Para uma história da ideia de enciclopédia. Alguns exemplos

O Enciclopedismo Medieval

No enciclopedismo medieval podemos distinguir dois períodos. No primeiro, correspondente à Baixa Idade Média, a enciclopédia está ainda ao serviço da conservação do património cultural romano, da tentativa desesperada de evitar o seu afundamento e, simultaneamente, dá já conta da necessidade de construção de um novo mundo cristão. 

O ponto de partida é o programa agostiniano de purificação das almas pelo exercício da inteligência. Se Cícero (Marcus Tullius Cicero,106-43 a.c.) queria formar o doctus orator (De Oratore, III: 142-143), o orador instruído capaz de aprender rapidamente qualquer assunto e falar dele com uma eloquência desenvolta, se Quintiliano (Marcus Fabius Quintilianus, 35-95) queria formar o vir bonus dicendi peritus (Institutio Oratoria, II, 20), o homem de bem que põe a eloquência ao serviço da virtude, entendida sob o modelo da sabedoria estóica, o De doctrina Christiana (397) de St. Agostinho (354-430), obra que dominará toda a cultura cristã medieval, terá como objectivo formar o vir Christianus dicendi peritus, o cristão que põe ao serviço da interpretação dos textos sagrados todos os recursos da cultura antiga, e que, pela aquisição conjugada de sabedoria e habilidades retóricas, se torna capaz de explicar, ensinar, pregar a doutrina cristã. 

Como que antecipadamente traçando o caminho ao enciclopedismo medieval cristão que se vai seguir, St. Agostinho aponta mesmo, explicitamente, a necessidade de reunir, numa só obra, todos os conhecimentos necessários à interpretação e ensino dos textos sagrados: informações relativas à história, à geografia dos lugares, aos animais, plantas e metais mencionados na Bíblia, à medicina, agricultura, navegação e astronomia, à aritmética e às suas aplicações às figuras (geometria), aos sons (música) e aos movimentos (física), à dialéctica, necessária para discutir as questões que os textos sagrados colocam, à eloquência posta ao serviço da salvação (cf. De doctrina Christiana, II, 39-59).

 

Se se tivessem conservado o conjunto de tratados (perdidos) que St. Agostinho terá escrito (De grammatica, De Dialectica, De Rhetorica, De Geometria, De Aritmética e De Philosophia) e de que apenas resta De Musica (391), eles constituíriam uma primeira enciclopédia cristã das artes liberais. Cf. Gilson (1962: 177).

Cassiodoro (490-580/3) será o primeiro a corresponder ao apelo de St. Agostinho.

A última resposta directa ao apelo de St. Agostinho será do frade dominicano Thomas de Cantimpré que, quase mil anos depois, em De naturis rerum (1228-1244), reúne ainda, explicitamente, todos os conhecimentos relativos à natureza das coisas necessárias para a interpretação dos textos sagrados, nomeadamente animais, plantas, minerais, cosmologia e astronomia. Sobre Thomas de Catimpré, cf. Collison (1964: 59-60).

Considerado como "o último dos romanos", ele é, simultaneamente, a figura que inaugura o programa cultural do monaquismo letrado.

 


Instituitiones divinarum et saecularum litterarum

As suas Instituitiones divinarum et saecularum litterarum fazem jus ao título constituindo, ao mesmo tempo, uma obra secular, destinada a permitir a conservação, em tempos de crise, do profano património cultural romano, espécie de testamento espiritual de um mundo irremediavelmente perdido e, simultaneamente, uma obra sagrada, um programa de formação moral, intelectual e religiosa para uso de monges e progresso das suas almas, um programa de leituras, um receituário de trabalhos manuais diversos, uma iniciação ao comentário das escrituras e um encaminhamento para a vida contemplativa.

