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Trata-se, em primeiro lugar, de uma obra colectiva. Dessa condição é feita menção no próprio título - a Encyclopédie é elaborada por uma "société de gens de lettres" e editada, "mis en ordre et publiée", por Diderot (1713-1784) e por D'Alembert (1717-1783) cuja colaboração é mencionada como dizendo respeito "à la partie mathématique".
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Estamos perante uma novidade absoluta. Todo o enciclopedismo anterior, antigo e medieval, renascentista e barroco, era de autoria única. A enciclopédia recorria, é claro, a fontes anteriores, compilava fragmentos, resumia textos de outros autores. Mas, em si mesma, ela era projectada, organizada, elaborada, por um único autor e as suas entradas, aquelas que não eram pura compilação, eram por ele redigidas ou por redactores ao seu serviço e não identificados. |
É sabido que alguns autores de enciclopédias medievais, nomeadamente Isidoro de Sevilha, tinham escribas e compiladores ao seu serviço cujos nomes não eram revelados |
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A única grande excepção é Leibniz que concebeu a enciclopédia enquanto obra necessariamente colectiva, que deveria ser elaborada pelos próprios sábios responsáveis pelo desenvolvimento da ciência e dos seus diversos ramos. Mas, justamente, Leibniz concebeu. Como D'Alembert fará notar com delicadeza relativamente à natureza inconclusa dos esforços leibnizianos, "Até aqui ninguém havia concebido uma obra tão grande, ou pelo menos, ninguém a tinha executado. Leibniz, de todos os sábios o mais capaz de sentir as dificuldades do projecto de uma enciclopédia, desejava que elas fossem ultrapassadas. No entanto, havia enciclopédias, e Leibniz não o ignorava, quando demandava por uma." (Discours Préliminaire: 123, sublinhados nossos). Quem vai executar, quem vai realizar será a república de colaboradores - "société de gens de lettres" - que Diderot e D'Alembert souberam, desde o inicio, congregar à sua volta: sábios sem dúvida, mas também juristas, geógrafos, economistas, gramáticos, eclesiásticos, artistas, artesãos, etc., "todos grandemente conhecidos ou dignos de o ser" (Discours Préliminaire: 17). |
Esta tematização do carácter colectivo da ciência moderna está já presente em Bacon. |
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No que respeita às ciências, são chamados sábios de diversas disciplinas sendo entregue, a cada um, a tarefa de sintetizar os resultados obtidos no domínio da sua actividade intelectual. Para a matemática, além de D'Alembert, o abade de La Chapelle, para a economia política, Quesnay, Turgot, Forbonnais e Necker, para a química, o barão d'Holbach (que, no entanto, oferece também importantes entradas de conteúdo político como "representantes" (de uma nação) e "teocracia"), para a medicina, Tronchin, Bordeu, Barthez, para o direito, Boucher d'Argis, para a história natural, Daubenton,para a gramática, Dumarsais, De Brosses, para a teologia, Formay, os abades Mallet, Yvon, Morellet e des Prades, e ainda Voltaire (autor, entre outras, das célebres entradas "História", "Espírito", "Eloquência" e da intraduzível "Finesse"), Helvetius, Condillac, Marmontel ou Montesquieu (que colaborou com uma única entrada, inacabada, sobre "o gosto".). |
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No que toca às artes e ofícios, são chamados artistas de todos os ramos, músicos como o jovem Jean-Jacques Rousseau, escritores como Grimm ou Duclos, relojoeiros como Le Roy, cirurgiões como Louis, pintores como Landois, arquitectos como Blondel, militares como Le Blond, oficiais de marinha como Bellin, e também artesãos, agricultores, jardineiros, vidreiros, tecelões, trabalhadores de todo o tipo de ofícios. Trata-se de uma longa lista de colaboradores cujos nomes foram, desde o início, intencionalmente revelados, e a quem é feito preito e justiça, logo em 1751. Vejam-se, em especial, as extensas notas ao Prospectus do Discours préliminaire em que D'Alembert enumera, com grande detalhe e minúcia, os mais importantes colaboradores da Encyclopédie e seus respectivos contributos. (Discours Préliminaire: 143-154). |
À data, Rousseau apenas tinha publicado o primeiro dos seus principais escritos, o Discours sur les sciences et les arts (1750), sendo fundamentalmente conhecido como músico, autor de várias peças de câmara e três óperas. A sua colaboração na Encyclopédie não se restringe contudo à música. Da sua autoria é ainda a entrada "Economia política" que constitui um interessante esboço do Contrato Social que Rousseau publicará em 1762. |
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Na verdade, a Encyclopédie soube congregar uma vasta pleiade de colaborações de que se destacam: |
