A "Encyclopédie"

Tarefas constitutivas

Tomando como base a classificação das ciências estabelecida, os editores têm agora que desenvolver as tarefas constitutivas que vão permitir transformar o dicionário em enciclopédia, ou melhor, "conciliar, no dicionário, a ordem enciclopédica com a ordem alfabética" (Discours Préliminaire: 70, sublinhados nossos). A classificação das ciências, enquanto fruto do trabalho de planificação, é pois anterior e exteriorà ordem enciclopédica a qual, efectivamente, vai consistir num conjunto de procedimentos, internos à própria Encyclopédie, cujo objectivo é a reconquista da unidade, o mesmo é dizer, da ordem, do encadeamento, da articulação, que a simples ordem alfabética faria perder.

Trata-se agora de, no interior de uma ordenação alfabética mais cómoda e mais fácil para o leitor (Discours Préliminaire: 128), mas também afectada de uma arbitrariedade que determina um acesso desordenado, fragmentário e descontínuo aos conhecimentos veiculados, construir um sistema de reenvios que permitamrecuperar para a Encyclopédie aquela relação pela qual "as ciências comunicam e se tocam" (Discours Préliminaire: 128). Por outras palavras, entregue ao acaso alfabético, a enciclopédia é um "dictionnaire raisonné". Compete ao editor, partindo de uma classificação das ciências e por intermédio de um sistema de reenvios, restabelecer a cadeia que liga duas matérias, duas ciências ou duas artes. 

Como seria de esperar, o Discours Préliminaire oferece ao leitor as explicações necessárias sobre o sistema de reenvios. Até mesmo porque todo o reenvio supõe a participação do leitor. Mais, ele é feito com o objectivo de facilitar a sua exploração do edifício enciclopédico. Os reenvios são, em última análise, hipóteses de leitura, "itinerários" de viagem (cf. Diderot, ed Laffont: 398) que cabe ao editor sugerir e colocar à disposição do leitor. Mas é o leitor que vai ou não actualizar essas possibilidades.

O primeiro tipo de reenvio, que poderíamos designar por classificativo ou integrador, consiste simplesmente em indicar "o nome da ciência à qual a entrada pertence" (Discours Préliminaire: 71). Nesse sentido, logo após o título que identifica o assunto fundamental da entrada, é colocado (entre parêntesis) o nome da ciência que se ocupa desse assunto. Procedimento que os editores desejam exaustivo mas de que não enjeitam algumas falhas. D'Alembert adverte mesmo o leitor para a hipótese de, por lapso, não estar assinalada a ciência a que a entrada corresponde: "quando nos tivermos esquecido, por exemplo, de assinalar que a entrada "Bomba" pertence à arte militar e que o nome de uma cidade ou país pertence à geografia, contamos suficientemente com a inteligência dos nossos leitores para esperar que não fiquem chocados com semelhante omissão"(Discours Préliminaire: 70).

Por exemplo, a entrada "Basilic" (Encyclopédie, II: 116), remete o leitor para "História Natural, Botânica")

Uma vez identificada a ciência correspondente a cada entrada pode esta ser facilmente situada no quadro dos conhecimentos humanos apresentado em apêndice à Encyclopédie. Como diz D'Alembert, "basta ver no Système Figuré que posição ocupa aí essa ciência para se conhecer o lugar que a entrada deve ter na Encyclopédie" (Discours Préliminaire: 70). As entradas alfabeticamente disseminadas pela Encyclopédie encontram assim o seu ponto de integração no sistema.

Um segundo tipo de reenvio, que poderíamos designar por entre-expressivo ou intra-enciclopédico, consiste na "ligação da entrada com outras na mesma ciência ou numa ciência diferente" (Discours Préliminaire: 71). O reenvio é então feito, ou no fim da entrada: "veja tal ou tal outra entrada...", ou no interior do próprio texto da entrada, sempre sob a forma de palavras em maiúsculas.

Na entrada "Basilic", é feito um reenvio no fim do artigo sob a forma: "veja PLANTA", (Encyclopédie, II: 116), na entrada "Biblioteca", o reenvio aparece no interior do texto sob a forma "falaremos desta ordem no artigo CATÁLOGO" (Encyclopédie, II: 228). Na entrada "Cassiopeia" há diversos reenvios intra-enciclopédicos em diferentes momentos do artigo tais como "veja CONSTELACÃO", "veja COMETA e ESTRELA" (Encyclopédie, II: 747).

Vemos que, se o primeiro tipo de reenvio permitia situar cada entrada particular no sistema geral dos conhecimentos humanos, isto é, localizava a parte no todo, este segundo tipo liga agora as partes entre si, permitindo circular de uma entrada a outra e, portanto, de uma ciência a outra ciência ou de uma região a outra região do mapa global da ciência. 

