O projecto enciclopedista

Modalidades da Enciclopédia

No interior da imensa produção enciclopédica é possível distinguir três modalidades fundamentais, cada uma das quais comportando ainda diversas sub-modalidades:

Enciclopédia geral

 

Por enciclopédia geral entende-se uma obra que tem como objectivo oferecer uma exposição ordenada  de tudo aquilo que se conhece, ou pelo menos, do essencial. Trata-se de uma exposição que visa dar conta, de forma tanto quanto possível exaustiva mas concisa, dos saberes empíricos e dos conhecimentos adquiridos pelas ciências constituídas.

Para lá da mais ou menos bem conseguida efectividade deste desiderato, o que permite distinguir diversos tipos de enciclopédias gerais é o critério  dessa ordenação.

  • ordenação disciplinar - tratamento sistemático por disciplinas, fundado, ou na reprodução mais ou menos fiel de um esquema curricular (são assim as enciclopédias medievais), ou num sistema de classificação dos saberes que toma como base a constituição autónoma das ciências particulares. Sistema cuja elaboração, conforme os casos, pode decorrer de uma actividade filosófica autónoma e independente da realização efectiva de uma qualquer enciclopédia, ou surgir no interior do próprio trabalho de organização da enciclopédia. 

É isso que, por exemplo, acontece, com Coleridge, autor da célebre Encyclopaedia Metropolitana (1817-1845), organizada a partir de uma classificação dos saberes da sua autoria. Recusando a ordem alfabética, Coleridge propõe um arranjo em 5 classes: ciências puras, ciências aplicadas, biografias, ciências históricas e miscelâneas.

  • ordenação alfabética - faz desaparecer (esconde) a sistemática dos saberes sob a arbitrariedade da ordenação alfabética. De mais fácil acesso, a enciclopédia alfabeticamente organizada supõe, não apenas uma definição inicial do conceito que determina a entrada, mas entradas mais curtas. A tendência é para constituir "bits de conhecimento" como lhes chama Warren Preece (1973-1774: XIII) os quais, incidindo sobre um aspecto ou tópico de um tema mais amplo, têm como efeito a redução do conteúdo da entrada a uma informação descontextualizada, não articulada com o todo, isolada nas suas relações com outras informações. Ao permitir que o leitor receba apenas informação sobre aquilo em que estava interessado, a enciclopédia alfabética tende assim a veicular um conhecimento fragmentado. No entanto, ainda que alfabeticamente organizada, a enciclopédia pode continuar a manifestar a intenção de se reportar ao círculo dos saberes. O objectivo é então cobrir o círculo do conhecimento fraccionando-o no maior número possível de segmentos e, simultaneamente, fornecer um forte sistema de referências internas cruzadas.

  O caso mais célebre é  o da Encyclopédie ou Diccionaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, par une société de gens de lettres, mis en ordre et publiée par M. Dide- rot, de l'Académie Royale des Sciences et Belles-Lettres de Prusse, et quant à la partie ma- thématique par M. D'Alembert, de l'Académie Royale des Scien ces de Paris, de celle de Prusse et de la Société Royale de Lon dres (1751-1765)

  • ordenação  temática - construída por entradas que tendem a ser longas, a adquirir a forma de verdadeiros artigos ou ensaios, em qualquer caso, menos longas que um livro ou um tratado sobre o mesmo tema. Embora cada assunto possa ser tratado em diferentes contextos e, certos assuntos, pela sua complexidade, remetam para várias disciplinas, cada assunto merece um tratamento mais detalhado e desenvolvido numa determinada entrada em vez de se espalhar por várias. Nesse sentido, quanto mais complexo for o tema, mais unitário será o seu tratamento. No fundo, trata-se de dar um tratamento privilegiado a cada tema num só e único momento embora abrindo para outros. A ordenação temática altera pois a sistemática dos saberes. Ela procura escapar à lógica disciplinar embora, como é óbvio, se mantenha no quadro das disciplinas existentes na medida em que convoca umas disciplinas (e não outras) para proceder ao tratamento  aprofundado dos campos temáticos e problemáticos seleccionados.

São exemplos de enciclopédias temáticas: 

 

  • fórmulas mistas - pretendem salvaguardar os benefícios sintéticos de uma ordenação disciplinar ou temática com as vantagens práticas de acessibilidade e consulta da ordenação alfabética.

O melhor exemplo é a Encyclopaedia Britannica que, desde a sua 1ª edição em 1768-1771 adopta um modelo misto que combina a ordenação alfabética e disciplinar e que, a partir da 15ª edição em 1973-1974, passa a conjugar a ordem alfabética com a temática

Enciclopédia especializada

 

Por enciclopédia especializada entende-se uma obra que tem como objectivo oferecer uma apresentação ordenada de tudo aquilo que se conhece num determinado domínio ou grupo de domínios. Trata-se então de obras que se pretendem exaustivas sim, mas exclusivamente em relação a um campo restrito e especializado da actividade intelectual, a uma determinada área do saber ou sector de actividade.

Com alguns antecedentes no século XVIII, como por exemplo o Dictionary of Chemistry (1795) de Richard Phillips ou a Oekonomische-technologische Encyclopaedie (1773-1858) de Georg Krünitz em 242 volumes, é fundamentalmente no século XIX que surgem as primeiras enciclopédias especializadas (de música, medicina, desportos, artes, assuntos bíblicos, etc. ).

É também no século XIX que surge o estilo handbook inaugurado pelo célebre Handbuch der theoretischen Chemie (1817-1819) publicado pelo cientista alemão Leopold Gmelin. 

Exemplos interessantes:

  • Encyclopédie catholique (1838-1849) do abade Glaire e do visconde de Walsh

  • Dictionnaire des arts et manufactures, de l'agriculture, des mines, etc. (1836-42) de Charles Laboulaye

  • Real-Encyclopädie der classischen Alterumsswissenschaft (1839) de Augustus von Pauly

  • Dictionnaire universel d'histoire naturelle, ouvrage utile aux médicins, aux pharmaciens, aux agriculteurs, aus industriels, et géneralement à tous les hommes désireuz de s'initire aux merveilles de la nature (1841-1849) de Charles d'Orbigny

  • Dictionnaire universel d'histoire et de géographie comprenant l'histoire proprement dite, la biografie universelle, la mythologie, la geographie ancienne et moderme de M.N. Bouillet

  • Dictionnaire générale de la politique (1864) de Maurice Block

  • Dictionnaire de botanique (1876-1892) de Henry Baillon

  • Dictionnaire de chimie pure et aplliquée (1869-1908) de C.A. Wurtz. 

Enciclopédias filosóficas

 

Quanto às enciclopédias filosóficas, elas constituem uma categoria que atravessa transversalmente estas duas modalidades. Por um lado, aparecem como um dos tipos possíveis de enciclopédia especializada. Ao contrário da enciclopédia geral que visa cobrir a totalidade dos saberes, a enciclopédia filosófica ocupa-se exclusivamente da tradição filosófica. Por outro lado, na medida em que o projecto filosófico está orientado pela pretensão de se constituir como conhecimento racional da totalidade do real, a enciclopédia filosófica tende a coincidir com o projecto enciclopédico na sua máxima generalidade e ambição.

Podendo ser considerada tanto nas modalidades de enciclopédia geral como especializada, a enciclopédia filosófica vai pois ficar a dever a sua especificidade, não tanto a determinações de âmbito ou conteúdo (como acontece com as enciclopédias gerais e especializadas) mas sim a determinações de estilo e de propósitos.