A "Encyclopédie"

A Encyclopédie e o público

Para além da previsão do leitor típico - elemento importante do ponto de vista do editor que determina a adopção de uma linguagem mais ou menos acessível, a opção por um determinado nível de generalidade, por uma certa densidade de detalhe, etc. - estamos aqui perante uma questão, não apenas editorialmente relevante, mas epistemológica e politicamente significativa. Se cada ciência particular exige a constituição de uma comunidade de pares sem a qual fica impossibilitada de confirmar os seus resultados, se o progresso das ciências desencadeia a constituição de comunidades progressivamente mais alargadas, a unidade da ciência para que o projecto enciclopedista aponta, supõe a constituição de um novo operador do saber - uma nova comunidade sociopolítica cujos limites coincidem idealmente com a humanidade inteira. Mais do que a soma das diversas comunidades de pares, aí se incluem os pares que deixam de ser pares fora da sua área bem assim como todos aqueles que não são pares mas que, nem por isso, deixam de ter o direito de participar das aventuras colectivas da ciência e de receber os benefícios dos seus progressos; que, nas condições tradicionais em que lhes foi dado viver, nunca tiveram oportunidade para se constituírem como pares mas que, justamente por isso, a Encyclopédie tem como tarefa emancipar.

Digamos que, a uma concepção teológica dos pares que está subjacente à constituição de comunidades científicas especializadas (os pares são aqueles que estão mais próximos dos segredos de Deus), vai a Encyclopédie, enquanto projecto de unidade da ciência, fazer corresponder uma concepção antropológica e emancipatória que procura alargar a todos os homens as fronteiras da comunidade dos sábios. Por um lado, ao estender o seu direito de posse à totalidade dos saberes, a actividade enciclopédica revela-se, simultaneamente, enquanto iniciativa que faz desses saberes um bem acessível a todos. Este é o capital de saber que a humanidade alcançou. Vós leitores, podeis adquirir, fruir, multiplicar. Qualquer homem, todos os homens, podem ter acesso e aprender com a enciclopédia.Por outro lado, porque sempre se pensou como mais do que um simples inventário, reservatório de conhecimentos, ou mera obra de referência, a Encyclopédie teve como objectivo, não apenas informar, mas emancipar, tornar os seus leitores conscientes dos problemas metodológicos que o processo de aquisição do saber coloca, dar-lhes a experimentar o prazer de compreender o encadeamento e a relação entre os conhecimentos dispersos. Digamos que a integração é, simultaneamente, um dos objectivos e um dos atractivos maiores que a obra visa.

Obra colectiva, cujas deficiências e incompletudes só a posteridade, os "homens que vierem depois de nós" (Diderot, ed Laffont: 363), poderá ir anulando, a Encyclopédie é efectivamente construída e pensada para os "homens com que vivemos" (ibid.), ou seja, é imediatamente dirigida a um público de contemporâneos. Como escreve Jean-Claude Beaune (1985: 33), a Encyclopédie não se coloca apenas a questão de saber quem fala mas a de saber para quem  fala.

Que público é este? Como é que os enciclopedistas vêem esse público a que a Encyclopédie se dirige?

Tratar-se-há tão só dos cerca de 2000 subscritores, o que constitui mais do dobro dos assinantes dos jornais mais lidos da época (Habermas, 1984: 308).

Público que, na sequência da publicação do Prospectus de Diderot, em 1750, se comprometeram com a publicação da obra?

Público fiel, que apoia a edição desde o primeiro momento, antes mesmo do primeiro volume ser publicado, que espera com ansiedade a publicação de cada novo volume, que o lê com expectativa, com um interesse redobrado à medida que a polémica se instala, que a perseguição se desencadeia, personagem de um episódio célebre que dá bem conta do enorme apoio que a Encyclopédie recebeu por parte dos seus subscritores: quando, na sequência do decreto de 8 de Março de 1759, decreto que proibia a continuação da publicação da obra e exigia do editor o reembolso dos subscritores, ninguém se apresentou para receber esse reembolso.

O editor Le Breton recebe, imediatamente, mais de um milhar de subscrições que, pouco depois, ascenderão a 2.000. 

Estaremos perante o público mais amplo que esgota edições sucessivas da Encyclopédie, público maioritariamente proveniente das camadas burguesas que se preparam para a conquista do poder e que nela esperam encontrar formulações teóricas que respondam às suas necessidades económicas e anseios políticos? 

Como diz Pons (1963b: 85-90), raramente uma obra respondeu como a Encyclopédie de forma tão ajustada aos interesses e reivindicações económicas de uma classe social, a burguesia ascendente e em breve triunfante que controla já os principais sectores da economia francesa (finanças, comércio marítimo, agricultura) e que, consciente da sua força e protagonismo na revolução industrial que se avizinha, apoia decisivamente as ideias de progresso e de valorização do trabalho que permitem antever uma nova ordem social capaz de dissolver os privilégios feudais da nobreza, terminar com os entraves corporativos, aduaneiros, comerciais, administrativos que bloqueiam as suas aspirações e capacidades económicas. Sobre este tema, veja-se também o estudo intitulado "L'Encyclopédie et l'opinion publique", in Proust (1962: 58-70).

 

A Encyclopédie contou com sete edições até 1782, respectivamente a de Amsterdão (1776-1777), a de Genève ( 1771-1776), a de Lucques (1758-1776), a de Livourne (1770-1778), a de Neuchatel (1777-1779), a de Yverdon(1770-1780) e a de Berna (1772-1782).

Público já letrado, porventura mesmo esclarecido, verdadeira comunidade de gente de luzes, gente que se informa, que discute, que frequenta os cafés e as associações de leitura que acabavam de ser inventadas, que lê com aquela paixão da leitura tão característica da época iluminista; leitores atentos e "imparciais", capazes de julgar por si próprios, a quem D'Alembert apela perante a calúnia que se abate sobre a obra. No "Avertissement" que escreve para o volume III da Encyclopédie, publicado em 1763, D'Alembert refuta as acusações que de que a obra vinha a ser alvo considerando, a dado passo, que as intenções dos seus autores estão demasiado a descoberto para que "o público imparcial" se deixe enganar (Discours Préliminaire: 6).

A expressão "public éclairé" aparece, por exemplo, no Discours Préliminaire (Discours Préliminaire: 68). Como faz notar Habermas (1984: 110-126), depois de Inglaterra (com Hobbes e Locke), é em França, em meados do século XVIII, que começa a emergir um público capaz de pensar politicamente, justamente o public éclairé a quem os enciclopedistas se dirigem e cuja consciência crítica ajudam a constituir.

Mas, não será que os enciclopedistas se dirigem a um público ainda mais vasto e heterogéneo ? E que público é esse ?

Mais uma vez, é-nos possível assinalar uma ligeira mas significativa divergência entre Diderot e D'Alembert. Para Diderot, o público é uma entidade heterogénea nas suas habilitações e no seu nível cultural, constituído tanto pelo homem do povo como pelo sábio. Como escreve: "o homem do povo e o sábio terão sempre algo que desejar e algo com que se instruir na Encyclopédie" (Diderot, ed Laffont: 374). Pelo contrário, para D'Alembert, a Encyclopédie "poderá funcionar como biblioteca, em todos os assuntos, para um homem do mundo, e, em todos os assuntos com excepção do seu, para um sábio de profissão" (Discours Préliminaire: 143). Para Diderot a Encyclopédie dirige-se tanto ao homem do povo como ao sábio. Para D'Alembert, pelo contrário, o público da Encyclopédie nem é o povo - essa categoria demasiado ampla e simultaneamente demasiado limitada - nem o sábio, que não encontraria resposta para as questões específicas de que se ocupa, mas o homem do mundo (e certamente também o sábio enquanto homem do mundo), o homem cultivado, fruto de uma educação cuidada e racional, um habitante portanto do mundo das luzes, uma elite que se elevou já ao nível da cultura universal.

Diderot, por seu lado, quer chegar muito mais longe, não recuando perante as implicações políticas do seu empreendimento científico enciclopedista. A sua ambição ultrapassa mesmo as fronteiras dos estados. Àqueles que contestam a utilidade de uma enciclopédia e a acusam de falta de patriotismo, ao divulgar junto das nações vizinhas, e porventura rivais, "as transacções secretas, as invenções, a indústria, os recursos, os mistérios, a luz, as artes e toda a sabedoria de uma nação" (Diderot, ed Laffont: 428), Diderot contesta lembrando que cada estado "não ocupa senão um ponto sobre o globo e não dura senão um momento"(ibid.), razão pela qual não é legítimo que se pretenda "sacrificar a esse ponto e a esse instante a felicidade dos séculos futuros e da espécie inteira"(ibid.). A Encyclopédie não é um livro de Estado, nem defende a lógica dos Estados. 

"Dir-se-ia, ao ouvi-los, que uma enciclopédia bem feita, que uma história geral das artes, não deveria ser senão um grande manuscrito cuidadosamente fechado na biblioteca de um monarca e inacessível a outros olhos que não os seus. Um livro de Estado e não um livro do Povo"(Diderot, ed Laffont: 428).

Como Diderot acaba por reconhecer, o público a que a Encyclopédie se dirige é afinal o povo. Não o povo enquanto entidade mítica, isento (destituído) de quaisquer ambições cognitivas ou políticas, mas o povo enquanto novo realidade sociopolítica, entidade anónima e indiscriminada, é certo, mas sujeito abstracto que visa aceder à posse de competências científicas universais. Sujeito que, em breve, como diz Lyotard, se não contentará em conhecer mas procurará igualmente legislar (cf. Lyotard, 1979: 63).

É justamente porque é o livro do povo, que a Encyclopédie deve "tratar de tudo o que diz respeito à curiosidade do homem em geral, aos seus deveres, às suas necessidades, aos seus prazeres" (Diderot, ed Laffont: 363), interpretar os seus desejos, dar conta dos seus valores, estar ao serviço do seu progresso, ocupar-se portanto,não apenas das ciências que os sábios fazem avançar, sobre as quais "escrevem, fazem valer as suas descobertas, contradizem, são contraditados" (Diderot, ed Laffont: 427),mas também  das artes e dos ofícios a que se dedicam artistas, artífices e artesãos, homens "que vivem ignorados, obscuros, isolados"(ibid.), homens a quem a intolerância preconceituosa e tirânica retira prestígio, protagonismo e reconhecimento. Assim se compreende por que razão o corpo da Encyclopédie se alarga ao balanço das actividades pacíficas do génio humano, mostra as virtudes do trabalho nas suas diversas dimensões, revaloriza a obra do artesão atribuindo-lhe uma dignidade equivalente à do sábio ou do poeta.

Compreende-se deste modo por que razão Diderot manifesta um tão grande interesse pelas artes mecânicas, pelos trabalhos manuais e pelas actividades práticas.

Já D'Alembert, no Discours Préliminaire, aquando da apresentação da "genealogia das ciências", havia feito o elogio das artes mecânicas, e condenado os preconceitos políticos que estão na raiz da sua desvalorização face às artes liberais.

Não deixa de ser significativo o facto de Diderot ser proveniente de uma família de cutileiros curtidores de Langres. Sobre os antecedentes da Encyclopédie no interesse pelas artes mecânicas, veja-se o estudo de Bertrand Gille (1985).

Como escreve 

"a vantagem que as artes liberais têm sobre as mecânicas, pelo trabalho que as primeira exigem do espírito e pela dificuldade de aí alcançar um nível elevado, é suficientemente compensada pela utilidade muito superior que, na maior parte dos casos, as últimas nos oferecem"(Discours Préliminaire: 54).

As artes mecânicas são sobretudo valorizadas pala sua utilidade para o género humano: "a descoberta da bússola não terá sido menos vantajosa para o género humano que a explicação das propriedades dessa agulha pela física" (Discours Préliminaire: 54). E mais adiante "a sociedade ao respeitar com justiça os grandes génios que a esclarecem, não deve por isso aviltar as mãos que a servem"(Discours Préliminaire: 54). 

