Enciclopédias Filosóficas

Leibniz

O projecto enciclopedista de Leibniz (Gottfried Wilhelm Leibniz, 1646-1716) recobre três grandes linhas, provenientes, cada uma delas, dos três grandes nomes do enciclopedismo filosófico anterior: Lull, Coménio e Bacon.

Se a ligação com Bacon e Coménio é directa, fundada na leitura atenta e cuidadosa das suas obras, a ligação com Lull é feita, sobretudo, por intermédio daquele que foi o mestre respeitado de Leibniz: Athanasius Kircher (1602-1680), jesuíta alemão e autor de uma Ars magna Sciendi (1669) que retoma a Ars de Lull no sentido de promover a sua correcção e de tornar mais fácil a sua aplicação.

No que ao projecto enciclopedista diz respeito, Leibniz vai sobretudo reter de Lull dois elementos: em primeiro lugar, a pretensão de reduzir todos os conhecimentos humanos a um pequeno número de princípios ou categorias de aplicabilidade universal capazes de expressar, mediante combinações figuradas, todas as relações possíveis entre dois conceitos; em segundo lugar, a ideia de uma combinatória heurística, isto é, de um conjunto de procedimentos que, tendo por base uma completa identificação entre a lógica e a metafísica, permitam não apenas demonstrar mas produzir novos conhecimentos, isto é, inventar. Embora não aceite, nem a lista nem o número das categorias lullianas, nem tão pouco os métodos combinatórios mecânicos usados pelo pensador catalão - em substituição dos quais, Leibniz irá apresentar no De Arte Combinatoria (1660) uma das primeiras e mais fecundas propostas de cálculo combinatório da história do pensamento matemático - Leibniz sublinha o valor epistemológico das hipóteses lullianas, em especial no que se refere ao reconhecimento da combinatória como fundamento de uma "ars inveniendi", razão pela qual Leibniz inclui o nome de Lull, ao lado do de Aristóteles, Galileu, Kepler, Descartes e Spinoza, na lista dos pensadores o precederam na busca de um sistema não matemático de demonstração. Cf. Leibniz, ed. Couturat, 1903: 177 e segs..

As categorias lullianas aparecem a Leibniz como vagas e arbitrariamente escolhidas. Por outro lado, o facto de serem nove aparece a Leibniz como um procedimento injustificável, resultante de meras exigências estéticas de simetria (cf. Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, IV: 63).

Comparando, no De Arte (§§ 58-59), as suas próprias propostas metodológicas com os procedimentos combinatórios de natureza mecânica propostos por Lull, Leibniz considera estes como rudimentares e insuficientes, devendo ser substituídos por processos aritméticos de cálculo combinatório tais como agrupamentos, permutas, substituições, equivalências (cf. Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, IV: 62-63). Para uma detalhada análise dos procedimentos combinatórios propostos por Leibniz no De Arte, cf. Couturat (1961: 39-45).

De Coménio, cuja obra Leibniz conhecia bem e profundamente admirava, Leibniz retém sobretudo o espírito universalista e irénico, o ideal pansófico de uma Encyclopaedia ou Scientia univeralis enquanto compreensão total do mundoque permitisse harmonizar os conhecimentos humanos e a fé cristã (por exemplo, Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 43, 45, 46). Tal como Coménio, também Leibniz enfatiza o valor teológico da enciclopédia. Porém, para Leibniz, esse valor não reside tanto no facto de, à moda lulliana, a enciclopédia ter por objectivo constituir-se como instrumento de conversão dos infieis, mas no facto de, como para Coménio, ela se revelar enquanto dispositivo apologético, capaz de dar a ver a grandiosidade, variedade e harmonia do mundo criado, das leis que o regem e dos seres que o povoam. 

Como Leibniz escreve em carta ao Conde Golofkin de 16 de Janeiro de 1712, pouco antes da sua morte, 

"desde a minha juventude, o meu grande objectivo foi trabalhar para a glória de Deus pelo desenvolvimento das ciências que, melhor que qualquer outra coisa, revelam o poder, a sabedoria e a bondade divinas" (Leibniz, ed. Baruzi, 1909: 150).

Por outras palavras, o conhecimento do Universo conduz ao reconhecimento de Deus.

Em 1671, pouco depois da morte de Coménio, Leibniz escreve um poema laudatório em Latim em que afirma: 

"Chegará o tempo, Coménio, em que nobres multidões honrarão os teus actos e o sonho das tuas esperanças" (cit. in Pánek (1991: 71). 

