Para uma história da ideia de enciclopédia. Alguns exemplos

O Século de Ouro do Enciclopedismo


página 158 e 183

Ao contrário de todo o enciclopedismo anterior, medieval e barroco, o movimento enciclopedista do século XVIII, vai decididamente abandonar o latim e adoptar as línguas nacionais cuja emergência é paralela à constituição dos estados modernos. Embora os séculos XVI e XVII estejam já marcados pelo início dos nacionalismos, dos particularismos religiosos, linguísticos, económicos e políticos, a cultura humanista é ainda um fenómeno europeu, uma "última cultura sem fronteiras" como diz Gusdorf (1967c: 298). Nesse sentido, não é de estranhar que toda a produção enciclopedista barroca se realize ainda numa língua universal - o latim. Duas únicas excepções: Li Livres dou Tresor (1264), de Brunetto Latini (1220-1295), mestre de Dante, obra singular e original por duas razões: porque não é escrita em latim mas numa língua nacional, neste caso um proto-francês do século XIII; e porque, para além de uma história da origem do mundo, de uma história bíblica, e de uma parte sobre astronomia, geografia, etc., contém diversos extractos, sobretudo da Ética de Aristóteles e do De inventione de Cícero, anotados pelo próprio Brunetto e, sobretudo,  Leibniz que tinha já inscrito no seu projecto o objectivo de "obrigar a enciclopédia a falar alemão" ou, pelo menos, pretendia colocar a enciclopédia ao serviço do aperfeiçoamento da língua alemã e da sua elevação ao estatuto de língua científica e filosófica.

O episódio decisivo diz porém respeito ao abandono da organização disciplinar dos saberes que caracteriza todo o enciclopedismo anterior e à adopção da ordem alfabética. Trata-se de um expediente que facilita a consulta, transformando a enciclopédia numa obra mais acessível, manejável, e portanto divulgável, mas que vai implicar transformações profundas na sua estrutura e estatuto, perturbando as exigências sintéticas que sempre haviam caracterizado a ideia de enciclopédia. Acresce que, pela arbitrariedade que semeia, a ordem alfabética faz desaparecer a similitude estrutural que a Idade Media e o Renascimento haviam procurado estabelecer entre a disposição das partes da enciclopédia e a ordem do mundo que aquela era suposto espelhar. Ela ajusta-se ao mundo dessacralizado com que o século XVIII se confronta. Como mostra Paul Hazard (1963: 200-203), a ordem alfabética está perfeitamente adaptada à estética e à sensibilidade da época das Luzes, ao seu desejo de diversidade, surpresa e velocidade, à sua avidez e vontade de apropriação descontínua da totalidade dos saberes.

É assim que, no prolongamento da natureza lexical das Etimologias de St. Isidoro de Sevilha, aparecem diversas obras que vão caminhar no sentido da adopção, pura e simples, da eficiente ordem alfabética, quer aproximando a enciclopédia do dicionário, quer, pelo contrário, reduzindo o número de entradas, sujeitando-as a uma selecção mais cuidada e a um tratamento mais complexo e profundo.

Da primeira tendência é exemplo maior o Dictionnaire historique et critique de Pierre Bayle (1647-1706), a mais famosa enciclopédia dos finais do século XVII, publicado em Roterdão em 1697.

Pelo carácter não exaustivo mas extremamente variado da escolha das entradas, por vezes meramente sugestivas ou obedecendo a determinações polémicas, bem assim como pela defesa dos valores da tolerância, liberdade de consciência, espírito crítico que se manifesta ao longo das 2308 entradas que o compõem, o Dictionnaire historique et critique de Pierre Bayle é o grande antecedente ideológico do Dictionnaire philosophique de Voltaire (1764).

Também adoptando a ordem alfabética mas ainda em Latim, poder-se-iam referir o Lexicon Universale de Johan Jacob Hofmann, publicado em Basileia em 1677 e o Lexicon rationale sive thesaurus philosophicus ordine alphabeticodigestus, publicado em Roterdão em 1692 por Emile Chauvin.

Os efeitos visíveis da segunda tendência far-se-ão sentir, ainda no século XVII, com Le grand dictionaire historique (1674) de Louis Moréri, o Dictionnaire universel des arts et sciences (1690) de Antoine Furetière (1619-1688) e o Dictionnaire des arts et des sciences (1694) de Theodore Corneille (1606-1684), realizado sob encomenda da Academia das Ciências de Paris e ainda o magnífico Lexicon thecnicum or a Universal English dictionary of the Arts and Sciences (1704) de John Harris (1666-1719), obra publicada sob os auspícios da Royal Society e para o qual contribuiu o próprio Isaac Newton.

Estas são, inegavelmente, as primeiras enciclopédias modernas, isto é, aquelas que, pela primeira vez, conjugam os dois factores acima referidos: 

  • estarem apresentadas por ordem alfabética

  • serem escritas numa língua nacional.