Cerca de 523, Cassiodoro retira-se efectivamente da vida pública e funda em Vivarium, no sul de Itália, uma comunidade monástica onde passa a viver dedicado ao trabalho intelectual e à formação dos monges. Para uma detalhada informação sobre a vida e obra de Cassiodoro, cf. Sandys (1964, I: 258-270).

Em especial o livro II, intitulado De artibus ac disciplinis liberalium litterarum, constituiu durante séculos um verdadeiro manual das escolas monásticas, oferecendo uma síntese de tudo o que era considerado necessário e suficiente à formação intelectual de um monge. 

Por exemplo, Raban Maur, retomará grande parte das Instituitiones de Cassiodoro no seu tratado De Institutione Clericorum, usado como livro de texto nos mosteiros alemães durante toda a Idade Média.

O livro está dividido em sete partes consagradas, cada uma delas, às sete disciplinas que Cícero considerara dignas do homem livre - as sete artes liberais.

Tendo por base uma perspectiva neoplatónica da ordem dos saberes orientados para a contemplação, Cassiodoro começa pela gramática, retórica, dialéctica, três artes que podem permitir aceder à compreensão dos autores latinos, passa posteriormente à aritmética, à música e à geometria e termina com a astronomia, metáfora da ascensão da terra aos céus.

Na dialéctica inclui uma desenvolvida exposição da Lógica de Aristóteles. Cf. Cassiodoro (ed. Migne, 1980, LXX: 1167-1203).Ocupando o VII e último capítulo, a astronomia é definida como a ciência que proporciona uma "maior claridade" e, portanto, aquela que melhor permite que "a alma suba ao céu", Cassiodoro (ed. Migne, 1980, LXX: 1216).

 

Por seu lado, as Etimologias de St. Isidoro (560-636), bispo de Sevilha, são geralmente consideradas como a primeira grande enciclopédia cristã. Embora fundada nos saberes antigos, a obra persegue, em obediência ao preceito agostiniano, uma finalidade exegética estando construída com o objectivo de servir para a formação cristã dos clérigos bem assim como da população da península recentemente convertida.

Originum seu etymologiarum. Trata-se de uma obra monumental, em 20 volumes, que põe à disposição do público, de forma compacta, uma massa imensa de informações e conhecimentos.


St. Isidoro

A grande novidade desta obra reside no facto de, pela primeira vez, estar construída sob a forma de um léxico. A ideia, que terá desenvolvimentos e ramificações de insuspeitada importância no pensamento posterior, é a de que a essência das coisas se dá a ver na etimologia dos nomes que as designam. 

Tendo as palavras sido dadas às coisas por Adão de acordo com o conhecimento completo da sua natureza, seria possível penetrar no conhecimento das suas propriedades mais ocultas encontrando o sentido primitivo das suas designações originais. Seguindo este método, St. Isidoro vai apresentando a totalidade dos saberes sob a forma de um imenso conjunto de definições, construídas a partir das etimologias dos termos definidos.

Um exemplo: "Hepático  é o mal do fígado de onde recebe o seu nome pois fígado em grego é epar ", St. Isidoro (1951: 105).

Aqui aparece também um dos primeiros mapas do mundo medieval - o célebre mapa TO - e que constitui o primeiro mapa do mundo que veio a ser impresso em 1472. 

O mapa representa um mundo redondo,  rodeado de água e subdividido nos três continentes então conhecidos

A etimologia desempenha pois um duplo papel, teológico e epistemológico: ela é, simultaneamente, a forma de reconduzir os nomes e as coisas até ao criador e o método de unificação do conhecimento.