Para outras referências de Leibniz a Coménio,cf. carta a Oldenburg, Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 13 e sobretudo Judicium de scriptis Comenianis (Leibniz, ed. Dutens, 1768, V: 181-182).

Se, na linha de Lull, Leibniz pensa a enciclopédia enquanto combinatória com base numa formalização universal, se de Coménio, é sobretudo a vocação universalista e religiosa da enciclopédia que Leibniz recupera, o que aproxima decisivamente Leibniz de Bacon é o projecto de constituição de uma enciclopédia enquanto obra colectiva e aberta.

Tal como Bacon, é no contexto da condenação da desordem e da falta de método das investigações científicas suas contemporâneas que Leibniz situa o seu projecto de construção de uma enciclopédia. Num texto escrito há mais de 300 anos mas de uma irrecusável actualidade, os Précepts pour avancer les sciences, Leibniz escreve:

"o género humano, considerado na sua relação com as ciências que têm por fim a nossa felicidade, parece semelhante a uma multidão que marcha confusamente nas trevas, sem chefe, nem ordem, nem palavra, nem outras marcas necessárias para regular o seu caminho e para se reconhecer. Em vez de nos darmos as mãos para nos ajudarmos mutuamente e assim assegurar a nossa caminhada, corremos ao azar e de forma cruzada e magoamo-nos mesmo uns contra os outros" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 157).

Embora não datado, os Précepts pour avancer les sciences deve ter sido escrito entre 1679/80, altura em que Leibniz decide solicitar a colaboração dos sábios para a enciclopédia e 1690, data em que escreve o importante fragmento De l'horizon de la doctrine humaine (Leibniz, ed. Couturat, 1903:530-533).

Face a este estado de coisas, a enciclopédia deverá oferecer um quadro sistemático que permita, não apenas adquirir, de forma rápida e metódica, os saberes já conquistados, isto é, que se constitua como um inventário desses saberes, mas também como a sua organização sistemática, a sua integração sintética, um "corpo no qual os conhecimentos humanos mais importantes estão apresentados por ordem"(Leibniz, ed. Gerhardt, 1960,VII: 40, sublinhados nossos). 

Só assim a enciclopédia pode constituir-se como guia e como acelerador das investigações futuras. Ao dar a ver de forma ordenada as verdades já descobertas, a enciclopédia permitirá reconhecer o que está ainda por descobrir e encontrar os melhores meios de lá chegar. 

Como Leibniz escreve, retomando a metáfora baconiana da descoberta e anunciando, com antecedência de quase cem anos, a metáfora territorial que Diderot e D'Alembert vão amplamente utilizar: 

"ao descobrir de uma só vez toda essa região do espírito já povoada, em breve se notam os locais ainda negligenciados e vazios de habitantes. A geografia das terras conhecidas dá meios para levar mais longe as conquistas dos novos países. Podem enviar-se colonos para fazer plantações novas na parte menos conhecida da Enciclopédia" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960,VII: 158-159).

Leibniz usa várias outras metáforas para se referir à desordem e falta de método das investigações suas contemporâneas. Como ele diz, estamos perante um saber acumulado por gerações como um comerciante sem livro de contas, como num armazém cheio de mercadorias mas sem inventário, como um investigador numa biblioteca em desordem e sem catálogo ou como um exército em desordenada debandada. Cf. por exemplo, Initia et Specimina Scientiae Generalis (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 58), De Synthesi et Analysi universali (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 296) ou Consilium de Encyclopaedia Nova (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 30).

Trata-se de uma tarefa gigantesca, que ultrapassa as forças de um só homem e que, tal como para Bacon e mais tarde para os enciclopedistas franceses, deverá ser realizada por uma "société savante" ou academia que Leibniz procurará incansavelmente fundar e para a qual elaborará numerosos planos. Concebida, quer como uma instituição laica, com fins meramente utilitários e patrióticos (tais como o aperfeiçoamento das ciências naturais, em especial a medicina, e a sua divulgação entre o povo alemão. Cf. Couturat (1961: 506).), quer sob o modelo de uma ordem religiosa, semelhante à dos jesuítas, mas com explícitas finalidades científicas, Leibniz não se escusa a esforços, dirigindo-se tanto aos poderosos do seu tempo como, directamente, aos sábios e homens de boa vontade cuja colaboração solicita.

