O projecto enciclopedista

O "género" Enciclopédia

Trata-se invariavelmente de uma obra mais ou menos volumosa que apresenta, sem pretensões de originalidade, um panorama que se pretende completo, imparcial e objectivo do conjunto dos conhecimentos disponíveis numa determinada época.

 

1 - Exaustividade e Selectividade

Orientada por uma pretensão à exaustividade, a enciclopédia apresenta-se como a exposição da totalidade do saber adquirido pela humanidade até um determinado momento. Vertigem de exaustividade que pode levar o empreendimento enciclopédico a adquirir uma dimensão teratológica

Tal é o caso das inúmeras e imensas enciclopédias chinesas. A título de curiosidade, refiram-se as duas maiores de que há notícia:

  •  Yung-loh Ta Tien, mandada coligir pelo imperador Yung-Lo (1403-1425), obra em 11.995 volumes e 22.937 capítulos, cuja redacção se teria iniciado em 1408 e que, dada a sua dimensão, nunca chegou a ser impressa

  • T'u shu chi ch'êng, em 5.020 volumes e cerca de 10.000 capítulos, mandada compilar pelos imperadores K'ang-hi (1661-1721) e Yung-ch'eng (1721-1725), publicada em Xangai em 1726.

A dimensão destas obras, a sua desmedida extensão, é bem sintoma do carácter circular da civilização chinesa, da estabilidade previsível dos conhecimentos tradicionalmente fundados que definem a sua cultura. Como diz (Salsano, 1973: 563) uma consequência do "imobilismo do Império".

No British Museum está conservado um exemplar completo da T'u-shu chi-ch'eng.
Na Staatsbibliothek de Berlim existe um exemplar de uma reedição de 1889 em 1628 volumes.


Pelo contrário, no ocidente, o enciclopedismo será tocado pela lei da cumulatividade e inovação constante que determina a configuração cultural da nossa civilização. 

Na verdade, se o enciclopedismo antigo e medieval está ainda dominado por uma ingénua perseguição da exaustividade - as figuras adoptadas serão predominantemente as do compêndio, da compilação e da summa - o enciclopedismo post-medieval dificilmente escapará à consciência aguda da sua natureza incompleta,  produção sempre precária, sempre inacabada, historicamente situada e condenada ao movimento voraz do crescimento dos conhecimentos. 

Como Diderot perceberá:

"se se empregassem na realização de uma enciclopédia tantos anos quanto a extensão do seu objecto parece exigir, aconteceria que, em virtude das revoluções, que não são menos rápidas nas ciências, e sobretudo nas artes, do que na língua, o dicionário (que se elaborasse) seria o de um século passado, da mesma maneira que um vocabulário que se executasse lentamente não poderia ser senão de um reino que já não existiria" (Diderot, ed Laffont: 370).

E mais adiante:

"as opiniões envelhecem e desaparecem como as palavras, o interesse que se dedicava a certas invenções, diminui de dia para dia e extingue-se. Se o trabalho é muito longo, estende-se sobre coisas momentâneas que deixaram de interessar, nada terá dito sobre outras cujo lugar terá já passado"(ibid.).

É a consciência desse estatuto de inexorável inacabamento que leva a enciclopédia, a partir da modernidade, a reconhecer-se como obra económica. O que a enciclopédia  então pretende  não é tanto conter em si a totalidade imensa e indeterminada da produção literária e dos conhecimentos constituídos, mas ir ao encontro de tudo o que neles há de essencial, discriminar o que é importante, anular redundâncias, eliminar insignificâncias, sintetizar a informação dispersa e caótica. 

Mais do que conter a biblioteca na sua totalidade, mais do que identificar-se com ela, o que a enciclopédia visa é constituir-se como uma biblioteca compacta. Nesse sentido, a enciclopédia vê-se obrigada a conjugar a sua pretensão de exaustividade com uma exigência de selectividade, estabelecendo demarcações entre o que é e não é pertinente, entre o que vale e não vale a pena ser contido nas suas páginas, entre o que merece e não merece ser conservado, compilado, transmitido.

