O Paradoxo

                                 A Resposta ao Paradoxo

                                

                             


O Paradoxo

 

O problema colocado no Ménone é o da virtude. Embora Sócrates afirme não saber o que é a virtude, propõe uma investigação no sentido de descobrir o que esta é. Ménone sugere várias respostas, mas Sócrates rebate-as  sempre, utilizando o seu famoso método elenctico. Este método consiste no contra-interrogatório do interlocutor, apelando Sócrates a várias hipóteses devidamente escolhidas. Levado a cair em contadição, o nterlocutor descobre então, contrariamente àquilo em que inicialmente acredita, que não sabe a resposta à pergunta de Sócrates.  

Os diálogos socráticos normalmente terminam desta forma, com o interlocutor em desvantagem (numa situação de onde não tem saída). Contudo, neste diálogo, as questões vão um pouco mais longe. Ménone desafia Sócrates de forma directa pondo em causa o direito de ser questionado por Sócrates uma vez que o próprio Sócrates afirma nada saber acerca do assunto. É neste contexto que  Ménone formula o paradoxo conhecido, justamente, por «Paradoxo de Ménone» 

"Ménone - E como hás-de encontrar uma coisa de que não sabes absolutamente nada? Na tua ignorância, que princípio tomarás para te guiar nesta investigação? E se, por acaso, encontrasses a virtude, como a reconhecerias, se nunca a conheceste? "

Sócrates reformula o paradoxo da seguinte forma:

"Sócrates- Compreendo, Ménone, o que queres dizer. Que magnífico argumento para uma discussão! Não é possível o homem procurar o que já sabe, nem o que não sabe, porque não necessita de procurar aquilo que sabe, e, quanto ao que não sabe, não podia procurá-lo, visto não saber sequer o que havia de procurar."

Podemos assim verificar que Ménone propõe três questões:

i)    Como podemos procurar algo sobre o qual nada sabemos?

ii)    Qual das coisas de que nada sabemos será a que estamos a procurar?

iii)    Como  podemos reconhecer o que estamos a procurar, mesmo que o encontremos?

 

A reformulação de Sócrates tem a forma de um dilema :

1)    Para qualquer x, ou conhecemos, ou não conhecemos, x;

2)    se conhecemos x, não podemos procurar x;

3)    se não conhecemos x, não podemos procurar x;

4)    portanto, quer conheçamos ou não x, não podemos procurar x.

O argumento parece válido. 1) não oferece qualquer problema, trata-se apenas da lei do terceiro excluído, que conhecemos da Lógica. 2) e 3) procuram mostrar que qualquer que seja a opção a investigação, ou a procura, de x é impossível. Finalmente 4) conclui objectivamente que a investigação, ou procura, de x é realmente impossível . Todavia, apesar desta argumentação parecer válida, podemos questionar a sua real aplicação. Como já referimos 1) não apresenta qualquer ambiguidade, mas será que 2) e 3) podem ser aceites da mesma forma?

Em defesa de 2), Sócrates apenas diz que, se já conhecemos, não existe necessidade de procurar. Contudo, é possível rebater este argumento com um contra-exemplo: "Posso saber algo de Física e no entanto querer saber mais". Claro que se sei tudo sobre Física então não existe a necessidade de procurar saber mais, mas seguramente que  o conhecimento das coisas não é total, geralmente o nosso conhecimento é apenas parcial. Por esta razão 2) parece falso.

Por outro lado, 3) também parece falso. Mesmo que a nossa ignorância de x fosse completa, m,esmo que não tivéssemos qualquer ideia acerca do que se trata, isso não significaria que não tivéssemos algumas hipóteses, ou sugestões, sobre o que é x; e desta forma seria adequado investigar essas mesmas hipóteses.

Como será que Platão interpreta este problema?

Podemos compreender que Platão esteja especialmente preocupado com 3). Ou pelo menos espera-se que esteja perturbado com 3) se toma seriamente a renúncia de Sócrates ao conhecimento, pensa que Sócrates estava genuinamente a investigar, através do método elenctico, num esforço para encontrar o conhecimento moral e quer também defender Sócrates. No entanto se 3) é verdadeiro, Sócrates não pode, como reivindica, procurar o que quer que seja na ausência do conhecimento daquilo que se procura. 