Veja-se, por exemplo, um texto intitulado "Rêve de transfiguration monastique" (Leibniz, ed. Baruzi, 1909: 230-231), no qual Leibniz imagina transformar as ordens religiosas em verdadeiras ordens científicas. Nas próprias palavras de Leibniz, trata-se de "distribuir entre os monges a procura da verdade" constituindo assim uma verdadeira "milícia religiosa". 

Com a ajuda da princesa Rainha Carlota e do eleitor Frederico III, futuro Frederico I da Prússia, Leibniz irá mais longe do que Bacon, fundando efectivamente, em 1700, quase no fim da sua vida, a Sociedade das Ciências de Berlim que, em 1744, sob o reinado de Frederico II, esta sociedade será transformada na "Academia Real das Ciências da Prússia", de que será o primeiro presidente e cujos estatutos elaborará (Stiftungsbrief de Societät der Wissenschaften zu Berlin de 11 de Julho de 1700. Cf. Couturat (1961: 516, nota 6)). A sociedade, que deveria ser acompanhada de um Theatrum Naturae et Artis (um observatório, de bibliotecas, de museus de história natural, de artes e ofícios, de colecções de medalhas e antiguidades, de um jardim botânico e zoológico, etc.) está pensada para apoiar o progresso das ciências e as suas aplicações à indústria e ao comércio (por exemplo, a construção de diques e canais, a secagem dos pântanos, etc). 

Rainha Carlota

Entre outros aspectos, é interessante sublinhar o recurso à obrigatoriedade que Leibniz pretende impôr, por exemplo, a todos os médicos, de comunicar à Sociedade as suas observações relativas à botânica, à zoologia, às doenças dos homens e dos animais, casos raros da natureza, informações sobre a geologia, o clima ou a geografia dos locais da sua habitação. Trata-se afinal de uma tentativa pioneira para lançar uma rede nacional de investigação com base em figuras que, espalhadas por todo o território, oferecem, sem custos adicionais, garantias de capacidade de investigação e dedicação altruísta à causa pública. Os estatutos da Sociedade das Ciências de Berlim são extremamente detalhados e minuciosos propondo, por exemplo, que, quanto aos fundos, a Sociedade, entre outras medidas (por exemplo, a criação de uma caixa de seguros contra incêndios, ou o pedido de privilégio na fabricação da seda. Cf. Couturat (1961: 520-521)), se constitua como instituição de verificação de um sistema unificado de pesos e de um sistema métrico decimal.

Note-se, no entanto, que Leibniz não queria restringir-se aos limites da Alemanha, nem sequer da Europa, razão pela qual aconselhava o envio de missões evangélicas que, a exemplo dos jesuítas, estudassem e dessem a conhecer à Europa os segredos de uma civilização tão antiga como, por exemplo, a chinesa. Sobre este vasto campo de actividade de Leibniz, veja-se a obra clássica de Baruzi Leibniz et l'organization religieuse de la Terre (1907), onde são estudadas, com grande detalhe, as relações que Leibniz efectivamente estabeleceu com missionários jesuítas e a abundante informação assim obtida (sobretudo, linguística, histórica, teológica e relativa às "Figuras de FoHi" nas quais Leibniz vê um antecedente da sua descoberta da aritmética binária (cf. Baruzi, 1907: 47-105)).

Face ao ingrato tratamento a que foi sujeito na Sociedade das Ciências de Berlim (nomeadamente no que toca ao seu estatuto de Presidente no qual será suplantado pelo ministro von Printzen. Cf. Couturat (1961: 522)), Leibniz realiza esforços diplomáticos e redige numerosos planos com vista a fundar outras academias, nomeadamente em Dresden, junto da casa Real da Saxónia, em Viena, sob a protecção da Imperatriz Elizabeth e do Príncipe Eugénio de Savoia e em Moscovo, dirigindo-se directamente ao Czar Pedro I. Academias que teriam objectivos múltiplos, como cultivar as ciências puras e aplicadas, recolher observações, fazer estatísticas demográficas, atribuir patentes e passar atestados de invenção, controlar os pesos e medidas, enviar missões científicas a outros continentes, publicar obras de carácter científico, glossários, dicionários gerais e técnicos.

Czar Pedro I

Os planos vão-se reformulando, completando e transformando de acordo com as circunstâncias concretas da sua institucionalização, mas a ideia central permanece invariável: unir os sábios de todo o mundo, sem distinção de nacionalidade ou religião, estabelecer entre eles laços de colaboração, pô-los ao serviço da ciência e do progresso da civilização. 