Num estudo já citado, Starobinsky (1970: 286) sugere a aproximação entre este tipo de circulação interna entre diversas entradas e o sistema de vias de comunicação, em franco desenvolvimento na época.

Tanto num caso como no outro, o grande objectivo do sistema de reenvios é, para D'Alembert, promover a função heurística da enciclopédia.Como escreve, "não citamos factos, não comparamos experiências, não imaginamos métodos senão para levar o génio a abrir-se para caminhos ignorados e a avançar para descobertas novas, olhando, como se de um primeiro passo se tratasse, para o lugar em que os grandes homens do passado terminaram a sua corrida" (Discours Préliminaire: 133). Mais do que ao leitor presente, a ordem e articulação enciclopédica dos conhecimentos é dirigida à humanidade futura. Digamos que a unidade da ciência é, para D'Alembert como para Leibniz, um dispositivo cognitivo fecundo de futuro e de promessas.

Sobre a importância atribuída por D'Alembert à função heurística da Encyclopédie, veja-se ainda a entrada "Éléments des sciences" onde D'Alembert (1968: 208) defende que é a necessidade de produzir novas verdades que está na base da necessidade de pôr em ordem as descobertas já feitas. Remetemos para Dadognet (1985) que analisa de forma extremanmente sugestiva esta vontade heurística da Encyclopédie.

Ao contrário da distinção, essencialmente formal, apresentada por D'Alembert no Discours Préliminaire, Diderot, na entrada "encyclopédie", distingue também dois tipos fundamentais de reenvios, agora em função do seu conteúdo: reenvios de coisas e de palavras.

  • "Os reenvios de coisas esclarecem o objecto indicando as suas ligações próximas com aquelas coisas que o tocam imediatamente e as suas ligações afastadas com outras que pensaríamos isolados; ligam noções comuns e princípios análogos; fortificam as consequências; entrelaçam o ramo ao tronco e dão ao todo essa unidade tão favorável ao estabelecimento da verdade e da persuasão. Quando necessário, produzirão um efeito totalmente contrário, opondo noções, fazendo contrastar princípios" (Diderot, ed Laffont: 402), etc. 

  • Os reenvios de palavras consistem fundamentalmente em, "quando se faz uso de palavras que não se explicam, ter a atenção escrupulosa de remeter para os locais onde elas são tratadas e aos quais não se seria conduzido senão pela analogia, espécie de fio que não está à mão de toda a gente" (Diderot, ed Laffont: 403).

Estamos pois perante dois esquemas de classificação de reenvios, não directamente rebatíveis um sobre o outro, que mantém entre si uma relação algo paradoxal. Na verdade, partindo da distinção de D'Alembert, tanto os reenvios classificativos e integradores como os entre-expressivos podem corresponder, na terminologia de Diderot, quer a reenvios de coisas, quer a reenvios de palavras. Mas, por outro lado, dado que Diderot pouco se refere à possibilidade de reenvio das entradas particulares ao Système Figuré e porque os dois tipos de reenvios que considera são sempre de carácter entre-expressivo, parece legítimo concluir que, para Diderot, é fundamentalmente essa entre-expressividade que importa garantir. Nela sobretudo residiria a unidade e eficácia da Encyclopédie.

Como compreender a razão de ser de mais esta subtil divergência entre os dois grandes obreiros da Encyclopédie?

Vimos que D'Alembert visava fundamentalmente a função heurística da Encyclopédie e que, portanto, estava sobretudo interessado em usar os reenvios como propostas de linhas de investigação, itinerários de viagem que permitam e promovam a exploração das mais remotas e ignotas regiões do mapamundo.

Tal como D'Alembert, também Diderot está consciente do valor heurístico dos reenvios que, como diz, "ao fazerem aproximações de certas relações nas ciências, de qualidades análogas nas substâncias naturais, de manobras semelhantes nas artes, podem conduzir ou a novas verdades especulativas, ou à perfeição das artes já conhecidas, ou à invenção de novas artes, ou à restituição de antigas artes perdidas"(Diderot, ed Laffont: 403).

Como Diderot diz, este tipo de reenvio é "obra do homem de génio" (Diderot, ed Laffont: 403). E acrescenta: "Feliz aquele que está em estado de disso se aperceber" (Diderot, ed Laffont: 404). É sinal que possui "aquele espírito de combinação" (ibid.) que está na base de todos os progressos humanos.

Porém, se D'Alembert está sobretudo voltado para os progressos cognitivos futuros que a Encyclopédie pode vir a proporcionar, Diderot quer, para além disso, retirar dela uma eficácia ideológica imediata.

Assim se compreende a importância que Diderot atribui à descoberta de que os reenvios podem funcionar enquanto dispositivos polémicos, mecanismos de esclarecimento, crítica e desmistificação. Na verdade, quando necessário, eles permitem "opor as noções, contrastar os princípios, atacar, destruir, inverter secretamente algumas opiniões ridículas que não se ousaria insultar abertamente" (Diderot, ed Laffont: 402). Assim usados, eles "operam prontamente sobre os bons espíritos e infalivelmente e sem nenhuma consequência desagradável, secretamente e sem qualquer espavento, sobre todos os espíritos"(Diderot, ed Laffont: 403).

 

O mecanismo consiste em estabelecer relações não apenas internas mas secretas entre duas ou mais matérias. Um dos exemplos mais célebres, escolhido pelo próprio Diderot para explicar este tipo de reenvio (cf. Diderot, ed Laffont: 405), é o da entrada "cordeliers", respeitosamente dedicada aos franciscanos, que reenvia para a entrada "capuchon" na qual os mesmos franciscanos são violentamente ridicularizados.

Referindo-se a este tipo de reenvios, Diderot escreve: "A obra inteira recebe assim uma força interna e uma utilidade secreta cujos efeitos surdos são necessariamente sensíveis com o tempo" (Diderot, ed Laffont: 403, sublinhados nossos).

Nas entradas mais importantes, aquelas que, mais facilmente, poderiam ser alvo de suspeita por parte das autoridades políticas e eclesiásticas, nos pontos que, naturalmente, iriam ser objecto de uma atenção mais vigilante, a Encyclopédie professa as teses mais inofensivas e ortodoxas. 

Alguns autores vêem na prática deste tipo de reenvio sobretudo um mecanismo de fuga à censura e à perseguição a que a Encyclopédie estava sujeita. Cf., por exemplo, Wilson (1957: 111).

Espalhadas entre estas, em lugares insuspeitos, entradas aparentemente inofensivas servem de pretexto para desenvolvimentos muito pouco ortodoxos sobre questões de moral, religião e política. 

Como diz Starobinsky (1970: 287), "a livre crítica exerce-se sob a camuflagem de um vocábulo anódino".

Outros exemplos célebres, "aigle", "agnus scythicus", "junon", "gomaristes".

A prática do reenvio pode pois permitir efeitos de persuasão e dissimulação que o espírito crítico iluminista aproveita de forma perspicaz e determinada. No fundo, é ainda a crença na poderosa unidade da verdade que leva Diderot à prática deste tipo, digamos subversivo e doutrinal, de reenvio que Diderot designa por "satírico ou epigramático". Cf. Diderot, ed Laffont: 405.

Ainda que, por razões de oportunidade, a verdade não possa ser dita em todas as circunstâncias, ainda que, por motivos de prudência, seja necessário escondê-la e dissimulá-la, a sua poderosa unidade acaba por provocar a sua irrupção em lugares bizarros e inesperados do encadeamento das verdades particulares. Por outro lado, a descoberta de que os reenvios podem ser postos ao serviço de objectivos doutrinais imediatos vai permitir a Diderot prolongar, sob as consciências individuais dos seus contemporâneos, os efeitos cognitivos que o sistema de reenvios podia ter sobre a evolução futura dos conhecimentos humanos. A  heurística prolonga-se na persuasão.

Como sugestivamente escreve Jean-Claude Beaune (1985: 33), em Diderot "ressoa ainda o riso de Gargantua".

O que estamos a sugerir é que D'Alembert está mais próximo de Leibniz do que Diderot. Para D'Alembert,a "Encyclopédie" é ainda o espelho que reflecte e propõe um modelo de unidade do saber prenhe de virtualidades cognitivas e potencialidades heurísticas. Para Diderot ela é sobretudo veículo de novas ideias. A sua unidade é sobretudo ideológica e doutrinal.

Trata-se de reforçar a ordem e encadeamento dos conhecimentos, de prolongar a sua unidade teórica, cognitiva e heurística, numa unidade mais ampla de natureza prática, ética e política. Novamente será a figura do filósofo, na duplicidade das qualidades intelectuais e morais que a caracteriza, que vai ser o operador dessa dupla unidade de que a enciclopédia é feita - a articulação e encadeamento dos saberes - a sua unidade teórica - e a orientação desses saberes em direcção à felicidade do género humano - a sua unidade prática.

Nas seguintes palavras estão sintetizados as finalidades cognitivas e éticas da Encyclopédie :

"reunir os conhecimentos dispersos sobre a superfície da terra, expor o sistema geral desses conhecimentos aos homens com quem vivemos e transmiti-lo aos homens que vierem depois de nós afim de que os trabalhos dos séculos passados não sejam inúteis para os séculos que se sucederão, a fim de que os nossos descendentes, ao tornarem-se mais instruídos, se tornem ao mesmo tempo mais virtuosos e mais felizes, e que nós não morramos sem ter estado à altura do género humano" (Diderot, ed Laffont: 363).