Tal como a escola, essa outra figura que recorta sobre o capital de saber de uma determinada época os conteúdos a transmitir, que escolhe e selecciona o que pode e o que deve ser dito, a enciclopédia, embora pretendendo ser uma fonte universal de conhecimentos, embora desejando oferecer informações sobre todos os possíveis desejos dos seus leitores, não conseguirá nunca cobrir todos os assuntos

De fora, ficam temas como humor, sátira, vida quotidiana, vestuário, cozinha, biografia de contemporâneos, costumes, informações turísticas, actividades domésticas.

2 - Abertura e Similaridade

 

Ao contrário do dicionário, instrumento de codificação tendencialmente auto-fundado, a enciclopédia é um dispositivo semântico aberto, uma representação que remete para o mundo das coisas e dos acontecimentos de que a língua fala.

Como escreve Mortimor Adler, director da Encyclopaedia Britannica desde a sua 15ª edição:

"as palavras 'universo' e 'enciclopédia' têm uma óbvia similaridade de significado. Ambas vêem de palavras - num caso latina, no outro grega - que significam totalidade ou todo. Quer o universo seja finito ou infinito, qualquer que seja a sua constituição ou organização, ele abraça tudo o que é. Nada está fora dele; tudo o que acontece ocorre dentro dele. Será possível, com igual segurança, dizer que a enciclopédia é uma similar totalidade ou todo ? Talvez não possamos dizer efectivamente isso de nenhuma enciclopédia histórica. Mas é a esse ideal que todas as enciclopédias procuram dar corpo" (Adler, 1973-1974 b: 692).

Mais do que a pretensão à exaustividade, o que este texto ilustra muito claramente é a proximidade entre a enciclopédia e o mundo de que ela fala e para o qual está irremediavelmente aberta. 

Proximidade que, como também afirma Adler, não é apenas da ordem da similaridade:

"Não nos interessa apenas a similaridade do universo e da enciclopédia como totalidades ou todos mas também o modo como estes dois todos estão relacionados um com o outro. Um, o universo, abraça não só tudo o que é mas também tudo o que pode ser conhecido. O outro, a enciclopédia, tem como objectivo a apresentação de tudo o que é e pode ser conhecido acerca do universo. Um é espelhado ou reflectido no outro - o macro cosmos no micro cosmos" (ibid).

Estamos perante uma relação cognitiva que - tanto no caso da Encyclopaedia Britannica de Mortimor Adler, nos finais do século XX, como, setecentos anos antes, no Speculum Majus de Vincent de Beauvais do início do século XIII - se deixa pensar enquanto relação especular.

Para além da sabedoria do título, o Speculum Majus de Vincent de Beauvais é ainda significativo por uma outra razão - o facto de ser uma das primeiras enciclopédias a sobredotar o texto escrito com o valor de evidência das imagens dando assim expressão formal à relação especular da enciclopédia com o mundo.

 Ele inaugura um estilo que se caracterizará pelo facto de a enciclopédia incluir, com grande frequência a partir do século XVIII, materiais linguísticos não lineares, tais como gravuras, desenhos, diagramas, ilustrações, mapas, cartas, atlas, fotografias, tabelas estatísticas e esquemas de variados tipos.

Ao contrário do dicionário, a enciclopédia tende ao aproveitamento semântico dos recursos diagramáticos da linguagem pondo-os ao serviço da referência e da descrição - imagética, icónica, cartográfica - do mundo para que ela remete e que nela se espelha. 

Com finalidades nunca meramente decorativas nas obras medievais, é no Renascimento, e sobretudo a partir do século XVIII, que a inclusão de imagens na enciclopédia se generaliza.

Dois exemplos

  • as magníficas gravuras com que foi ilustrado o Lexicon Technicum (1704) de John Harris

  • os 11 volumes de tábuas e ilustrações publicados entre 1767 e 1772 como complemento das mais de seiscentas que se encontram espalhadas ao longo dos 17 volumes da Encyclopédie.