Como diz Couturat, as academias que Leibniz procura fundar em diversos países não eram senão "fragmentos esparsos e provisórios de uma vasta Academia Europeia, espécie de federação internacional de sábios, de que elas constituiriam colégios distintos" Couturat (1961: 528).

Por exemplo, para a academia da Rússia, que, após a morte de Leibniz mas em grande parte de acordo com as suas indicações, foi fundada por Pedro I em 1724, e definitivamente instalada em 1725 por Catarina I em S. Petresburgo, Leibniz propunha um conjunto de medidas tendentes a desenvolver a navegação fluvial e a construção de canais, a recensão das línguas e a exploração geográfica do império russo ou o desenvolvimento de missões científicas e religiosas na China próxima. Para mais informações, remetemos de novo para Couturat (1961: pp. 522- 527).

Na verdade, no projecto de carta ao Conde Golofkin de 16 de Janeiro de 1712 já acima referido, Leibniz escreve:

"nisso (no que diz respeito ao desenvolvimento das ciências) não distingo nem nação nem partido e gostaria mais de ver que as ciências se tornam grandemente fluorescentes entre os Russos do que vê-las mediocremente cultivadas na Alemanha. O país em que isso se passar melhor será aquele que me será mais caro uma vez que o género humano daí tirará sempre proveito" (Leibniz, ed. Baruzi, 1909: 151).

Note-se que não se trata de uma qualquer posição de ressentimento face à ingratidão com que a Academia de Berlim tratara Leibniz. O patriotismo de Leibniz é forte, vigoroso, inquestionável e por vezes mesmo excessivo. Trata-se sim da declaração de um defensor esclarecido e empenhado da ideia de unidade da ciência que não hesita em assumir as suas implicações cosmopolitas e internacionalistas. De facto, as insistentes e diversificadas tentativas no sentido da fundação de academias fazem de Leibniz o mais destacado expoente desse movimento que, à margem das universidades, visa a constituição de comunidades científicas internacionais que possam garantir o apoio institucional necessário às exigências cognitivas e comunicativas da ciência emergente.

Sobre a tensão entre o universalismo e o patriotismo em Leibniz, remetemos para o nosso estudo Leibniz and the Problem of a Universal Language, em especial o capítulo dedicado às investigações leibnizianas tendentes ao aperfeiçoamento da língua alemã. Cf. Pombo (1987: 131-149). Como reforço à tese do internacionalismo academista de Leibniz, veja-se ainda Salomon-Bayet (1978) sobre as relações entre Leibniz e a Académie Royale des Sciences de Paris.

Considerado como o último grande espírito universal, alguém que, mercê sem dúvida da época em que vive mas também da sua extraordinária curiosidade e erudição, pode ainda dominar todos os ramos do saber, alguém cuja obra tem, ela mesma, um inegável alcance enciclopédico (como diz Michel Serres (1969: 80), "a obra de Leibniz é indistintamente uma filosofia sistemática, uma enciclopédia científica e uma acumulação doxográfica de erudito"), um dos objectivos maiores da actividade intelectual de Leibniz foi efectivamente a constituição de uma Encyclopaedia sive Scientia Universalis

Trata-se de um projecto que Leibniz se não limitou a formular mas para a realização do qual deixou alguns extensos fragmentos. Nomeadamente, os já referidos 

  • Praecognita ad Encyclopaediam sive Scientiam universalem, Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 43-45,

  • Précepts pour avancer les sciences (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 157-173), 

  • Discours touchant la méthode de la certitude et l'art d'inventer, (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960,VII: 174-183),

  • Nouvelles Ouvertures, (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 332-334), 

  • Nouveau Plan d'une science certaine, sur lequel on demande les avis des plus intelligents, (Leibniz, ed. Couturat, 1903:  437-509), 

  • Consilium de Encyclopaedia nova conscribenda methodo inventoria, (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 30-41), 

  •  De l'horizon de la doctrine humaine (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 530-533).

Projecto que vai sendo progressivamente reformulado e definido nas suas linhas gerais e no seu plano de composição com uma persistência que é reveladora da convicção que Leibniz tinha no seu valor.