Vejamos então como Platão abandona o procedimento socrático, um procedimento que requer a falsidade de 3), em favor de um outro programa epistemológico.

 

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A Resposta ao Paradoxo

 

Em resposta ao paradoxo proposto por Ménone, Sócrates descreve, inicialmente, uma história de sacerdotes e sacerdotisas de acordo com a qual:

"Sócrates - Sacerdotes e sacerdotisas que se aplicaram a investigar tudo quanto respeita ao seu ministério. Também tenho por verdadeiramente divinos Píndaro e outros poetas. É isto que dizem: examina se será justo. Dizem que a alma é imortal, e tão depressa emigra (chamando-se a isto morrer) como reaparece sem nunca ser destruída; por isso convém viver o mais piedosamente possível, porque as almas daqueles que pagaram a Perséfone a dívida das suas antigas faltas, são devolvidas à luz do Sol, ao fim de nove anos. Destas almas saem os reis ilustres, celebres pelo seu poder, os homens notáveis pelo seu saber, honrados como santos heróis pelos mortais. Assim, a alma imortal, nascida muitas vezes, tendo contemplado todas as coisas sobre a terra e na morada de Hades, aprendeu tudo quanto é possível. Portanto, não é para admirar que possua, quer acerca da virtude quer de tudo o mais, reminiscências dos seus conhecimentos anteriores. Sendo solidária toda a natureza e tendo a alma prévio conhecimento de tudo, nada impedirá que, relembrando uma coisa qualquer (é a isto que os homens chamam aprender), encontre todas as outras, por si mesma, sempre que tenha coragem e não se canse de investigar. Com efeito, o que se chama. investigar e aprender não é mais que recordar. Não devemos, portanto, dar crédito ao argumento, para uso de palradores, que apresentaste há pouco; tornar-nos-ia preguiçosos e só agrada aos caracteres frouxos. 0 meu, pelo contrário, incita ao trabalho e à investigação. É por isso que o considero verdadeiro; e quero, por consequência, investigar contigo em que consiste a virtude."

Esta é a famosa Teoria da Reminiscência, de acordo com a qual a alma é imortal e, numa vida anterior, conheceu "a virtude e outras coisas". Por essa razão, o que é denominado "aprender" nada mais é do que a recordação daquilo que anteriormente se conheceu. Ménone manifesta não compreender o que significa que aprender é apenas recordar e pede a Sócrates que lhe ensine o que quer dizer, ao que este replica que, uma vez que aprender é recordar, é o conceito de ensinar que não faz sentido, pelo que não lhe pode ensinar que aprender é apenas recordar. Mas diz que, de qualquer forma, irá mostrar a Ménone que assim é.

Sócrates começa então, através do método elenctico, a interrogar um dos escravos de Ménone. Platão mostra neste diálogo que a utilização deste método, contrariamente ao que acontece noutros diálogos socráticos, não tem de terminar de forma aporética, podendo ao contrário levar ao conhecimento. Para demonstrar esse facto Sócrates questiona o escravo até que este pronuncie a resposta correcta ao problema da duplicação da área dum quadrado por si proposto. Esta etapa do questionamento  mostra que se pode ir além da ignorância com uma adequada articulação de hipóteses.

Portanto, se o escravo pode encontrar o conhecimento da Geometria também nós o podemos encontrar. Não existe algo de muito especial na Geometria. A busca de sabedoria é possível para qualquer assunto, incluindo a virtude, pelo que Sócrates conclui que têm que regressar à busca acerca da virtude, mesmo que não saibam do que se trata.

Platão rejeita, portanto, a conjectura 3) do paradoxo. Ao contrário de 3) podemos procurar conhecer o que quer que seja, mesmo que nos falte conhecimentos sobre o assunto, uma vez que o escravo o acabara de fazer. O escravo pode conhecer, ainda que lhe faltem completamente os conhecimentos, porque tem algumas hipóteses sobre o assunto e também capacidade de reflectir de forma racional, corrigindo as suas hipóteses, sendo estas as bases necessárias para a busca do conhecimento.

Diversas são as objecções para as pretensões de Platão acerca da força do método elentico. Consideramos algumas delas, com a respectiva resposta elentica:

 

Como podemos saber qual das nossas hipóteses são verdadeiras e quais são falsas? As hipóteses não estão rotuladas de "verdadeiras" ou "falsas"; o que nos poderá impedir de confiar nas falsas? O simples facto de termos hipóteses sobre um tema não é suficiente para basearmos a nossa busca da verdade.

 

Platão assume que podemos investigar, mesmo na falta de conhecimentos, desde que realmente tomemos como base hipóteses verdadeiras; mas nunca assume que o podemos fazer se soubermos que as nossas hipóteses são verdadeiras. Obviamente que na nossa perspectiva pessoal, a justificação subjectiva para a investigação só faz sentido se acreditarmos que nos baseamos em hipóteses verdadeiras. Contudo, não necessitamos da capacidade de identificar quais das nossas hipóteses são verdadeiras para começar a investigar. É necessário distinguir entre a questão do que torna a investigação possível e a questão do que justifica que estamos em condições de investigar, na nossa perspectiva pessoal. Nestes casos será que necessito saber quais das minhas hipóteses são falsas e quais são verdadeiras?  No primeiro caso, é necessário ter hipóteses realmente verdadeiras e, no segundo, só tenho de acreditar que as hipóteses são verdadeiras. De uma forma ou de outra o que se requer é sabermos (ou ter uma hipótese sobre) quais das hipóteses são realmente verdadeiras.

 

Sócrates não demonstrou que a investigação é possível na ausência de sabedoria. Mesmo que o escravo tenha ausência de conhecimentos, Sócrates possui um conhecimento mais significativo, e é isso que faz com que haja progresso na descoberta.

 

Sócrates não tem a pretensão de que sabe as respostas para todas as suas questões; talvez só tenha uma hipótese correcta sobre essas respostas. Contudo, mesmo que Sócrates soubesse, ou acreditasse que soubesse as respostas, este facto não serviria para deitar por terra a demonstração elentica. Mesmo sendo Sócrates a conduzir o interrogatório, em momento nenhum ele fornece ao escravo as respostas. Pelo contrário ele enfatiza que o escravo não deve deixar-se levar pela sua autoridade, dizendo aquilo em que realmente acredita. O escravo assume esta postura, pois como vemos no diálogo, responde erradamente duas vezes a Sócrates, justamente por ser acrítico  perante o que este lhe dizia. O progresso efectuado pelo escravo - desde a falta de confiança inicial, passando pela conscientização da sua ignorância, até a descoberta da resposta certa - dfica por isso a dever-se à sua capacidade de reflectir. Os conhecimentos de Geometria de Sócrates, ou as suas hipóteses, fazem com que o método elentico seja aplicado rapidamente e de forma eficaz. Mas não é o que o torna possível. O que torna o método elentico possível são as hipóteses que o escravo tem sobre o assunto e a sua capacidade de reflexão.

 

Se considerarmos que podemos investigar em geometria na ausência de conhecimentos então podemos considerar que o paradoxo foi desarmado. Isso seria afirmar que podemos abandonar 3).  Esta objecção é, contudo, pertinente, mas será que o conhecimento geométrico é assim tão diferente do conhecimento moral? No caso geométrico partimos de hipóteses sobre um determinado assunto e analisamos essas hipóteses até atingir o conhecimento sobre o assunto; no caso da moral não podemos proceder de forma dedutiva rigorosa mas por tentativas e erros.

 

A analogia entre a matemática e a moral não é convincente, uma vez que o que nos possibilita o progresso no caso científico é a avaliação dos exemplos significativos; mas quais são os exemplos do género que estão disponíveis no caso da moral ?

 

A resposta é: exemplos de um comportamento virtuoso. Apesar de Sócrates negar que saibamos o que é a virtude, nunca nega, pelo contrário assume que temos hipóteses bastante credíveis acerca do que esta é. Parece-nos que Sócrates insiste, ao contrário do que foi dito, em afirmar que no caso moral as disputas são irresolúveis, no entanto, apesar deste acreditar que existe pouca concordância na definição  dos termos  e alguma discordância em casos morais em particular, acredita que existe consenso suficiente para assegurar a referência aos termos e desta forma possibilitar a investigação.

 


Olga Pombo opombo@fc.ul.pt