Enciclopédias Filosóficas
Combinatória e Enciclopédia
em Rámon Lull
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Estamos agora face a esse momento fundador (e recalcado) do pensamento moderno em que, pela primeira vez, a enciclopédia se cruza com o seu destino combinatório, isto é, se descobre nas suas virtualidades heurísticas. |
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Rámon Lull (1235-1315) é, acima de tudo, tanto para si como para os seus contemporâneos, um teólogo. O seu objectivo fundamental, ao qual dedica a sua vida, é a conversão dos infieis. Numa época em que nem Cristo nem os apóstolos estão na Terra para produzir essas visibilidades irrecusáveis que são os milagres, numa época em que as inteligências só se deixam mover pela dialéctica escolástica das razões necessárias, há que encontrar os meios que permitam destruir as falsas opiniões, há que construir um método infalível que permita obter a adesão dos infieis à verdadeira fé, por puras constrições racionais. Como Lull escreverá no Tractatus de modo convertendi infidelis (1292),"se se deseja uma conversão fácil e rápida dos infieis, é necessário compor um tratado com os princípios universais de todas as ciências que deduza a verdade de modo necessário e indique o método para encontrar o objecto específico desejado" (cit. in Llinares (1957: 229). |
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É este projecto de constituição de uma combinatória que permita encontrar uma resposta infalível para todas as questões que se possam colocar relativamente a Deus e às criaturas que está na raiz da Ars Magna (cujas duas últimas versões, uma mais extensa, sob o título Ars generalis ultima, outra mais compacta e mais manejável intitulada Ars brevis, são ambas de 1308), momento capital da imensa produção textual lulliana. Por entre as muitas obras apócrifas e as cerca de 3.000 que lhe são lendariamente atribuídas, a crítica assinala quase 250 obras em catalão, árabe e latim. A classificação apresentada por Carreras y Artau (1939: I, 272-284) é eloquente: obras enciclopédicas, anti-averroistas, místicas, pedagógicas, apologéticas, literárias, rimadas, perdidas, apócrifas e atribuídas. |
Com uma primeira versão, Ars Magna Primitiva em 1271, Lull vai sucessivamente reescrevendo a Ars ao longo de trinta anos, procurando formas cada vez mais simples, acessíveis e universalmente aplicáveis. Como faz notar Llinares na introdução à sua tradução da Ars Brevis, as várias versões têm, no entanto, uma estrutura idêntica (cf. Lull, 1308: 102). Para um estudo e descrição detalhada desta obra de Lull, a melhor e mais completa exposição é ainda a obra clássica de Tomás e Joaquín Carreras y Artau (1939: I, 427-455). |
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O pressuposto é o de que, porque fundada nas estruturas constitutivas da realidade, a Ars vai permitir deduzir o mundo de um conjunto de princípios primeiros ou termos primitivos e segundo um determinado conjunto de regras. Por outras palavras, é possível constituir uma lógica material que possa reflectir a ordem do universo, uma regra combinatória que reproduza analogicamente a ordem divina de que toda a existência está penetrada. |
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Lull começa por identificar um conjunto de nove atributos divinos comuns ao cristianismo, ao judaísmo e ao Islão que designa por Dignitates Dei . De âmbito lógico e ontológico, simultaneamente categorias primitivas e estruturas elementares da realidade, esses conceitos, representados simbolicamente por uma notação literal que os constitui como "alfabeto dell' arte", vão funcionar como princípios de totalização a partir dos quais toda a Ars se constrói. |
Designadamente, (B) Bonitas, (C) Magnitudo, (D) Eternitas, (E) Potestas, (F) Sapientia, (G) Voluntas, (H) Virtus, (I) Veritas, (K) Glória. Além destes nove predicados absolutos, Lull considera ainda outros nove predicados relativos, estes claramente categoriais, a saber: diferença, concordância, oposição, princípio, meio, fim, superioridade, igualdade, inferioridade (cf. Lull, 1308: 109). |