 

Inicialmente pensada como um simples sumário das mais recentes publicações e inventário exaustivo de todas as descobertas e invenções (por exemplo, Initia et Specimina Scientiae novae Generalis (ed. Gerhardt, 1960, VII: 85), onde Leibniz projecta um inventário por escrito dos conhecimentos mais úteis com um registo e tábua alfabética), tesouro de pública erudição que fornecesse o resumo dos conhecimentos humanos (referimo-nos ao projecto intitulado Encyclopaedia ex sequentibus autoribus propriisque meditationibus delineanda (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 37-38)), o plano tomará em 1667 a forma de um Opus Magnum que deveria incluir uma Biblioteca contracta  de todos os conhecimentos adquiridos pela humanidade, tanto históricos como científicos, tanto teóricos (relativos à natureza dos factos) como práticos (relativos à sua utilização).

Neste mesmo contexto, refira-se ainda o projecto de publicação dos Semestria Literaria, revista que fizesse uma análise de todos os livros publicados e recenceasse todas as novas invenções e descobertas. Para maiores detalhes sobre estes projectos, cf. Couturat (1961: 123-124). A este propósito, não deixa de ser significativo o facto de Leibniz ter tido como ocupação profissional privilegiada a de bibliotecário e arquivista.

Antecipando Diderot, Leibniz prevê ainda a inclusão de um Atlas Universalis contendo figuras, tábuas, esquemas e quadros de diversa índole (tais como a descrição figurada de instrumentos agrícolas, químicos ou cirúrgicos), um Cimeliorum Literariorum Corpus ou colecção de documentos raros e inéditos, um Thesaurum Experientiae ou recolha de diversos tipos de observações e experiências e ainda um Vera Methodus Inveniendi ac Judicandi que, para Leibniz, consiste no conjunto de procedimentos lógicos que devem orientar, quer a ordenação das verdades já alcançadas (ars judicandi), quer a descoberta de novas verdades (ars inveniendi).

Diderot dedicará uma atenção muito especial à realização das inúmeras gravuras que acompanham a Encyclopédie.

 

Posteriormente, num fragmento sem título, Phil., VIII, 56-57 (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 524-529), o projecto passará a incluir uma parte teórica e uma parte prática. A primeira deveria incluir uma síntese dos conhecimentos alcançados no âmbito das disciplinas abstractas e racionais, de natureza axiomático-deductiva (como a matemática, a lógica ou a teologia), e das disciplinas que necessitam do recurso à experiência, tal como a física, a química ou a biologia experimentais. A parte prática incluiria as aplicações da ciência mais úteis à vida e felicidade da humanidade provenientes de disciplinas tão diversas como a ética, a medicina, a política, a economia, a hidráulica, a farmacologia, a arquitectura, todas as invenções resultantes das várias artes e técnicas, esses conhecimentos "não-escritos que se encontram dispersos entre os homens de diferentes profissões".

Discours touchant la méthode de la certitude et l'art d'inventer, (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960,VII: 174-183).

Já no texto de 1679 intitulado Consilium de Encyclopaedia nova conscribenda methodo inventoria, (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 30-41), Leibniz propõe que a enciclopédia se inicie por um conjunto de ciências fundamentais: a Gramatica Racionalou ars intelligendi logo seguida pela Lógica (ars judicandi e ars inveniendi), por um conjunto de procedimentos e técnicas de memorização (ars memoriae) e por uma arte das fórmulas ou Combinatoria. Seguem-se as ciências abstractas: a Logistica ou Matemática Universal, a Arithmetica, a Geometria e as suas aplicações técnicas (Geodésia, Arquitectura, Tecelagem, Óptica), a Mechanica, a Poegraphia ou ciência das qualidades físicas dos corpos e a Homoegraphia ou ciência, antepassada da Química, que divide os corpos em várias espécies. Vêm depois as ciências concretas, a Cosmographia (que compreende a astronomia, a geografia física e a metereologia) e a ciência dos corpos orgânicos ou Idografia (que Leibniz divide em mineralogia (geologia, petrografia e metalografia), idografia vegetal (botânica e agronomia) e animal (biologia e medicina). Por fim a Scientia Moralis (correspondente ao que hoje chamaríamos Psicologia), a Geopolitica (que compreende a História, a Geografia Humana e Política), e a Theologia Naturalis.

