| Trata-se invariavelmente de uma obra mais ou menos volumosa
que apresenta, sem pretensões de originalidade, um panorama que se
pretende completo, imparcial e objectivo do conjunto dos conhecimentos
disponíveis numa determinada época.
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1 - Exaustividade e Selectividade
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Tal é o caso das inúmeras e imensas enciclopédias chinesas. A título de curiosidade, refiram-se as duas maiores de que há notícia:
A dimensão destas obras, a sua desmedida extensão, é bem sintoma do carácter circular da civilização chinesa, da estabilidade previsível dos conhecimentos tradicionalmente fundados que definem a sua cultura. Como diz (Salsano, 1973: 563) uma consequência do "imobilismo do Império". |
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Como Diderot perceberá: "se se empregassem na realização de uma enciclopédia tantos anos quanto a extensão do seu objecto parece exigir, aconteceria que, em virtude das revoluções, que não são menos rápidas nas ciências, e sobretudo nas artes, do que na língua, o dicionário (que se elaborasse) seria o de um século passado, da mesma maneira que um vocabulário que se executasse lentamente não poderia ser senão de um reino que já não existiria" (Diderot, ed Laffont: 370). E mais adiante: "as opiniões envelhecem e desaparecem como as palavras, o interesse que se dedicava a certas invenções, diminui de dia para dia e extingue-se. Se o trabalho é muito longo, estende-se sobre coisas momentâneas que deixaram de interessar, nada terá dito sobre outras cujo lugar terá já passado"(ibid.). |
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É a consciência desse
estatuto de inexorável inacabamento que leva a enciclopédia, a partir da
modernidade, a reconhecer-se
como obra económica. O que a
enciclopédia então pretende não é tanto conter em si a totalidade imensa e
indeterminada da produção literária e dos conhecimentos constituídos, mas ir ao
encontro de tudo o que neles há de essencial, discriminar o que é
importante, anular redundâncias, eliminar insignificâncias, sintetizar a
informação dispersa e caótica. Mais do que conter a biblioteca na sua totalidade, mais do que identificar-se com ela, o que a enciclopédia visa é constituir-se como uma biblioteca compacta. Nesse sentido, a enciclopédia vê-se obrigada a conjugar a sua pretensão de exaustividade com uma exigência de selectividade, estabelecendo demarcações entre o que é e não é pertinente, entre o que vale e não vale a pena ser contido nas suas páginas, entre o que merece e não merece ser conservado, compilado, transmitido. |
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Tal como a escola, essa outra figura que recorta sobre o capital de saber de uma determinada época os conteúdos a transmitir, que escolhe e selecciona o que pode e o que deve ser dito, a enciclopédia, embora pretendendo ser uma fonte universal de conhecimentos, embora desejando oferecer informações sobre todos os possíveis desejos dos seus leitores, não conseguirá nunca cobrir todos os assuntos |
De fora, ficam temas como humor, sátira, vida quotidiana, vestuário, cozinha, biografia de contemporâneos, costumes, informações turísticas, actividades domésticas. |
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2 - Abertura e Similaridade
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Ao contrário do
dicionário, instrumento de codificação tendencialmente auto-fundado, a
enciclopédia é um dispositivo semântico aberto, uma representação que
remete para o mundo das coisas e dos acontecimentos de que a língua fala. "as palavras 'universo' e 'enciclopédia' têm uma óbvia similaridade de significado. Ambas vêem de palavras - num caso latina, no outro grega - que significam totalidade ou todo. Quer o universo seja finito ou infinito, qualquer que seja a sua constituição ou organização, ele abraça tudo o que é. Nada está fora dele; tudo o que acontece ocorre dentro dele. Será possível, com igual segurança, dizer que a enciclopédia é uma similar totalidade ou todo ? Talvez não possamos dizer efectivamente isso de nenhuma enciclopédia histórica. Mas é a esse ideal que todas as enciclopédias procuram dar corpo" (Adler, 1973-1974 b: 692). |
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Mais do que a pretensão à exaustividade, o que este texto ilustra muito claramente é a proximidade entre a enciclopédia e o mundo de que ela fala e para o qual está irremediavelmente aberta. Proximidade que, como também afirma Adler, não é apenas da ordem da similaridade: "Não nos interessa apenas a similaridade do universo e da enciclopédia como totalidades ou todos mas também o modo como estes dois todos estão relacionados um com o outro. Um, o universo, abraça não só tudo o que é mas também tudo o que pode ser conhecido. O outro, a enciclopédia, tem como objectivo a apresentação de tudo o que é e pode ser conhecido acerca do universo. Um é espelhado ou reflectido no outro - o macro cosmos no micro cosmos" (ibid). Estamos perante uma relação cognitiva que - tanto no caso da Encyclopaedia Britannica de Mortimor Adler, nos finais do século XX, como, setecentos anos antes, no Speculum Majus de Vincent de Beauvais do início do século XIII - se deixa pensar enquanto relação especular. |