A ideia básica é de inspiração socrática: só os ignorantes podem ser maus. O bem supõe o conhecimento e, portanto, quanto mais conhecermos, melhores nos tornamos, mais virtuosos. A Encyclopédie pode por isso contribuir significativa e simultaneamente para o progresso do conhecimento e para a felicidade e bem estar da humanidade. Como diz Casini (1975), o progresso para que a Encyclopédie aponta é "um processo unitário da natureza, da sociedade e da arte" (1975: 252).

Para tal deverá a Encyclopédie, não apenas instruir mas também esclarecer. Como D'Alembert escreve nos Éléments des Sciences, há que informar mais pessoas porque assim se ganha "um maior número de juízes esclarecidos" (1965: 217, sublinhados nossos). À Encyclopédie compete pois dar elementos informativos mas também críticos e polémicos, favorecer o progresso individual e colectivo do conhecimento e contribuir para a transformação política e ideológica da sociedade, registar os progressos que a humanidade tem feito ao longo do tempo mas também denunciar a superstição, o fanatismo, a tirania, tudo o que entrava a liberdade e a felicidade dos homens. Cabe ao editor-filósofo, "comparar constantemente as opiniões, balançar as razões, propor meios de duvidar e de sair da dúvida, decidir mesmo, algumas vezes, destruir, tanto quanto possível os erros e os preconceitos, tratando sobretudo de não os multiplicar e de não perpetuar, protegendo sem exame sentimentos rejeitados, ou proscrevendo sem razão opiniões recebidas"(Discours Préliminaire: 132).

Ao contrário de Diderot que, como veremos, defende com maior vigor o carácter persuasivo do enciclopedista-filósofo, D'Alembert considera que o papel do filósofo é mostrar, e não forçar. "Mesmo quando ensinam a verdade, os filósofos contentam-se em mostrá-la sem forçar ninguém a conhecê-la (Discours Préliminaire: 87).

Digamos que, para lá da informação que oferece, a Encyclopédie propõe uma outra maneira de olhar o mundo. Em paralelo com respostas elaboradas sobre temas científicos, artísticos e técnicos, a Encyclopédie veicula inquietações que sacodem os preconceitos e as certezas cristalizadas, apresenta razões que iluminam as trevas da ignorância, do fanatismo, da superstição, desenvolve argumentos que abalam as crenças e a dogmática estabelecida.

Assim se explica que a Encyclopédie tenha sido alvo do furor inquisidor dos que, para defender os privilégios da Igreja e o controle que tinham sobre as actividades intelectuais em França, perceberam que era necessário combater violentamente a possibilidade, cada vez mais ameaçadora, de constituição de um estado moderno, independente da tutela religiosa.

Numa época de autoritarismo político e dogmatismo religioso, a Encyclopédie defende vigorosamente a liberdade de pensamento, como Diderot escreve na entrada Autorité politique

"a liberdade é um presente do céu e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de usufruir dela tanto quanto usufrui da sua razão" (in Pons, 1963: 137).), 

combate o despotismo e a tirania, defende um deísmo militante e tolerante, como é dito no final da entrada "intolérance" (in Pons, 1963: 380-383), 

"Tratai da vossa salvação. Rezai pela minha e crede que tudo o que vos permitirdes para lá disso é uma injustiça abominável aos olhos de Deus e dos homens".

Resumo admirável da ideologia da tolerância que está subjacente à "Encyclopédie"!. Por outras palavras, a Encyclopédie propõe um discurso contínuo que subjaz à descontinuidade alfabética. Por detrás (ou por baixo) do texto fragmentário da Encyclopédie, corre o rio poderoso e violento de uma textualidade plena e persuasiva.

Partindo do conceito de soberania dos teóricos do direito natural, em especial Grotius e Pufendorf, os enciclopedistas não põem em causa a autoridade monárquica desde que respeitadora dos direitos e das liberdades fundamentais dos povos (cf. entrada de Jaucourt "gouvernement"). O seu combate contra a tirania leva-os a defender, quer o despotismo esclarecido de um rei filósofo como Frederico II da Prússia (cf. entradas de Diderot "autorité politique" e "Prusse"), quer uma monarquia limitada e representativa de estilo inglês (cf. entrada "Représentants" da autoria de 'Holbach). 

Como mostra Alan Pons (1963b: 102-105), os enciclopedistas perfilham uma ideologia burguesa mas não revolucionária; eles "querem que o povo seja feliz mas não pensam em dar-lhe o poder".

Resta-nos analisar de que modo a Encyclopédie contribui para a constituição de um público enquanto categoria epistemológica e política.