Protágoras (335d-338e)

 

335d

 

— Não, te deixaremos ir, Sócrates; é que se te fores embora, a nossa conversa não será a mesma. Peço-te, pois, que fiques connosco. Por mim, nada ouviria de mais agradável que a vossa discussão, tua e de Protágoras. Vá, faz-nos a vontade a todos.

E eu, levantado já para sair, respondi-lhe:

— Filho de Hiponico, no que me diz respeito, sempre admirei a tua ânsia de sabedoria, e  não deixo de a louvar e apreciar, neste momento; de modo que

Intermezzo.
Cálias
intervém para impedir que o diálogo termine, elogiando os intervenientes, procura persuadir Sócrates a ficar.

 

 

Sócrates retribui a cordialidade a Cálias louvando a sua ânsia de saber (philosophia).

335e

quereria fazer-te a vontade, se me pedisses coisas possíveis. Agora, o que me estás a pedir equivale a que acompanhasse o corredor Críson de Hímera, no seu auge, ou que competisse, na corrida, com um dos corredores de longa


analogia entre o ritmo do diálogo e a velocidade da corrida.
 

336

ou média distância. Podia responder-te que me agradaria, muito mais do que a ti, acompanhar esses corredores, só que não sou capaz; se quiseres ver-nos, a mim e a Críson, a correr juntos, pede-lhe que o faça ao meu ritmo. Porque eu não sou capaz de correr depressa mas ele é capaz de o fazer devagar. Se desejas, então, ouvir-nos, a mim e a Protágoras, pede-lhe que responda  agora como me respondeu no início,  de  maneira breve  e  ao

 

336b

que lhe é perguntado. Se não, qual será o rumo da nossa conversa? Eu acreditava que havia diferença entre conversar e fazer um discurso público.

— Mas — vês, Sócrates? — Protágoras parece estar certo ao dizer que é justo continuar o diálogo do modo que quiser, e tu, por tua vez, da maneira que quiseres.

Então, Alcibíades tomou a palavra e disse:

— Não tens razão no que dizes, Cálias. É que aqui o nosso Sócrates admite que  não consegue  seguir longos  discursos e concede a vitória a Protágoras,

Socrates faz apelo a um dos atributos dos sofistas: a arte de distinguir palavras muito próximas.

 

 

Alcibíades vem em defesa de Sócrates com o objectivo de restabelecer o diálogo. Como se fosse eros aquele que, nos momentos difícieis, pode fazer com que o diálogo se mantenha.

336c

mas quando se trata de dialogar e ser entendido em dar e devolver argumentos, aí espantar-me-ía se concedesse a vitória a outro homem. Ora, se Protágoras admitir que é inferior a Sócrates na arte de dialogar, para Sócrates será suficiente; mas se levanta algum obstáculo, ele que conduza o diálogo interrogando e respondendo, sem fazer um longo discurso para cada

 

336d

 

questão, contornando os argumentos e não querendo dar respostas, prolongando, antes, o discurso até que muitos dos ouvintes tenham esquecido qual era o teor da pergunta. Quanto a Sócrates, garanto que não se esquecerá e que não está senão a brincar ao dizer que é um esquecido. Parece-me, então, que o que diz Sócrates é mais razoável. É preciso que cada um apresente a sua opinião.

Depois de Alcibíades — creio eu — foi Crítias a falar:

Pródico e Hípias, parece-me que Cálias está mais do lado de Protágoras,

 

 

 Desta forma, Alcibíades defende Sócrates pois considera que este está a pensar em quem está a acompanhar o discurso.

 

336e

enquanto Alcibíades está sempre desejoso de levar a melhor na posição em que, porventura, apostar. Não devemos tomar nenhum partido, nem por Sócrates, nem por Protágoras, mas antes pedir para ambos que não quebrem a conversa a meio.

Fala de Crítias que tem um papel moderador, apelando à boa vontade de ambos para que o diálogo possa continuar.

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Depois de ele ter dito estas palavras, Pródico acrescentou:

— Parece-me bem o que o dizes, Crítias. É, de facto, necessário que, aqueles que assistem a discussões destas ouçam ambos os interlocutores, de modo imparcial, mas não passivo — é que são coisas diferentes. É preciso ouvir os dois do mesmo modo, mas não atribuir a cada um o mesmo valor, antes mais ao mais sábio e menos ao mais ignorante. Pela minha parte, Protágoras e Sócrates,  suponho que concordarão em discutir  sobre os argumentos mas

 

Tal como Crítias, também Pródico defende a continuidade do diálogo

 

337b

sem contender — é que os amigos discutem com os amigos, com cordialidade, enquanto que aqueles que contendem são os que estão em desacordo e se odeiam uns aos outros — assim, a nossa conversa será muito melhor. Porque, então, vocês, os que falam, receberão, desse modo, da nossa parte, dos que ouvimos, sobretudo um grande apreço, mais do que louvor. Na verdade, o apreço vem, sem mentiras, da alma daqueles que ouvem, enquanto o louvor, muitas vezes, trai com palavras a verdadeira opinião. Então,  nós,  ouvintes, a  experimentaremos  sobretudo júbilo  e  não prazer.

Pródico, que era célebre pelo profundo conhecimento em gramática, estabelece distinções subtis entre  "discussão" de "contensão", "apreço" de "louvor" e "júbilo" de "prazer".