O projecto enciclopédico de Leibniz vai assim sendo reformulado em termos progressivamente mais amplos e ambiciosos. Começando por apontar para um simples inventário ou mera totalidade aditiva, Leibniz acaba por pensar a enciclopédia como uma forte unidade sistemática. Para tal, diz Leibniz, é necessário encontrar ummétodo que assegure, tanto a organização interna dos seus elementos constitutivos, como a forma externa da sua exposição. A enciclopédia ou Scientiae Universalis, enquanto recolha e exposição sistemática de todos os conhecimentos da humanidade,exige uma ciência que presida á articulação demonstrativa dos conhecimentos e assegure a sistematicidade do conjunto. Essa ciência é a Scientiae Generalis, ciência à qual todas as outras devem estar subordinadas pois que, compreendendo os princípios de todas as ciências, constitui o fundamento racional de cada ciência particular. Tal ciência é para Leibniz a Lógica.

 Não a lógica indutiva que, como vimos, Bacon tinha proposto no seu Novum Organon, e na base do qual se poderia esperar constituir indutivamente a enciclopédia, pela reunião progressiva de todos os conhecimentos humanos à medida em que estes se fossem construindo, mas uma nova lógica ou Scientiae generalis que incopore a lógicadedutiva do Organon de Aristóteles reformada por Leibniz e uma lógica inventiva de raiz lulliana. Como Leibniz explica no célebre fragmento Introductio ad Encyclopaediam arcanam (Leibniz, ed. Couturat, 1966: 511-515), o método de constituição da enciclopédia é, por um lado, a ars demonstrandi, que permite deduzir de um conjunto de termos primitivos a totalidade dos saberes e assim assegurar a verdade das proposições científicas que constituem a enciclopédia, e, por outro, a ars inveniendi que permite a descoberta de novos conhecimentos. Da mesma maneira, no Discours touchant la méthode de la certitude et l'art d'inventer, Leibniz justifica o duplo objecto da Lógica ou Scientiae Generalis do seguinte modo: 

"as verdades que têm necessidade de ser estabelecidas são de dois tipos: umas são só conhecidas confusa e imperfeitamente, outras completamente desconhecidas. Para as primeiras, é necessário empregar o método da certeza ou arte de demonstrar; as outras têm necessidade da arte de inventar" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960,VII: 183).

Fundamentalmente, o que Leibniz faz é um alargamento da Lógica aristotélica de modo a nela incluir qualquer espécie de raciocínio que proceda por virtude da forma. Para um estudo da concepção leibniziana da Lógica e das suas contribuições neste domínio, cf. Knecht (1981, em especial cap. 2: 55- 89).

A estrutura lógica da enciclopédia traduz-se também no carácter demonstrativo da sua exposição. O grande modelo será agora a matemática. Como Leibniz escreve: 

"A ordem científica perfeita é aquela em que as proposições estão ordenadas segundo as suas demonstrações mais simples, de maneira que nascem umas das outras, mas esta ordem não é de início conhecida, descobrindo-se cada vez mais à medida que a ciência se aperfeiçoa" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 180). 

Todas as ciências, aliás, caminham no sentido da conquista de uma estrutura dedutiva. Esse é um sinal da sua maturidade e consistência. Aquelas ciências que, no momento, têm ainda necessidade de recorrer ao estabelecimento experimental das suas leis, podem, "à medida que se aperfeiçoem", encontrar um pequeno número de princípios ou hipóteses a partir dos quais se poderão estruturar de forma dedutiva. Como Leibniz escreve: 

"Pode mesmo dizer-se que as ciências se reduzem à medida que aumentam, paradoxo que é muito verdadeiro pois, quanto mais verdades se descobrem, mais se está em condições de delas retirar uma série regulada e de construir proposições sempre mais universais, de que as outras não são senão exemplos ou corolários, de tal maneira que o grande volume daquelas que nos precederam se reduzirá, com o tempo, a duas ou três teses gerais" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 158).

A enciclopédia leibniziana - e este é um dos traços que marcam a sua singularidade - é assim, como Leibniz chega mesmo a dizer, uma "Encyclopaedia demonstrativa"(Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 168), uma sistematização de todos os conhecimentos humanos organizada de forma lógica, isto é, um dispositivo unificador que estende a todas as ciências os procedimentos axiomático-dedutivos próprios das matemáticas.

Como diz Knecht, a matemática constitui para Leibniz, simultaneamente, "o método próprio para realizar a enciclopédia (...), o paradigma a seguir e o ideal a atingir" (cf. Knecht: 1981: 270, sublinhados nossos).