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a dedicação extrema de Jaucourt Chevalier Louis de Jaucourt trabalhou intensamente durante anos e que, sobretudo depois do abandono de D'Alembert em 1758, se tornou no mais dedicado e precioso colaborador de Diderot tendo escrito inúmeras entradas sobre os mais variados temas, tanto insignificantes (como genuflexão, mendigo, sal, ou o jogo de cartas Whisk), como de grande impacto político e ideológico (como democracia, despotismo, igualdade natural, escravatura, governo, guerra, indústria, inquisição, judeu, liberdade política, pátria, pintura moderna, povo ou superstição). |
Voltaire, numa carta ao príncipe de Brunswick, considera mesmo que Jaucourt, pelo seu "trabalho infatigável" e pelos seus "vastos conhecimentos e virtudes", é o terceiro homem da Encyclopédie. Cf. Voltaire (1825: 369). |
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um número indeterminado de compiladores mais ou menos desconhecidos Diderot receberá, com frequência, contribuições espontâneas, muitas delas anónimas, memórias, informações, observações, conselhos, esclarecimentos de diversa índole. No entanto, a sua posição face aos pedidos de anonimato é de desconfiança prudente. Como ele afirma na entrada encyclopédie: "Um trabalhador que ousa pedir que o seu nome não seja posto no fim de um dos seus artigos, confessa que o acha mal feito ou, pelo menos, indigno de si" (Diderot, ed Laffont: 415). |
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No entanto a parte mais significativa acabou por ficar para D'Alembert e Diderot. D'Alembert, que acompanhou a elaboração da obra desde os primeiros momentos, é autor
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A colaboração de D'Alembert, face às perseguições constantes a que a obra esteve sujeita, veio a ser interrompida a partir de 1758, data a partir da qual D'Alembert abandonará o projecto, desiludido e incapaz de suportar por mais tempo a calúnia e a difamação.
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Tendo começado a ser editada em Paris em 1751, logo após a edição em Janeiro de 1752 do segundo volume, será publicado em 7 de Fevereiro do mesmo ano, um decreto que ordena a suspensão da publicação da obra, acusada de conter "máximas tendentes a destruir a autoridade real, a estabelecer o espírito de independência e de revolta e, sob termos obscuros e equívocos, revelar os fundamentos do erro, da corrupção dos costumes, da irreligião, e da impiedade" (cit., in Larousse (1866: XXV). Graças à protecção de alguma nobreza esclarecida, nomeadamente Mme de Pompadour e Mr. de Malesherbes, a publicação da obra irá vencendo todos os obstáculos (nomeadamente a condenação papal em 3 de Setembro de 1759) e, em 1765, estão editados os 28 volumes que a compõem. Sobre o conteúdo das principais condenações a que a Encyclopédie foi votada, desde o início da sua publicação, o melhor texto é ainda o célebre Avertissement que D'Alembert redigiu e que aparece como prefácio ao volume III, saído em 1753 (DP: 9-13). |
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Quanto a Diderot, para além das descrições e legendas que redigiu para as mais de seiscentas ilustrações espalhadas ao longo dos seus 28 volumes, escreveu - à sua conta - 1139 artigos sobre os mais variados assuntos, nomeadamente, história, direito, política, literatura, filosofia, estética, artes e ofícios, moral e teologia. Tais como: águia, prata, a seita herética muçulmana azarecah, meias, o deus vândalo belbuch, a serpente boa, bramanismo, as montanhas do cáucaso, comediante, corte, forja, indigente, jornaleiro, luxo, malfeitor, ameaça, miséria, nomeação, negro, origem, vício, voluptuoso. Veremos adiante como esta caleidoscópica variedade de assuntos é mais aparente do que real. |
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Da sua autoria são ainda um Prospectus e o Système figuré des connaissances humaines, publicados ambos em 1750, um ano antes do início da publicação da Encyclopédie, textos que, em paralelo com a apresentação das condições de subscrição, funcionaram como o anúncio público da obra. |
Em aditamento ao Discours Préliminaire de 1751, D'Alembert assina um Prospectus que retoma, no essencial, o Prospectus de Diderot de 1750. |
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É de uma opção reflectida que se trata. Tanto Diderot como D'Alembert têm consciência do estatuto necessariamente colectivo da obra. Face ao desenvolvimento das ciências e das artes D'Alembert pergunta: "Que homem pode ser suficientemente ousado e suficientemente limitado para tratar ele sozinho de todas as ciências e todas as artes ?" e acrescenta: "Inferimos daí que, para suportar um peso tão grande como aquele que sobre nós recaía, era necessário partilhá-lo" (Discours Préliminaire: 127). |
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Por seu lado, Diderot, na entrada encyclopédie, que constitui um dos centros teóricos da Encyclopédie, aponta duas razões para explicar por que razão a obra não podia ser feita por um só homem - para lá da extensão do objecto, a finitude do sujeito: Como diz: "Quando se considera a matéria imensa de uma enciclopédia, a única coisa de que nos podemos aperceber distintamente é que ela não pode ser obra de um só homem. Como é que um só homem, no curto espaço de tempo da sua vida, conseguiria conhecer e desenvolver um sistema universal da natureza e da arte?" (Diderot, ed Laffont: 363). Porém, a finitude dos indivíduos humanos não é apenas temporal. Há limites cognitivos que são constitutivos da condição geral da espécie. Como Diderot acrescenta: "não creio que seja dado a um só homem conhecer tudo o que pode ser conhecido, fazer uso de tudo o que existe, ver tudo o que pode ser visto, compreender tudo o que é inteligível (Diderot, ed Laffont: 364). |