Já no século XVIII, surgirão duas obrasespecialmente significativas que terão a ambição - e o mérito - de procurar aliar as vantagens do dicionário ao respeito pela ideia de unidade que, desde a sua raiz etimológica, a palavra enciclopédia transporta consigo: a Cyclopaedia de Chambers e a Encyclopédie de Diderot e d'Alembert.

A Cyclopaedia or an General dictionary of Arts and Sciences, foi publicada em Londres em 1728 por autoria única de Ephraim Chambers (1680-1740). A obra, em dois volumes, parte do desejo manifestado por Chambers, logo no prefácio, de, mantendo a ordenação alfabética própria de um dicionário, "dispôr a multidão de materiais de forma a não constituir um confuso conjunto de partes incoerentes mas um Todo consistente" (1728, Preface: II). A solução de Chambers é original: começar por apresentar uma complexa sistematização dos saberes e organizar uma ampla, ainda que incipiente, rede de referências internas com vista a articular as entradas e a dar-lhes unidade (solução dupla que Diderot e D'Alembert irão adoptar, ampliar e largamente aperfeiçoar). Como Chambers escreve, "por um conjunto de referências, do geral ao particular, das premissas às conclusões, das causas para os efeitos e vice versa, do mais ao menos complexo e do menos ao mais, pode estabelecer-se a comunicação entre as várias partes da obra e, em certa medida, as diversas entradas podem ser recolocadas na sua ordem científica natural da qual a ordem alfabética as tinha retirado"(1728: II). Só assim, acrescenta, conjugando as vantagens do Sistema e do Dicionário, "o círculo completo, ou o corpo do conhecimento, com todas as suas partes e dependências, pode ser dado" (1728: II).

Na verdade, Chambers apresenta não um mas dois quadros de classificação das ciências; um muito breve e esquemático, próximo da classificação baconiana; outro, de inspiração aristotélica, muito mais amplamente desenvolvido e no qual a Cyclopaedia estava efectivamente fundada. Este último tinha por base uma divisão dicotómica entre natural e artificial, científico e técnico, obtida pelo rebatimento do binómio passividade e actividade cognitiva do sujeito humano.

Referência ainda hoje do movimento enciclopedista, esta obra, sucessivamente reeditada, tem o mérito acrescido de ter estado na origem directa da Encyclopédie de Diderot e D'Alembert, monumento capital de toda a história do enciclopedismo. O interesse de Diderot pela ideia de enciclopédia começa, justamente, com o convite que lhe é formulado em 1747 pelo editor Le Breton para a tradução desta obra para francês.

Porque o projecto vai progressivamente incorporando novas ambições e objectivos, nomeadamente, a decisão de se reforçar e actualizar a componente científica da enciclopédia inglesa - tarefa para a qual D'Alembert é convidado - a ideia de tradução da Chambers vai ser abandonada (a obra acabou por ser traduzida para Francês por John Mills) em favor da elaboração, de raiz, de uma nova e grandiosa enciclopédia.

 

Em 1745, Le Breton associa ao seu projecto três outros livreiros (Claude Briasson, Laurent Durand e David l'ainé) como forma de aumentar o investimento. Tendo a coordenação da obra inicialmente sido entregue em 1746 ao abade Gua de Malves, membro da Academia das Ciências de Paris e Professor no Collège de France, rapidamente os editores perceberam que Diderot era o personagem ideal para dirigir a elaboração da obra de forma empenhada e eficiente. Este é um momento significativo em que o poder de selecção e arbitragem na difusão do conhecimento se desloca, em grande medida, das instituições que, tradicionalmente, os detinham (a Igreja e as academias) para a dependência do poder comercial dos editores.

Como D'Alembert explicitamente reconhece, ainda que "a ideia de fazer uma tradução inteira do Chambers nos tenha passado pela cabeça" (Discours Préliminaire: 125), que o plano e o objectivo da obra sejam excelentes e que, ela apenas, tenha contribuído mais para os progressos da ciência do que metade dos livros conhecidos, "apesar de todas as obrigações que temos para com este autor e da utilidade considerável que retirámos do seu trabalho, não nos pudemos impedir de ver que havia ainda muito para acrescentar" (ibid.).

Cf. tb. (Discours Préliminaire: 129) onde D'Alembert refere a pouca utilidade de que o projecto inicial de tradução da enciclopédia Chambers acabou por se revestir na elaboração da Encyclopédie. Também Diderot, na entrada encyclopédie, recorda o projecto inicial de tradução da Chambers e os prejuízos que daí decorreram. Sobre a relação entre a Cyclopaedia de Chambers e a Encyclopédie de Diderot e D'Alembert, veja-se o estudo de Tonelli (1977).