Protágoras (342-347)

 

 

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Mas quero dizer-te qual me parece ser o pensamento de Simónides neste poema, se quiseres que eu dê uma prova de como estou em matéria de poesia, como tu lhe chamaste. Ou, se preferires, ouvir-te-ei a ti.

Depois de ouvir o que eu tinha dito, Protágoras respondeu:

— Como quiseres, Sócrates!

Pródico e Hípias também fizeram ambos muita questão, tal como os outros.

— Bom — comecei eu —, tentarei, então, explicar-vos o que eu penso realmente deste poema. A mais antiga e maior ânsia de saber entre os Helenos encontra-se em Creta e na Lacedemónia, onde há o maior numero de  sábios  da Terra.  Só que eles negam-no  e simulam  ser ignorantes para

Sócrates apresentara sua interpretação do poema de Simónides

Sócrates apresenta a sua interpretação do poema de Simónides num longo discurso (recorde-se que Sócrates tinha criticado Protágoras pelos seus longos discursos).


Sócrates começa com um breve comentário acerca da sabedoria, afirmando que é em
Esparta, na Lacedemónia, que se encontram o maior número de

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que não se torne visível que superam em sabedoria os outros Helenos — tal como aqueles a quem Protágoras chamou Sofistas; antes, parecem mostrar-se superiores na guerra e na coragem, por acreditarem que se os outros conhecerem a arte em que são superiores, a sabedoria, todos a exercitarão. Assim, ao esconderem-no, têm enganado aqueles que admiram os Lacónios nas outras cidades, aqueles que, para os imitarem, trazem as orelhas quebradas,  enrolam  os  punhos  com  correias,  se  tornam apreciadores de

  sábios, ainda que estes o neguem e simulem ser ignorantes

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exercício físico e trazem mantos curtos, como se fossem esses hábitos que fizessem dos Lacedemónios os mais poderosos dos Helenos. Mas os Lacedemónios, quando se querem encontrar com os seus homens de saber, aí já ficam importunados; reúnem-se às escondidas e expulsam os estrangeiros, aqueles que admiram os Lacónios e qualquer outro estranho que possa lá estar; juntam-se então com os sábios a ocultas dos estrangeiros




Os Lacedemónios reúnem-se às escondidas com os seus sábios, expulsando todos os estranhos e estrangeiros
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e não permitem que nenhum dos seus jovens visite outras cidades, e os Cretenses também não, para que não desaprendam o que lhes foi ensinado. E nestas cidades, não há apenas homens orgulhosos da sua educação mas também mulheres. Para que vocês tenham a certeza de que estou a dizer a verdade e que os Lacedemónios têm a melhor das educações, quer em termos de conhecimento quer em termos de discurso, vejam o seguinte: se, de facto, alguém quiser consultar o mais insignificante dos Lacedemónios, na  maior parte da conversa,  parecer-lhe-á um medíocre,  mas,  de  seguida,

 Além disso, proíbem a saída dos seus jovens da cidade.

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em qualquer ponto casual do discurso, lança, qual archeiro experiente, uma palavra preciosa, breve e concisa, de modo que o seu interlocutor não parecerá melhor que uma criança. Ora, tanto hoje como ontem, há quem tenha percebido esse pormenor — que admirar os Lacónios é muito mais apreciar a sabedoria que o exercício físico — e quem saiba que só o homem que  recebeu  uma  esmerada  educação  pode  proferir  semelhante palavra.

Socrates elogia o dom da concisão entre os lacedemónios
 

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Nessa situação encontravam-se Tales de Mileto, Pítaco de Mitilene, Bias de Priene, o nosso Sólon, Cleobulo de Lindos, Míson de Queneia e, em sétimo lugar, Quílon da Lacedemónia. Todos estes foram entusiastas, apaixonados e discípulos da educação dos Lacedemónios e qualquer pessoa poderá constatar que a sua sabedoria era idêntica à deles, uma palavra breve e memorável  que  cada  um  deles  proferiu.  Estes  mesmos,  reunidos  todos,

 

 

 

 

 

A palavra breve (máxima proverbial) como sinal da sabedoria dos Sete Sábios

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fizeram oferenda da sua sabedoria a Apolo no seu templo em Delfos, grafando as máximas que toda a gente celebra, Conhece-te a ti mesmo e Nada em excesso. Ora bem, porque estou eu a dizer estas coisas? Porque era este o modo de expressão da filosofia dos antigos, uma brevidade lacónica. É esse também o caso desta máxima de Pítaco, que circulava nos meios  privados,  e  colhia  o  louvor  dos  sábios:  É  difícil  ser  nobre. Ora,

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A máxima "É difícil ser nobre" utilizada por Simónides no seu poema.

