Protágoras (349b— 358e)
| 349b |
A pergunta salvo
erro era esta: sabedoria, sensatez, coragem, justiça e piedade são cinco
nomes para uma única qualidade ou cada um desses nomes corresponde a uma
entidade com propriedades particulares e uma função individual, não sendo nenhuma
delas idêntica à outra?
Dizias tu, então, que não são nomes de uma única coisa mas
que cada um desses
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Regresso à
questão inicial
acerca da
virtude
As diferentes designações das
várias virtudes correspondem a
uma mesma entidade ou a entidades distintas? |
| 349c |
nomes designa uma entidade particular e que todas elas são
parte da virtude; não do mesmo modo que as partes do ouro são iguais umas às
outras e iguais ao todo, mas antes como as partes do rosto não são iguais umas
às outras nem ao todo, pois tem cada uma delas uma função particular. Se ainda
mantiveres a tua opinião de há pouco, diz-mo; mas se pensas de outro modo não o
escondas, para que eu não te esteja a pedir contas, se agora deres outra resposta.
Até porque não me admiraria se
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Sócrates recapitula o argumento de Protágoras.
Sócrates dá a Protágoras uma derradeira
hipótese de reformular a sua posição.
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| 349d |
tivesses feito antes essas afirmações para me
pores à prova.
— Bem,
Sócrates, digo-te eu que todas elas são
partes da virtude e, mais, que quatro
delas são razoavelmente próximas umas das outras, só a coragem é que é completamente
diferente das restantes. Compreenderás que é verdade o que eu te digo com
este exemplo: encontrarás, por certo, muitos homens, que são, por um lado,
tremendamente injustos, tremendamente ímpios, tremendamente desenfreados, e
tremendamente ignorantes, mas, por oposição, superiormente corajosos.
|
Protágoras reformula a sua tese.
Aceita que há semelhanças entre as diversas virtudes mas que a coragem é
completamente diferente
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349e |
— Espera lá — interrompi eu — vale a pena examinar o que estás a dizer.
Antes de mais, dizes que os corajosos são destemidos ou outra coisa?
— Sim, claro, bem destemidos e avançam em situações que outros receiam.
— Vamos ver, dizes que a virtude é uma qualidade louvável e que, como qualidade
louvável que é, tu pretendes ensiná-la?
— É, de facto, a mais louvável de todas as qualidades
— concordou ele — a menos
que eu esteja louco de todo.
— E, então, uma das suas partes pode ser louvável e outra censurável, ou é louvável na sua
totalidade?
— É louvável na totalidade mais do que qualquer outra coisa pode ser.
— Sabes, então, quem são aqueles que, mergulham destemidamente num poço?
|
Sócrates parte para a
análise da coragem.
Examina agora a questão à luz da
reformulação que Protágoras acaba de apresentar.
Contra argumentação de Sócrates
A virtude é a mais louvável das
qualidades e é-o no seu todo, i.e., todas as suas partes são igualmente
louváveis.
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350 |
— Os mergulhadores, julgo eu.
— E porque sabem desta arte ou por qualquer outra razão?
— Porque sabem.
— E quem são os destemidos no combate a cavalo? Os cavaleiros ou os que não sabem andar a cavalo?
— Os cavaleiros.
— E quem o é daqueles que combatem com escudos? Os que sabem manejar o escudo ou os que não o sabem fazer?
— Os que sabem manejar o escudo. E é assim também em todas as outras actividades, se essa é a pergunta que desejas fazer; aqueles que sabem são mais destemidos que os que não sabem e são-no mais depois de aprenderem do que antes de terem aprendido.
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Havia ficado estabelecido
acima que ser corajoso é ser destemido.
Sócrates considera então os
casos dos mergulhadores, cavaleiros e manejadores de escudo.
Todos eles são destemidos na
sua arte. Qual a razão por que isso acontece? Porque todos eles conhecem a
sua arte, i.e., têm dela um conhecimento apropriado.