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Para além da sabedoria do título, o Speculum Majus de Vincent de Beauvais é ainda significativo por uma outra razão - o facto de ser uma das primeiras enciclopédias a sobredotar o texto escrito com o valor de evidência das imagens dando assim expressão formal à relação especular da enciclopédia com o mundo. Ele inaugura um estilo que se caracterizará pelo facto de a enciclopédia incluir, com grande frequência a partir do século XVIII, materiais linguísticos não lineares, tais como gravuras, desenhos, diagramas, ilustrações, mapas, cartas, atlas, fotografias, tabelas estatísticas e esquemas de variados tipos. Ao contrário do dicionário, a enciclopédia tende ao aproveitamento semântico dos recursos diagramáticos da linguagem pondo-os ao serviço da referência e da descrição - imagética, icónica, cartográfica - do mundo para que ela remete e que nela se espelha. |
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Com finalidades nunca meramente decorativas nas obras medievais, é no Renascimento, e sobretudo a partir do século XVIII, que a inclusão de imagens na enciclopédia se generaliza. |
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Dois exemplos
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Digamos que a enciclopédia nunca é um dicionário. Embora algumas enciclopédias possam ter sido designadas por dicionários e muitas tenham, em comum com o dicionário, a ordem alfabética da apresentação dos seus elementos constituintes, nunca nenhum dicionário pode alguma vez ser confundido com uma enciclopédia. |
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E isto por 2 ordens de razões:
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É verdade que o dicionário supõe sempre uma qualquer abertura (enciclopédica) ao mundo das coisas e dos acontecimentos de que a língua fala. Mas, a enciclopédia não é nunca um dicionário. |
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As suas intenções não são nunca
meramente lexicográficas. Mais do que, como faz o dicionário, pretender cobrir
a totalidade das palavras disponíveis, a enciclopédia, porque visa as coisas
para lá das palavras, é obrigada a escolher um número restrito de palavras no interior do
léxico. Assim se explica que, ao contrário do dicionário, que acompanha as palavras na
sua flexão e derivação lexical, a enciclopédia escolha fundamentalmente
substantivos (Cf. Auroux 1989:
782). Por outro lado, se o dicionário visa dar o (ou os) significado de cada uma das palavras do léxico, a enciclopédia não exige necessariamente a definição preliminar do termo designatório da entrada. Em entradas de maior desenvolvimento, a definição inicial não é sequer aconselhável. |
Remetemos para um estudo de Umberto Eco (1983) e para a distinção - contrária a esta - que aí é estabelecida entre dicionário e enciclopédia. Como diz Umberto Eco, porque os dicionários e enciclopédias "de carne e osso" não coincidem com as noções teóricas enquanto categorias de uma semiótica geral, acontece que muitos dicionários contêm informação enciclopédica e muitas enciclopédias contém informação diccionarial. Trata-se, segundo Eco, de uma situação menos escandalosa para a enciclopédia do que para o diccionário na medida em que "um dicionário representa uma série de informações linguísticas com exclusão das enciclopédicas enquanto que uma enciclopédia, representando idealmente todo o conhecimento do mundo, pode incluir também o conhecimento linguístico" (1983: 56-57). |
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Em suma,
a enciclopédia não segue a estratégia analítica do dicionário mas sim uma
estratégia sintética. Ela está interessada, não nas palavras, mas naquilo a que
elas reenviam.
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Razão pela qual, Umberto Eco defende que, face à inadequação e impossibilidade de realização radical do "modelo forte" que é o diccionário, a enciclopédia ou "modelo frágil", constitui "o único meio capaz de dar conta, não só do funcionamento de uma dada língua, não só do funcionamento de um qualquer sistema semiótico, mas também da vida de uma cultura como sistema de sistemas semióticos interconexos" (Eco, 1983: 74-75). |
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3 - Descontinuidade e Combinatória
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Porém, tal como o
dicionário, a enciclopédia é sempre um texto
descontínuo, composto por entradas independentes. |
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Acresce que os campos semânticos constituídos nunca apresentam contornos (fronteiras) bem definidas. Cada entrada reenvia (abre) implícita ou explicitamente para outras entradas. Estas, por sua vez, abrem para outras e assim sucessivamente de tal modo que cada entrada está virtualmente ligada a todas as outras. Embora o número de entradas seja finito e o número de correlações explicitamente estabelecidas entre duas entradas - chamadas, reenvios - seja igualmente finito e relativamente restrito, o número das combinações possíveis é indeterminado, tendencialmente infinito. |
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Face a esta condição ilimitada, faz todo o sentido perguntar pelo tipo de objectividade material (textual) de uma enciclopédia ?