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Herdeiro das inúmeras investigações relativas à arte da memória que se desenvolveram longamente no quadro da tradição retórica latina , Lull vai em seguida construir um regime combinatório que, de acordo com quatro diferentes figuras e por intermédio de regras operatórias fixas, permita isolar todas as questões possíveis e encontrar, para cada uma, a sua resposta adequada, isto é, permita demonstrar a verdade em todos os campos ou níveis do saber. O objectivo de Lull é esgotar todos os campos possíveis do saber fundando-os numa ontologia escatológica de nove correspondentes níveis de realidade: os nove sujeitos, Deus, Angelus, Coelum, Homo, Imaginativa, sensitiva, vegetativa, elementativa e instrumentativa (cf. Lull, 1308: 139-149). Como Lull diz: "Eles (os nove sujeitos) englobam tudo aquilo que é; fora deles não há nada" (Lull, 1308: 139). |
As quatro figuras da Ars Brevis Três das quatro figuras são constituídas por círculos concêntricos subdivididos em sectores correspondentes às letras do alfabeto da Ars. Para uma das figuras, Lull constrói mesmo um conjunto de procedimentos combinatórios de manipulação mecânica, fazendo rodar, uns sobre os outros, os círculos correspondentes às duas outras figuras circulares. |
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Ora, na medida em que a Ars implica a redução de todos os conhecimentos humanos a um pequeno número de princípios capazes de, pela sua combinatória, expressar todas as relações possíveis entre dois conceitos, Lull vê-se obrigado a abarcar todo o saber do seu tempo. Daí que, ainda que a Ars tenha como fundamento a iluminação divina de que Lull se diz possuído, ela supõe, para o seu próprio funcionamento, o esforço de conquista de uma síntese enciclopédica dos saberes humanos. |
Que Lull diz ter recebido no monte Randa em Mallorca em 1272, data a partir da qual, após um período de missionação e peregrinação mendicante, se dedica à vida contemplativa.
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Tal é a condição para que a unidade substancial do saber possa ser isomorfa da unidade essencial do universo. Por outras palavras, o enciclopedismo de Lull - que dará origem à obra Arbre de Science (1296) - é a tradução do seu universalismo místico. |
Inicialmente escrita em catalão, dela foi feita postumamente uma versão latina Arbor Scientiae publicada em Barcelona em 1482. Carreras y Artau (1939: I, 285-287) incluem ainda, na categoria das obras enciclopédicas de Lull, o Libre de Contemplació en Dèu (1272), o Començaments de Filosofia (1300) e o Libre de Ascensu et Descensu Intellectus (1304). |
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A árvore das ciências está dividida em 16 árvores, 14 principais e duas auxiliares. Por sua vez, as árvores principais, hierárquica e ascendentemente organizadas, estão distribuídas em dois grupos de sete. O primeiro, relativo aos conhecimentos profanos, inclui as árvores elemental (Física, Metafísica e Cosmologia), vegetal (Botânica e Medicina), sensual (estudo dos animais), imaginal (estudos de psicologia), humonal (estudos de antropologia), moral (virtudes e vícios), imperial (príncipes e súbditos). O segundo grupo, relativo aos conhecimentos religiosos, inclui as árvores apostolical (sobre a Igreja e a sua organização), celestial (fenómenos astronómicos e astrológicos), angelical (sobre os anjos e a sua influência na vida dos homens), eviternal (sobre o destino da alma depois da morte, nomeadamente, o paraíso e o inferno), maternal (estudos Marianos), divinal-humanal ou cristológica (Cristologia), divinal (teologia). |
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As duas árvores auxiliares são a exemplifical (colecção de exemplos úteis de pregação) e questional (conjunto imenso de questões possíveis relativas às árvores anteriores acompanhado de uma série de regras de adestramento na arte da controvérsia). Cada uma destas árvores tem a sua própria representação figurada. No entanto, todas elas obedecem a uma estrutura comum, a um mesmo regime orgânico de arborescência, multiplicando-se de acordo com os mesmos princípios de simetria e equilíbrio. |
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Todas elas têm por raízes os 18 predicados (nove "dignidades" e nove "predicados relativos") a partir dos quais se eleva o tronco que, em todas elas, se divide em sete ramos principais os quais, por sua vez, se subdividem em ramos secundários, folhas, flores e frutos. No conjunto, trata-se de um modelo integrado extremamente complexo de organização do saber que, para lá da unidade e exaustividade, está ordenado por uma original concepção hierárquica dos conhecimentos (desde os elementos do mundo físico ao homem e, deste, à organização da cristandade até Deus). |
Arbor elementalis |
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Escapando à organização medieval dos saberes segundo a estrutura curricular do trivium e do quadrivium que, no entanto, também inclui, a Arbor Scientiae constitui, não tanto uma enciclopédia horizontal das ciências existentes no século XIII, mas a síntese vertical e dinâmica de um conjunto de disciplinas fechadas à experiência mas abertas à invenção combinatória. |
As disciplinas correspondentes aparecem como folhas da "árvore humanal", isto é, como criações humanas que permitem aceder à compreensão da natureza humana. Note-se que é sobretudo nas sete primeiras árvores relativas, como vimos, aos saberes profanos, que Lull integra os conhecimentos da época. A única excepção é a astronomia, objecto da árvore celestial (pertencente ao grupo das árvores relativas aos conhecimentos religiosos). Para além das disciplinas do trivium e do quadrivium, Lull inclui ainda o direito, a medicina, a filosofia, a moral, um esboço de sociologia política (árvore imperial), uma incipiente história da igreja e a teologia. |
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Na verdade, pressupondo que todas as coisas estão hierárquica e harmoniosamente ordenadas e que a ordem do mundo deve ser isomorfa da ordem dos saberes, Lull visa constituir uma ciência geral das ciências que estabeleça a série exaustiva dos princípios primordiais do saber, que os combine de acordo com regras fixas e sob todas as formas possíveis e que, assim, corresponde ao objectivo apologético atrás referido - formular todas as questões possíveis, e encontrar, para cada questão, uma resposta cuja verdade seja reconhecidamente certa e inegável. Nesse sentido, a Ars de Lull não se reduz a uma lógica demonstrativa, que permite deduzir, de um conjunto de princípios primeiros, toda a ordem do mundo. Ela visa uma verdadeira ars inventiva ou inveniendi que, por um processo de exploração combinatória, permita descobrir todas as questões e suas respectivas respostas, isto é, que, a partir de uma verdade, mostre e descubra todas as verdades a que o conhecimento humano pode aspirar. |
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A Ars de Lull é assim, simultaneamente, uma metafísica e uma lógica de aplicações múltiplas. Violentamente criticada por alguns, nomeadamente Bacon (1605: VI, 2: 145) e Descartes (1963, II: 585), a Ars de Lull exercerá um fascínio constante ao longo de todo o renascimento e século XVII e terá uma difusão surpreendente sobre diversas áreas e pensadores, nomeadamente - e no que ao projecto enciclopedista diz respeito - Coménio e Leibniz. |
Apesar de ambos irem buscar a Lull a ideia de uma unidade da ciência de que a árvore é o símbolo, tanto Bacon como Descartes criticam a Ars de Lull, em termos aliás muito próximos, como servindo para falar do que não se sabe. |
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São três as grandes direcções da influência lullista: a mística (Nicolau de Cusa e Lefèvre d'Etaples), a polémica e racionalista (Raymond Sebond e Montaigne) e a lógica e enciclopedista (esta com representantes maiores na Alemanha (Murner, Cornelius Agripa, Alsted, Kircher e Salzinger que, já no século XVIII, é o editor da mais completa edição das obras de Lull, publicadas em Magúncia entre 1721 e 1722). |
Enquanto arte combinatória fundada numa notação literal abstracta, a Ars constitui uma remota raiz dos procedimentos combinatórios algébricos (o De Arte Combinatoria (1660) de Leibniz situa-se, reconhecidamente, na tradição lulliana, cf. Pombo (1987: 86)) e, simultaneamente, uma aproximação inesperada em relação à tradição da combinação literal hermética e cabalista (Pico della Mirandola faz uma explícita aproximação entre a Ars lulliana e a cabala ); aplicada ao nível do Coelum, a Ars de Lull transforma-se, quer numa astronomia ou cálculo do movimento dos planetas, quer numa astrologia ou manipulação dos signos de zodíaco; aplicada ao nível das realidades vegetativas e elementativa, permite retirar consequências médicas (Giornano Bruno) e alquímicas (Ficino e Paracelsus). |
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