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Simónides, desejoso de mostrar sabedoria, sabia quo se destruísse esta máxima, como se tratasse de um atleta consagrado a quem tivesse vencido, receberia a consagração entre os homens do seu tempo. Contra essa máxima e por essa razão, desejando minimizá-la, compôs todo o poema - é o que me parece a mim! Examinemo-lo, pois, todos em conjunto para ver se é verdade o que eu digo ou não. Com efeito, o início do poema poderá parecer, à primeira vista, extravagante, se se quiser dizer que é difícil tornar-se um homem de bem e,  a  seguir,  acrescentar  um  ora.  Porque esta palavra não

 

 

 

 


Sócrates inicia uma brilhante e ousada análise do poema de Simónides.
Contra Protágoras, ele vai mostrar que o poema é isento de qualquer contradição

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parece ter sido acrescentada com um objectivo preciso; a menos que alguém pretenda dizer que Simónides falava contestando a máxima de Pítaco. Quando Pítaco afirma que é difícil ser nobre, ele discorda e diz: «Ser não, Pítaco, mas, tornar-se um homem de bem, isso sim é de verdade difícil» Não se trata de um homem «verdadeiramente», de bem; não é nesse sentido que fala em «verdade», como se, por acaso, alguns homens fossem «verdadeiramente»  bons  e  outros  apenas  bons, mas não «de verdade» — é

 
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que tal comentário pareceria coisa de um simplório, não de Simónides -antes, é preciso tomar esse «de verdadeiro» como um hipérbato no poema, como que para explicar a máxima de Pítaco. É como se imaginássemos o próprio Pítaco a falar e Simónides a responder; um a dizer: «Meus senhores, é difícil ser nobre»  e  o outro a  responder-lhe:  «Ó Pítaco,  o que dizes não é

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verdade! Ora, não é ser mas tornar-se um homem de bem, perfeito de mãos e pés e espírito, obra lapidada sem falha, que é dificil de verdade» Assim, ora parece ter sido acrescentado com esse objectivo e de verdade colocado correctamente em final do verso. Tudo o que vem a seguir testemunha essa opinião, de que foi escrito assim. Há muitos aspectos a propósito do que diz cada  um  dos  versos  do  poema  que  mostrarão  como  se trata de uma boa

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composição — com muita graça e harmonia, até - mas levaria muito tempo a esmiuçá-lo desse modo. Vamos, antes, analisar os seus traços gerais e a sua intenção, que é sobretudo a refutação da máxima de Pítaco, ao longo de todo o poema. Com efeito, um pouco depois do que já foi analisado, diz, como se estivesse a desenvolver um argumento: «Ora, tornar-se um homem de bem é de verdade  difícil mas possível,  pelo menos por algum tempo.»  Agora  uma

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vez que se consegue, permanecer depois nessa condição e ser um homem do bem, como tu dizes, Pítaco, é impossível e sobre-humano, pois somente um deus poderá obter tal dádiva.

Pelo contrário, não é possível que não seja mau o homem

que um infortúnio irreversível destrua.

Ora, no comando de um navio, qual o homem que um infortúnio irreversível destrói? É óbvio que não o leigo, porque o leigo nunca teve recursos. Do mesmo modo também ninguém poderá deitar por terra aquele que já está caído,  mas  poderá  deitar  por  terra aquele que antes estava de pé e fazê-lo

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cair — desde que não tivesse caído já. — Assim, também um infortúnio irreversível poderá destruir aquele que antes possuía recursos, mas não aquele que nunca os teve: uma forte tempestade que se abate sobre um timoneiro poderá deixá-lo sem recursos; a chegada de uma estação difícil poderá deixar sem recursos um agricultor, e outro tanto sucederá com um médico. De facto, também ao nobre poderá acontecer tornar-se mau, como testemunha um outro poeta que diz:

Um homem de bem tanto é mau algumas vezes como nobre noutras

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mas ao mau não acontece tornar-se mau pois é forçoso que o seja sempre. Do mesmo modo, quando um infortúnio irreversível destrói aquele que tinha recursos, que era sábio e era bom, não lhe é possível não ser mau. Portanto, tu dizes, Pítaco, que é difícil ser nobre; ora, tornar-se nobre é difícil embora possível, ao passo que sê-lo é impossível.

É que todo o homem é um homem de bem, se age bem,

e, pelo contrário, mau se age mal.

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Ora, o que é um bom trabalho em matéria de letras e o que é que tornará um homem bom nesse domínio? É óbvio que a sua aprendizagem. Qual é o bom desempenho que toma bom um médico? É óbvio que a aprendizagem do tratamento dos doentes. E mau, pelo contrário se age mal. E agora, quem poderá tornar-se um mau médico? É óbvio que, em primeiro lugar, aquele que começa por ser médico, e que, em seguida, é um bom médico — esse, com efeito, poderá tornar-se mau — mas nós, os leigos em matéria de medicina,  não  nos  poderíamos  tornar  nunca,  por agir mal, nem médicos,