Daqui se segue que ser
corajoso/destemido implica ter o conhecimento da área na qual se pratica a
acção corajosa.
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350b |
— E já viste alguns que, sem conhecerem essas actividades, sejam destemidos em
cada uma delas?
— Eu já, e bem destemidos até.
— E, então, esses homens destemidos não são também corajosos?
— No caso, seria uma vergonhosa forma de coragem. Esses o que são é loucos!
—
Ora — repliquei eu — e o que dizes tu dos corajosos? Não é que são destemidos?
|
.
Protágoras introduz o tema da loucura.
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350c |
— E continuo a dizer!
— Mas esses, os que são destemidos desta última maneira, não são corajosos e, antes, parecem loucos, não? E, por sua vez, aqueles que são mais sábios são também mais destemidos, e sendo mais destemidos são mais corajosos? E, com este raciocínio, a sabedoria também poderia ser coragem?
— Não lembras com precisão, Sócrates, o que eu disse e o que te respondi. Tu a
mim perguntaste-me se os corajosos são destemidos, eu concordei. Mas não me
perguntaste se os destemidos também são corajosos — e, se mo tivesses
perguntado, ter-te-ia respondido que nem todos — nem, quanto aos corajosos, se
podem não ser destemidos, e agora tentas demonstrar que, |
Protágoras reforça a sua
opinião: os corajosos são destemidos.
Sócrates
contrapõe: os destemidos que não conhecem a arte não são corajosos, antes
loucos
Insiste na ideia de que quem
possui o conhecimento da sua arte torna-se mais confiante e mais ousado.
Pode então a sabedoria ser coragem?
Contradição de
Protágoras:
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| 350d |
quando concordei contigo, não o fiz correctamente.
Em seguida, mostraste que aqueles que são conhecedores são mais destemidos do que esses mesmos, ou do que outros, quando não têm conhecimento, e, com estas demonstrações, parece-te que a coragem e a sabedoria são a mesma coisa. E, se fosses pelo mesmo caminho, pensarias que a sabedoria é igual à força. E então se, em primeiro lugar, me fores perguntando só os
fortes têm capacidades, responder-te-ei que sim;
e, em seguida, se os que sabem lutar |
«ser corajoso é ser
destemido» não é o mesmo que «ser destemido é ser corajoso»
Sócrates concluiu que coragem
e sabedoria são o mesmo
Protágoras distingue capacidade e
força: |
| 350e |
são mais capazes que os que não sabem lutar, e, depois de aprenderem, mais do que antes de terem aprendido, responder-te-ei que sim. E depois de eu ter concordado contigo nestas questões, fazendo uso dos meus argumentos, tu poderias avançar dizendo que eu concordara que a sabedoria é o mesmo que a força. Mas eu não concordei, nem aqui nem em sítio algum, que os que têm capacidades são fortes, e sim que os fortes têm |
|
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351 |
capacidades.
É claro que a capacidade e força não são a mesma coisa; antes, enquanto a capacidade vem do conhecimento, e também da inspiração e da impetuosidade, a força, por sua vez, vem da natureza e da robustez dos corpos. Do mesmo modo, também o destemor e a coragem não são a mesma coisa; assim, os corajosos podem ser destemidos, mas não é por esse motivo que todos os destemidos vão ser corajosos.
Destemor advém aos homens da |
Da mesma forma, distingue
destemor e coragem.
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| 351b |
habilidade, mas também do desejo e até da loucura, tal como a capacidade; agora a coragem advém da natureza e da robustez das almas.
— E dizes tu,
Protágoras, que alguns homens vivem bem e que outros vivem mal?
— Digo.
— Bom, e parece-te, por caso, que um homem pode viver bem se viver na miséria e no sofrimento?
— Não.
— E se viver a vida de modo agradável até ela terminar? Parece-te que assim poderá ter vivido bem?