Porém, esses procedimentos lógicos demonstrativos não são meramente judicativos. Aquilo a que Leibniz chama os "Elementos demonstrativos de todos os conhecimentos humanos" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 168), são também "princípios de invenção" (ibid.). Como escreve:

 "Ao examinar cada ciência, é necessário descobrir os seus princípios de invenção os quais, juntos a uma ciência superior, ou à ciência geral ou à arte de inventar, seriam suficientes para deles se deduzir todo o resto" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 168, sublinhados nossos). 

A estrutura demonstrativa revela-se aqui nas suas potencialidades inventivas: primeiro, porque "podemos sempre reduzir toda a ciência com as suas dependências a alguns fundamentos ou princípios de invenção" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 171); depois, porque, conhecidos os princípios, tudo deles pode ser deduzido, inclusive, novas verdades. Como Leibniz acrescenta, esses princípios fundamentais são "suficientes para determinar todas as questões que se possam colocar se se lhes junta o método exacto da verdadeira lógica ou arte de inventar" (ibid.). Por outras palavras, 

"se tivéssemos uma Enciclopedia demonstrativa inteiramente acabada (...), uma enciclopédia feita como eu a desejo, teríamos meio de encontrar sempre as consequências das verdades fundamentais ou dos factos por uma espécie de cálculo tão exacto e tão simples como o da Aritmética e da álgebra"(Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 168)."

Estamos perante um segundo - e decisivo - traço característico da especificidade do projecto enciclopedista de Leibniz, a sua ambição heurística.Traço que, simultaneamente, marca a proximidade de Leibniz a Rámon Lull e à ideia precursora que o pensador catalão formulou de uma combinatória, enquanto conjunto de procedimentos lógicos que permitam inventar, ou seja, produzir novos conhecimentos.

Só que, como Lull viu bem e Leibniz verá melhor ainda, a invenção combinatória supõe a constituição de um alfabeto,de um conjunto de termos primitivos ou categorias de aplicabilidade universal capazes de expressar, mediante combinações figuradas, todas as relações possíveis entre dois conceitos. Lull escolheu de forma mais ou menos arbitrária esses princípios. Por essa razão, reconhecendo embora o valor da hipótese combinatória de Lull, Leibniz nunca aceitou a lista das categorias lullianas, a seu ver, escolhidas mais por razões de simetria do que com base numa análise exaustiva dos conhecimentos humanos.

Como Leibniz diz: "A arte de Lull seria sem dúvida uma coisa bela se os seus termos fundamentais não fossem vagos e, consequentemente, apenas servissem para falar e não para descobrir a verdade" (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 177). Para outras passagens críticas em relação ao alfabeto lulliano, veja-se, por exemplo, Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, IV: 63.

Descartes perceberá que o estabelecimento de uma tal linguagem suporia a realização acabada da verdadeira filosofia. Na famosa Carta a Mersenne de 20 de Novembro de 1629 (cf. Descartes, Oeuvres, I: 227-231) a que já nos referimos, Descartes colocava, como vimos, a hipótese de constituição de uma língua filosófica que permitisse traduzir a totalidade dos nossos conteúdos de pensamento. Porém, para Descartes, como também vimos, a construção de uma tal língua, cujas vantagens cognitivas Descartes reconhece, exigiria que "alguém tivesse explicado quais são as ideias simples que estão na imaginação dos homens e de que se compõe tudo aquilo que eles pensam" (Descartes, Oeuvres, I: 231), ou seja, implicaria a redução de todos os possíveis conteúdos de consciência aos seus elementos últimos, uma vez que, como dizia,

"não é possível de outro modo analisar todos os pensamentos dos homens, pô-los por ordem ou sequer distingui-los de modo a que sejam claros e simples" (Descartes, Oeuvres, I: 231).

Leibniz compreenderá que as duas coisas são paralelas. Como escreveem notas à margem de uma cópia da carta de Descartes a Mersenne acima referida: 

"Ainda que essa língua dependa da verdadeira filosofia, ela não depende da sua perfeição. Quer dizer, essa língua pode ser estabelecida ainda que a filosofia não esteja acabada e, à medida que a ciência dos homens crescer, essa língua crescerá também" (Leibniz, ed. Couturat, 1903: 28).