 

Digamos que a enciclopédia nunca é um dicionário. Embora algumas enciclopédias possam ter sido designadas por dicionários e muitas tenham, em comum com o dicionário, a ordem alfabética da apresentação dos seus elementos constituintes, nunca nenhum dicionário pode alguma vez ser confundido com uma enciclopédia.

E isto por 2 ordens de razões:

  • porque  a ordem alfabética de apresentação dos elementos que constituem uma enciclopédia não é clássica nem geral. Só a partir do século XVIII, e ainda assim de forma não universal, a ordenação alfabética se impõe face a outras formas de ordenação.

  • porque nenhum dicionário realiza cabalmente a vertigem de codificação integral da língua que percorre a sua ideia.

É verdade que o dicionário supõe sempre uma qualquer abertura (enciclopédica) ao mundo das coisas e dos acontecimentos de que a língua fala. 

Mas, a enciclopédia não é nunca um dicionário. 

As suas intenções não são nunca meramente lexicográficas.

Mais do que, como faz o dicionário, pretender cobrir a totalidade das palavras disponíveis, a enciclopédia, porque visa as coisas para lá das palavras, é obrigada a escolher um número restrito de palavras no interior do léxico. 

Assim se explica que, ao contrário do dicionário, que acompanha as palavras na sua flexão e derivação lexical, a enciclopédia escolha fundamentalmente substantivos (Cf. Auroux 1989: 782). 

Por outro lado, se o dicionário visa dar o (ou os) significado de cada uma das palavras do léxico, a enciclopédia não exige necessariamente a definição preliminar do termo designatório da entrada. Em entradas de maior desenvolvimento, a definição inicial não é sequer aconselhável. 

Remetemos para um estudo de Umberto Eco (1983) e para a distinção - contrária a esta - que aí é estabelecida entre dicionário e enciclopédia. 

Como diz Umberto Eco, porque os dicionários e enciclopédias "de carne e osso" não coincidem com as noções teóricas enquanto categorias de uma semiótica geral, acontece que muitos dicionários contêm informação enciclopédica e muitas enciclopédias contém informação diccionarial. 

Trata-se, segundo Eco, de uma situação menos escandalosa para a enciclopédia do que para o diccionário na medida em que "um dicionário representa uma série de informações linguísticas com exclusão das enciclopédicas enquanto que uma enciclopédia, representando idealmente todo o conhecimento do mundo, pode incluir também o conhecimento linguístico" (1983: 56-57).

Em suma, a enciclopédia não segue a estratégia analítica do dicionário mas sim uma estratégia sintética. Ela está interessada, não nas palavras, mas naquilo a que elas reenviam. 

Mais do que um dicionário, vocacionado para encontrar a estabilidade semântica essencial da língua, a enciclopédia é um conjunto de conhecimentos e, como tal, está irremediavelmente aberta ao Mundo e aos contextos mutáveis da sua compreensão.

 

Razão pela qual, Umberto Eco defende que, face à inadequação e impossibilidade de realização radical do "modelo forte" que é o diccionário, a enciclopédia ou "modelo frágil", constitui "o único meio capaz de dar conta, não só do funcionamento de uma dada língua, não só do funcionamento de um qualquer sistema semiótico, mas também da vida de uma cultura como sistema de sistemas semióticos interconexos" (Eco, 1983: 74-75). 

3 - Descontinuidade e Combinatória

 

Porém, tal como o dicionário, a enciclopédia é sempre um texto descontínuo, composto por entradas independentes. 

Estas podem apresentar-se, ou alfabeticamente organizadas, como no dicionário, ou articuladas em agrupamentos conceptuais mais vastos, de natureza disciplinar ou temática. Em qualquer dos casos, a contiguidade das entradas depende dos critérios de ordenação estabelecidos e não, como sublinha Auroux (cf. 1989: 782), de uma qualquer lógica argumentativa. 

Acresce que os campos semânticos constituídos nunca apresentam contornos (fronteiras) bem definidas. Cada entrada reenvia (abre) implícita ou explicitamente para outras entradas. Estas, por sua vez, abrem para outras e assim sucessivamente de tal modo que cada entrada está virtualmente ligada a todas as outras. Embora o número de entradas seja finito e o número de correlações explicitamente estabelecidas entre duas entradas  - chamadas, reenvios - seja igualmente finito e relativamente restrito, o número das combinações possíveis é indeterminado, tendencialmente infinito.