— A mim parece-me.
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Sócrates recomeça o interrogatório
Sócrates introduz o tema do hedemonismo
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351c |
— Então viver a vida de modo agradável é bom e viver a vida de modo desagradável é mau, não?
— Se, na verdade, se viver a vida tirando prazer das coisas que realmente valem a pena.
— Como assim, Protágoras? Não chamas tu também, como a maioria, agradáveis a algumas coisas boas e penosas a coisas más? Pois eu pergunto-te se, na medida em que são agradáveis, não são então, por esse motivo, coisas boas, ainda que não e tenham em conta as suas outras características? E, por sua vez, não é assim também com as coisas penosas: na medida em que são penosas não são também coisas más?
— Não sei, Sócrates, se a minha resposta ao que tu perguntas pode ser assim tão simples, que as coisas agradáveis são todas coisas boas e as
penosas más.
Antes, me parece mais seguro responder — tendo em conta
|
Para Protágoras, viver a vida de
maneira agradável é bom e vice-versa. Isto implica que viver agradavelmente é
equivalente a viver bem.
Protágoras rectifica
acrescentado uma condição
o que é agradável é bom e o
que é desagradável é mau?
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| 351d |
não apenas a minha resposta de agora, mas todas as outras experiências ao longo da minha vida
— que há, de facto, coisas agradáveis que não são boas e que há também, por sua vez, coisas penosas que não são más, embora haja aquelas que o são; e, ainda, que há as de uma terceira categoria, que não são nem uma coisa nem outra, nem boas nem más.
— Mas não chamas agradáveis — insisti eu — àquelas que têm participação no prazer ou que produzem prazer?
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Protágoras afirma não ser assim tão simples a resposta que Sócrates pretende. Nem a tudo se pode responder apenas
sim ou não.
Sócrates introduz o tema do prazer
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351e |
— Certamente.
— Pois é isso mesmo que eu estou a dizer, e se não são coisas boas na medida em que são agradáveis, pergunto-me se o próprio prazer pode ser algo bom.
— Como tu dizes, a cada passo, Sócrates, examinemos a questão! E, se a tese parecer razoável e mostrar que prazer é o mesmo que bom, estaremos de acordo; mas, se não, discuti-lo-emos de seguida.
— E queres tu conduzir a investigação ou faço-a eu?
— É justo — respondeu ele — que sejas tu a conduzi-la, pois foste tu que iniciaste a discussão.
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Tal como nos raciocínios
matemáticos, se se encontrar uma tese que satisfaça o que se pedia, então a
demonstração dá-se por concluída. Caso contrário, é necessário prosseguir a
investigação para encontrar a demonstração
Protágoras concorda que as coisas agradáveis estão relacionadas com o
prazer. No entanto, há coisas que não são boas e que são agradáveis. Surge
então a questão: se o
prazer é o mesmo que bom?.
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352 |
— Haverá maneira de clarificarmos esta questão? É como se alguém, ao examinar um
homem para saber da sua saúde ou de qualquer outra das funções do seu corpo, lhe
olhasse para as mãos e dissesse: « Anda cá, descobre-te e mostra-me o peito e as
costas para que eu te possa observar com mais clareza.» eu anseio por um tipo de
investigação semelhante. Depois de ter constatado, pelas tuas palavras o que
entendes por bom e por
|
Socrates sugere então que se analise
essa
questão,
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| 352b |
prazer, quero fazer-te um pedido
semelhante: «Anda cá, Protágoras, e descobre-me o teu espírito: o que
entendes por conhecimento?» Antes de mais, é o teu parecer idêntico ao da maior
parte dos homens ou pensas de outro modo? É que a maioria das pessoas pensa
sobre o conhecimento que não é o género e coisa que tenha força ou seja capaz de
liderar ou governar. Não pensam que se trate de uma qualidade deste género,
antes que ao homem que possui conhecimento, muitas vezes, não é o conhecimento
que o governa mas qualquer outra razão: por um lado, o ímpeto; por outro, o
prazer; ou, ainda, o sofrimento; algumas vezes, o amor; e, muitas vezes o
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Sócrates questiona
Protágoras sobre o que este entende por conhecimento
.
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| 352c |
medo.
Pensam no conhecimento, simplesmente, como num escravo arrastado por todos os outros conhecimentos. Pensas tu, por acaso, algo semelhante a este propósito? Ou achas que o conhecimento é uma qualidade louvável, capaz de governar um homem e que se alguém conhecer o que é bom e o que é mau nunca será subjugado por coisa alguma e agirá segundo as regras que o conhecimento ditar? Achas que a inteligência é suficiente para proteger o homem?
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352d |
— Concordo com o que tu dizes, Sócrates, e, mais, seria para mim uma vergonha se não dissesse que a sabedoria e o conhecimento são mais importantes do que qualquer outra de todas as capacidades humanas.
— O que tu dizes está certo e é verdade. Mas sabes que a maioria dos homens não se deixa convencer nem por mim nem por ti; dizem antes que muitos, sabendo o que é melhor, não querem agir desse modo, quando podiam fazê-lo, mas agem de outra maneira. e aqueles a quem eu tenho perguntado qual a razão desse comportamento respondem que são obrigados a fazer o que fazem, dominados pelo prazer, pela dor ou por qualquer desses outros sentimentos de que eu falava ainda agora.
|
Protágoras concorda que a sabedoria e
o conhecimento são as capacidades humanas mais importantes.
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352e |
— Creio, Sócrates, que as pessoas também fazem muitas outras afirmações que não estão correctas.
— Anda comigo, então, tentar convencer esses homens e ensinar-lhes o que é essa sensação a que eles chama ser dominado pelo prazer
e a razão pela |
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| 353 |
qual não fazem o que é melhor, embora o conheçam bem.
É que talvez se lhes dissermos: «Meus amigos, o que vocês dizem não está certo; estão até enganados», eles nos perguntem: «Protágoras e Sócrates, se essa tal sensação não é ser dominado pelo prazer, é então o quê? O que dizem vocês, então, que é? Respondam-nos os dois.»
— Mas, Sócrates, é preciso estarmos nós a examinar a opinião da maior parte dos homens, quando eles dizem o que, porventura, lhes ocorre?
— Parece-me — respondi eu — que esta investigação nos é
útil para a |
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| 353b |
descoberta do que seja a coragem, do modo como se relaciona ela
com as outras partes da virtude. Se quiseres, então, manter o que acordámos
há pouco, que eu conduziria a investigação nos aspectos que me parecessem
mais relevantes para clarificar a questão, acompanha-me. Mas, se não
quiseres, se preferires, estou disposto a deixar ficar.
— Não, o que dizes está certo. Continua lá do modo como começaste.
|
|
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353c |
— Bom, vejamos mais uma vez... se alguém nos perguntar. «Ora, e que dizem
vocês que é essa sensação a que nós chamamos ser dominados pelos prazeres?»
Eu, pela minha parte, responder-lhes-ia o seguinte: «Escutem, então, porque
Protágoras e eu vamos tentar explicar-vos. Dizem vocês, meus amigos, que
acontece, nalgumas circunstâncias — pode até ser que muitas vezes — ser-se
dominado pelos prazeres, da comida, da bebida, do sexo, e que se age de
acordo com eles, mesmo sabendo que são coisas prejudiciais?» Diriam que sim.
Então, de novo, seríamos tu e eu a perguntar-lhes: «Em que medida dizem que
essas coisas
são prejudiciais?»
Porque proporcionam esse |
Sócrates recomeça a discussão
anterior sobre o prazer e o bem.
|
| 353d |
prazer, nesse mesmo momento, e cada uma delas é
agradável ou porque, tempo depois, provocam doenças e pobreza e causam
muitas outras desgraças semelhantes? Ou, mesmo que, porventura, tempos
depois não causassem nenhuma destas consequências negativas, antes
contribuíssem apenas para trazer prazer?» Será possível acharmos,
Protágoras, que nos darão alguma outra resposta salvo que não são más pela
produção desse |
|
| 353e |
prazer momentâneo mas pelo que advém posteriormente, doenças
e outras desgraças?
— Eu, por mim, penso — assentiu Protágoras que a maior parte responderá dessa maneira.
— «Ora e, então, trazendo doenças não trazem desgraça e, trazendo pobreza, não trazem desgraça?» Penso eu que também concordariam.
Protágoras tornou a dizer que sim.
— «E não vos parece também, meus amigos, que, tal como afirmamos Protágoras e eu, estas coisas não são más por nenhum outro motivo que não seja por culminarem em desgraça e privarem o homem dos outros prazeres?» Iriam concordar?
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354 |
A ambos nos pareceu que sim.
— Bem, e se lhes fizéssemos uma nova pergunta, ao contrário: «Meus amigos, aqueles de vocês que dizem que há coisas boas penosas, não o dirão, por acaso, daquelas que podem, por exemplo, resultar do exercício físico, das campanhas militares, do tratamento feito pelos médicos, através de cautérios, amputações, medicamentos e privação de alimentos
— porque essas, embora penosas, são boas?» Diriam que sim?
— Também me parece.
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354b |
— «Então, antes de mais, chamam boas a essas coisas porque, tempos depois, delas advêm robustez e boa condição física para os corpos, salvação para as cidades, poder sobre os outros e riquezas?» Por mim, penso que seria por esta última razão.
— Também me parece.
«Então, essas coisas são boas por qualquer outro motivo ou porque culminam em
prazer, libertando e prevenindo de dores? Ou, observando estas coisas a que chamam boas, dirão vocês que têm qualquer outro fim
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| 354c |
que não prazeres e
dores?»
Quero admitir que diriam que sim.
— A mim também me parece — continuou Protágoras.
— «Então procuram o prazer porque é bom e fogem da dor porque é má, não?»
— Acho que sim.
— «E, por certo, pensam que a dor é algo mau e que o prazer é bom; embora afirmem que mesmo o que agrada também é mau, quando priva de prazeres maiores que os que ele próprio proporciona, ou quando culmina em dores maiores que esse mesmo prazer.
Contudo, se chamam mau a ter prazer por
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| 354d |
qualquer outra razão ou pela observação de qualquer outro
resultado, então, avisem-nos. Decerto, não vos será possível!»
— Também me parece que não — concordou Protágoras.
—
«Agora, mais uma vez, pode o mesmo raciocínio aplicar-se ao sofrimento das
dores? Chamam bom a ter uma dor quando ela liberta de dores maiores que essa ou
quando culmina em prazeres maiores que as dores? Claro que se vocês tiverem observado algum outro resultado, para poderem chamar
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| 354e |
bom a ter dores, que não apenas o que eu digo, avisem-nos, por favor. Decerto
não vos será possível!»
— É verdade o que dizes — concordou Protágoras.
—
«Uma vez mais, ainda meus amigos — insisti eu — se me perguntassem: "Mas por que razão te demoras a levantar tantas e tão variadas questões sobre este assunto?". Desculpem-me
— diria eu — em primeiro lugar, não é fácil demonstrar o que é essa sensação a que se chama ser dominado pelo prazer; depois, só a partir dessa demonstração posso esclarecer todas as
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355 |
outras dificuldades.
Mas agora ainda é
possível recuar, se quiserem dizer que o que é bom é qualquer outra coisa que não prazer e o mal qualquer outra coisa que não a desgraça. Ou chega-vos que o prazer seja viver a vida sem dores? Se chega e não são capazes de distinguir uma coisa boa de uma coisa má, a não ser que resulte nesse estado, escutem o seguinte: digo-vos, com efeito, que essa opinião invalida a nossa discussão, uma vez que dizem que, muitas vezes, o homem sabe que as más acções são más acções e pratica-as na mesma, sem ser obrigado a fazê-lo, empurrado e oprimido
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| 355b |
pelos prazeres.
E, logo a seguir, dizem que o homem que conhece quais as boas acções não está disposto a praticá-las, por causa de prazeres momentâneos, por ser dominado por eles. Que se trata de um raciocínio ridículo ficará bem claro, se não utilizarmos tantos nomes ao mesmo tempo, prazer e dor, bom e mau; mas, já que parecem ser apenas duas as situações,
demos-lhes apenas dois nomes, em primeiro lugar bom e mau, depois
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| 355c |
prazer e dor.
Fiquemos assim e digamos que o homem que sabe que as más acções são más, as
pratica na mesma». E se alguém, então, nos perguntar: «Por que razão?»,
responderemos: « Porque está dominado.» «Por quem?», perguntar-nos-á ele.
Nós, aí, já não vamos poder dizer que pelo prazer — é que o outro nome que
substitui esse prazer é o bom. Assim, se respondermos dizendo «Dominado»,
ele perguntará: «Por quem?», e nós, por Zeus, responder-lhe-emos que pelo
que é bom. Ora, se se der o caso de o nosso interlocutor ser um insolente,
vai ficar a a rir-se e a dizer: «Mas que
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.
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| 355d |
resposta
disparatada!
Que alguém pratica más acções, sabendo que são más e que não as deve praticar, por estar dominado por coisas boas. Pensam vocês, por acaso
— continuará ele
— , que as coisas boas não são merecedoras de vencer as más... ou que o são?» É óbvio que ao responder diremos que não são; caso contrário, este homem que dizemos ser dominado pelos prazeres não cometeria qualquer falta. «Mas por que razão
— perguntará ele talvez — têm as coisas boas menos valor que as más ou as más
que as boas? Por alguma outra razão que não seja serem umas maiores
|
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| 355e |
e outras menores?
Por haver maior quantidade de umas e menor quantidade de outras?» Não teremos possibilidade de dar outra resposta. «É óbvio, então
— dirá — que essa sensação a que chamam ser dominado é trocar grandes males por pequenos bens». E assim é! Reponhamos, então, os nomes de prazer e dor para estas mesmas coisas e digamos que um homem pratica acções, a que antes chamámos más e
agora chamaremos penosas, sabendo que são penosas, dominado pelos prazeres que, é óbvio,
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356 |
não merecem vencer.
E em que outra medida falta valor ao prazer face à dor, senão por excesso ou falta de um em relação ao outro? E este desequilíbrio advém de terem maior ou menor tamanho, maior ou menor quantidade, mais ou menos força. Com efeito, se alguém disser. «Mas, Sócrates, há uma grande diferença entre prazer momentâneo e o prazer e a dor que vêm com o tempo», eu, pela minha parte, responder-lhe-ei que não, decerto, por outra razão senão por serem prazer ou dor. Não há mesmo outro motivo!
|
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| 356b |
Mais, é como se um homem bom em pesagens, somando prazeres com prazeres e
somando dores com dores, depois de ajustar na balança a proximidade e a
distância, disser quais são as maiores; porque se pesares prazeres com
prazeres terás que aceitá-los sempre com dores em menor número e em menor
tamanho. Agora, se forem prazeres com dores, se os prazeres as excederem, seja
a proximidade menor que a distância ou a distância menor que a proximidade, terás que agir segundo o que estes
|
|
| 356c |
ditarem. Se forem as dores a
exceder os prazeres, não terás que o fazer.
«Não é assim, meus amigos?», perguntei eu. Sei bem que não poderiam responder outra coisa.