A língua filosófica universal pode e deve ser construída em paralelo com a enciclopédia. Se, por uma lado, a construção da língua universal supõe a análise dos conceitos fundamentais e a elaboração das definições primeiras, ou seja, toda a enciclopédia; inversamente, a transposição simbólica dos conteúdos cognitivos e a sua inserção na rede dos signos já constituídos, permite estabelecer novas virtualidades de sentido e, portanto, facilita o avanço da enciclopédia. Ao revelar as relações dedutivas que ligam as diversas regiões do saber, a enciclopédia facilita o trabalho de decomposição analítica dos termos em que assenta a constituição de língua filosófica.Mas, inversamente, a escolha de um sistema simbólico (characteristica universalis) capaz de exprimir, de forma condensada, as várias ideias e as suas relações e combinações múltiplasfavorecea análise exaustiva dessas ideias conducente à definição rigorosa  de cada uma delas e, portanto, à sua articulação lógica e sistemática, ou seja, à constituição da Enciclopédia.

Dito de outro modo: na impossibilidade de, à moda de Lull, começar por estabelecer de forma definitiva aquilo a que Leibniz chama "alfabeto dos pensamentos humanos", isto é, o pequeno número de pensamentos primitivos em que todos os pensamentos humanos devem poder ser resolvidos (o que, como Descartes argumentou, implicava uma prévia e completa análise filosófica dos saberes enciclopédicos), Leibniz propõe-se um sistema em ziguezague, explorando as virtualidades da correlação e paralelismo entre o desenvolvimento da enciclopédia e a construção progressiva da língua filosófica.

Apesar de sucessivamente reformulado, situado no cruzamento de influências heterogéneas, múltiplo e fragmentário na sua própria delimitação interna, há assim um último traço que atravessa o projecto enciclopedista de Leibniz:referimo-nos à estreita articulação estabelecida por Leibniz entre a enciclopédia e a construção de uma língua filosóficaou Characteristica Universalis. Como Leibniz escreve: 

"a Característica que me proponho não pede senão uma espécie de nova Enciclopédia" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 40).

A implicação entre característica universal e enciclopédia é de tal maneira profunda, a articulação de tal modo imbrincada que, como Leibniz escreve: 

"Uma vez feita esta enciclopédia segundo a ordem que me proponho, a característica estaria quase toda feita sem que aqueles que nela trabalhassem disso se apercebessem, julgando trabalhar apenas para uma Enciclopédia" (Leibniz, ed. Gerhardt, 1960, VII: 40).

Por outras palavras, Leibniz tem consciência - e nisto consiste o lugar ímpar que Leibniz ocupa na historia da enciclopédia e da unidade da ciência de que aquela é uma das mais fortes configurações - que a informação (enciclopédia) altera a própria estrutura compreensiva (characteristica) capaz de produzir (inventar) nova informação. Para Leibniz, como para Lull, a acumulação do saber simplifica as vias da invenção.

Essa língua filosófica, que asseguraria a unidade do projecto científico e enciclopédico, nunca foi construída, nem poderia ter sido, como vimos atrás. Trata-se mais uma vez de um projecto, porventura impossível, irrealizável. Acontece que, nesta, como noutras áreas da sua actividade intelectual, Leibniz avança com vários projectos ao mesmo tempo, todos eles intimamente imbricados, de tal modo que a incompletude de uns provoca a incompletude de outros. As suas incompletudes não invalidam porém o seu inestimável valor.

A Leibniz se ficou a devera formulação mais extrema e límpida do projecto enciclopedista de unidade das ciências. Numa linha subterrânea que atravessa a história do movimento da unidade das ciências e que vai de Lull a Frege, Leibniz é de facto quem mais profundamente se apercebe das implicações linguísticas e inventivas desse projecto, sem se deixar amedrontar com as dificuldades práticas - leia-se, as impossibilidades - da sua realização. Aqui como noutras áreas da actividade humana, determinar o que se deveria fazer é um contributo indispensável para saber o que se pode fazer. 

Na verdade, se Leibniz segue a inspiração lulliana, Gottlob Frege (1848-1925) pode ser considerado como um continuador consequente de Leibniz. Para um estudo das similaridades entre o projecto leibniziano de uma characteristica universalis e o projecto fregueano de uma Begriffschrift - similaridades que o próprio Frege reconhece e reclama (cf. Frege (1882: em especial 71-72) - vejam-se os estudos de Claude Imbert (1979) e tb. de Eike-Henner Kluge (1979).

Nesse sentido se poderá dizer que o objectivo do projecto enciclopedista de Leibniz, não foi a reconstrução especular da unidade dos saberes segundo um plano ideal, mas a elaboração do modelo teórico a que, no seu máximo rigor, deveria obedecer a estruturação sistemática dos conhecimentos humanos e o processo da sua efectiva unificação.