D'Alembert não podia pois senão lamentar que os nomes dos inventores das artes mecânicas fossem desconhecidos: 

"É verdade que a maior parte dessas artes foram inventadas pouco a pouco, que foi necessária uma muito longa fila de séculos para, por exemplo, fazer chegar os relógios ao ponto de perfeição em que hoje os vemos. Mas (pergunta), não é também isso que acontece com as ciências ? Quantas descobertas que imortalizaram os seus autores não tinham sido preparadas pelos trabalhos dos séculos precedentes, com muita frequência levadas à sua maturidade, ao ponto de não pedirem senão um passo para se realizarem?" (Discours Préliminaire: 55).

D'Alembert havia anteriormente definido as artes mecânicas como aquelas que "dependentes de uma operação manual e sujeitas, se assim se pode dizer, a uma espécie de rotina, foram abandonadas àqueles homens que os preconceitos colocaram na classe mais inferior"(Discours Préliminaire: 53). A Razão invocada para este facto é curiosa: estabelecido o contrato social, o poder de diferenciação social que a força corporal detinha foi substituído por um outro princípio de desigualdade - a diferença entre os espíritos o que teve como efeito que os talentos do espírito passaram a ser considerados como superiores aos do corpo (cf. ibid). D'Alembert é afinal um Rousseauista...

Por seu lado, Diderot, assume-se como historiador desse trabalho até então considerado servil, afirma o seu valor civilizacional e a sua utilidade para a felicidade da humanidade, anuncia às classes trabalhadoras, gente anónima e humilhada, que vai erigir-lhes um monumento pela exposição dos conhecimentos que generosa e silenciosamente foram construindo ao longo dos séculos. Nesse sentido, decide instruir-se nas diversas artes e ofícios passando para tal dias inteiros nos ateliers dos artesãos e nos novos espaços laborais da indústria e dos laboratórios de diversa índole, examinando uma máquina com atenção, pedindo que lhe fosse explicada, desmontada, tornada a montar, que o trabalhador o ensinasse a trabalhar, que trabalhasse diante de si, que lhe fosse permitido substituí-lo. O objectivo de Diderot é 

"tornar-se, por assim dizer, aprendiz e fazer, por si mesmo, más obras para poder ensinar aos outros como se fazem as boas obras" (Discours Préliminaire: 139).

Familiarizado com as máquinas mais complicadas, Diderot procede à sua descrição dando assim voz e razão a uma actividade mecânica realizada de forma silenciosa e "instintiva".

 

Como escreve D'Alembert, "a maior parte daqueles que exercem as artes mecânicas (...) operam apenas por instinto" (Discours Préliminaire: 138, sublinhados nossos).

É o caso, entre muitos outros, da célebre entrada Bas em que Diderot recolhe os ensinamentos e as explicações de M. Barrat, "operário excelente no seu género que montou e desmontou várias vezes, em presença de Diderot, a admirável máquina de fazer meias" (Discours Préliminaire: 152).

Jacques Proust (1977: 255) considera mesmo que, do ponto de vista da obra de Diderot, se trata de um texto com tanta importância como La religieuse, Jacques le fataliste ou Le neveu de Rameau. Trata-se claramente de um filósofo a descrever uma máquina em que nunca trabalhou, que lança mão de procedimentos analíticos, divide a máquina nas suas várias parcelas, desenha as mais importantes, reconhece explicitamente que o operário que a usa não conhece os seus elementos, nunca os viu nem nunca se interrogou sobre como e porquê esses elementos funcionavam como um todo e permitiam fazer uma meia. Como diz Proust, o que é descrito na entrada "bas", não é a fabricação de meias nem sequer a máquina que, para o efeito, era então usada, mas "a representação do filósofo diante da máquina e sobre a máquina" (Proust, 1977: 271), o espanto, a surpresa, a admiração face à máquina em que nunca trabalhou, mas também - e era essa a imagem que, seguramente, Diderot queria deixar - a admiração de alguém que se esforçou por entender, que respeitou o suficiente para perceber o seu mecanismo e funcionamento. Trata-se, acima de tudo, de uma reflexão sobre a relação do homem com a máquina, no fundo uma reflexão sobre o progresso. Este, como outros artigos do mesmo tipo, não é escrito para os operários que trabalham com as máquinas, os quais, aliás, não podiam comprar a Encyclopédie e, na sua maioria, nem sequer saberiam ler. Também não é escrito para a maior parte dos assinantes da Encyclopédie que não irão ter necessidade de usar esses ensinamentos. "É uma descrição que se quer exacta mas que não é necessariamente utilizável" (Proust, 1977: 275). Ela está lá, mais para mostrar que a Encyclopédie é rigorosa e exaustiva, do que para ser efectivamente lida e usada. Ela está lá para mostrar que... Proust tem razão: "Estamos no teatro"(ibid).

 
Métier à bas

Descrições que, na linha dos trabalhos iniciados na Académie des Sciences por Colbert, eram acompanhadas de magníficas gravuras, maioritariamente da autoria de Goussier.

Louis-Jacques Goussier não é apenas um desenhador talentoso mas um profundo conhecedor nas áreas das matemáticas, da física, das artes, das máquinas e manufacturas. Para além de Goussier, colaboram na ilustração da Encyclopédie, outros gravadores como Cochin, Papillon ou Benard e muitos outros artesãos que não assinam sequer as gravuras que realizam. Quanto aos desenhadores, merecem especial referência os nomes de Lucotte e Radel. Sobre o vasto tópico da iconografia da Encyclopédie, remetemos para o belo livro de Moreau (1990: em especial o capítulo III, 71-99).

Na verdade, desde o momento da sua fundação, Colbert lança o projecto de constituir uma monumental Description et perfection des arts et des métiers cujo primeiro volume virá a ser publicado em 1704 por Jaugeon. É deste volume que os jesuítas de Trévaux acusam Diderot e D'Alembert de ter retirado material iconográfico. Cf. Collison (1964: 114-116).

Mais do que as descrições discursivas, essas gravuras mostram, de forma ostensiva, didáctica (e teatral), os diversos elementos que constituem a realidade representada, colocando, diante dos olhos do eventual leitor (espectador), primeiro, uma perspectiva geral, frequentemente acompanhada de cortes horizontais ou verticais; depois, uma decomposição detalhada dos elementos constituintes dos objectos representados; finalmente, uma descrição dos diversos planos e etapas da sua organização interna ou da sua fabricação.

A Encyclopédie é ela mesma uma máquina que exibe perante nós todos os lugares e mecanismos em que o saber se precipita, se experimenta, se aplica. Vasta operação que visa prescrutar, penetrar, decifrar, representar e sistematizar todos os segredos da natureza e das artes. Tudo pode ser olhado, aberto, mostrado, exposto à luz clara da razão: o interior das fábricas, dos ateliers, as práticas milenares dos trabalhos agrícolas, artesanais e manufactureiros, as profundidades geológicas da terra, das minas, das vísceras, das máquinas, dos relógios, dos utensílios quotidianos.

Como diz Starobinsky, "da mesma maneira que a anatomia, depois de Vesalius, por intermédio das pranchas e das suas legendas, pode divulgar os segredos do corpo humano, a descrição das artes, recorrendo aos mesmos procedimentos, saberá expor esses seres vivos artificiais que são as máquinas e os utensílios" (Starobinsky, 1970: 289).

Estamos, é um facto, perante uma idealização do trabalho manual e industrioso (como faz notar Starobinsky (1970: 290), os ateliers não eram tão limpos, tão arejados, tão espaçosos como as gravuras nos mostram). Correspondendo a um período de apogeu da economia manufactureira, anterior à introdução da máquina a vapor e portanto da revolução industrial, a Encyclopédie pensa o trabalho técnico, não já na sua significação teológica, como castigo divino, não ainda à moda romântica, como afastamento relativamente às tarefas agrícolas mediante as quais unicamente o homem vive em harmonia com a natureza, mas como forma de humanização progressiva do mundo inanimado. Nesse sentido, as artes mecânicas são exteriorizações do saber, prolongamentos práticos que permitem retirar da ciência toda a utilidade técnica de que ela é capaz, frutos portanto da árvore dos saberes que têm, de direito, o seu lugar na enciclopédica.

Veja-se o caso de Rousseau que contrapõe ao seu ruralismo lírico uma atitude pessimista de condenação avant-la-lettre de toda a indústria nascente.Veja-se, por exemplo, a "septième promenade" das "Les reveries du promeneur solitaire", Rousseau (Oeuvres Complètes, 1959, I: 1060-1073). Digamos que, mais lúcido que a Encyclopédie, Rousseau pressente de que modo o trabalho mecânico está prestes a tornar-se uma forma de alienação e opressão. Sobre o conceito de artesão na Encyclopédie, cf. Deloche (1985).

Após as primeiras experiências bem sucedidas de James Watt em 1767, na Europa da época, como diz Paul Hazard (1963: 210), "as máquinas começavam a substituir os homens; na história da nossa espécie, facto algum mais pesado de consequências se tinha jamais produzido". Sobre o contexto da manufactura e da agricultura em França à época da Encyclopédie, cf. Proust (1962: 163-188).

 

A Encyclopédie não se dirige a sujeitos solitários, cujo fundamento e identidade estaria na relação (agostiniana) com a divindade ou na relação (cartesiana) consigo próprios. A Encyclopédie visa esse sujeito relacional, colectivo e anónimo que é o povo e a melhor maneira de servir o povo é restituir-lhe a palavra, dar voz às suas silenciosas actividades, dar corpo e visibilidade aos seus saberes milenários, ir ao encontro das suas aspirações, pôr à sua disposição todos os elementos informativos, críticos e doutrinais que lhe permitam ajuizar, ter opinião, participar, adquirir voz activa, ser cidadão. Que o povo encontre, nas páginas da Encyclopédie os elementos que lhe permitam reconhecer-se como público. Que o povo seja público, que o público seja interlocutor, que se constitua como opinião pública. Tal só se consegue na medida em que se fizer circular toda a informação

"É preciso divulgar todos os segredos sem nenhuma excepção" (Diderot, ed Laffont: 427)

se romper a barreira dos círculos restritos a que ela tem estado confinada - os salões, os cafés, as cidades - se der voz a quem sempre esteve arredado da palavra.

Como diz Habermas (1984:87), a Encyclopédie é "um empreendimento doutrinal e publicitário em larga escala".

Afinal, o público a quem a Encyclopédie se dirige é um público que a Encyclopédie ajuda a constituir. Dos salões privados, aos cafés abertos a qualquer cliente, das sociedades científicas e literárias destinadas a membros eleitos, cooptados, aceites ou associados, aos grupos de leitores assíduos das revistas e dos jornais, compreende-se que a enciclopédia se ofereça então como espaço público por excelência. Ela devolve à humanidade inteira, a quem se dirige, o património universal da razão que em si contém.

Como Diderot não se esquece de afirmar, a enciclopédia só pode ser um trabalho independente em relação aos poderes instituídos: 

"Se o governo se imiscui numa tal obra, ela não se fará. Toda a sua influência deve limitar-se a favorecer a sua execução. Um monarca pode, com uma só palavra, fazer sair um palácio de entre as ervas. Mas uma sociedade de gente de letras não é uma trupe de jornaleiros. Uma Encyclopédie não se ordena"(Diderot, ed Laffont: 368).

É que, tal como a ciência dos séculos XVII e XVIII, a enciclopédia iluminista é uma força de rebelião que cresce e se desenvolve à margem, ou mesmo contra, os poderes estabelecidos; não nas universidades, raramente nas academias, mas pela mão de investigadores isolados, muitas vezes desconhecidos e quase sempre injustamente tratados. Situação que nunca mais se repetirá uma vez que a ciência, cuja importância será, a partir de então, cada vez mais evidente, vai passar, dentro em pouco, a ter o apoio dos governos e, em breve, a estar sob o seu controle.

