Para Sócrates a justiça é pia e a piedade é justa, pois a justiça é idêntica à piedade ou muito parecida.

 

331c

 

que a justiça é pia e que a piedade é justa, até me parece que existe nelas alguma diferença. Mas o que é que estas coisas importam? — acrescentou ele. — Se quiseres, tenhamos lá a justiça por pia e a piedade por justa.

— Por mim, não — respondi eu —  não quero estar a examinar nenhum «se quiseres» ou nenhum «se te parecer», apenas a mim e a ti. E sublinho este «a  mim  e  a  ti»   porque  considero  que  é  possível  examinar  melhor   um

 


 

331d

argumento se se lhe retirar o «se».

— Pois muito bem, justiça e piedade assemelham-se...e, na verdade, uma coisa assemelha-se sempre a outra, num ponto ou noutro. O branco, em certa medida, assemelha-se ao negro, o duro ao mole, e também as outras coisas que parecem ser completamente opostas umas às outras. Até aquelas, as partes do rosto, que dissemos que tinham funções diferentes e que não era o  mesmo que a outra, se assemelham, num  ponto ou noutro, e uma é o

 


Protágoras reconhece que há semelhanças entre as diversas partes da virtude. No entanto, recorda que qualquer coisa é sempre semelhante a qualquer coisa, e nem por isso representam a mesma realidade. 

331e

mesmo que a outra. De modo que, com este método, poderás provar, se quiseres, que todas elas são iguais umas às outras. Mas não é justo chamar nem semelhante ao que tem semelhanças, nem diferente ao que tem diferenças, mesmo que a semelhança seja muito pequena.

E eu, espantado, retorqui-lhe:

— E então, para ti, é essa a relação que a justiça e a piedade têm uma com a outra, apenas uma pequena semelhança?

Crítica de Protágoras ao método de Sócrates.
Protágoras não percebe o interesse das subtis distinções que Socrates estabelece nem está verdadeiramente interessado na investigação sobre a unidade ou a multiplicidade da virtude.
 

 

332

— Não propriamente, mas também não é como tu há pouco me pareceste considerar.

— Bom, como estou a ver que o assunto te enfada, deixemo-lo e debrucemo-nos sobre um outro ponto do que disseste. Chamas insensatez a alguma coisa?

— Chamo.

— E a sabedoria não é totalmente contrária a essa realidade?

— É o que parece.

— Antes de mais, quando os homens agem de modo correcto e útil, não te parece que, ao agir assim, agem com sensatez ou o contrário?

— Que agem com sensatez.

— E, então, agem sensatamente por sensatez.

 


Uma vez que Protágoras se mostra enfadado com o rumo do diálogo, Sócrates abandona a discussão  da justiça e piedade para iniciar a segunda dicotomiasensatez e sabedoria

Sobre a sensatez

 

 sabedoria e sensateze

332b

— Forçosamente.

— Ora, e aqueles que não agem correctamente agem insensatamente e, agindo assim, não são sensatos, pois não?

— Sim, também me parece.

— Sendo assim, agir insensatamente é o contrário de agir sensatamente?

— É.

— Então, as acções realizadas insensatamente são realizadas por insensatez e as realizadas sensatamente por sensatez?

— Concordo.

— E se algo é realizado com força, é realizado de maneira forte e se é realizado com fraqueza de maneira fraca?

— É o que parece.

— E se é com rapidez, rapidamente, e se com lentidão, lentamente?

—É.

 

 







os contrários de sabedoria e sensatez

 

 força e fraqueza


rapidez e lentidão

332c

 

— E assim, se algo é realizado de uma maneira, é realizado dessa maneira, e se algo é realizado de maneira contrária pela maneira contrária?

— Pois também.

— Vejamos, então — continuei eu — o belo existe?

— Acho que sim.

— E tem algum contrário à excepção do feio?

— Não.

— E que mais? O bem, existe?

— Existe.

— E tem algum contrário à excepção do mal?

— Não.

— E que mais? A voz tem timbres agudos?

— Tem.

— E não têm outro contrário à excepção dos graves?

— Não.

— Então — insisti —, para cada coisa há um único contrário, não muitos?

— Estou de acordo contigo.

Sócrates explora o argumento dos opostos, no sentido em que a cada coisa corresponde a um único contrário ou oposto.


 belo e  feio

 

 

 

bem e mal



agudo e grave

332d

— Vá lá, recapitulemos os pontos em que concordámos. Estamos de acordo em que para cada coisa só existe um contrário e não mais?

— Estamos.

— E que o que é realizado de modo contrário se realiza por razões contrárias?

— Sim.

— E estamos de acordo em que o que é realizado insensatamente é realizado ao contrário do que é realizado sensatamente?

— Estamos.

— E que o que é realizado sensatamente se realiza com sensatez e o que é realizado insensatamente com insensatez?

— Concordo.

