Para uma história da ideia de enciclopédia. Alguns exemplos

A Enciclopédia no Século XIX e primeira metade do Século XX

Durante o século XIX, esse século que Pierre Larousse (1866: V) classificava como "o século dos dicionários", foram editadas inúmeras enciclopédias. Em geral, o movimento enciclopedista sofreu, em todos os países, o abalo provocado pelo imenso sucesso da Encyclopédie, sucessivamente reeditada e finalmente reestruturada na monumental Encyclopédie Méthodique de Panckoucke (1782-1832) em 201 volumes.

Trata-se, no fundo, do retomar da Encyclopédie na sua globalidade, incluindo os onze volumes de gravuras publicados entre 1762 e 1772, de acrescentar alguns suplementos e, sobretudo, de reagrupar as entradas, organizando-as de novo por disciplinas. Por exemplo, Panckoucke reúne em três volumes, sob o título genérico de Grammaire et Litterature, um conjunto, mais ou menos arbitrário, de entradas da Encyclopédie. A este propósito veja-se o estudo já citado de Kuentz (1977) que analisa as implicações teóricas e as consequências epistémicas da inclusão, nesse conjunto, da entrada "retórica", a qual, na Encyclopédie era constantemente reenviada a um contexto pedagógico. Uma outra diferença digna de nota diz respeito ao facto de Panckoucke ter tido a pretensão de suplantar a Encyclopédie no que diz respeito ao nível científico dos seus colaboradores, pretensão esta que se fez efectivamente sentir apenas a nível da Botânica, área na qual obteve efectivamente a colaboração de Lamarck (1744-1829). Sobre Panckoucke e a sua Encyclopédie Méthodique, veja-se Moureau (1990: 110-114).

Em França, vão ser publicadas, entre outras (por exemplo, a Encyclopédie Moderne (1824-1832) de M. Courtin, em 24 volumes), duas obras monumentais: o Grand Dictionnaire Universel du XIX`emeSiècle  (1866-1890) de Pierre Larousse, em 15 volumes, e a Grande Encyclopédie, inventaire raisonné des sciences, des lettres et des arts (1886-1903), em 31 volumes, dirigida por André Berthelot e Ferdinand-Camile Dreyfus, ambas de orientação positivista, guiadas pela exigência de objectividade, imparcialidade e exaustividade, e directamente inspiradas na classificação das ciências de Augusto Comte.

Como Pierre Larousse explica no Préface do seu Dictionnaire, o regresso e adopção da designação de dicionário em vez de enciclopédia  fica a dever-se à importância que quis conferir à parte lexicográfica da enciclopédia, não só à língua como também à "ciência da linguagem", a grande "ciência nova" na qual inclui a filologia comparada, a etimologia, a fonologia, a glossologia, a linguística e a mitologia comparada. (cf. Larousse, 1866: LXV- LXVIII). O sucesso do Dictionnaire foi imenso, tendo sido vendidos 44.000 exemplares só entre 1859 e 1860. Para mais detalhes informativos, cf. Moureau(1990: 208-211).

Mas, não foi só em França que se multiplicaram as enciclopédias. Definitivamente adoptada a língua nacional como elemento constitutivo da enciclopédia moderna, todos os países quiseram ter a sua enciclopédia, escrita na sua língua nacional.

Em Espanha e em Portugal só no começo do século XX aparecerão enciclopédias dignas de nota. É o caso da Enciclopedia universal ilustrada europeio-americana, vulgarmente designada pelo nome do seu editor como Enciclopédia Espasa, publicada em Barcelona entre 1905-1930, da Encyclopedia portuguesa ilustrada de Maximiano Lemos, publicada no Porto em 1910 e da Grande Enciclopédia portuguesa e brasileira (1935-1937), em 38 volumes. Para mais informação sobre outras enciclopédias nacionais do séculos XIX e XX, cf. Collison (1964: 199-218 e 225-226).

Em Inglaterra, o fenómeno mais saliente é a Encyclopaedia Britannica (1768-1771). A novidade desta obra monumental é, desde a sua 1ª edição e ao longo de sucessivas reedições (nomeadamente até à 15ª edição (1973-1974), quando o modelo misto adoptado se passar a construir no cruzamento entre a ordem alfabética e a ordem temática), a adopção de um modelo disciplinar conjugado com a organização alfabética. A ideia consiste em concentrar a maior parte da informação nas entradas relativas às diversas disciplinas. As entradas de conceitos e termos técnicos apresentam apenas definições sucintas, reenviando o leitor para a entrada da disciplina correspondente. As entradas por disciplinas, sínteses de admirável concisão que oferecem uma panorâmica geral sobre o que de mais relevante é conhecido na época, são, com muita frequência, artigos longos, de uma preciosa erudição e elevado rigor científico, da autoria de especialistas de competência indiscutível. Assim se conjugava a facilidade de consulta que a ordem alfabética permite com o tratamento desenvolvido dos principais assuntos. 

A sua primeira edição, da responsabilidade de Andrew Bell (1726-1809), Colin Macfarquhar (1745-1793) e William Smellie (1740-1795), apareceu, em três volumes, em Edinburg entre 1768 e 1771. A segunda edição foi alargada para 10 volumes e a terceira (1797) para dezoito. A sua décima quarta edição (1929) contará já com 24 volumes e a décima quinta com 30.

Um segundo aspecto, directamente articulado com o sonho que subjaz ao projecto da enciclopédia Britânica de conquistar um estatuto paralelo e complementar ao da Universidade, diz respeito ao extraordinário equilíbrio que revela entre as componentes humanísticas, literárias, históricas, artísticas e as componentes científicas, tecnológicas, e relativas à indústria.

Equilíbrio este que só se rompe a partir da sua 11ª edição (1910-1911), quando a Encyclopaedia Britannica é comprada por uma companhia americana. Para um estudo sobre a história e principais características da Encyclopaedia Britannica, cf. Collison (1964: 138-155) e Yeo (1991: 39-47).

Ainda em Inglaterra, a Encyclopaedia Metropolitana (1817-1845), 28 volumes, organizada pelo poeta Coleridge, retrocederá relativamente à ordenação alfabética regressando ao modelo sistemático disciplinar, característico do século XVII, que Coleridge considera mais adequado à empresa enciclopédica e às suas finalidades lógicas e metodológicas. Coleridge é autor de um elaborado esquema organizativo da enciclopédia fundado numa classificação das ciências elaborada para o efeito e que teve uma notável influência no enciclopedismo posterior. O modelo comporta cinco grupos: 1. Ciências Puras, que inclui as ciências formais (filosofia, lógica e matemática) e reais (metafísica, moral e teologia), 2. ciências mistas e aplicadas, mistas (mecânica, hidrostáctica, pneumática, óptica e astronomia) e aplicadas (filosofia experimental, artes, artesanato, história natural e suas aplicações), 3. ciências biográficas e históricas, cronologicamente organizadas,  4. Miscelâneas e lexicografia e 5. Índice analítico.

Para um estudo sobre a Encyclopaedia Metropolitana de Coleridge e a sua proposta de classificação dos conhecimentos, cf. Yeo (1991: 34-39).

Na Alemanha são publicados o Konversations-Lexicon (1796-1811) de Brockhaus, a Grosses Conversations-Lexicon (1840-1855) de Joseph Meyer e a colossal Allgemeine Encyclopädie der Wissenschaften und Künste (1818-1889), em 167 volumes, organizada por J.S. Ersch e J. G. Gruber. Trata-se, no caso desta última, de uma obra que pretende rivalizar com a Enciclopédie em termos de prestígio e de colaboradores os quais redigem artigos originais de grande rigor científico e influência cultural e que, tal como a Britannica, tem a ambição de um papel complementar relativamente à Universidade.

Esta enciclopédia é conhecida ainda por incluir a maior entrada de todas as enciclopédias ocidentais - a entrada "Grécia"- que ocupa 3.668 páginas nos volumes 80 a 87.

Em Itália, destacam-se o Dizionario enciclopedico delle scienze, lettere e arti de Antonio Barazzarini (1830-1837) em 9 volumes e a Nuova enciclopedia popolare cuja 1ª edição foi publicada em 1841 sob a orientação de G. De Marchi e F. Predari e que, nas suas sucessivas edições (a última edição foi publicada entre 1875-1888), teve grande importância cultural, conseguindo reunir a inteligencia  italiana da época.

Se o enciclopedismo do século XVIII era, como vimos, de natureza doutrinária, o enciclopedismo do século XIX, de inspiração positivista, quer-se um panorama imparcial e exacto da ciência do tempo. Tanto mais imparcial quanto, justamente com Augusto Comte, as questões sociais passam a poder ser tratadas cientificamente, enquanto objecto de uma nova disciplina científica - a física social ou sociologia. Na verdade, o grande objectivo de enciclopédias como o Grand Dictionnaire Universel (1866-1876) de Pierre Larousse ou a Grande Encyclopédie (1886-1903) de Berthelot e Dreyfus, acima referidas, é a cobertura integral dos conteúdos específicos de cada disciplina, a inventariação exacta e completa dos resultados obtidos nas diversas disciplinas particulares.

Pelo contrário, o século XX, a par do movimento de produção de enciclopédias especializadas, correspondentes ao acelerado desenvolvimento e especialização do conhecimento científico e às rupturas, cada vez mais acentuadas, entre os diferentes níveis da cultura, iniciar-se-á pela construção de enciclopédias fortemente nacionalistas. A determinação nacional da enciclopédia, anunciada no século XVII com a constituição dos estados modernos, o progressivo abandono do latim e a paralela emergência das línguas nacionais, surge em força no século XVIII. As principais enciclopédias então produzidas - a Cyclopaedia de Chambers e a Encyclopédie de Diderot e D'Alembert - são, como vimos, grandes monumentos nacionais, que fazem jus ao seu país de origem. Este movimento reforça-se no século XIX, e intensifica-se no início do século XX, quando cada estado passa a querer ostentar, como sinal da sua maturidade, uma grande enciclopédia escrita em língua nacional.

Referiremos apenas alguns exemplos: Encyclopaedia of the social sciences, publicada por A. Seligman entre 1930-1935, Enciclopedia Cattolica, publicada no Vaticano entre 1948 e 1954, McGraw-Hill Encyclopedia of Science and Technologie (1960), Encyclopédie des Sciences Mathématiques pures et appliqués (1904-1914), Encyclopaedic Dictionary of Physics, publicado em Oxford entre 1961-1963, Enciclopedia universale dell'arte (1958), a Encyclopédie de la musique et Dictionnaire du Conservatoire publicado por A. Lavignac (1846-1916), a Cyclopaedic survey of chamber music (1963) ou a Enciclopedia dello spettacolo (1954). Para mais informação sobre enciclopédias especializadas no século XX, cf. Collison (1964: 218-225).

O passo seguinte é dado nos anos vinte e trinta, quando a enciclopédia passa a pretender cumprir finalidades, não apenas nacionais, mas nacionalistas. Referimo-nos à emergência de alguns projectos de enciclopédia de marcada orientação política e ideológica. O melhor exemplo é o da Enciclopedia Italiana di scienze, lettere ed arti (1929-1939) dirigida por Giovanni Gentile, em 37 volumes, para a qual o próprio Mussolini contribuiu com uma entrada "Fascismo", exemplo que mostra bem até que ponto a enciclopédia pode ser pensada como instrumento ao serviço de uma ideologia.

É o caso também da Bol'shaia Sovetskaia Entsiklopediia (1926-47), em 65 volumes, obra com um conteúdo doutrinal forte, que opera distorções e omissões significativas.Para uma análise desta enciclopédia, veja-se Collison (1964: 206-207).

A partir da década de 50, este aproveitamento nacionalista da ideia de enciclopédia será apagado pelo prestígio de novas enciclopédias que se afirmam pelo seu espírito democrático e internacionalista, nomeadamente em Itália, o Dizionario Enciclopedico Italiano (1955-61) em 12 volumes, e em França, a magnífica Encyclopédie Française (1935-66), em 21 volumes, que Albert de Monzie, então ministro da educação, entregou à direcção de Lucien Febvre. Em ambos os casos, a enciclopédia procura obter a colaboração dos expoentes máximos sob cada tópico, independentemente da sua nacionalidade. Em ambos os casos, o objectivo, claramente contrário aos nacionalismos ferozes dos anos trinta, é o entendimento das inteligências e a a cooperação internacional.

Tal não significa, porém, que o carácter nacional e mesmo nacionalista da enciclopédia tenha completamente desaparecido. O que acontece é que, sob a hegemonia das principais línguas de cultura (inglês, francês, alemão, russo), o âmbito das enciclopédias nacionais alarga a sua influência a espaços culturais cada vez mais vastos. É significativo, por exemplo, que a constituição do espaço da comunidade europeia também tenha querido afirmar a sua identidade e vitalidade através de uma enciclopédia - a Enciclopedia Europeia (1977-1984) - que permitisse à Europa rever-se no património de ideias que lhe são próprias ou que nela nasceram.

Mas, a tensão existente entre a vocação internacionalista do projecto enciclopedista e os limites culturais das diversas línguas nacionais em que as enciclopédias necessariamente são escritas mantém-se intacta. Como muito bem viram Lull, Coménio e Leibniz, o apelo universalista que percorre as veias da ideia de enciclopédia exigiria a construção de uma língua de cultura universal que permitisse à enciclopédia constituir-se, não apenas como síntese do saber já constituído mas também como instrumento da sua comunicação e progresso.