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nem carpinteiros, nem nada do género. Aquele que não puder, agindo mal, tornar-se médico, é óbvio que também não poderá tornar-se um mau médico. Do mesmo modo, um homem de bem poderá, um dia, por causa da doença ou por causa de qualquer outro azar — porque este agir mal não é mais que ser desprovido de conhecimento — tornar-se mau, mas o homem mau nunca se tornará mau — é-o sempre! — mais, para poder vir a tomar-se mau, é preciso que antes se torne bom. Assim, esta parte do poema aponta para essa mesma conclusão: que não é possível um homem ser bom

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e permanecer bom, mas que é possível tornar-se bom, como também o mesmo homem tornar-se mau. E melhores por mais tempo só aqueles que os deuses estimarem. Todas estas palavras foram proferidas, pois, contra Pítaco e o resto do poema ainda é mais explícito, porque diz:

Por esse ,motivo, nunca eu atirarei fora o lote de vida que me foi destinado,

procurando, numa vaga. vã esperança,

o que não é possível encontrar,

entre aqueles que colhemos o fruto da terra

imensa, um homem efectivamente isento de culpa,

mas, quando o encontrar, avisar-vos-ei.

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e continua ele — assim, com força e ao longo de todo o poema, ataca a máxima de Pítaco:

Mas louvo e estimo todo aquele

que, voluntariamente, não pratica

um único acto censurável. Embora contra a necessidade nem os deuses lutem.

E estas palavras foram ditas também com o mesmo objectivo, porque Simónides não era tão desprovido de formação que fosse dizer que louvava aquele que não comete nenhum mal voluntariamente, como se houvesse alguém que,  por vontade, agisse mal.  A mim, com efeito, esta interpretação

 

 

 

 

 

Sócrates insere na interpretação do poema de Simónides a tese de que nenhum homem erra de boa vontade e que todo o mau procedimento é involuntário. 

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parece-me clara, que nenhum homem sábio acredita que algum ser humano incorra voluntariamente em falta, nem cometa voluntariamente acções más e vergonhosas; antes, sabe bem que todos aqueles que cometem acções más e vergonhosas as cometem involuntariamente. E Simónides também não iria dizer que era louvável aquele que cometesse voluntariamente más acções, esse voluntariamente é dito, antes, a seu respeito. Com efeito, ele acreditava

 
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que um homem bem formado, muitas vezes, força-se a si próprio a tornar-se amigo e admirador de alguém. E acontece, com frequência também, um homem ser mal tratado pela mãe ou pelo pai ou pela pátria ou por alguma outra entidade do género. Então, os maus, quando lhes acontece algo assim, encaram-no quase com felicidade e, com censuras, exibem e proclamam a maldade dos progenitores ou da pátria, para que as pessoas não os acusem nem censurem pela sua própria negligência; de modo que censuram-nos ainda  mais  e  somam  inimigos  voluntários  aos que não podem evitar. Pelo

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contrário, os bons tentam ser discretos e obrigam-se a louvá-los e se são provocados pelos progenitores ou injustiçados pela pátria, consolam-se a si próprios e reconciliam-se, obrigando-se a estimá-los e louvá-los. Creio eu que, muitas vezes, Simónides acreditava que ele próprio louvara e elogiara ou um tirano ou alguma outra dessas pessoas não voluntariamente mas por ter sido forçado. E é o que diz a Pítaco: «Eu, Pítaco, não te critico só por

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gostar de críticas, até porque

A mim, é-me suficiente aquele que não for mau

nem excessivamente fraco, um homem sensato que conheça

a justiça benéfica à cidade.

Esse não o censurarei eu.

e eu não sou daqueles que gostam do criticar

porque a geração dos loucos é infinita.

(de modo que se alguém se compraz em censuras poderá satisfazer-se a censurá-los a eles)

É louvável tudo aquilo com que a vergonha não se misturar.»

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Ele não faz esta observação come se, porventura, dissesse que são brancas todas as coisas as quais não foram misturadas outras pretas — o que seria, a todos os títulos, risível — agora o que ele aceita é estádios intermédios que não são passíveis de crítica. «Também não ando à procura — diz ele — entre aqueles que colhemos o fruto da terra imensa, de um homem efectivamente isento de culpa, mas, quando o encontrar, avisar-vos-ei. De modo que não louvarei ninguém por essa razão, mas ser-me-á suficiente que esteja num meio-termo e não proceda excessivamente mal; nesse caso, estou pronto a estimar  e  louvar seja  que  for.»  E,  neste  passo, ele utilizou o  dialecto dos

 
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Mitilenos, porque é contra Pítaco que ele diz esse «louvo e estimo voluntariarnente — é preciso dividir a frase aqui, no voluntariamente — todo aquele que não pratica nada de censurável; há, contudo, alguns que eu louvo e estimo contra vontade. Ora se tu, Pítaco, tivesses, nem que fosse  em

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parte, falado com razão e verdade, nunca te teria censurado. Agora, se a propósito de coisas tão importantes finges dizer a verdade, quando afinal estás a mentir, essa atitude não posso deixar de a censurar». Eis, Pródico e Protágoras — concluí eu — o que me parece que Simónides tinha em mente ao compor este poema.



Fim da interpretação do poema de Simónides por Sócrates

 

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt