Introdução |
Este trabalho surgiu no âmbito da cadeira "Seminário Temático", do 4º ano do curso de Ensino da Matemática durante o ano lectivo de 1999/2000. Sendo o tema deste Seminário Da Matemática à reflexão sobre a Matemática, tivemos a oportunidade aprofundar os nossos conhecimentos sobre alguns dos grandes problemas da filosofia da matemática, nomeadamente, o problema dos fundamentos. Surgiram então, de forma inevitável, os nomes de Bertrand Russell e Gottlob Frege, dois monumentos da História e da Filosofia da Matemática que, incansável e admiravelmente, tentaram encontrar-lhe um fundamento lógico seguro.
Através da Prof. Olga Pombo tomámos conhecimento com duas das inúmeras cartas que Russell e Frege trocaram entre si e, a partir daqui, entrámos num episódio fantástico da
História da Matemática que foi para nós uma enriquecedora alegria conhecer.
O estudo que efectuámos proporcionou-nos o contacto com algumas questões que, durante muitos séculos, preocuparam matemáticos e filósofos e que perduram ainda nos nossos dias. Uma dessas questões, decisiva tanto para Frege como para Russell, diz respeito à tentativa de construção de uma simbologia adequada ao rigoroso trabalho da matemática.
O grande antecedente é o
projecto Leibniziano de construção de uma Characteristica Universalis, uma linguagem clara e rigorosa que não
estivesse sujeita aos constrangimentos das linguagens naturais. Como mostra Olga Pombo, face à
consciência dos limites das
línguas existentes às quais é imputada a responsabilidade pelas dificuldades de
comunicação e demais imperfeições discursivas, ele chama a si o
projecto de construir uma língua universal pensada como
una, única, perfeitamente regular, susceptível de permitir um conhecimento adequado e a
comunicação plena dos homens entre si e destes com o mundo e de, assim, reconduzir o
homem à situação ideal e mítica anterior a Babel.1 Aliás,
é essa a justificação para a escolha da gravura de Bruegel sobre A Torre de
Babel2 como capa do nosso trabalho.
Na linha do projecto Leibniziano, Frege, no princípio do século XX, empreendeu a árdua
tarefa de construção de uma ideografia, possuidora do rigor e clareza que todos
desejavam. Neste sentido, dedicou grande parte da sua vida à realização de uma
notação conceptual ou ideografia -Begrifffsschrift- capaz
de responder às exigências de rigor formal e de libertar a lógica das relações
com a gramática da linguagem do quotidiano. Nas cartas que enviou a Frege,
Russell reconhece a importância do trabalho desenvolvido por Frege e revela-se
de acordo com a posição Logicista defendida pelo matemático alemão, que é também uma das questões abordadas no nosso trabalho.
A pedra angular do nosso trabalho são porém as duas primeiras cartas entre Russell e Frege: a carta em que Russell comunica a Frege a descoberta do Paradoxo e a cartaresposta de Frege.
1- Pombo,O. (1997), Leibniz e o problema de uma língua universal. Lisboa :Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, p. 14.
2- A Torre de Babel
(1563), Pieter Bruegel, o Velho