Para uma história da ideia de enciclopédia. Alguns exemplos

O Enciclopedismo Renascentista e Barroco

Na Idade Média, como vimos, as obras de carácter enciclopédico estavam construídas com base num saber do Mundo que tinha em Deus a sua causa última e primeira. No renascimento, é do Mundo do Homem e não do Mundo de Deus que se trata. Não que Deus tenha deixado de estar presente, mas porque o mundo é, de agora em diante, a cena da acção humana, o lugar de expressãoe conflito das personalidades, o palco das suas aventuras e conquistas.

Mercê da abertura de horizontes culturais e geográficos da Europa, os homens do renascimento estão possuídos por uma curiosidade ilimitada, uma sede universal de conhecimento propícia ao acolhimento de todo o tipo de informações, por mais díspares e bizarras que possam ser. A civilização ocidental passa então pela sua "crise de originalidade juvenil" como diz Gusdorf (1974: 58), substituindo a autoridade religiosa pela autoridade factual, isto é, pela credulidade mais radical face ao espectáculo das mais insuspeitas facticidades. Ao respeito pelo antigo, está agora aliada a curiosidade pelo novo, pelo diferente, pelo estranho, pelo extraordinário que os homens do renascimento perseguem até aos confins da Terra.

Como escreve A. Koyré (1966: 52), "se se quisesse resumir numa só frase a mentalidade da Renascença, eu teria proposto a fórmula :"tudo é possível".

Neste contexto, o enciclopedismo será posto, clara e completamente, ao serviço de um programa de estudos independente das estruturas institucionais já constituídas - a escolástica da universidade medieval. Tal programa de estudos, agora centrado na figura humana, vai ao encontro dos seus interesses reais, dos interesses práticos de mercadores, governantes, navegadores, banqueiros. A sua orientação humanista, marcada pelo princípio da livre criação e do livre exame, faz dele um programa aberto às múltiplas invenções e descobertas, aos novos factos de que constantemente se vai tendo notícia, aos novos saberes que vão emergindo, um pouco por toda a parte.

Tal como Marco Polo (1254?-1324) viajou até ao extremo oriente, Cristovão Colombo chegou à América (1492) e Vasco da Gama à Índia (1498), o homem do renascimento quer fazer o périplo dos conhecimentos, abarcá-los na sua totalidade. Não é certamente por acaso que é neste preciso momento que a palavra enciclopédia vai ser resgatada, restituída à sua origem etimológica enquanto eu-kuklios paideia, círculo perfeito da educação 

É então que, pela mão de Rabelais a  palavra enciclopédia fará a sua entrada no vocabulário das línguas nacionais, à época também emergentes.

Na verdade, sob a forma de um novo e irreverente programa de estudos - no contexto da famosa carta de Gargantua ao seu filho Pantagruel -  o que Gargantua apresenta ao seu filho Pantagruel é o projecto de fazer dele uma imensa enciclopédia viva: 

 

"Entendo e quero que aprendas perfeitamente as línguas (...). Que não haja história de que não tenhas memória presente (...). Das artes liberais dar-te-hei a sentir o gosto logo de pequeno (...). E quanto ao conhecimento dos factos da natureza, quero que te entregues com curiosidade, que não haja mar, rio ou fronteira de que não conheças os peixes; todos os pássaros do ar, todas as árvores, arbustos e frutíferas das florestas, todas as ervas da Terra, todos os metais escondidos no ventre dos abismos, todas as pedrarias do oriente e do sul, que nada te seja desconhecido. Depois, revisita cuidadosamente os livros dos médicos gregos, árabes e latinos, sem esquecer os talmudistas e cabalistas e, por anatomias frequentes, adquire perfeito conhecimento desse outro mundo que é o homem" (Pantagruel, VIII: 134-135).

 

Embora muito numerosa, a produção enciclopédica do renascimento - época em que "tudo começa mas nada se pode acabar"(Gusdorf, 1974: 58) - não logrou grandes realizações.

A maior tradição enciclopedista é, como seria de esperar, a italiana de que se destacam os seguintes títulos: os Fons memorabilium universi de Domenico Bandini (1335-1418), os De expetendis et fugiendis rebus (1501) de Giorgio Valla (1430-1500), 49 livros que reúnem, de forma mais ou menos caótica, elementos díspares sobre os mais variados assuntos (Filosofia, aritmética, música, geometria, astrologia, mecânica, astrologia, física e metafísica, medicina, gramática, dialéctica, poética, retórica, filosofia moral, economia doméstica, política, bens e males da alma e do corpo, glória, poder, fama, etc.Cf. Collison (1966: 75-76)), os Commentariorum Urbanorum (1506) de Rafaele Maffei (1451-1522), o Summario di tutte scienze (1556) de Domenico Delfino ou o Specchio di scienza universale de Leonardo Fioravanti (1564). Em França, o Dictionarium historicum, geographicum et poeticum (1553) de Charles Estienne (1504-1564) é a obra de maior relevância.

Beneficiando do retorno humanista aos textos originais, o que vai permitir a eliminação de erros que o enciclopedismo medieval introduzia e perpetuava, estas obras, agora impressas, poderam contar com mais fáceis e rápidas condições de realização e com um público mais alargado e diversificado.

O que falta, fundamentalmente, são formas de ordenação dos novos e abundantes materiais recolhidos.

Mesmo o célebre De Tradendis disciplinis (1531) do maior expoente do enciclopedismo renascentista, o grande humanista e pedagogo Juan Luis Vives (1492-1540), constitui uma apresentação mais ou menos desordenada dos saberes que, a seu ver,  podem ser objecto de ensino e devem fazer parte de um programa de estudos. Partindo de uma divisão do conhecimento supostamente fundada nas funções de observação e juízo (cf. Vives, 1531: 37), o programa começa com as línguas (Livro III), passa à Lógica, Retórica, Ciências Matemáticas, Artes Práticas Auxiliares nas quais Vives inclui as questões espirituais, relativas à alma e ao corpo (medicina) e Física (Livro IV) e termina com a História, a Moral e o Direito (Livro V).

Este é um dos três tratados educacionais - De Causis Corruptarum Artium, De Tradendis Disciplinis e De Artibus - que, compostos no ano de 1531, em Toledo, e destinados a constituir-se como programa de estudos para um seu aluno, o futuro bispo de Toledo, aparecem reunidos sob o título geral De Disciplinis

Em sentido preciso, só no século XVII, se pode falar de enciclopédia. Para lá da continuidade aparente que nos permitiu alinhar, uns atrás dos outros, nomes tão diferentes como Varrão, Plínio, Cassiodoro, St. Isidoro, Hugues de St. Victor, Vincent de Beauvais ou Juan Luis Vives, é no século XVII que, dentro e fora da produção enciclopedista, vão ocorrer mutações decisivas para a fixação da ideia de enciclopédia. Só então a intensa criatividade científica que se vem manifestando desde o renascimento e que, no século XVII, alcança níveis dificilmente ultrapassáveis, será acompanhada das novas condições teóricas e reflexivas - sistemáticas, epistemológicas e metodológicas - que vão permitir novas formas de estruturação dos saberes e novos arranjos disciplinares.

Os progressos são já muitos e significativos mas o homem do século XVII, dotado agora de esquemas rigorosos de inteligibilidade, sente-se capaz de conter a totalidade do saber. O que exige a si próprio é um esforço de reagrupamento, a procura de uma mais fundamentada classificação e ordenação dos saberes. Daí que, tal como no enciclopedismo medieval, continuemos na presença de enciclopédias disciplinares só que, agora, fundadas, não num programa de estudos ou estrutura curricular hierarquicamente ordenada segundo exigências teológicas, mas em classificações de ciências que tomam como base novas exigências e critérios lógicos e metodológicos. De agora em diante, não é a ordem das matérias  mas a ordem das razões  que organizará o projecto enciclopédico.

A grande inspiração é Francis Bacon (1561-1626). "Último homem da renascença" (Gusdorf, 1974: 66) e primeira grande figura do racionalismo do século XVII, Bacon vai ter uma importância decisiva na configuração moderna da ideia de enciclopédia. A Bacon se ficaram a dever duas contribuições decisivas nesta matéria: em primeiro lugar, uma das mais influentes classificações das ciências de todos os tempos que vai ter uma influência decisiva no enciclopedismo seiscentista e setecentista; em segundo lugar, o arquitectar do programa gigantesco de uma enciclopédia que, simultaneamente, inventariasse as conquistas científicas e técnicas da humanidade já realizadas e orientasse a investigação futura. Nesse sentido, o projecto baconiano de uma Instauratio Magna (1620) tinha por objectivo a reconstrução total das ciências, das artes e de todo o conhecimento humano a partir dos seus verdadeiros fundamentos, de forma a permitir o progresso das ciências e das suas aplicações práticas e, com ele, o aumento do bem estar da humanidade.

Mas, o enciclopedismo seiscentista não tem em Bacon a sua raiz única. Ele tece-se no cruzamento entre três grandes linhas: aquela que, partindo de Bacon, profeta do matematicismo e da ciência moderna, sujeita a enciclopédia a uma classificação dos saberes que, extrínseca a toda a tradição medieval, opera um primeiro rebatimento da ordem ontológica sobre a ordem lógica, da ordem das coisas sobre a ordem das razões; aquela que, partindo desse filão oculto do pensamento medieval que é Lull, identifica oenciclopedismo com uma lógica combinatória que é simultaneamente uma heurística e uma metafísica e que tem em Alsted e Kircher os seus representantes maiores no século XVII, e aquela que, fundamentalmente com Coménio, procurará a unificação do saber no quadro metódico e sistemático da pansofia. No cruzamento destas três linhas, autónomas mas convergentes,o enciclopedismo barroco seiscentista tem como seu expoente maior Leibniz.

Trata-se de um conjunto de linhas de investigação que, tendo embora, em alguns casos, estado na origem de projectos enciclopédicos mais ou menos conseguidos e acabados (razão pela qual aqui as referimos brevemente), perseguem objectivos extrínsecos à simples e imediata construção enciclopédica. A sua autonomia face ao movimento estritamente enciclopedista, e a natureza  claramente filosófica dos seus pressupostos, justifica a nossa decisão de as incluir no capítulo relativo às enciclopédias filosóficas.

Se o enciclopedismo renascentista vive com dificuldade a abundância de factos e informações que de todo o lado recolhe mas não sabe sistematizar, o enciclopedismo seiscentista é prolixo no delineamento, ensaio e experimentação de possíveis estruturas de ordenação e enquadramento dos conhecimentos e descobertas recém constituídos.

Eles são ambos enciclopedismos barrocos justamente pela abundância excessiva de materiais, no caso do renascimento, informativos mas caóticos, no caso do século XVII, sistemáticos mas irremediavelmente inconclusos. Em ambos os casos, o enciclopedismo barroco será sobretudo um projecto, um ideal em aberto, uma possibilidade que controla mal as virtualidades que contém.

Será preciso esperar pelo século XVIII - século de ouro do enciclopedismo - para que os projectos sempre inacabados do enciclopedismo barroco se transformem em realizações efectivas. Então, a ciência terá evoluído o suficiente para que seja chegado o momento de uma efectiva recapitulação. Digamos que, tendo atingido a sua forma clássica, a ciência poderá então oferecer-se a si própria o luxo da monumentalidade.

A enciclopédia será, para os homens do século XVIII, o que a catedral era para os homens da Idade Média: um monumento em que o homem se revê naquilo que para ele é mais importante, não já a sua ligação (re-ligiosa) com o Deus criador, mas a sua relação (científica) com o Mundo criado. Da pedra branca da catedral Medieval passou-se à página branca do Livro escrito em caracteres matemáticos de que, desde Galileu, se sabe que o Mundo é constituído.