Face a esta condição ilimitada, faz todo o sentido perguntar pelo tipo de objectividade material (textual) de uma enciclopédia ?

  • Enquanto objecto literário, a enciclopédia só aparentemente está limitada pelo número das suas páginas, pela quantidade e qualidade das suas entradas. 

  • A materialidade finita da sua literalidade remete para um horizonte imensamente vasto e ondulante (irrepresentável) de combinações possíveis - uma combinatória sem regra - uma rede multidimensional de elementos discretos que se podem ligar, articular, aproximar de acordo com relações múltiplas, contactos flutuantes, curto-circuitos instantâneos, em perene mutação. 

  • Por outras palavras, enquanto totalidade, a enciclopédia não se reduz à  soma de todas as suas entradas, nem sequer à extensão / alargamento máximo de todos os seus campos semânticos.

Ao exceder o que seria a síntese aditiva de todas as suas entradas, ela aponta  para o esgotamento de todas as combinatórias possíveis das diversas entradas ainda que, como assinala Jean Petitot (1985: 12), "o espaço global de uma enciclopédia não seja representável".

4 - Deriva e Labirinto

 

A textualidade evanescente da enciclopédia aponta para um tipo determinado de leitura.  Em limite a enciclopédia não é para ser lida mas consultada. Uma leitura contínua e integral a que a maioria dos textos está em potência destinada é aqui altamente improvável. Mesmo no caso de enciclopédias não alfabéticas, em que as entradas se encontram organizadas por conjuntos disciplinares ou temáticos, a leitura contínua não é previsível, nem sequer desejável.

Digamos que, pela natureza descontínua e combinatória da sua textualidade, a enciclopédia oferece ao leitor a possibilidade de construir os seus próprios percursos de leitura, de acordo com os seus interesses e preferências. 

Na verdade, a enciclopédia não se limita a proporcionar essa possibilidade. Sugere-a, propicia-a, fomenta-a mesmo, na medida em que multiplica as referências internas, que prevê esquemas combinatórios, percursos diferenciados de leitura, que propõe um conjunto de recursos que visam motivar o leitor, convidá-lo, forçá-lo quase à deriva.

Digamos que a enciclopédia não pode controlar todas as combinações a que ela mesma virtualmente pode dar origem. É o leitor quem estabelece a combinação. Ao leitor cabe, em última instância,  efectuar a escolha, tomar as decisões que fazem passar da virtualidade dos caminhos possíveis à efectividade de um percurso actual.

Cada combinação corresponde a um percurso de leitura subjectivamente determinado. A passagem do virtual ao actual está dependente de um acto de escolha, do movimento electivo de quem lê. Por outras palavras, o acto de leitura corresponde a um acto de procura, de investigação. Toda a leitura é aqui necessariamente interactiva. 

  • Sou eu que vou estabelecendo o meu próprio percurso de leitura, 

  • Sou eu que escolho, por alargamentos sucessivos a partir de uma entrada inicial, qual ou quais as entradas ou campos semânticos devo abrir em seguida, 

  • Sou eu que vou construindo um percurso de leitura de acordo com os meus interesses no momento. 

  • À medida que a leitura prossegue, a rede das combinações torna-se cada vez mais complexa, de tal modo complexa que, ou a leitura aceita a condição da deriva, ou, pura e simplesmente, entra em perdição 

 

Querer cobrir globalmente a enciclopédia, querer percorrer todos os percursos que ela permite, querer esgotar todas as suas possibilidades, é resvalar da enciclopédia para a vertigem do labirinto.

5 - Leitor

 

Daí que a enciclopédia, como um todo, nunca seja didáctica.