 

337c

 

Rejubilar é aprender algo e partilhar da inteligência do próprio espírito; experimentar prazer é antes comer algo ou receber outro prazer só para o corpo.

Então, depois de Pródico ter falado assim, muitos — muitos mesmo — dos presentes o apoiaram. A seguir a Pródico, falou o sábio Hípias:

— Meus senhores, aqui presentes, creio eu que todos são aparentados, familiares e concidadãos — por natureza,  não por lei. Porque qualquer coisa

 





Hípias intervém fazendo apelo à distinção entre natureza e lei.

337d

que é semelhante a outra é, por natureza, aparentada com aquela a que se assemelha; mas a lei, que é um tirano entre os homens, força a muitas coisas contrárias à natureza. Seria então censurável se nós, que conhecemos a natureza das coisas, somos os mais sábios dos Helenos e aqui estamos, por essa mesma razão, reunidos todos, a capital da sabedoria da Hélade   e  aqui  nesta  casa,  a  maior  e  mais  próspera  desta  cidade,  não

 


É curioso realçar a vaidade de Hípias que, ao ter oportunidade de falar, adjectiva todos os presentes, e ele próprio, como os mais sábios dos Helenos.

337e

expuséssemos nada que honrasse a nossa reputação e divergíssemos uns dos outros como se fôssemos os mais incapazes dos homens. Peço-vos, pois, e  dou-vos  por  conselho,  Protágoras e Sócrates, que cheguem a um acordo,

Tal como todos os presentes, Hípias também se mostra bastante empenhado em impedir que o diálogo termine.

338

tendo-nos a nós por árbitros para vos conciliarmos: a ti, que não pretendas esse tipo de precisão do diálogo, de excessiva brevidade, se ela não agrada a Protágoras, mas, antes, a seres condescendente e folgares as rédeas aos teus discursos, para que nos pareçam mais magnificentes e elegantes; por sua vez, a Protágoras, que não navegue de vela desfraldada, ao sabor do vento, e fuja para um mar de discursos, onde não se aviste terra. Que fiquem antes pelo meio-termo! Façam assim, então, e se estão persuadidos pelas minhas palavras escolham um árbitro, um juiz, um presidente que vos

 

Utilizando uma brilhante metáfora marítima, tenta persuadir Protágoras e Sócrates a chegar a um consenso. Finalmente, Hipias  sugere a escolha de um árbitro ou juiz.
O carácter competitivo do diálogo é aqui manifesto

338b

supervisione na extensão do discurso de cada um.

Estas palavras agradaram aos presentes e todos o louvaram; Cálias disse que não me deixaria ir e pediu que se escolhesse um juiz. Respondi-lhe eu então que seria uma vergonha escolher um árbitro para os discursos:

— É que se o escolhido for inferior a nós, não estará correcto que aquele que é inferior julgue os que são melhores; se for igual, também não estará correcto:  porque  aquele que é igual a nós procederá da mesma maneira, de



Sócrates discorda com a ideia de se escolher um juiz.
O raciocínio de Socrates é certeiro. Se o juiz for inferior a eles, não estará certo que este julgue os que lhe são superiores; se for igual, julgará da mesma forma que eles e, portanto, seria desnecessário.

338c

modo que seria uma escolha inútil. Ora, então, terão de escolher alguém melhor do que nós. Só que, em boa verdade, pelo que me parece, ser-vos-á impossível escolher alguém mais sábio que aqui o nosso Protágoras; por outro lado, senão escolherem alguém melhor, ainda que assim o afirmem, para ele será vergonhoso na mesma escolherem-lhe um juiz, como se se tratasse de um medíocre; quanto a mim, não me faz diferença nenhuma. Mas para que tenhamos  a conversa que desejam,  quero propor o  seguinte:

Resta admitir que o juiz seja superior a eles. Ora, é  impossível encontrar alguém mais sábio que Protágoras. É assim refutada a ideia de escolher um juiz.

338d

se Protágoras não quiser responder, então que faça ele as perguntas, que eu respondo-lhe, e, ao mesmo tempo, vou tentar mostrar-lhe de que modo digo eu que aquele que responde deve responder. E, depois de eu ter respondido a quanto ele me quiser perguntar, passar-me-á ele, novamente, a palavra, do mesmo modo. E se, pelo contrário, ele não parecer desejoso de responder ao que  lhe é perguntado, todos nós, em conjunto, lhe pediremos o mesmo que

 É Sócrates quem acaba por propor uma solução.

 Trata-se de uma inversão de papéis, ou seja, Protágoras passa a perguntar e Sócrates a responder Quando Protágoras achar pertinente regressar à posição de inquirido, inverter-se-ão de novo os papéis.

338e

me pediram vocês, que não estrague a conversa. Posto isto, não há necessidade alguma de termos um árbitro; antes, todos arbitrarão em conjunto.

A todos pareceu que assim se deveria fazer. Protágoras não estava muito convencido, mas mesmo assim foi forçado a concordar que ele faria as perguntas e, depois de ter perguntado o suficiente, responderia ele, de novo, utilizando um discurso breve.

 

 

 

 

Protágoras vê-se forçado a aceitar


Fim do intermezzo. A discussão sobre a virtude vai ser retomada

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt