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Curiosamente, parece haver neste ponto alguma divergência entre Diderot e D'Alembert, este mais próximo de Leibniz e mais sensível à necessidade de garantir a colaboração de homens com uma competência específica numa área determinada, aquele mais atento à conjugação dos outros dois tipos de qualidades acima referidas: espírito de síntese e eloquência. |
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Digamos que D'Alembert é, pelo menos, mais explícito no que toca à exigência de recrutamento de colaboradores com uma competência particular. Como esclarece, a colaboração na enciclopédia foi feita por sábios e artistas, "cada um não se ocupando senão daquilo que entendia" (Discours Préliminaire: 127), "ninguém avançando sobre o terreno do outro" (ibid.). No caso das entradas relativas aos elementos de uma ciência, são mesmo requeridas competências de elevado nível. Essas entradas "não podem ser bem feitas senão por aqueles que estão muito para lá delas pois que remetem para o sistema dos princípios gerais que se estendem às diferentes partes da ciência e, para conhecer a maneira mais favorável de apresentar esses princípios, é necessário ter um conhecimento muito extenso e variado" (Discours Préliminaire: 134). |
Na entrada "Éléments des sciences", esta mesma tese é defendida por D'Alembert com ainda maior vigor. Cf. D'Alembert (1965: 208-209). |
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Por seu lado, Diderot considera que "não seria impossível que um só homem se encarregasse de anatomia, de medicina, de cirurgia, da matéria médica, e de uma parte da farmácia; um outro da química, da parte restante da farmácia e do que há de química em artes como a metalurgia, a tinturaria, uma parte da ourivesaria, uma parte da caldearia, da arte de trabalhar o chumbo, da preparação de cores de toda a espécie, metálicas ou outras, etc. Um só homem bem instruído numa qualquer arte do ferro, poderia abarcar as profissões de cutelaria, serralharia, ferraria, etc." (Diderot, ed Laffont: 415-416). |
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De qualquer modo, é conveniente notá-lo, a divergência assinalada não ultrapassa a amplitude que a época permite. Ao reclamar a colaboração de sábios com uma competência específica numa determinada área, D'Alembert não está a pensar ainda no especialista enclausurado no seu estrito domínio de conhecimento e ignorante de tudo o mais que o desenvolvimento científico do século XIX irá produzir. Por seu lado, Diderot estaria pronto a recusar a hipótese de que o enciclopedista pudesse ser o generalista mais ou menos diletante que se vai constituir à margem da especialização da ciência, como seu subproduto. Estamos ainda no século XVIII, quer isto dizer, o homem de cultura é uma figura que consegue abarcar com profundidade o essencial do saber do seu tempo. A divergência que assinalámos é porventura real, sintomática mesmo das rápidas transformações intelectuais que se vão produzir a partir do século XIX, mas tem um âmbito restrito. Ambos estão ainda a pensar em verdadeiros amadores das letras, das artes e das ciências, como eles, aliás, também o são. Só que, ao contrário de D'Alembert, que exige do enciclopedista a posse de uma competência específica, a Diderot basta-lhe garantir a proximidade a uma área alargada do saber e do fazer. A sua atenção está sobretudo voltada para as capacidades de síntese e eloquência, para o espírito militante, digamos assim, que o colaborador da Encyclopédie deve possuir. |
D'Alembert está sempre pronto a mostrar a necessidade de ultrapassar o conhecimento geral e descer ao estudo detalhado dos objectos mesmos. Por exemplo, a terminar a primeira parte do Discours Préliminaire, D'Alembert lembra que "o uso das divisões gerais é o de reunir um grande número de objectos, mas não se deve acreditar que elas possam substituir o estudo dos próprios objectos" (Discours Préliminaire: 72). Na mesma página, a raiz nominalista desta rejeição torna-se ainda mais clara: "verdadeiramente, só os seres particulares existem e se o nosso espírito criou os seres gerais foi para poder estudar mais facilmente, uma após a outra, as propriedades que, pela sua natureza, existem ao mesmo tempo numa mesma substância e que não podem ser fisicamente separadas"(Discours Préliminaire: 72-73). |
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Como afirma, o trabalho de elaboração da Encyclopédie requer "uma sociedade de gente de letras e de artistas, separados, ocupados cada um com a sua parte, ligados somente pelo interesse geral pelo género humano e por um sentimento de solidariedade recíproca" (Diderot, ed Laffont: 368). E acrescenta "Digo uma sociedade de gente de letras e artistas a fim de reunir todos os talentos. Quero-os separados, porque não há nenhuma sociedade subsistente da qual se possam tirar todos os conhecimentos de que temos necessidade e porque, se se quisesse que a obra estivesse sempre a ser feita e não se acabasse nunca, bastaria formar uma tal sociedade" (Diderot, ed Laffont: 368). Por outras palavras, a Encyclopédie requer variedade de competências, liberdade de gestos, generosidade de ânimo. |
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É um trabalho que se não compadece com a tradicional lentidão e conservadorismo das sociedades científicas cujo peso institucional, morosidade dos seus processos, exagerado volume das memórias que publicam, Diderot não se cansa de lamentar. "Os membros todos dessas sábias companhias não são suficientes para um só objecto da ciência humana mas todas essas sociedades juntas não são suficientes para a ciência do homem em geral" (Diderot, ed Laffont: 366-367). Trabalho que exige |
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velocidade "uma enciclopédia deve ser começada, continuada e acabada num certo intervalo de tempo"(Diderot, ed Laffont: 370) até porque, tanto nos costumes como nas artes e nas ciências, o progresso da razão é constante e imparável. Ela não pode por isso estar na dependência de um poder político pois que "há sempre um interesse sórdido em prolongar as obras ordenadas pelos reis"(cf. ibid.). |
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capacidade de afirmação de um estilo singular "As diferentes mãos que empregámos aposeram a cada artigo como que o sinete do seu estilo particular" (Discours Préliminaire: 130). |
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até mesmo um certo "colorido" "cada coisa tem o seu colorido, e seria confundir os géneros, reduzi-los a uma certa homogeneidade" (Discours Préliminaire: 130).. |
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um grupo de um homens "ligados somente pelo interesse geral do género humano e por um sentimento de solidariedade recíproca", como Diderot dizia. Um grupo de homens, separados, que por vezes não se conhecem sequer, mas ligados entre si por um estatuto comum ("colegas"), por um comum estado de espírito e comuns aspirações: "aplaude-se interiormente o que outro faz, dá-se apoio, faz-se pelo seu colega ou pelo seu amigo o que por nenhuma outra consideração se tentaria fazer" (Diderot, ed Laffont: 368, sublinhados nossos). |
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Estamos perante uma rara fraternidade de espírito, "colegas que, sem se conhecerem, parecem concorrer todos por amizade para a produção da obra comum"(Diderot, ed Laffont: 416), um momento singular da história da cultura em que um grupo de intelectuais (um conclave, quase uma tertúlia), vence os seus interesses particulares, une os seus esforços e, generosamente, põe as suas capacidades e competências ao serviço da perfeição da obra e da felicidade da humanidade. |
Como Diderot escreve mais adiante: "Não há aqui nenhum interesse particular; entre nós não reina nenhuma pequena inveja pessoal, a perfeição da obra e a utilidade do género humano fizeram nascer o sentimento generoso de que estamos animados"(Diderot, ed Laffont: 417). |
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Os autores da Encyclopédie não são pois os "inventores" responsáveis por "aumentar a massa do conhecimentos". Eles podem colaborar e é até desejável que o façam. Colaboraram em alguns casos(por exemplo, Du Marsais, Quesnay, De Brosses, Turgot, Condillac, Helvetius, Rousseau, Voltaire), noutros não.
A Encyclopédie teve, por exemplo, a colaboração de M. Daubenton, "digno colega de M. de Buffon", como D'Alembert assinala no Discours Préliminaire (Discours Préliminaire: 144), mas não teve a colaboração de Buffon ele mesmo. Do mesmo modo, outras grandes figuras da ciência da época, como Lineu, Barthez ou Euler, não colaboraram na Encyclopédie. Também na área das humanidades, por exemplo, Beauzée e Fontenelle não colaboraram na Encyclopédie. |
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Mas, assim como a Encyclopédie não é a soma das ciências particulares, o seu inventário ou compilação, assim ela não é, nem pode ser a simples soma, a pura justaposição da competência estrita de diversos especialistas, ou "inventores" como diria Diderot. Os autores da Encyclopédie também não são os generalistas, homens de competências superficiais, demasiado amplas e gerais que se ocupariam, indiscriminadamente, de todos os tipos de assuntos, da matemática à anatomia passando pela gramática, pela mineralogia e pela história do Egipto. Mesmo Diderot que escreveu mais de um milhar de artigos, não pode ser acusado de se ter aventurado para lá dos limites de um domínio amplo mas razoavelmente identificável de conhecimentos. |
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"A Encyclopédie não pode ser senão a tentativa de um século filosófico", diz Diderot (Diderot, ed Laffont: 411) que assim acaba por definir o enciclopedista como o filósofo. "Disse que só a um século filosófico pertencia fazer a tentativa de uma enciclopédia e disse-o porque essa obra exige por todo o lado a maior ousadia de espírito", (Diderot, ed Laffont: 412). |
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Fiel à imagem paradigmática de Sócrates, Diderot define o filósofo pela ousadia de espírito, pela liberdade necessária para "ousar ver", "É necessário examinar tudo, remexer tudo sem excepção", Diderot (Diderot, ed Laffont: 412). |
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para "ousar sacudir o jugo" das ideias feitas, dos preconceitos estabelecidos, pela coragem necessária para "derrubar as barreiras que a razão não colocou" (Diderot, ed Laffont: 412), "fatigado do jugo recebido, ousar sacudi-lo, afastar-se da estrada comum" (Diderot, ed Laffont: 412). |
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pela honestidade e espírito desinteressado "quanto àquele que prepara actualmente uma obra sobre essa matéria, eu só o aceitaria para colega se ele fosse já meu amigo, se a honestidade do seu carácter me fosse bem conhecida e se, sem lhe fazer uma enorme injúria, eu não pudesse suspeitar de que ele era movido pelo objectivo secreto de sacrificar a nossa obra à sua" (Diderot, ed Laffont: 416). E mais adiante: "Quanto ao homem que desejaria para autor, seria firme, instruído, honesto, verídico, de nenhum país, de nenhuma seita, de nenhum estado"(Diderot, ed Laffont: 435). |
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Enquanto configuração da ideia de unidade das ciências, a enciclopédia supõe pois a emergência da figura de uma nova figura: o enciclopedista-filósofo, amador (filos) do saber (sofos) em todas as suas dimensões, homem que se define por aquela conjugação de qualidades intelectuais e virtudes morais que lhe vai permitir constituir-se como operador dessa unidade: "articular as descobertas e ordená-las entre si, afim de que mais homens fiquem esclarecidos e que cada um participe, tanto quanto puder, na luz do seu século"(Diderot, ed Laffont: 367). À duplicidade de qualidades, intelectuais e morais, que caracterizam a figura do enciclopedista corresponde afinal a dupla unidade de que a enciclopédia é feita - a articulação e encadeamento dos saberes - a sua unidade teórica - e a orientação desses saberes em direcção à felicidade do género humano - a sua unidade prática. O enciclopedista-filósofo é, definitivamente, a figura dessa dupla unidade. Há porém uma outra figura necessariamente implicada na realização da Encyclopédie: o editor. Veremos como, sem que, em nenhum momento, seja explicitamente discutida a relação entre estas figuras, elas coexistem, umas vezes sobrepondo-se, outras recobrindo-se apenas parcialmente. |
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