Curiosamente, as últimas palavras de D'Alembert no Discours Préliminaire constituem como que uma chamada de atenção para esta questão. "Terminemos esta história das ciências fazendo notar que as diferentes formas de governo, que tanto influem sobre os espíritos e a cultura das letras, determinam também as espécies de conhecimento que devem principalmente florescer, as quais têm cada uma o seu mérito particular" (Discours Préliminaire: 119).

Se é verdade que, por exemplo Leibniz, se apercebeu imediatamente do potencial de prestígio que uma enciclopédia traria para os poderes que ajudassem à sua constituição e que, por isso, se esforçou por granjear, para o seu projecto enciclopedista, o apoio  dos grandes e poderosos do seu tempo, a Encyclopédie, pelo contrário, foi obra de um grupo de intelectuais do contra-poderque, animados por convicções comuns, queriam mudar o mundo e as mentalidades, exaltar a razão, o progresso e a liberdade, atacar a superstição, o fanatismo, e a tirania e que, para isso, tomaram como programa confrontar a humanidade com aquilo que de melhor e mais importante ela foi capaz de produzir. 

Como bons iluministas, Diderot e D'Alembert dirigem-separa um futuro que acreditam próximo e radioso: "foram necessários séculos para começar e vão ser necessários séculos para acabar", escreve D'Alembert, não sem uma ponta de amargura (Discours Préliminaire: 142). Por seu lado, Diderot, catalisador incansável de energias suas e alheias, reconhecendo os defeitos que uma primeira tentativa necessariamente comporta, não deixa de lembrar que "pertence ao tempo e aos séculos vindouros a tarefa de os reparar"(Diderot, ed Laffont: 397).

É sabido que, do ponto de vista político, a Encyclopédie não está em completa consonância com o ideário que vai levar à revolução francesa, nomeadamente no que diz respeito ao reconhecimento do princípio da soberania popular que, de todos os enciclopedistas, só Jean Jacques Rousseau defenderá. Nesse sentido, o duplo gesto que levará Robespierre a transferir para o panteão nacional os restos mortais de Rousseau e a quebrar o busto de Helvetius no clube dos Jacobinos, é bem o símbolo da distância que ainda separa o mundo que a Encyclopédie anuncia, do mundo que com a Revolução francesa se inicia.

É no entanto inegável que a Encyclopédie teve um profundo impacto político e desempenhou um papel de grande importância no advento da revolução francesa (cf. Soboul, 1962: em especial I, 69-73).

Do ponto de vista da política da ciência, porém, o desafio lançado por Diderot e D'Alembert será ouvido pelos ideólogos dando origem à constituição, pelopoder revolucionário da Convenção em 22 de Agosto de 1795, do célebre Institut National des Sciences et des Arts criado,orgão público que visava a centralização das actividades científicas e artísticas, a recolha das descobertas e o apoio ao aperfeiçoamento das artes e das ciências. 

Cabanis, membro da sua Secção de Análise das Sensações e das Ideias na Classe das Ciências Morais e Políticas, evocará nos seguintes termos os enciclopedistas: 

"A meio deste século uma confederação de filósofos, formada no seio da França, sob os olhos do despotismo em vão fremente de raiva, apoderou-se desta ideia e deste quadro (a classificação das ciências de Bacon). Eles executaram o que Bacon concebera, distribuíram segundo um plano sistemático e reuniram numa só obra, os princípios ou as colecções de factos próprios a todas as ciências e a todas as artes (...). Entre os seus benefícios, talvez se possa incluir o estabelecimento deste Instituto Nacional, de que eles parecem ter fornecido o plano. Com efeito, pela reunião de todos os talentos e de todos os trabalhos, o Instituto pode ser considerado como uma verdadeira enciclopédia viva que, secundada pela influência do governo republicano, poderá sem dúvida tornar-se facilmente num centro imortal de luz e liberdade" (cit. in Gusdorf, 1974:279, sublinhados nossos).

Digamos que este é o momento em que o estado se propõe chamar a si e centralizar os poderes relativos à produção do conhecimento e ao e controle da sua difusão, resgatando às universidades e aos editores comerciais os poderes que estes haviam recentemente conquistado. Para mais detalhes sobre o "Institut National des Sciences et des Arts", cf. Gusdorf (1974: 276-279).

Obra de ciência de inegável valor, a Encyclopédie foi uma verdadeira máquina de guerra, construída com valores políticos e ideológicos muito claros, obra de livres pensadores que queriam modificar a sociedade no sentido da liberdade política e da tolerância religiosa.

Significativamente, a reacção far-se-há sentir no interior do próprio movimento enciclopedista em que aparecerão outras enciclopédias que visam a refutação dos fundamentos políticos e ideológicos da Encyclopédie.

Estamos perante uma das tendências gerais do enciclopedismo do século XVIII - a sua intencionalidade crítica  e o seu carácter doutrinal. No enciclopedismo antigo e medieval, porque manuscrito, os autores conheciam antecipadamente o reduzido e homogéneo número dos seus leitores. Por essa razão se podiam limitar a dar, a compendiar, a pôr à disposição dos seus leitores um conjunto de materiais de que eles poderiam necessitar para a sua vida. Com a imprensa, os autores da enciclopédia deixam de conhecer antecipadamente os seus leitores o que vai implicar modificações textuais, tanto estilísticas como de conteúdo. A enciclopédia será então adaptada a uma audiência em larga parte desconhecida mas em cuja orientação, por isso mesmo, os seus autores passam a sentir necessidade de intervir.

É neste contexto que o enciclopedismo do século XVIII, para além de passar a incluir o comentário pessoal do autor, corrosivo, no caso de Pierre Bayle, edificante no caso de Chambers, adquire uma dimensão doutrinal, quer progressista e panfletária, como acontece em França com a Encyclopédie de Diderot e d'Alembert, quer moralista e conservadora ou mesmo contra revolucionária, como acontecerá em Inglaterra.

Referimo-nos ao célebre Dictionnaire historique et critique (1697) de Pierre Bayle cuja veemência crítica e anticlerical antecipa o carácter polémico da Encyclopédie. Wilson (1957: 119) considera mesmo que Pierre Bayle (1647-1706), um dos pais do iluminismo, foi o inspirador - inconfessado e inconfessável - da metodologia crítica da Encyclopédie. Para uma análise dos procedimentos retóricos e críticos do Dictionnaire de Bayle, veja-se o estudo de Bost (1994: em especial 74-98).

 

Sobre o carácter ideológico da enciclopédia Chambers, cf. Tonelli (1974). Com cerca de um século de antecedência, Marcellinus de Pisa publica a sua Encyclopaedia moralis (1646) onde estão reunidos um alargado conjunto de sermões visando diverssíssimas situações e conflitos morais. No século seguinte, poder-se-ia referir a Encyclopédie catholique (1838-1849) do abade Glaire e do visconde de Walsh que, contendo embora um dicionário bibliográfico de homens célebres, não inclui a entrada Galileu. Como faz notar Pierre Larousse (1866: XXXIX), trata-se de escamotear para não ter que desfigurar.

É o caso de duas enciclopédias de que adiante falaremos: a Encyclopaedia Britannica (1ª edição, 1768-1771), expressão, em termos ideológicos, da sociedade inglesa vitoriana e, logo no inicio do século XIX, da Encyclopaedia Metropolitana (1817-1845) de Coleridge que, declaradamente, no "Preliminary treatise on method" com que abre o primeiro volume, manifesta a sua oposição ao espírito da Encyclopédie e da Revolução francesa, que considera prejudiciais aos interesses da humanidade, e tem por objectivo a salvaguarda da moralidade pública e dos princípios da religião cristã. Como Coleridge declara, o objectivo da Encyclopaedia Metropolitana é "ensinar Filosofia na sua união com a Moral e sustentar a Moralidade pela Religião Revelada".