Em primeiro lugar, as definições relativas às sete artes liberais, a gramática latina (livro I), a retórica e a dialéctica (livro II), a aritmética, a geometria, a música e a astronomia (livro III), logo seguidas das da medicina (livro IV) e do direito e cronologia (livro V). Vêm depois as ciências sagradas: história da criação, escrituras, liturgia, nomes de deuses e de santos, personagens bíblicos, funções eclesiásticas, heresias, filósofos, poetas, sibilas, magos, pagãos, deuses dos gentios, etc. (livros V a VIII). O livro IX ocupa-se dos grupos humanos, dos diferentes povos e das suas línguas, o X apresenta um glossário e o XI ocupa-se da anatomia humana. Seguem-se os animais (livro XII), cosmografia (livro XIII), geografia da terra (XIV), cidades, agrimensura e estradas (livro XV), pedras e metais (livro XVI), agricultura, horticultura (XVII), armas, guerra e jogos (livro XVIII), navegação, monumentos e vestuário (livro XIX) alimentação, utensílios domésticos e rurais (livro XX). Como diz Gilson (1962: 152) o sucesso desta obra tem a ver com o facto de ela ocupar, numa biblioteca medieval, "o mesmo lugar que a Enciclopédia Britânica ou a Larousse ocupam numa biblioteca moderna", pondo á disposição do público uma soma de informações fiáveis sobre praticamente todos os assuntos.

Verdadeiras ou falsas, engenhosas ou risíveis, estas etimologias  foram-se transmitindo de geração em geração durante toda a Idade Média. 

A sua contribuição para a configuração medieval da ideia de uma enciclopédia universal e a sua influência no enciclopedismo posterior foi decisiva.

Com muita frequência as etimologias propostas eram falsas, inventadas ad propositum de acordo com as conveniências do assunto tratado. Por exemplo, o leopardo seria uma degeneração do leão pois que o seu nome indica que resulta da união do leão e da parda, cf. St. Isidoro (1951: 292). Associado à interpretação simbólica e ao raciocínio analógico, o raciocínio por etimologia perdurará longamente como método universal de explicação. Encontramos em Leibniz, um dos fundadores da etimologia como disciplina linguística, a crítica deste procedimento abusivo de construção das mais bizarras etimologias. (Cf. Novos Ensaios III, 2, §1).

 
Por exemplo, as De rerum naturis seu de universo (844) de Raban Maur (Rabanus Maurus, 784-856), teólogo e enciclopedista alemão de língua latina e discípulo de Alcuíno, constituem uma cópia quase literal dos livros VI-IX e XI-XX das Etimologias de St. Isidoro.

Com magníficas ilustrações, a obra é constituída por 22 livros que retomam as etimologias de St. Isidoro submetendo-as, no entanto, a uma diferente estruturação (primeiro Deus, depois a Igreja, finalmente os homens, a terra e as artes e técnicas) e retirando-lhes todas as referências à antiguidade e mitologia clássicas. Para uma detalhada informação sobre Raban Maur, cf. Paré, Brunet e Tremblay (1933: 230-234).

 

No segundo período,correspondente à Alta Idade Média, a enciclopédia ganha autonomia relativamente à necessidade de conservação do mundo antigo e passa a estar posta ao serviço do incipiente renascimento cultural a que os povos da Europa, saindo lentamente da convulsão e da barbárie, se vão doravante dedicar.

Depois de um primeiro impulso dado pelas reformas do ensino levadas a cabo por Carlos Magno e Alcuíno (738-804), face ao florescimento das escolas monacais e catedrais nos séculos X e XI, ao desenvolvimento do movimento copista e de tradução de textos árabes e antigos, nomeadamente Aristóteles (até então quase exclusivamente conhecido enquanto sistematizador da Lógica) e, posteriormente, ao aparecimento das primeiras universidades, em Bolonha, Oxford, e Paris, é uma nova criatividade cultural que se põe em marcha da qual decorrerá, em paralelo com grandes transformaçõesdemográficas, sociais e políticas, uma rápida evolução científica e técnica.

As primeiras traduções do árabe são feitas ainda no século XI, por Constantino o Africano (1015?-1087) e por Abelardo de Bath (1070-1142). Posteriormente, será sobretudo em Toledo que prosseguirá o trabalho de tradução da filosofia árabe.

 

A enciclopédia aproxima-se então daquilo que, no século XIII, virá a ser a Summa, não no sentido da exposição completa de uma doutrina teologicamente fundada, mas enquantototalidade aditiva de conhecimentos parcelares relativos às várias regiões da realidade e, portanto, às disciplinas que as tratam. Disciplinas que, sendo definidas pelos seus objectos, têm o mundo - objecto ultimo da criação - como sua referência primeira. Nesse sentido, títulos como a Philosophia mundi de Guillaume de Conches (1080-1145) ou o De Imagine mundi de Honorius d'Autan (Honorius Augustodunensis)  são eloquentes: eles procuram constituir-se como imagem do mundo. Como perceberá Vincent de Beauvais (1190-1264), a enciclopédia é, doravante, o espelho maior - Speculum Majus - de uma época e dos conhecimentos que dela têm os seus espíritos mais cultivados, a projecção, no espaço limitado de algumas páginas, da totalidade do mundo e da cultura. Estamos aqui face a um dos traços mais característicos do enciclopedismo medieval tardio - a procura de uma correspondência especular entre o corpo da enciclopédia e a ordem do mundo.

Como mostra Gusdorf (1967c: 239-240), se o conceito de "natureza" é um "resto da filosofia pagã reunida por teólogos imprudentes" (1967: 239), pelo contrário, o conceito de "mundo", herdeiro das palavras gregas "cosmos" e "ouranus", corresponde a uma "totalidade que se compõe do céu e da terra" e que, em limite, é mais um sistema de valores, ordenado por uma finalidade transcendente, do que uma realidade experimental. Como o definiam as Etimologias de St. Isidoro de Sevilha, "o mundo é o céu, a terra, o mar e as coisas que há neles; tudo é obra de Deus do qual se diz: E o mundo foi feito por Ele" , St. Isidoro (1951: 319).

Um dos nomes mais importantes do enciclopedismo medieval deste segundo período é Hugues de St. Victor (1096-1141), autor de uma Eruditionis Didascalicae que apresenta dois aspectos profundamente inovadores. Em primeiro lugar, o facto de apresentar uma organização sistemática do saber humano unificado, não já pela teologia, mas pela filosofia que Hugues de St. Victor subdivide em quatro grandes ramos: filosofia teórica ou Speculativa (teologia, matemática e física), filosofia prática ou Activa, privada (ética e moral) e pública (economia e política), filosofia Mechanica (lanifícios, balística, navegação, agricultura, caça e pesca, medicina, tecelagem, teatro) e Lógica ou Sermonialis (gramática, retórica e dialéctica). O segundo aspecto significativo diz respeito ao facto de, num mundo em plena evolução científica e técnica, a enciclopédia se fazer eco da importância crescente das ciências profanas e proceder, rapidamente, à integração do fenómeno técnico.

Huges de St. Victor é o sucessor de Guillaume de Champeaux (1070-1121), o mestre da escola catedral de Paris que foi alvo do furor dialéctico de Abelardo (1079-1142), figura pioneira do novo tipo de intelectual urbano que vai ser responsável pela progressiva laicização da cultura (Sobre este tema remetemos para as sugestivas páginas de Jacques le Goff (1965)). Para uma mais detalhada informação sobre o programa enciclopedista de Huges de St. Victor, cf. Collison (1964: 47-49) e tb. Paré, Brunet e Tremblay (1933: 100 segs.).

 

Na verdade, a exposição das diversas disciplinas é precedida por um capítulo do Livro II, intitulado In quas partes dividatur philosophia, no qual é apresentada uma divisão sistemática da filosofia nas quatro partes referidas. Cf. Hugues de St. Victor, Eruditionis Didascalicae (ed. Migne, 1980, CLXXVI: 751).

Outro grande nome do enciclopedismo medieval é o tutor dos filhos de S. Luis e abade de Royamont, Vincent de Beauvais (1190-1264), autor do célebre Speculum Majus (c. 1260) a que acima nos referimos. 

A obra está dividida em quatro partes: 

  • Speculum naturale, 32 Livros divididos em 3.718 capítulos sobre Deus, a trindade e os anjos (Livro I), o mundo sensível, as cores, a luz, os quatro elementos (Livro II), o firmamento, o tempo, os meteoros (Livros III e IV), os mares, a água, a terra, os minerais, os metais e as plantas (Livros V a XIV), astronomia (Livro XV), aves e peixes (Livros XVI e XVII), animais (Livros XVIII a XXII), anatomia, fisiologia e psicologia humanas (Livros XXIII a XXVIII) e  suplementos (Livros XXIX a XXXII), 

  • Speculum doctrinale, 17 livros, 2.374 capítulos que constituem uma espécie de manual de recolha do saber escolástico: livro I, extenso vocabulário de filosofia; livros II e III, gramática, lógica, arte poética; livros IV e V, sobre as virtudes e a vida monástica; livro VI, sobre a arquitectura e economia rural; Livros VII a X, política e direito; Livro XI, guerra, comércio, navegação e alquimia; livros XII a XIV, matemática, música, astronomia; Livro XVII, teologia e mitologia, 

  • Speculum historiale ( 31 livros, 3.793 capítulos que traçam a História do mundo desde a criação até 1254 e, curiosamente, fazem uma uma previsão do fim do mundo para o ano 2376) 

  • Speculum Morale, (recolha de textos de ética de vários autores, em especial Aristóteles e S. Tomás de Aquino).

Na edição seiscentista que consultámos (1624), a cada volume corresponde um Speculum, com diferentes datas de composição. O Speculum Naturale e Doctrinale, cerca de 1250, o Speculum historiale cerca de 1254. Quanto ao Speculum Morale, trata-se de um escrito que terá sido completado postumamente, cerca de 1310-1320, pelos colaboradores de Vincent de Beauvais e de acordo com o plano por este traçado.Para um estudo mais detalhado, cf. Collison (1966: 60-63).

Como características gerais do enciclopedismo medieval teríamos, em primeiro lugar, o facto de a enciclopédia estar organizada de forma disciplinar, de acordo com a estrutura do trivium e do quadrivium na qual, como se sabe, irá ser recortada a organização curricular, hierárquica e teologicamente fundada, da universidade medieval.

Se o enciclopedismo antigo pensava a unidade da ciência como a unidade do percurso da formação educativa ordenado pelo modelo circular da paideia, isto é, dando a cada área do saber um valor idêntico, o enciclopedismo medieval aponta para uma concepção hierárquica dos saberes teologicamente fundada. Ao contrário do enciclopedismo grego e latino que não prestava muita atenção a questões religiosas (por exemplo, Plínio, limitava-se a indicar os nomes e a descrever os deuses das vastas regiões do império romano, com grande espírito de tolerância), e embora a religião continue a não ser o tema dominante da enciclopédia, ela passa a determinar a forma de todo o seu conteúdo.

Como vimos, é Boécio quem, pela primeira vez, tomando como base a delimitação disciplinar operada por St. Agostinho e Martiannus Capella, designa por quadrivium o conjunto das quatro disciplinas que resultam da quadripartição neoplatónica da matemática (aritmética, música, geometria, astronomia) em contraposição ao trivium das disciplinas da palavra.

Umas vezes, a organização enciclopédica começa com as criaturas para subir até ao criador.

Recorde-se, por exemplo, o caso já referido de Cassiodoro que estrutura a sua enciclopédia de forma ascensional, partindo da ordem humana, em que inclui a medicina e as disciplinas do trivium, para a divina em que inclui as disciplinas matemáticas e a astronomia. 

Outras vezes, a ordem de apresentação dos temas parte de Deus e vai, depois, baixando de criatura em criatura até aos mais modestos e insignificantes exemplares da criação. 

É o caso do De proprietatibus rerum (1220-1240) de Bartholomaeus Anglicus que se desenvolve do criador para a criação, subdividindo ainda cada um destes dois planos em diferentes níveis hierárquicos. Começa por Deus, a trindade, os anjos, os demónios, passa aos homens - lugar de honra da criação - ocupando-se da sua alma, anatomia, teoria dos humores, patologia. Depois do homem, segue-se uma exposição do sistema do mundo, uma física e uma químicas elementares. Seguem-se os animais, estes também hierarquicamente organizados segundo um critério de afastamento em relação à materialidade pura, primeiro as aves e os insectos que vivem no céu, depois os peixes que vivem nas águas e finalmente os animais terrestres que se arrastam pela matéria bruta, dos quadrúpedes às serpentes, incluindo os faunos, os sátiros, os pigmeus e todo um conjunto de animais fantásticos e, finalmente, as plantas.

Em qualquer caso, trata-se de procurar que a enciclopédia, na espacialidade da sua estrutura e na organização das suas partes, possa constituir-se como speculum da própria ordem da criação.

Um terceiro traço característico do enciclopedismo medieval diz respeito ao seu carácter compendial. Quer isto dizer que as descrições que as enciclopédias medievais apresentam, não tem por base a observação do mundo, dos seus seres e acontecimentos, mas a erudição, a reunião e compilação de informações provenientes dos autores clássicos e cristãos. Reunindo e ordenando um corpus textual preexistente, o enciclopedismo medieval traduz uma concepção estática do conhecimento, insensível às discrepâncias resultantes da variedade e multiplicidade das fontes. Tal vai implicar que, contribuindo embora para a preservação dos escritos clássicos cujos extractos selecciona, transcreve e compila, o mundo natural que a enciclopédia agora descreve apareça sobredeterminado pela presença de tópicos como a magia e a astrologia e por elementos fantásticos repescados nas autoridades antigas e bíblicas.

Por exemplo, no capítulo das Etimologias dedicado à descrição dos animais, St. Isidoro de Sevilha  inclui o Grifo que descreve como um "animal alado, quadrúpede (que) vive nos montes hiperbólicos, com corpo de leão, asas e rosto de águia, muito daninhos para os cavalos e desprezam os homens que vêem", St. Isidoro (1951: 293).

Tal como o enciclopedismo antigo, a enciclopédia medieval é de autoria individual, embora os seus autores tenham com grande frequência, compiladores e escribas ao seu serviço.

Acresce que, pelo facto de ser invariavelmente escrita em latim, e portanto numa língua universalmente conhecida pelo público a que se destina (ou que o próprio latim selecciona), a enciclopédia medieval conhece antecipadamente os seus leitores, na esmagadora maioria dos casos, elementos da igreja. Os seus autores podiam, portanto, restringir ao mínimo os comentários pessoais e o carácter moralizador do texto, limitar-se a oferecer passagens úteis à vida dos seus leitores que delas retirariam os ensinamentos convenientes de acordo com o seu juízo. No fundo esperavam que o efeito cumulativo dos conteúdos da enciclopédia fosse suficiente para garantir a moral e a religiosidade.

É o que acontece, por exemplo, com Vincent de Beauvais que teve o apoio de membros da sua ordem que se dedicaram a fazer os extractos necessários (cf. Sandys (1964, I: 580)) e com St. Isidoro de Sevilha que, para além de manter uma vasta e diversificada actividade de troca de manuscritos por toda a Europa, tinha diversos correspondentes, amigos, compiladores e escribas ao seu serviço. Cf. a introdução de Santiago Monteiro Díaz à edição citada das Etimologias de St. Isidoro (1951:  16-17).

Há contudo uma excepção, referimo-nos à primeira enciclopédia francesa em língua vernácula, Image du monde, da autoria de Goussuin de Metz(?) escrita em dialecto Lourreno (pag.88)