Ele era da mesma opinião.
— «Bom, já que é assim, pedirei que me respondam ao seguinte: parece-vos que, aos nossos olhos, o tamanho das mesmas coisas é maior se estão perto e menor se estão longe, ou não?» Vão responder que sim. «E não é o mesmo com as espessuras e as quantidades? E os mesmos sons não são mais fortes se estão perto e mais fracos se estão longe?» Diriam que
sim. «Ora
|
A arte do
comedimento
|
| 356d |
se o nosso bem-estar reside nesse pormenor, no de lidar e escolher
segundo as grandes quantidades e evitar agir segundo as pequenas, em que
julgaremos nós que se encontra a salvação da nossa vida? Na
arte do comedimento
ou no poder das aparências? enquanto este nos ilude e leva, muitas vezes, a
altos e baixos na adopção das mesmas coisas e a recuar diante dessas acções ou
das escolhas das coisas grandes e das pequenas; o comedimento, pelo contrário, poderá afastar essa ilusão e, mostrando a
|
|
| 356e |
verdade, dar à
alma a posse de uma serenidade que lhe permita conservar essa verdade e salvar
a nossa vida».
Depois desta exposição será que os nossos interlocutores concordariam que é na arte do comedimento que poderá estar a nossa salvação, ou na outra?
— Na do comedimento.
—
Ora, e se a salvação da nossa vida estivesse em escolher entre par ou ímpar, ou na necessidade de fazer uma escolha correcta, numa determinada altura, de uma grande quantidade e, noutra, de uma pequena, ou entre uma coisa e essa mesma coisa, ou entre uma coisa e outra diferente, ou entre algo que está perto e algo que está longe? O que poderia salvar a
|
|
| 357 |
nossa vida? O conhecimento, não?
E, decerto, também algum comedimento já que é a arte que está ligada ao excesso e à falta, não? E tratando-se de pares e ímpares, seria precisa outra qualquer arte para além da aritmética? Os nossos interlocutores concordariam ou não?
A Protágoras parecia-lhe que sim.
— «Óptimo, meus amigos. Já que chegámos à conclusão de que a salvação da nossa
vida está na escolha correcta entre prazer e dor, em maior e menor
|
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| 357b |
número, em maior e menor
tamanho, maior ou menor distância, não parecerá, em primeiro lugar, que está no
comedimento, uma vez que é a observação do que é excesso, falta ou igualdade
face às outras coisas?»
— Ora, é forçoso que sejam assim.
— «E já que se trata de comedimento, suponho que forçosamente será também uma
arte de conhecimento».
— Hão-de dizer que sim.
— «Já veremos, daqui a pouco, que tipo de arte e de conhecimento são estes. Que
se trata de conhecimento, eis o que é suficiente para a demonstração de
que Protágoras e eu necessitamos para respondermos ao
|
|
| 357c |
que nos foi perguntado.
Essa pergunta foi feita, se estão lembrados, quando nós acordámos, um com o outro, que nada é superior ao conhecimento e que ele supera sempre as restantes qualidades, onde quer que esteja, quer se trate de prazer quer se trate de todas as demais. Ora, diziam vocês que o prazer, muitas vezes, supera até o homem que possui conhecimento, e, quando nós discordámos, nessa altura, perguntaram— nos: " Protágoras e Sócrates, se essa situação, o ser dominado pelo prazer, não existe, então é o
quê, que lhe chamam vocês? Digam lá." Se
vos tivéssemos respondido, logo
|
|
| 357d |
de imediato: "Ignorância", ter-se-iam rido de nós. Mas agora se se rirem de nós, estarão a rir-se também de vocês próprios, uma vez que concordaram que, quando se erra na escolha em matéria de prazeres e dores
— ou, o mesmo será dizer, de coisas boas e más — se erra por falta de conhecimento; e não só de conhecimento mas também
— ainda há pouco concordaram — de
comedimento. E sabem, certamente, também que errar
|
.
|
| 357e |
por falta de conhecimento é agir com ignorância.
De modo que o ser dominado pelo prazer é isto, a maior das ignorâncias, para qual aqui o nosso Protágoras diz ser
médico, e também
Pródico e
Hípias. Mas vocês, que pensam que é outra coisa qualquer que não ignorância, em vão nem enviam os vossos filhos para junto dos que são mestres nestas matérias, os Sofistas aqui presentes. Como não o vêem como algo ensinável, guardam o vosso dinheiro, em vez de lho dar a eles, e agem de modo errado tanto nos assuntos particulares como nos comunitários». Esta é, pois, a
resposta que
|
Socrates chama á conversa
Pródico
e
Hípias
|
| 358 |
teríamos dado à maioria.
Agora, pergunto-vos — e da parte de Protágoras também — ó
Hípias
e
Pródico (podem bem responder os dois em conjunto), parece-vos que estive a dizer a verdade ou a mentir?
A todos, unanimemente, parecia que o que eu dissera era verdade.
— Concordam, então — continuei eu — que o prazer é uma coisa boa e a pena uma
coisa má. Mas vou pôr de parte a distinção dos nomes do nosso Pródico! Seja lá o
que for que tu lhe chames, prazer, deleite, gosto,
|
Acordo
de Hípias e Pródico
|
| 358b |
ou
qualquer outro
nome que te agrade, meu caro
Pródico, quero que me respondas ao que pergunto.
Pródico, então, riu e concordou comigo, tal como os outros.
— Como é, então, meus senhores? — perguntei eu. — Todas as acções que conduzem a este fim, que conduzem a uma vida de prazer e isenta de dor, não são louváveis? E uma actividade louvável não é boa e útil?
Ele concordou.
— Se, então, o prazer é bom, nenhum homem, nem aquele que sabe que sabe, nem
aquele que pensa que há coisas melhores do que as que faz, e
|
|
| 358c |
pode fazer, fará essas,
podendo fazer as melhores; nem ser-se dominado por algo é mais que ignorância,
nem ser senhor de si próprio mais que sabedoria.
Todos concordaram.
— E então? É a esse estado que chamam ignorância? A ter uma falsa opinião e estar enganado a propósito de muitos assuntos importantes?
Também neste ponto concordaram todos.
— Ora, decerto, ninguém
escolhe voluntariamente o caminho para as coisas más, nem para as que pensa
serem más. Uma atitude dessas, querer ir atrás das coisas que se pensa serem
más, preterindo as que são boas, não é, pelo
|
Tese central de Sócrates:
Ninguém
voluntariamente
escolhe o mal
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que me parece, própria da
natureza humana.
E quando é forçoso que se escolha uma de duas coisas más, escolhe alguém a maior, podendo escolher menor?
Todos nós estávamos de acordo com tudo o que fora dito.
— E agora, a que chamam vocês temor e medo? Ao mesmo que eu, não? (Pergunto-te a ti,
Pródico.) Eu dou esse nome a uma certa expectativa face a algo mau, quer lhe chamem temor, quer lhe chamem medo.
Protágoras e
Hípias achavam que era tanto temor como medo; para
Pródico, temor sim mas não medo.
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Acerca do Medo e do Temor |
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358e |
— Mas esse pormenor não faz diferença, Pródico. A questão é esta: se o que foi dito antes é verdade, algum homem, por acaso, quererá seguir esse caminho, o das coisas que causam temor, podendo seguir esse caminho, o das coisas que causam temor, podendo seguir o das que não o fazem? Ou é impossível, depois do que concluímos?
É que, quanto às coisas que causam temor, ficou acordado que são tidas como más. E ninguém segue nem escolhe, voluntariamente, para si as coisas que acreditam serem más.
Assim pareceu também a todos. |
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