Enciclopédias Filosóficas

A Especificidade da Enciclopédia Filosófica

Em sentido amplo, o projecto enciclopédico é coextensivo ao projecto filosófico iluminista. Ambos comungam da pretensão de se constituírem como conhecimento racional da totalidade do real, discursividade exaustiva (absolutamente abrangente) capaz de reflectir a unidade do mundo. Pensada como sistema dos conhecimentos possíveis, a filosofia seria, por natureza, uma disciplina enciclopédica; a enciclopédia traduziria necessariamente essa ambição filosófica, seria a sua realização acabada.

Porém, apesar desta quase simetria, nem todas as enciclopédias se deixam definir por um programa filosófico. 

Em sentido restrito, é possível distinguir, na história geral do enciclopedismo, um conjunto de produções enciclopédicas de natureza especificamente filosófica ou, pelo menos, onde há um estilo filosófico mais marcado. 

 

Não é esta, por exemplo, a posição de Gerber (1967) para quem a enciclopédia filosófica só pode revestir a forma de um dicionário especializado. Nesse sentido, a enciclopédia de Hegel não seria uma enciclopédia filosófica mas tão só uma forma peculiar de exposição de um sistema filosófico.

A nosso ver, a especificidade da enciclopédia filosófica, aquilo que faz dela uma empresa sui generis, consiste, fundamentalmente, em 2 determinações diferenciadoras.

1. A enciclopédia filosófica é uma obra axiomaticamente consistente, subordinada a um esquema prévio que define os temas, a ordem, a selecção, os tópicos a tratar. 

 

   

Quer isto dizer que a enciclopédia filosófica não se limita a ser uma recolha de saberes, uma exposição exaustiva e ordenada dos saberes constituídos. Ela funciona com base numa muito forte exigência de unidade entendida esta, não como o resultado de um processo de unificação de conhecimentos parcelares, mas, ao invés, como dependência formal e material de todos os conhecimentos relativamente a um princípio fundamental. 

Unidade tão forte que, em casos extremos, pode mesmo pretender encontrar um conjunto de princípios e leis para deles deduzir a totalidade do real. Nesse sentido, e ao contrário dos outros tipos de enciclopédia que são sempre discursos atomizados, descontínuos, a enciclopédia filosófica pode, por vezes, assumir a forma de uma exposição contínua.

 

É o caso da enciclopédia de Hegel que, como adiante veremos, adopta o modelo do tratado, dividido em capítulos e sub-capítulos de acordo com uma ordem racional previamente estabelecida

2. Não ainda uma realização efectiva, a enciclopédia filosófica é, quase sempre, tão só um projecto.

   

 Pela sua desmedida ambição de unidade, a enciclopédia filosófica, com muita frequência, não ultrapassa a situação de uma virtualidade nunca plenamente realizada. 

 

É  isso que, por exemplo, acontece em Leibniz

Trata-se - é um facto - de uma determinação com um valor muito relativo na medida em que o ambicioso projecto que subjaz à ideia de enciclopédia a impede, em qualquer caso, de ultrapassar o estatuto de fragmento, obra necessariamente incompleta. 

A diferença diz respeito ao facto de a enciclopédia filosófica se poder ficar por uma cuidadosa fundamentação e delimitação teórica, pela selecção de critérios e princípios organizadores, sem chegar sequer a iniciar-se, sem desencadear os procedimentos necessários à sua efectiva realização. 

   

Digamos que, antes de ser uma enciclopédia, a enciclopédia filosófica é,em primeiro lugar, uma meta-enciclopédia

Mas, a distinção aqui proposta entre, por um lado, enciclopédias gerais e especializadas, e, por outro, enciclopédias filosóficas, não é isenta de dificuldades

   

Há  figuras que atravessam os dois domínios. 

Por razões diversas em cada caso, poderia discutir-se a inclusão de Lull, Alsted, Comenius ou mesmo Neurath na categoria de enciclopédias gerais ou filosóficas

   

O caso mais eloquente, que não o único, é o da Encyclopédie de Diderot e D'Alembert, momento ímpar, tanto na história do enciclopedismo em geral, como na do enciclopedismo filosófico.

   

É verdade que a ordem adoptada é, na Encyclopédie, a alfabética, o que, em geral, não acontece nas enciclopédias filosóficas. 

Por outro lado,a Encyclopédie está ordenada por um conjunto de tal modo coerente de princípios (epistemológicos, ideológicos, políticos, antropológicos e mesmo estéticos), está construída por um conjunto de tal modo forte de mecanismos de estruturação interna (temáticos, conceptuais, de planificação e de constituição), que seria justificável a sua inclusão na categoria das enciclopédias filosóficas. 

No entanto, porque não estamos na presença de um projecto, como acontece com as enciclopédias filosóficas, mas de uma realização efectiva  - realização essa que, constituindo o modelo por excelência da própria ideia de enciclopédia, guarda para si o privilégio da designação simples de "enciclopédia" - preferimos incluí-la na categoria do enciclopedismo geral