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        Leibniz é o primeiro lógico, matemático e filósofo a mostrar a importância de um conhecimento que não tem necessidade da intuição do seu objecto e que, justamente por esta razão, apelida de pensamento cego ou simbólico (cogitatio caeca vel symbolica).

        Como Leibniz escreve: « quando penso num chiligone, ou seja, num polígono de mil lados, não considero sempre o que é um lado, uma igualdade, o número mil (ou o cubo de dez), mas sirvo-me mentalmente dessas palavras (cujo sentido sem dúvida apenas confusa e imperfeitamente está no meu espírito) para que elas tomem o lugar das ideias que delas tenho porque tenho consciência de possuir a significação dessas palavras e julgo que a sua explicação não é necessária no momento. Chamo a este conhecimento cego ou ainda simbólico; fazemos uso dele na álgebra e na aritmética e em quase todos os domínios». ( cit. in  Pombo, 1991: 18).

        Como diz Olga Pombo (Argumento, 1991: 18), «o exemplo do chiligone, como exemplo retirado da geometria, é particularmente significativo uma vez que é o tipo de pensamento que, segundo Leibniz, constitui o próprio segredo das matemáticas, a causa principal do seu sucesso. Ao contrário de Descartes, para quem a certeza das matemáticas se funda no carácter intuitivo dos seus objectos e princípios e para quem, portanto, o simbolismo não é mais do que um suporte imaginativo, meio unicamente auxiliar e facilitador do pensamento geométrico, para Leibniz - que parte sobretudo de uma experiência aritmética e algébrica onde a simbolização desempenha efectivamente um papel muito mais constitutivo do que na geometria - para Leibniz, dizíamos, é apenas a redução das operações mentais a operações simbólicas - operações que não custam mais do que "tinta e papel", como ele amiúde repete - que pode garantir o rigor formal e portanto a necessidade lógica das suas operações. A certeza das matemáticas resulta precisamente da utilização que elas fazem do simbolismo, o qual permite, não apenas guiar, mas também substituir o raciocínio dispensando-o de pensar, clara e exaustivamente, as ideias que manipula e que pensa "cegamente"».

        Significativamente, para Leibniz, não apenas os conceitos matemáticos mas a quase totalidade das nossas ideias são, como a do chiligone, ideias que envolvem uma multidão de determinações (polígono, lado, mil); ideias que só virtualmente podemos pensar de forma absoluta. Ideias estas que, «sendo elas próprias símbolos das suas múltiplas determinações, remetem sempre, na sua singularidade conceptual presente (chiligone) , para o horizonte de todas as ideias que elas envolvem (polígono, lado, mil) mas que nunca são dadas de forma adequada. Cada ideia comporta assim uma tensão permanente entre o uno da sua compreensão actual (mais ou menos confusa, mais ou menos distinta) e o múltiplo da sua análise última (sempre possível mas nunca actualmente realizável)» (Leibniz, cit in Pombo, 1991: 19).

        O que significa isto ? Significa que, como mostra Pombo (1991),  Leibniz é também o primeiro a perceber que não há pensamento sem linguagem, que a linguagem não é apenas um meio de comunicação mas um poderoso medium de conhecimento.

Olga Pombo opombo@fc.ul.pt