Rapitulação por Sócrates dos pontos de acordo que vão servir para sustentar o exercício de indução que se vai seguir e que tem por objactivo levar Protágoras a abandonar a sua posição inicial

 



 

 

 

 

 

332e

 

— Então, se se agir de modo contrário, será por razões contrárias?

— Decerto.

— E age-se, num caso, por sensatez, e, noutro por insensatez?

— É.

— De modo contrário?

— Exactamente.

— E por serem contrários?

— Sim.

— De modo que insensatez é o contrário de sensatez?

— É o que parece.

— Lembras-te, então, que no início, concordámos que a insensatez era o contrário da sabedoria?

— Pois concordei.

— E que, para uma única coisa, havia um único contrário?

— Sim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

333

 

— Então, antes de continuarmos, Protágoras, qual dos dois argumentos pomos de parte? O de que, para uma coisa, existe apenas um contrário ou aquele em que se disse que uma coisa é sensatez e outra é sabedoria, cada uma delas uma parte de virtude, e não só diferentes entre si mas também na sua função, tal como as partes do rosto? Qual pomos de parte? Sim, que estes dois argumentos, em conjunto não se ligam com grande harmonia, porque nem estão em uníssono nem combinam um com o outro. Aliás, de que modo poderiam estar em  uníssono se,  por um lado, é forçoso que para

Esta argumentação pelos opostos obriga Protágoras a reconsiderar a sua posição inicial.

Este tipo de argumentação foi recuperado mais tarde por Platão como forma de refutar definições e, actualmente ainda se usa para, por exemplo, refutar hipóteses em matemática.

333b

uma coisa exista um único contrário, não muitos, e, por outro lado, a sensatez e a sabedoria parecem ambas contrárias à insensatez, sendo esta uma só. É assim, Protágoras, ou de outro modo?

Ele concordou, mas bastante contrafeito.

— Serão, então, a sensatez e a sabedoria uma só? Já antes nos pareceu também que a justiça e a piedade eram próximas... Vá lá, Protágoras, não nos dêmos por cansados e analisemos o resto. Parece-te, por acaso, que  um

 

 

Protágoras, renitente, face à argumentação de Sócrates, vê-se obrigado a abandonar a tese que defendida inicialmente.

333c

homem que age injustamente é sensato, agindo deste modo?

— Eu cá envergonhava-me, por concordar com uma coisa dessas, embora muitos homens o façam.

— E antes hei-de dirigir o meu discurso a eles ou a ti?

— Se quiseres — respondeu — discute, em primeiro lugar, a opinião da maioria.

— Mas, para mim, não tem nenhuma importância, desde que tu realmente respondas, se é o que tu pensas ou não. É principalmente o argumento que estou a examinar, embora corresponda, certamente, a examinar-me tanto a mim que interrogo, como àquele que responde.

 







Sócrates não põe nunca em causa a boa fé e a sinceridade de Protágoras mas apenas o conteúdo das suas teses

333d

Então, a princípio, Protágoras mostrou-se-nos reservado — alegando que o argumento era difícil — mas depois lá consentiu em responder:

— Vá lá — pedi-lhe eu — responde-me desde o princípio: alguns dos que são injustos parecem-te sensatos?

— Se quiseres...

— Mas dizes que ser sensato é pensar bem?

— Digo.

— E que pensar bem é planificar bem as injustiças que se cometem?

— Se quiseres...

— E são injustos se as realizam bem ou se as realizam mal?

— Se as realizam bem.

— E dizes que existem algumas coisas que são boas?

— Digo.

— E por acaso, essas coisas que são boas são as úteis aos homens?

 


Sócrates parte para uma terceira dicotomia: sensatez e a justiça (retomando a justiça da primeira dicotomia e a sensatez da segunda)

 
 


Pode o homem que comete a injustiça ser sensato, sendo o que ele faz injusto?

333e

— Ora, por Zeus! Eu, por mim, chamo boas mesmo a coisas que não sejam úteis aos homens!

E pareceu-me que Protágoras já estava exasperado e se preparava para a luta e para cerrar fileiras contra o interrogatório. De modo que, quando o vi nesta disposição, tomei cuidado e perguntei com brandura:

— Antes  de  mais,  Protágoras,  referes-te  a  coisas  que  não  são  úteis aos




Socrates receia que Protágoras queira abandonar o diálogo.

334

homens ou que não são úteis de todo? Tu também chamas boas a essas?