Convém no entanto referir que, segundo Diderot, se a espécie é limitada, o espírito humano, esse, é ilimitado. Como ele escreve, "a massa geral da espécie não é feita nem para seguir nem para conhecer a marcha do espírito humano"(Diderot, ed Laffont: 374). Veremos adiante que, para Diderot, as entidades colectivas que reíficam o espírito humano são a humanidade ou a posteridade. |
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Mas, se a enciclopédia não pode ser feita por um só homem, ela também não pode ser obra de uma qualquer sociedade literária ou científica. Ao contrário de Leibniz que pensou sempre que a elaboração da enciclopédia devia ser tarefa dos próprios sábios reunidos em "sociétés savantes", "ordens científicas" ou academias, Diderot quer afastar estas daquela: "A Academia francesa não forneceria a uma enciclopédia senão o que diz respeito à língua e aos costumes; a Academia das Inscrições e Letras, senão os conhecimentos relativos à história profana, antiga e moderna, à cronologia, à geografia e à literatura; a Sorbonne à teologia, à história sagrada e à história das superstições; a Academia das Ciências, às matemáticas, história natural, física, química, medicina, anatomia, etc.; a Academia de Cirurgia, à arte desse nome; a de Pintura, à pintura, gravura, escultura, desenho, arquitectura; a Universidade, ao que se entende por humanidades, filosofia da escola, jurisprudência, etc."(Diderot, ed Laffont: 366). Ocupada com o seu objecto particular de investigação, cada sociedade negligenciaria tudo o mais e "nenhuma forneceria a generalidade dos conhecimentos de que temos necessidade"(ibid.). |
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Ao contrário de Leibniz que queria que fossem os próprios sábios, cientistas, investigadores, reunidos nas suas instituições próprias, a fazer a enciclopédia, isto é, que não estabelecia qualquer ruptura entre a investigação e a comunicação, entre a heurística da produção do novo e a conservação, recapitulação, transmissão do já adquirido, Diderot quer separar com grande clareza os dois registos: "Eu distingo dois modos de cultivar as ciências: um, consiste em aumentar a massa do conhecimentos; é assim que se merece o nome de inventor. O outro, em articular as descobertas e ordená-las entre si afim de que os homens fiquem esclarecidos e que cada um participe, tanto quanto puder, na luz do seu século"(Diderot, ed Laffont: 367). Enquanto que o trabalho do académico consiste em fazer progredir os conhecimentos - "inventar" - o trabalho de elaboração de uma enciclopédia exige outro tipo de qualidades e competências, nomeadamente, espírito de síntese (capacidades de articulação e ordenação dos saberes constituídos) e vontade de esclarecer (partilhar, fazer participar). |
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Trata-se de um ponto pesado de consequências culturais e epistemológicas: o desdobramento de figuras que até aqui se recobriam e que, daqui em diante, não deixarão mais de seguir caminhos afastados, leia-se, divergentes. Se, em Leibniz, a figura do cientista coincide ainda, inteira e necessariamente, com a do autor da enciclopédia, Diderot vai operar um desdobramento irreversível nessa figura total e completa do sábio ou homem de ciência: o inventor, personagem responsável por fazer progredir os conhecimentos em cada uma das ciências particulares e o enciclopedista, responsável pela elaboração da enciclopédia e portanto pela relacionação dos saberes (articulação e ordenação) e pela sua comunicação e partilha. Digamos que, se cada ciência, na sua origem e no seu desenvolvimento, supõe a constituição de uma comunidade de pares - os "inventores", os cientistas, em breve os especialistas - responsáveis por "aumentar a massa do conhecimentos" em cada uma delas, a enciclopédia, enquanto configuração da ideia de unidade das ciências, supõe a constituição de uma comunidade mais alargada que se não reduz à soma das diversas comunidades de pares de cada ciência particular mas que, de agora em diante, inclui uma nova figura - aquele que, não sendo par, ou porque está fora da sua área específica de investigação, ou porque não está afectado a nenhuma em particular, têm no entanto uma específica competência - articular os saberes, ordená-los, devolvê-los aos seus destinatários naturais para que estes "fiquem esclarecidos e que cada um participe, tanto quanto puder, na luz do seu século". Resta saber como se caracteriza essa figura do enciclopedista a cuja emergência acabámos de assistir. |
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