A "Encyclopédie"

O editor

A figura do editor aparece imediatamente no título da obra: a Encyclopédie é elaborada "par une société de gens de lettres" e editada  - "mis en ordre et publiée" -  por Diderot e D'Alembert. Trata-se de uma condição que ambos assumem sem ambiguidades. Os textos de apresentação da Encyclopédie são de sua autoria. Diderot escreve o Prospectus de 1750, o Système figuré des connaissances humaines, a entrada programática encyclopédie. D'Alembert assina o Discours Préliminaire com que abre a edição do primeiro volume da Encyclopédie em 1751 assim como os dois Avertissements das edições de 1759 e 1763. Embora assinados individualmente, o sujeito gramatical destes textos é, com muita frequência, plural. Acresce que, por diversas vezes, neles é explicitamente feita a identificação do papel e a discussão das funções dos editores. Assim, na primeira página do Discours Préliminaire, pode ler-se: "A Encyclopédie que apresentamos ao público é, como o seu título anuncia, ..." e, mais adiante, "a nossa função de editores consiste principalmente ..."(Discours Préliminaire: 17, sublinhados nossos).

Aparentemente modesto e diminuto, este trabalho de editor vai revelar-se de primordial importância. Os próprios, aliás, fazem-se eco dessa ambiguidade, tão depressa prontos a apagar a relevância da sua intervenção como editores, como a dar-lhe o relevo que merece. 

É assim que, após a longa apresentação de todos os colaboradores da Encyclopédie e a explicação pormenorizada dos seus respectivos contributos, D'Alembert conclui afirmando que "o mérito do editor fica reduzido a pouca coisa" (Discours Préliminaire: 127). No entanto, o mesmo D'Alembert, logo em seguida, reconhece a importância desse trabalho de editor que, diz: "acrescentou muita coisa à perfeição da obra" (ibid.) de tal modo que é nele que crêem ter "adquirido alguma glória" (ibid.).

Vejamos em que pode consistir esse trabalho de editor.

Ao editor cabe, desde logo, o trabalho de escolha e coordenação das colaborações:  

  • escolher os colaboradores dando "preferência àqueles que tivessem escrito com sucesso sobre a matéria de que se encarregariam"(Diderot, ed Laffont: 416), 

  • "distribuir a cada um a parte que lhe convinha"(Discours Préliminaire: 127),

Como D'Alembert explica: "Acercámo-nos de um número suficiente de sábios e de artistas; de artistas hábeis e conhecidos pelos seus talentos, de sábios exercitados nos géneros particulares que lhes pretendíamos confiar"(Discours Préliminaire: 127). E, mais adiante: "Entre todos os escritores, demos preferência àqueles que em geral são reconhecidos como os melhores"(Discours Préliminaire: 131).

  •  reunir as suas contribuições zelando para que elas não tenham um desenvolvimento excessivo mas dêem a informação necessária e suficiente sobre o tema tratado,

"Cada um dos nossos colegas fez um dicionário da parte de que se encarregou e nós reunimos num conjunto todos esses dicionários" (Discours Préliminaire: 127).

  • "preencher os vazios" (Discours Préliminaire: 129) quando certos tópicos, "parecendo pertencer a muitos (colaboradores) não foram tratados por nenhum"(Discours Préliminaire: 130), encarregar-se de todas aquelas entradas de que ninguém se ocupara, 

Como diz D'Alembert, Diderot assumiu também o encargo de redigir "um número prodigioso de artigos que faltavam" (Discours Préliminaire: 149).

  • zelar pela manutenção, para lá da salvaguarda do estilo pessoal de cada colaborador, de um conjunto mínimo de requisitos formais comuns às várias entradas.

"A pureza do estilo, a clareza e a precisão são as únicas qualidades que podem ser comuns a todos os artigos;  esperamos que isso seja visível" (Discours Préliminaire: 130).

Se a Encyclopédie fosse apenas um inventário, uma acumulação quantitativa de conhecimentos, esse trabalho de coordenação seria suficiente. Tomar-se-ia a Encyclopédie como "Dictionnaire raisonnée des sciences, des arts et des métiers" e, como diz D'Alembert, bastaria que cada colaborador "fizesse um dicionário da parte de que se encarregou e nós (os editores) reuníamos todos os dicionários num conjunto" (Discours Préliminaire: 127). Já esse trabalho envolvia dificuldades dignas de nota. Enquanto dicionário, a Encyclopédie "deve conter para cada ciência e para cada arte, seja liberal ou mecânica, os princípios gerais que estão na sua base, os detalhes mais essenciais que constituem o seu corpo e a sua substância"(Discours Préliminaire: 18). Por outras palavras, isso implicaria fazer o balanço de três séculos de ciência, dar conta de uma Matemática e de uma Física que, depois de Descartes, Leibniz e Newton tinham já alcançado o seu estádio clássico, uma Química que, com Lavoisier, se encontrava em fase de plena constituição, uma Biologia que dava passos decisivos com Lineu e Buffon, enfim, um conjunto de novidades metodológicas e conceptuais introduzidas sobretudo pelo L'esprit des lois (1748) de Montesquieu e pelo Essai sur les Moeurs (1756) de Voltaire que prefiguravam algumas das ciências humanas que o século XIX irá ver constituírem-se, nomeadamente a História e a Sociologia. Tarefa já pois gigantesca, cumprida algumas vezes com desequilíbrio, quase sempre com elevado nível (como no que diz respeito às contribuições de Du Marsais e De Brosses, nomes maiores da Gramática e das futuras ciências da linguagem, e dos fisiocratas, fundadores, antes de Adam Smith, da economia política).