  • independentemente da estabilidade constituída dos saberes que transmite e portanto da proximidade que, por esse prisma, pode ser estabelecida entre a enciclopédia e a normalização pedagógica dos objectos de estudo

  • independentemente da adopção de um estilo mais ou menos propedêutico e didáctico de exposição (algo entre o "tratado" e o "digest") para o qual tendem, vertiginosamente, as suas entradas, 

a verdade é que, a partir do momento em que o percurso a efectuar entre elas, o jogo das suas combinações, é inteiramente determinado pelo leitor, a enciclopédia escapa à lógica do acto de ensino.

Neste ponto, não podemos concordar com Auroux que defende, a nosso ver de forma equivocada, que "o género  enciclopédico não é no fundo senão uma categoria do género didáctico"(1989: 782). 

O argumento apresentado diz respeito ao facto de a enciclopédia transmitir sempre um saber estabilizado capaz portanto de ser objecto de uma aprendizagem. Se é verdade que a instituição escolar não transmite senão saberes constituídos, o argumento é inaceitável na medida em que parece ignorar que, por um lado, nem toda a aprendizagem resulta de um acto de ensino e que, por outro lado, nem só os saberes estabilizados podem ser objecto de aprendizagem.

Claro que, como todo o texto, a enciclopédia tem o seu leitor, dirige-se a ele, postula-o.

Mas o leitor da enciclopédia nunca é o aluno

  • nem o aluno diligente e aplicado a quem se dirige uma exposição ordenada que apresente os conceitos e as suas relações, ou de forma aditiva, ou por alargamentos concêntricos

  • nem o aluno desatento e desinteressado que importa seduzir por um discurso sugestivo, cativante

O leitor nunca é colocado na situação de seguir um curso predeterminado de estudos mas sim convidado a escolher integralmente o seu singular percurso de leitura. 

Daqui decorre que o autodidacta, enquanto figura possível do leitor da enciclopédia, não é uma caricatura do aluno mas uma das suas perversões. 

Nesse sentido, o autodidacta é, simultaneamente, a caricatura e a vítima do leitor da enciclopédia. 

Ele confunde a enciclopédia com a escola, tenta substituir esta por aquela, procura reduzir a lógica combinatória da enciclopédia à linearidade e sistematicidade aquisitiva de um livro ou de um processo de ensino.

 


Ao contrário do autodidacta, o  leitor da enciclopédia é um homem já escolarizado, detentor de um conjunto mínimo de conhecimentos e hábitos de leitura. 

Por outras palavras


à temporalidade linear da didáctica, opõe-se a espacialidade estrutural da
 enciclopédia, fonte de aprendizagens combinatórias, não curriculares

6 - Público

 

A enciclopédia dirige-se pois a um público já escolarizado. 

É verdade que

  • Cassiodoro escreveu para a instrução de monges simples e ignorantes

  • St. Isidoro escreveu para os padres e para a população recém convertida de Espanha

  • os enciclopedistas do renascimento escreveram sobretudo para uma nova classe mercantil em ascensão

 

No entanto, a partir do século XVII, século durante o qual verdadeiramente o "género" se estabiliza, a enciclopédia passará a ser construída e pensada para um público já letrado, porventura mesmo esclarecido. 

Como escreve D'Alembert no Prospectus da Encyclopédie (Discours Préliminaire: 143). 

"ela poderá funcionar como biblioteca, em todos os assuntos, para um homem do mundo, e, em todos os assuntos com excepção do seu, para um sábio de profissão" 

 

Do mesmo modo, a Encyclopaedia Britannica é escrita para

"leitores curiosos e inteligentes" (Preece, 1973-1974, vol. 1: XV), homens que, podendo ser especialistas numa dada área do conhecimento, serão sempre "leitores não especialistas" (ibid.) pois, embora "não sendo ofendidos com o tratamento que a enciclopédia faz da sua própria área de especialização, não encontram aí uma resposta adequada às suas necessidades nesse campo"(ibid.).

 

7 - Autor

 

Inicialmente feita por um só autor, a partir do século XVIII, quando a ciência tem já um século de resultados significativos para apresentar, a enciclopédia, supõe a confluência de numerosos colaboradores, exige a colaboração de competências muito diversificadas.

