Para uma história da ideia de enciclopédia. Alguns exemplos

A Enciclopédia na Antiguidade Clássica

O enciclopedismo surge na Grécia tardia e exclusivamente em contexto escolar.

Aparte o carácter multiforme da obra de Aristóteles cuja curiosidade universal e extensão de domínios abordados poderia justificar a sua inclusão nesta linhagem enciclopedista não fora a intenção eminentemente problemática e metafísica que a percorre, os fragmentos de natureza mais claramente enciclopédica que chegaram até nós foram produzidos por Speusippo (393-339 a.c.), sobrinho de Platão e seu sucessor na Academia, que terá reunido e compilado parte significativa dos conteúdos transmitidos nas suas aulas, numa série de escritos sobre história natural, matemática, lógica e metafísica com o objectivo de proporcionar aos estudantes uma apresentação global das matérias em estudo.

Dos escritos de Speusippo restam apenas um largo excerto sobre os números pitagóricos Peri Pitagoricon Aritmon e um conjunto de fragmentos sobre anatomia e fisiologia comparada de plantas e animais, sob o título Omoia, recolhidos em Lang (1964). Sobre Speusippo, veja-se Merlan (1968:96-140).

 


Página da Metafísica de Aristóteles

Em ambos os casos, estamos perante uma exigência escolar, um procedimento académico que visa conservar e prolongar pela palavra escrita a palavra dita do professor. 

Por outras palavras, a enciclopédia começa por ser um dispositivo discursivo de natureza compendial, que pretende potenciar, pela forma de uma escrita sistemática, o gesto mesmo do ensino.

Ao contrário do efémero e académico enciclopedismo grego, apostado  exclusivamente no acompanhamento e reforço do processo de ensino, o enciclopedismo romano está irremediavelmente tocado pela consciência amarga da decadência e, como tal, sobretudo interessado no balanço histórico e cultural do mundo antigo. 

O objectivo não é tanto o de proporcionar os meios materiais que possam constituir-se como complemento ou prolongamento de um acto de ensino, mas o de permitir a transmissão às gerações vindouras dos saberes adquiridos no passado, garantir a passagem de um testemunho, a sobrevivência de um património face aos grandes cataclismos que se avizinham. A enciclopédia toma pois a forma da compilação, balanço de todos os conhecimentos acessíveis numa época que chega ao fim.

Um exemplo eloquente é Varrão (Marcus Terentius Varro - 116-27 a.c.). Das 74 obras que lhe são atribuídas, e que se dividiam em 620 livros cobrindo as mais diversas áreas do saber, nomeadamente História, gramática latina, matemática, filosofia, astronomia, geografia, agricultura, direito, retórica, artes, literatura, biografias de grandes homens do mundo grego e romano, história dos deuses, etc, restam apenas alguns fragmentos reunidos sob o título de Rerum divinarum et humanarum Antiquitates.

Para além de pretender oferecer o conjunto dos conhecimentos necessários a uma perfeita educação, Varrão faz um balanço histórico e cultural de uma civilização que dá já sinais muito claros da sua decadência.

 

A sua intenção é dar a Roma os elementos necessários à tomada de consciência da sua grandeza passada, fazer o elogio das virtudes tradicionais que caracterizavam os antigos romanos e que poderiam, talvez ainda, ajudar a restabelecer a sua glória. 

 

por ligado à base

Mas, a grande enciclopédia do mundo antigo é indiscutivelmente a Historia Naturalis de Plínio (Caius Plinius Secundos - 23/4-79).

Trata-se de uma obra que serviu de base a todo o enciclopedismo medieval (em especial, o De natura rerum de Beda (Beda Venerabilis, 672/3-735)) e que é, ainda hoje, fonte de informação circunstanciada, por exemplo, sobre escultura e pintura latinas.

Obra imensa que, como o seu autor orgulhosamente afirma, reúne cerca de 20.000 factos, quer retirados de observações directas, quer provenientes de cerca de 500 autores consultados, 146 latinos e 327 não latinos, na sua maioria gregos (Historia naturalis, 1958-1962: Prefácio, 6-16).

Verdadeiro templo da tradição clássica, dela se conservam ainda 37 volumes cobrindo áreas que hoje designaríamos por

  • cosmologia, vulcanologia, climatologia e astrologia (livros I e II), 
  • geografia, demografia, etnografia (livros III a VI),
  • antropologia e fisiologia humana (livro VII), 
  • zoologia (livro VIII a XI) 
  • botânica, agricultura, jardinagem, (XII a XIX), 
  • um repertório imenso de farmacopeia natural, medicina e magia (do volume XX ao XXXII), 
  • mineralogia, arquitectura e artes plásticas (XXXIII a XXXVII).

Primeiro na carreira militar, depois como procurador de finanças, Plínio viajou longamente pelo Império (germânia, gália, península ibérica, judeia, àfrica do norte), o que lhe permite rechear a sua obra de elementos provenientes da observação directa, em especial sobre geografia e actividade mineira. Para um exemplo do tipo de informações que Plínio oferece, neste caso sobre a Lusitânia, a discussão da sua congruência e fidedignidade, veja-se um estudo recente de Amílcar Guerra (1995).

Estamos na presença de uma obra  paradoxal

Se, por um lado, se não nota nenhum interesse particular com a relação entre disciplinas, se se trata tão só de uma imensa compilação - "enciclopédia sem estrutura", como diz Jacob (1991: 29) - que regista, descreve e acumula toda a espécie de informações, factos, detalhes e curiosidades relativas ao mundo físico, à geografia, à meteorologia, aos homens, plantas e animais de toda a espécie,

por outro lado, percorrida por uma forte inspiração neo-pitagórica, há nela já a pretensão de revelar, por intermédio de uma história natural que é também uma história da cultura, a harmonia da natureza, dos seus reinos, das suas gentes, das técnicas que nela se inventam, das tradições, dos usos, dos costumes, das marabilia que nela se produzem.

Como diz Gusdorf, a Historia Natural de Plínio atestaria mesmo "a degradação da herança helénica nas mãos dos romanos" (1974: 41), o momento em que o projecto helénico de uma ciência do homem se vê reduzido a uma antropologia dispersa e desordenada que reúne, indiferentemente, particularidades étnicas, notícias sobre casos maravilhosos, monstruosos, curiosidades sobre os dentes, a força excepcional, a capacidade de resistência à dor ou a estatura gigantesca de alguns homens.

 

Como principais traços comuns ao enciclopedismo antigo poderíamos assinalar o facto de se tratar, em todos os casos

  • de compilações de autoria individual
  • que se constituem como percurso de formação educativa  
  • que, por esse facto, se dirigem a um público relativamente restrito e homogéneo, já detentor de um elevado nível de educação.

Sob a forma de compêndio para fins escolares, a enciclopédia grega recorta-se, como vimos, sobre a incipiente estrutura curricular do não menos incipiente processo de institucionalização escolar. 

 

Mais atento às questões práticas, enfatizando sobretudo os temas geográficos, de medicina, história e governação, o enciclopedismo latino está ordenado à superior formação dos cidadãos do império apresentando-se como a súmula de tudo aquilo que um homem educado deveria saber ou poderia necessitar.