Mas a Encyclopédie é mais que um dicionário. Tal como em Chambers, a especificidade do projecto enciclopédico de Diderot e D'Alembert consiste, justamente, na procura de formas de conjugação entre as vantagens do dicionário e o respeito pela unidade dos saberes que, desde a sua raiz etimológica, determina a ideia de enciclopédia. O Discours Préliminaire é bem claro: "A obra que agora começamos (e que desejamos terminar) tem dois objectos: como Encyclopédie ela deve expor, tanto quanto possível, a ordem e o encadeamento dos conhecimentos humano; como Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, deve conter, sobre cada ciência e sobre cada arte, seja liberal seja mecânica, os princípios gerais que estão na sua base e os detalhes mais essenciais que fazem o seu corpo e a sua substância"(Discours Préliminaire: 18). 

É com base nesses "dois objectos" ou "pontos de vista" (Discours Préliminaire: 18) que D'Alembert vai dividir o Discours Préliminaire em duas partes: na primeira, a apresentação da "genealogia das ciências" terá em vista a natureza enciclopédica da Encyclopédie (cf. Discours Préliminaire: 19); na segunda, a apresentação de uma breve "história das ciências" e de uma descrição do "estado actual das ciências e das artes" corresponderá à consideração da Encyclopédie como dicionário (cf. Discours Préliminaire: 75).

Se, como "dicionário", ela podia contentar-se com uma acumulação quantitativa de conhecimentos diversificados alfabeticamente apresentados, como "enciclopédia, ela deve expor, tanto quanto possível, a ordem e o encadeamento dos conhecimentos humanos" (Discours Préliminaire: 18). Mais do que uma apresentação, sob forma alfabética, de tudo aquilo que o espírito humano pode desejar saber, a Encyclopédie pretende mostrar a unidade, as relações - a ordem e o encadeamento - entre os diversos objectos do nosso conhecimento.

No início da entrada "encyclopédie", Diderot diz mesmo que a palavra enciclopédia, na sua raiz etimológica, significa encadeamento de conhecimentos. A habilidade etimológica consiste em fazer derivar do prefixo en, não as ideias de perfeição e completude mas a de "encadeamento". Cf. Diderot, ed Laffont: 363.

Assim sendo, há um outro tipo de tarefas, bem mais decisivas que vão ter que ser realizadas. Veremos como essas tarefas, sendo embora da competência de toda a comunidade - "société de gens de lettres" - responsável pela Encyclopédie, são, muito em particular,  da responsabilidade dos editores.

Na verdade, para que haja ordem e encadeamento entre os conteúdos das várias entradas têm, desde logo, os editores - no prolongamento da sua tarefa de escolha e coordenação das colaborações - que solicitar dos colaboradores que, embora "cada um não se ocupando senão daquilo que entendia" (Discours Préliminaire: 127), "ninguém avançando sobre o terreno do outro" (Discours Préliminaire), redijam intencionalmente os seus artigos como entradas de uma enciclopédia, que, tanto quanto possível, se mantenham no interior daquilo que lhes foi proposto tratar, sem que isso os impeça de remeter para domínios de que não tratam mas que estão próximos, que não se ocupem daquilo de que outros se hão-de ocupar, mas que, simultaneamente, abram portas, lancem pontes, estabeleçam relações, isto é, "façam de modo a que as ciências se comuniquem e se toquem" (Discours Préliminaire: 128). Como D'Alembert escreve: 

"se fosse questão de fazer de cada ciência ou de cada arte um tratado particular na forma ordinária e de reunir somente esses diferentes tratados sob o título de Encyclopédie, teria sido muito mais difícil reunir um tão grande número de pessoas, e a maior parte dos nossos colegas teria certamente preferido publicar separadamente a sua obra a vê-la confundida com um grande número de outras"(Discours Préliminaire: 128).

É nesse âmbito que ganha pertinência uma observação de D'Alembert relativa ao projecto inicial de tradução e, posteriormente, de aperfeiçoamento da enciclopédia Chambers. Como D'Alembert lembra, apesar de se ter revelado, em grande parte, inútil a distribuição pelos colaboradores das diversas entradas da enciclopédia inglesa para que as revissem, aumentassem, corrigissem, a verdade é que esse procedimento inicial serviu, pelo menos, para que os diversos colaboradores "percebessem com mais facilidade que trabalho se esperava deles" (Discours Préliminaire: 129). 