  • meia dúzia de colaboradores ilustres, como no caso do Lexicon thecnicum (1704) de John Harris que, elaborado sob os auspícios da Royal Society, contou com a colaboração de John Ray e Isaac Newton

  • uma poeira de colaboradores especializados, como no caso da Encyclopaedia Britannica que, na sua 15ª edição (1973-1974), vai implicar o esforço conjugado de "uma equipa editorial de dezenas, um equipa de consultores de mais de 200 e mais de 4.000 colaboradores" (Preece, 1973-1974: XVIII)

Enciclopédias de um só autor são por exemplo as de Varrão, de Plínio, dos medievais Cassiodoro, St. Isidoro de Sevilha, Hugues de St. Victor, Vincent de Beauvais, dos renascentistas Valla, Mafei, Delfini ou Vives, dos seiscentistas Zara, Comenius, Alsted ou Pierre Bayle


Digamos que, de discurso de uma única voz, a enciclopédia se metamorfoseia em polifonia, em totalidade múltipla e plural.


Com muita frequência, o esquecimento abate-se mesmo sobre grande parte daqueles que se dedicam à tarefa imensa de construir uma enciclopédia. 

  • ou porque eles assim mesmo o exigem, como no caso de alguns contribuintes anónimos da Encyclopédie

  • ou porque só recentemente as entradas passaram a ser assinadas, 

  • ou porque, apesar de serem indicadas as iniciais do nome dos autores de cada entrada e apresentada a chave que os permite identificar, o seu número é tão elevado e são tão poucos os leitores o fazem, 

Como se a elaboração de uma enciclopédia fosse anónima e a sua posse colectiva. 

Como se a enciclopédia fosse de todos e de ninguém.

Aliás, o leitor não sente em geral necessidade de conhecer o autor do texto de uma enciclopédia. O que espera, é uma apresentação introdutória sobre o tema, geral, completa, verdadeira e impessoal. 

Hoje, pelo contrário, a enciclopédia tende a ser constituída por artigos assinados o que, ao mesmo tempo, transforma o estilo da enciclopédia que de impessoal, objectivo e imparcial como é, por exemplo, objectivo tradicional da Encyclopaedia Britannica passa a ser mais pessoal, subjectivo e crítico. 

Mais do que um autor, a enciclopédia tende hoje a ser obra de vários autores, com muita frequência apresentando mesmo perspectivas contrastantes nas matérias mais controversas.

Porém, mesmo quando é feita por um só homem - tarefa que o progresso dos conhecimentos humanos torna cada vez mais impossível - a enciclopédia supõe sempre o recurso a trabalhos precedentes, nomeadamente trabalhos anteriores de natureza enciclopédica e fontes de diversa ordem. 

  • a dívida relativamente aos trabalhos anteriores pode ou não ser reconhecida

  • as fontes podem ou não ser exaustivamente enumeradas

Mas a enciclopédia não pretende nunca começar do zero ou sequer pôr em dúvida os saberes acumulados no passado. O seu objectivo maior é reuni-los, compilá-los, conservá-los, filtrá-los, seleccioná-los, ordená-los.


A Enciclopédia com dificuldade oculta a sua natureza profundamente anti-cartesiana

8 - Ordem e Sistema

 

Obra pois necessariamente colectiva mesmo quando realizada por um único homem, a enciclopédia não é um amontoado de textos descontínuos de um mesmo autor ou provenientes de colaborações esparzas. 

Ela não é nunca uma miscelânea mas um conjunto de partes interdependentes, uma apresentação ordenada

Daí que obras similares como gazetas, almanaques, obras do tipo "Who is who" não possam ser incluídas no "género" enciclopédia.

Se há algum traço que seja característico do "género" enciclopédia é o facto de ela ter subjacente uma intenção de ordenação, de não ser nunca um aglomerado, um inventário, uma acumulação, mas procurar constituir uma ordem. Digamos que a fidelidade à sua origem etimológica impõe, logo de início, uma vocação sintética.

Na verdade, toda a enciclopédia supõe, implícita ou explicitamente, um quadro sistemático, uma forma de organização dos saberes que a ordem alfabética, quando existe, faz desaparecer ou que a ordem temática altera. No entanto, a estrutura sistemática está lá e é ela que vai ditar, não tanto a quantidade e qualidade das entradas, a inclusão ou exclusão de determinados tópicos, mas a articulação, o arranjo, a ordenação, a importância relativa de umas entradas em relação a outras. 

Embora algumas enciclopédias incluam material biográfico (a primeira terá sido o a Grosses vollständiges Universal-Lexicon aller Wissenschafften und Künste (1732-1750) com 64 volumes de Johann Heinrich  Zedler), o género Who is Who tem como antecedentes no século XVIII obras de carácter biográfico, como por exemplo:

  • a Biographie universelle et portative des contemporains ou dictionnaire historique des hommes vivants (1810-1828) publicada em Paris em 5 volumes por Michaud, 

  • a Encyclopédie des gens du monde, répertoire universel des sciences, des lettres et des arts, avec des notices historiques sur les personnages célèbres morts et vivants (1831-1844), publicada em Paris, em 22 volumes, por uma sociedade de autores de que fiziam parte, entre outros, Berzelius e Cabanis 

  • a Nouvelle Biographie générale (1852-1866) de J.C. Hoefer.

Porém, como faz notar Salsano (1973: 560), tal não significa que a enciclopédia se reduza a um saber sistemático. Ao seu lado, a emergência caótica de novos conhecimentos e novos saberes, as inovações técnicas e as transformações sociais vão perturbar a ordem previamente estabelecida, impedindo que a enciclopédia se feche num saber sistemático.


Por outras palavras, a ambição da enciclopédia não é o fechamento do sistema mas a circulação da unidade. O seu objectivo é mostrar o ciclo do conhecimento na unidade e harmonia do seu propósito.

Como escreve Pierre Larousse (Préface, 1866: LXXVI):

"as ciências dão fraternalmente a mão à literatura como às belas-artes. Esta unidade, como também acontece na harmonia dos mundos materiais, não é obra do acaso".

Assim se justifica o trabalho de redacção que toda a enciclopédia implica. 

  • Logo a nível superficial do texto, há que evitar repetições, incompletudes, disparidades na apresentação. Se bem que as entradas não sejam homogéneas, que não seja exigível que devam ter a mesma extensão, há que evitar grandes desequilíbrios. No pouco espaço disponível, há que condensar, eleger uma percentagem de detalhe e de abrangência, encontrar a densidade e consistência adequada. 

  • A um nível mais profundo e elaborado, há que procurar uma forma de integração e coerência dos elementos textuais descontínuos. As entradas só aparentemente estão isoladas. Há entre elas relações de dependência e articulação. O trabalho de elaboração de uma enciclopédia supõe a criação de um sistema de reenvios, referências internas, cruzamentos, complementaridades, o estabelecimento de encadeamentos, laços e entrelaçamentos entre as diferentes entradas, mostrando, sempre que possível, a relação de cada uma com o todo - o círculo dos conhecimentos.

9 - Reflexo e Actualização

Aberta ao mundo, a enciclopédia é por isso uma representação que remete para um contexto histórico e cultural determinado. Ela reflecte sempre a situação cultural, civilizacional que lhe é contemporânea, nomeadamente no que diz respeito à situação do conhecimento científico. Assim:

  • Se Vincent Beauvais citava, em paralelo, autores cristãos e pagãos isso significa que a civilização medieval estava já a laicizar-se. 
  • Se no Vocabulaire technique et critique de la philosophie (1902-1922) de Lalande se encontram entradas relativas a conceitos pertencentes à Psicologia é porque, à data da sua elaboração, a emancipação da Psicologia em relação à filosofia não se tinha ainda consumado.

Como Adler diz no Prefácio da 15ª edição da Encyclopaedia Britannica

"Obviamente, muito do que está contido nesta Britannica não podia ter sido escrito para a 11ª edição publicada em 1910-1911.  Nenhuma das teorias científicas que levariam, quer à bomba nuclear, quer à conquista do espaço, tinha sido ainda formulada e grande parte apenas tinha sido adivinhada por um punhado de investigadores avançados em cada um dos campos envolvidos; o nome da mecânica quântica tinha reduzida circulação; a psicanálise e o Marxismo estavam praticamente ainda em embrião; a Rússia estava ainda sob o domínio de um czar; Hitler era pouco conhecido mesmo na sua terra natal e Sun Yatsen liderava uma revolução na China. A primeira Guerra mundial ainda não tinha sido travada. Na arte, na literatura, na música, na teoria económica, na medicina, em quase todos os aspectos da actividade mental e tecnológica do homem estávamos perante um mundo que, indiscutivelmente, é hoje quase irreconhecível" (Prefácio, 1973-1974: XII).

É justamente porque reflecte uma determinada situação dos saberes que a enciclopédia tem que ser actualizada. 

Porém, actualizar uma enciclopédia não é apenas

  • adicionar novas informações
  • acrescentar novos dados
  • incluir novas entradas e novos elementos

E isto porque

  • há verdades que deixaram de ser verdade
  • há erros que foram reconhecidos como erros
  • há coisas que deixaram de ser importantes e outras que o não eram e passaram a ser. 

"Uma Britannica que queira seriamente dar conta do estado geral do conhecimento intelectual em 1974 não pode, por exemplo, dedicar 30 das suas páginas a um estudo de Cavalaria ou a uma análise de Hieráldica e três à posição legal sobre a pornografia, a obscenidade e a censura" (Adler, Prefácio, 1973-1974: XIII).

 

 

 

 

Ao lado de entradas que surgem de novo, acompanhando os progressos do conhecimento científico, da técnica, da cultura em geral, há entradas que desaparecem ou que, embora mantendo-se, adquirem um estatuto de curiosidade, velharia, erudição

  • alma dos animais
  • flogisto
  • fabricação de velas
  • fabricação de carruagens

      

Pelo contrário, outras entradas são a marca inequívoca de uma enciclopédia recente.

  • cinema
  • bioética
  • inseminação artificial
  • ciências cognitivas 

10 - Prospectiva e Heurística

Mas, a relação da enciclopédia com a situação  cultural, civilizacional e epistemológica do seu tempo não se esgota numa relação especular

Se é verdade que a enciclopédia reflecte a situação da ciência sua contemporânea, que é devedora de um determinado corpus de conhecimentos,no que toca à estrutura dos saberes, a relação que com eles a enciclopédia mantém é fundamentalmente de natureza prospectiva.

Digamos que, embora filha do seu tempo, datada, adaptada às condições culturais concretas em que tem origem, a enciclopédia intervém activamente na organização dos saberes, quer pelos valores e  finalidades práticas que a animam, quer pela orientação normativa das suas propostas sistemáticas. 

O caso mais significativo é o da Encyclopédie de Diderot e D'Alembert.

Ela é construída a partir de um sistema de classificação dos saberes que nada tem a ver com a estrutura universitária da época mas que prenuncia, sugere, indica os desenvolvimentos futuros das ciências humanas, que, portanto, aponta, propõe, introduz novos problemas e novos arranjos disciplinares.

A natureza prospectiva da enciclopédia, que se traduz, fundamentalmente, na sua capacidade de apontar uma sistemática para o corpus dos saberes que lhe são contemporâneos, revela-se ainda no seu elevado valor heurístico

   Ao inventariar o conhecido, ao dar a conhecer o já sabido, a enciclopédia funciona como uma prótese mnésica, memória artificial. Tal como o arquivo, a biblioteca e a Summa, ela recolhe, conserva e mantém disponível o património cultural acumulado, permitindo assim libertar a memória natural para aquilo que verdadeiramente nela importa guardar.

Digamos que a enciclopédia esvazia de conteúdo a oposição entre memória e invenção.

  • Ao fazer circular informações entre as diversas disciplinas,
  • ao facilitar a transferência de dados, métodos e hipóteses de uma disciplina para outra

A enciclopédia dá-se claramente a ver como instrumento ao serviço do progresso das ciências e da procura da verdade.

Retrospectiva por necessidade, a enciclopédia é pois prospectiva e heurística por vocação. Por detrás da estabilidade do saber constituído, espreita a vontade de um saber em constituição.