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Ao exceder o que seria a síntese aditiva de todas as suas entradas, ela aponta para o esgotamento de todas as combinatórias possíveis das diversas entradas ainda que, como assinala Jean Petitot (1985: 12), "o espaço global de uma enciclopédia não seja representável". |
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4 - Deriva e Labirinto
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A textualidade evanescente da enciclopédia aponta para um tipo determinado de leitura. Em limite a enciclopédia não é para ser lida mas consultada. Uma leitura contínua e integral a que a maioria dos textos está em potência destinada é aqui altamente improvável. Mesmo no caso de enciclopédias não alfabéticas, em que as entradas se encontram organizadas por conjuntos disciplinares ou temáticos, a leitura contínua não é previsível, nem sequer desejável. |
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Digamos que, pela natureza descontínua e combinatória da sua textualidade, a enciclopédia oferece ao leitor a possibilidade de construir os seus próprios percursos de leitura, de acordo com os seus interesses e preferências. Na verdade, a enciclopédia não se limita a proporcionar essa possibilidade. Sugere-a, propicia-a, fomenta-a mesmo, na medida em que multiplica as referências internas, que prevê esquemas combinatórios, percursos diferenciados de leitura, que propõe um conjunto de recursos que visam motivar o leitor, convidá-lo, forçá-lo quase à deriva. Digamos que a enciclopédia não pode controlar todas as combinações a que ela mesma virtualmente pode dar origem. É o leitor quem estabelece a combinação. Ao leitor cabe, em última instância, efectuar a escolha, tomar as decisões que fazem passar da virtualidade dos caminhos possíveis à efectividade de um percurso actual. |
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Cada combinação corresponde a um percurso de leitura subjectivamente determinado. A passagem do virtual ao actual está dependente de um acto de escolha, do movimento electivo de quem lê. Por outras palavras, o acto de leitura corresponde a um acto de procura, de investigação. Toda a leitura é aqui necessariamente interactiva.
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Querer cobrir globalmente a enciclopédia, querer percorrer todos os percursos que ela permite, querer esgotar todas as suas possibilidades, é resvalar da enciclopédia para a vertigem do labirinto. |
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5 - Leitor
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Daí que a enciclopédia, como um todo, nunca seja didáctica.
a verdade é que, a partir do momento em que o percurso a efectuar entre elas, o jogo das suas combinações, é inteiramente determinado pelo leitor, a enciclopédia escapa à lógica do acto de ensino. |
Neste ponto, não podemos concordar com Auroux que defende, a nosso ver de forma equivocada, que "o género enciclopédico não é no fundo senão uma categoria do género didáctico"(1989: 782). O argumento apresentado diz respeito ao facto de a enciclopédia transmitir sempre um saber estabilizado capaz portanto de ser objecto de uma aprendizagem. Se é verdade que a instituição escolar não transmite senão saberes constituídos, o argumento é inaceitável na medida em que parece ignorar que, por um lado, nem toda a aprendizagem resulta de um acto de ensino e que, por outro lado, nem só os saberes estabilizados podem ser objecto de aprendizagem. |
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Claro que, como todo o texto, a enciclopédia tem o seu leitor, dirige-se a ele, postula-o. |
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Mas o leitor da enciclopédia nunca é o aluno
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O leitor nunca é colocado na situação de seguir um curso predeterminado de estudos mas sim convidado a escolher integralmente o seu singular percurso de leitura. |
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Daqui decorre que o autodidacta, enquanto figura possível do leitor da enciclopédia, não é uma caricatura do aluno mas uma das suas perversões. Nesse sentido, o autodidacta é, simultaneamente, a caricatura e a vítima do leitor da enciclopédia. Ele confunde a enciclopédia com a escola, tenta substituir esta por aquela, procura reduzir a lógica combinatória da enciclopédia à linearidade e sistematicidade aquisitiva de um livro ou de um processo de ensino.
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Ao contrário do autodidacta, o leitor da
enciclopédia é um homem já escolarizado, detentor de um conjunto mínimo de
conhecimentos e hábitos de leitura.
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6 - Público
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A enciclopédia dirige-se pois a um público já escolarizado. É verdade que
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No entanto, a partir do século XVII, século durante o qual verdadeiramente o "género" se estabiliza, a enciclopédia passará a ser construída e pensada para um público já letrado, porventura mesmo esclarecido. Como escreve D'Alembert no Prospectus da Encyclopédie (Discours Préliminaire: 143).
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Do mesmo modo, a Encyclopaedia Britannica é escrita para
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7 - Autor
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Inicialmente feita por um só autor, a partir do século XVIII, quando a ciência tem já um século de resultados significativos para apresentar, a enciclopédia, supõe a confluência de numerosos colaboradores, exige a colaboração de competências muito diversificadas.
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Enciclopédias de um só autor são por exemplo as de Varrão, de Plínio, dos medievais Cassiodoro, St. Isidoro de Sevilha, Hugues de St. Victor, Vincent de Beauvais, dos renascentistas Valla, Mafei, Delfini ou Vives, dos seiscentistas Zara, Comenius, Alsted ou Pierre Bayle, |
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Como se a elaboração de uma enciclopédia fosse anónima e a sua posse colectiva. Como se a enciclopédia fosse de todos e de ninguém. |
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Aliás, o leitor não sente em geral necessidade de conhecer o autor do texto de uma enciclopédia. O que espera, é uma apresentação introdutória sobre o tema, geral, completa, verdadeira e impessoal. |
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Hoje, pelo contrário, a enciclopédia tende a ser constituída por artigos assinados o que, ao mesmo tempo, transforma o estilo da enciclopédia que de impessoal, objectivo e imparcial como é, por exemplo, objectivo tradicional da Encyclopaedia Britannica passa a ser mais pessoal, subjectivo e crítico. Mais do que um autor, a enciclopédia tende hoje a ser obra de vários autores, com muita frequência apresentando mesmo perspectivas contrastantes nas matérias mais controversas. Porém, mesmo quando é feita por um só homem - tarefa que o progresso dos conhecimentos humanos torna cada vez mais impossível - a enciclopédia supõe sempre o recurso a trabalhos precedentes, nomeadamente trabalhos anteriores de natureza enciclopédica e fontes de diversa ordem.
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Mas a enciclopédia não pretende nunca começar do zero ou sequer pôr em dúvida os saberes acumulados no passado. O seu objectivo maior é reuni-los, compilá-los, conservá-los, filtrá-los, seleccioná-los, ordená-los.
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8 - Ordem e Sistema
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Obra pois necessariamente colectiva mesmo quando realizada por um único homem, a enciclopédia não é um amontoado de textos descontínuos de um mesmo autor ou provenientes de colaborações esparzas. |
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Ela não é nunca uma miscelânea mas um conjunto de partes interdependentes, uma apresentação ordenada. Daí que obras similares como gazetas, almanaques, obras do tipo "Who is who" não possam ser incluídas no "género" enciclopédia. Se há algum traço que seja característico do "género" enciclopédia é o facto de ela ter subjacente uma intenção de ordenação, de não ser nunca um aglomerado, um inventário, uma acumulação, mas procurar constituir uma ordem. Digamos que a fidelidade à sua origem etimológica impõe, logo de início, uma vocação sintética. Na verdade, toda a enciclopédia supõe, implícita ou explicitamente, um quadro sistemático, uma forma de organização dos saberes que a ordem alfabética, quando existe, faz desaparecer ou que a ordem temática altera. No entanto, a estrutura sistemática está lá e é ela que vai ditar, não tanto a quantidade e qualidade das entradas, a inclusão ou exclusão de determinados tópicos, mas a articulação, o arranjo, a ordenação, a importância relativa de umas entradas em relação a outras. |
Embora algumas enciclopédias incluam material biográfico (a primeira terá sido o a Grosses vollständiges Universal-Lexicon aller Wissenschafften und Künste (1732-1750) com 64 volumes de Johann Heinrich Zedler), o género Who is Who tem como antecedentes no século XVIII obras de carácter biográfico, como por exemplo:
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Porém, como faz notar Salsano (1973: 560), tal não significa que a enciclopédia se reduza a um saber sistemático. Ao seu lado, a emergência caótica de novos conhecimentos e novos saberes, as inovações técnicas e as transformações sociais vão perturbar a ordem previamente estabelecida, impedindo que a enciclopédia se feche num saber sistemático. |
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Como escreve Pierre Larousse (Préface, 1866: LXXVI): "as ciências dão fraternalmente a mão à literatura como às belas-artes. Esta unidade, como também acontece na harmonia dos mundos materiais, não é obra do acaso". |
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Assim se justifica o trabalho de redacção que toda a enciclopédia implica.
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9 - Reflexo e Actualização |
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Aberta ao mundo, a enciclopédia é por isso uma representação que remete para um contexto histórico e cultural determinado. Ela reflecte sempre a situação cultural, civilizacional que lhe é contemporânea, nomeadamente no que diz respeito à situação do conhecimento científico. Assim:
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Como Adler diz no Prefácio da 15ª edição da Encyclopaedia Britannica "Obviamente, muito do que está contido nesta Britannica não podia ter sido escrito para a 11ª edição publicada em 1910-1911. Nenhuma das teorias científicas que levariam, quer à bomba nuclear, quer à conquista do espaço, tinha sido ainda formulada e grande parte apenas tinha sido adivinhada por um punhado de investigadores avançados em cada um dos campos envolvidos; o nome da mecânica quântica tinha reduzida circulação; a psicanálise e o Marxismo estavam praticamente ainda em embrião; a Rússia estava ainda sob o domínio de um czar; Hitler era pouco conhecido mesmo na sua terra natal e Sun Yatsen liderava uma revolução na China. A primeira Guerra mundial ainda não tinha sido travada. Na arte, na literatura, na música, na teoria económica, na medicina, em quase todos os aspectos da actividade mental e tecnológica do homem estávamos perante um mundo que, indiscutivelmente, é hoje quase irreconhecível" (Prefácio, 1973-1974: XII). |
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É justamente porque reflecte uma determinada situação dos saberes que a enciclopédia tem que ser actualizada. Porém, actualizar uma enciclopédia não é apenas
E isto porque
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"Uma Britannica que queira seriamente dar conta do estado geral do conhecimento intelectual em 1974 não pode, por exemplo, dedicar 30 das suas páginas a um estudo de Cavalaria ou a uma análise de Hieráldica e três à posição legal sobre a pornografia, a obscenidade e a censura" (Adler, Prefácio, 1973-1974: XIII).
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Ao lado de entradas que surgem de novo, acompanhando os progressos do conhecimento científico, da técnica, da cultura em geral, há entradas que desaparecem ou que, embora mantendo-se, adquirem um estatuto de curiosidade, velharia, erudição
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Pelo contrário, outras entradas são a marca inequívoca de uma enciclopédia recente.
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10 - Prospectiva e Heurística |
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Mas, a relação da enciclopédia com a situação cultural, civilizacional e epistemológica do seu tempo não se esgota numa relação especular. |
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Se é verdade que a enciclopédia reflecte a situação da ciência sua contemporânea, que é devedora de um determinado corpus de conhecimentos,no que toca à estrutura dos saberes, a relação que com eles a enciclopédia mantém é fundamentalmente de natureza prospectiva. Digamos que, embora filha do seu tempo, datada, adaptada às condições culturais concretas em que tem origem, a enciclopédia intervém activamente na organização dos saberes, quer pelos valores e finalidades práticas que a animam, quer pela orientação normativa das suas propostas sistemáticas. |
O caso mais significativo é o da Encyclopédie de Diderot e D'Alembert. Ela é construída a partir de um sistema de classificação dos saberes que nada tem a ver com a estrutura universitária da época mas que prenuncia, sugere, indica os desenvolvimentos futuros das ciências humanas, que, portanto, aponta, propõe, introduz novos problemas e novos arranjos disciplinares. |
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A natureza prospectiva da enciclopédia, que se traduz, fundamentalmente, na sua capacidade de apontar uma sistemática para o corpus dos saberes que lhe são contemporâneos, revela-se ainda no seu elevado valor heurístico. |
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Ao inventariar o
conhecido, ao dar a conhecer o já sabido, a enciclopédia funciona como uma prótese
mnésica, memória artificial. Tal como o arquivo, a
biblioteca e a Summa, ela recolhe,
conserva e mantém disponível o património cultural acumulado, permitindo assim
libertar a memória natural para aquilo que verdadeiramente nela importa guardar.
Digamos que a enciclopédia esvazia de conteúdo a oposição entre memória e invenção.
A enciclopédia dá-se claramente a ver como instrumento ao serviço do progresso das ciências e da procura da verdade. |
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Retrospectiva por necessidade, a enciclopédia é pois prospectiva e heurística por vocação. Por detrás da estabilidade do saber constituído, espreita a vontade de um saber em constituição. |
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