Diderot é ainda mais claro quando escreve a propósito do projecto inicial de tradução da enciclopédia Chambers: "Quanto tempo perdido a traduzir más coisas! Quantos trabalhos para um plagiato contínuo! Quantas faltas e censuras não nos teríamos poupado com uma simples nomenclatura !"

Quer isto dizer que a enciclopédia Chambers acabou por ter, reconhecidamente, um papel significativo na elaboração da Encyclopédie. O projecto da sua tradução, e posteriormente o projecto do seu aperfeiçoamento, ofereceram o modelo, primeiro positivo, depois negativo, primeiro actual, depois virtual, da Encyclopédie que se queria fazer. Por outras palavras, para redigir uma entrada particular, é necessário ter já alguma ideia da totalidade da enciclopédia que se quer construir.

Como diz Diderot num belíssimo texto sobre o processo de criação da Encyclopédie que poderia ser aplicado ao processo de criação em geral: 

"Quase nenhum dos nossos colegas se teria determinado a trabalhar se lhes tivéssemos proposto que compusessem de novo toda a sua parte. Todos teriam ficado assustados e a Encyclopédie não teria sido feita. Mas, ao apresentar a cada um um rolo de papeis, que se tratava de rever, corrigir, aumentar, o trabalho de criação, que é sempre aquele que mais se receia, desaparecia e as pessoas deixavam-se envolver em considerações quiméricas. Esses farrapos descosidos eram tão incompletos, tão mal elaborados, tão mal traduzidos, tão cheios de omissões, de erros e de inexactidões, tão contrários às ideias dos nossos colegas, que a maior parte os rejeitou" (Diderot, ed Laffont: 415). 

E acrescenta, a única vantagem, a única "frívola vantagem" que daí retiraram os colaboradores foi terem "conhecido num golpe de vista  ("d'un coup d'oeil") a nomenclatura da sua parte" (ibid, sublinhados nossos).

Tonelli (1977), pelo estudo comparativo do Prospectus de 1750 da autoria exclusiva de Diderot e da nova versão que D'Alembert publica como aditamento ao Discours Préliminaire em 1751, mostra à exaustão em que medida Diderot e D'Alembert se afastam, progressiva e cuidadosamente, das declarações excessivamente elogiosas em relação à enciclopédia Chambers que Le Breton havia proferido no Prospectus de sua autoria, publicado em 1745, aquando da congeminação do seu projecto de traduzir a enciclopédia inglesa. Na verdade, Diderot e D'Alembert quase nada conservam da Cyclopaedia de Chambers: nem a classificação das ciências, nem tão pouco o texto de algumas entradas. O que guardam, e já não é pouco, é a ideia de, mediante uma rede de referências internas, articular as entradas do dicionário, dando-lhes a unidade que fará delas o corpo sintético de uma enciclopédia.

Não se faz uma enciclopédia sem uma ideiapréviade enciclopédia.É a compreensão do todo virtual da enciclopédia que vai permitir circunscrever a parte, compreender os seus limites, as suas relações, a sua situação no conjunto. Quer isto dizer que, aos colaboradores, têm os editores que pedir que sejam também eles enciclopedistas-filósofos, prontos a "articular as descobertas e ordená-las entre si afim de que os homens fiquem esclarecidos e que cada um participe, tanto quanto puder, na luz do seu século"(Diderot, ed Laffont: 367).

Como Diderot afirma, a escolha de um colaborador, mesmo quando se trata de alguém que está a preparar uma obra sobre o tema de uma determinada entrada, está na dependência do reconhecimento de um conjunto de qualidades que garantam a sua capacidade de devoção ao trabalho da Encyclopédie.

Porém, não basta a "consciência enciclopédica" dos colaboradores. A Encyclopédie não pode ficar na dependência do maior ou menor espírito enciclopedista dos seus colaboradores. É aqui que o papel do editor ganha maior relevância. A sua função fundamental será, não apenas negativa (fazer com que a enciclopédia supere o estatuto do dicionário), mas também, e sobretudo, positiva: pensar a "ordem e encadeamento" dos conhecimentos humanos de modo a poder garantir os meios necessários à efectiva concretização da "ordem e encadeamento" das entradas.

O editor é pois, antes de mais, o planificador reflectido e metódico a quem cabe definir, exterior e antecipadamente, o plano geral da obra, traçar um quadro sistemático dos conhecimentos humanos no interior do qual as várias entradas hão-de encontrar o seu lugar, ordem e articulação (tarefas de planificação). Num segundo momento, cabe ao editor: garantir que o plano traçado seja efectivamente realizado, que a classificação estabelecida seja respeitada, que a unidade almejada seja alcançada, encontrando os mecanismos internos de elaboração da enciclopédia que permitam concretizar essa unidade (tarefas de constituição).