— De modo nenhum! Mas eu conheço muitas coisas que são inúteis para os homens, quer alimentos, quer bebidas, quer medicamentos, quer inúmeras outras coisas, mas também conheço outras que são úteis; e as que não são nem uma coisa nem outra para os homens mas o são para os cavalos; as que só são úteis aos bois e as que o são aos cães; e, ainda as que o não são a nenhum destes  mas,  antes,  às árvores;  as que são boas para as raízes das


Protágoras, receando ser levado a admitir que a sensatez é má e que a injustiça é boa, espraia-se num novo tipo de discurso  - discurso forte -  sobre a relatividade do bom e do útil, 

334b

árvores mas daninhas aos rebentos: o estrume, por exemplo, é aplicado às raízes de todas as plantas, mas, se quiseres colocá-lo sobre os ramos e os galhos novos, perdem-se todos. E também o azeite é extremamente nocivo à totalidade das plantas e bastante prejudicial ao pêlo dos outros seres vivos excepto ao do homem — ao cabelo e ao resto do corpo do homem é benéfico. Assim,  o que é bom é mutável e multifacetado,  de modo que  mesmo aqui o

 
334c

que é bom para o exterior do corpo do homem é péssimo para o seu interior. É por essa razão que todos os médicos proíbem os seus doentes de utilizar azeite nos alimentos que tencionam comer, a não ser em pequenas quantidades, somente para disfarçar o desagrado da sensação, recebida pelo olfacto, que resulta de certos pratos e iguarias.

Então, concluídas estas observações, os presentes aplaudiram-no por ter falado tão bem, e eu repliquei:

— Ó Protágoras, acontece que eu sou um homem esquecido e quando alguém   fala  comigo  demoradamente,   esqueço  qual   era  o  conteúdo  do

 

 

 


Os presentes
ficam novamente  enfeitiçados com as palavras de Protágoras.

Por seu lado, Socrates critíca o regressode Protágoras ao discurso longo

334d

discurso. É como se me acontecesse ser surdo; nesse caso ias achar necessário, se realmente estivesses disposto a dialogar comigo, falar bem mais alto do que com os outros. Do mesmo modo, agora que estás a lidar com alguém esquecido, encurta as tuas respostas e torna-as mais breves, se queres que eu possa acompanhar-te.

— Ora, e em que medida me pedes que responda brevemente? Que te responda de modo mais breve do que é preciso?

— De maneira nenhuma!

— Só o que é preciso, então?

 

Invocando (falsamente) a sua incapacidade para memorizar e seguir longos discursos, Sócrates pede a Protágoras para encurtar as suas respostas.

 

 

334e

— Exactamente.

— E, outra coisa, hei-de responder-te o que a mim me parecer que é preciso responder ou o que te parecer a ti?

— O que eu, de facto, ouvi dizer foi que és capaz, tu próprio ou outros que tenhas ensinado, de falar demoradamente, se quiseres, de modo que, assim, o  discurso  não  termine,  mas também com brevidade, de forma que, assim,

 

 

335

nenhum outro seja mais breve a falar do que tu. Pois, se estás interessado em dialogar comigo, serve-te, por favor, deste segundo método — o da brevidade.

— Ó Sócrates, eu já travei combates verbais com muitos outros homens, e se tivesse feito o que tu mandas, discutir assim, da maneira que o meu antagonista me mandasse discutir, nem seria melhor que ninguém, nem o nome de Protágoras se teria tornado conhecido entre os Helenos.

E  eu,  ao  perceber  que  lhe não tinham agradado as respostas anteriores e

 

 

Agora é Protágoras que dá conta do carácter competitivo  do seu dialogo com Socrates.


 

335b

que não quereria, voluntariamente, continuar o diálogo, sendo ele a responder, achei que já não tinha qualquer proveito em levar por diante aquela conversa e disse:

— Ora bem, Protágoras, não me parece fácil continuarmos a conversa num rumo contrário ao que tu desejas; contudo, quando quiseres dialogar de um modo que eu seja capaz de te seguir, então dialogarei contigo. É que tu (é o que se diz de ti e tu próprio concordas) tens possibilidades de manter uma conversa,  quer  com um longo discurso, quer com um discurso breve — pois





Sócrates manifesta fortemente o seu desagrado face à situação, colocando Protágoras na posição de ter que escolher entre terminar o diálogo ou aceitar as suas exigências
metodológicas.
 

335c

 

és um homem hábil —; agora eu não sou capaz de longos discursos, embora gostasse de o ser. Mas era bom que tu, uma vez que és capaz de o fazer das duas maneiras, chegasses a acordo connosco, para podermos conversar. Contudo, já que não queres e eu também tenho um compromisso, não me vai ser possível esperar que tu faças longos discursos — pois tenho mesmo de ir a um outro lugar — vou-me embora. Se não fosse esse motivo, ficava a ouvir-te certamente e sem qualquer desagrado.

Ao mesmo tempo que dei esta justificação, levantei-me para sair. E, já eu estava de pé, Cálias pegou na minha mão com a sua mão direita, tomou-me

Diz-se incapaz de acompanhar Protágoras nos seus longos discursos e, como este parece não ter vontade de continuar o diálogo com discursos breves, Socrates ameaça sair. Mais do que um argumento, estamos face a um procedimento extremo que visa pôr fim às argumentações.



Sócrates prepara-se para sair sendo detido pela audiência

335d

aqui o manto, com a esquerda e disse:

 
 

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt