Enciclopédias Filosóficas

Enciclopedismo Pansofista
Alsted e Coménio

A ligação entre Lull e Coménio é em grande parte estabelecida pelo grande representante do enciclopedismo barroco que é Johann Heinrich Alsted (1588-1638), erudito calvinista que foi professor de Coménio na Academia de Herborn. 

Influenciado por Lull na sua juventude, veio posteriormente a afastar-se da doutrina lullista no que toca ao estabelecimento de uma completa ruptura entre a filosofia e a teologia. Ao contrário de Lull, e posteriormente de Coménio, Alsted defenderá que só Deus tem acesso ao conhecimento total, só Deus é pansophos. No entanto, Deus quis que o homem procurasse aperfeiçoar-se e, para isso, deixou nele uma marca divina - o desejo de aprender. A partir daí, fica estabelecida, salvaguardada, fundamentada a necessidade da ciência e definido o estatuto da enciclopédia enquanto sistema das ciências.

Sob influência de Lull, Alsted escreve ainda duas obras: Clavis Artis Lullianae et verae logices (1609) e Architectura artis Lullianae (1612).

Os 35 volumes da sua Encyclopaedia omnium scientiarum septem tomis distincta (1630), divididos em sete secções, acompanhados de 38 tábuas sinópticas e um índice alfabético, iniciam-se com uma reflexão de tipo metodológico sobre aquilo que Alsted designa como as praecognita disciplinarum - uma hexilogia (teoria da aprendizagem ou dos habitus intellectualis), uma tecnologia (ou antepassado remoto da teoria curricular), uma archeologia (sobre as causas e normas das ciência, o engenho, a classificação e a origem das ciências) e uma didactica (sobre os fins, obstáculos e instrumentos necessários ao estudo das ciências). Só depois desta reflexão de natureza, digamos, epistemológica, que ocupa os 4 primeiros livros, é que Alsted passa à apresentação enciclopédica de tudo o que pode ser objecto de ciência e ensino a um público seleccionado e erudito. Em primeiro lugar, ocupar-se-há da Philologia (designação que abrange as disciplinas do trivium, nomeadamente, Lexica (livro V), Grammatica (livro VI), Rhetorica (livro VII), Logica (livro VIII), Oratoria (livro IX) e Poetica (livro X)). Segue-se a Philosophia Theoretica (abrangendo o quadrivium e em que se incluem as seguintes disciplinas: Metaphysica (livro XI), Pneumatica (XII), Physica (XIII), Arithmetica (XIV), Geometria (XV), Cosmographia (XVI), Uranometria (XVII), Geographia (XVIII), Optica (XIX) e Musica (XX), seguida da Philosophia pratica (Ethica, Oeconomica, Politica e Scholastica (livros XXI a XXIV). Vêm depois a Theologia (livro XXV), a Jurisprudentia (livro XXVI), a Medicina (livro XXVII), as Artes Mechanicae (livros XXVIII a XXX) e todas as outras disciplinas, nomeadamente, a Mnemonica (XXXI), a Historica (XXXII), a Cronologia (livro XXXIII) (incluindo disciplinas tão diversas como a Euthanasia (30ª secção), a Gymnastica (32ª secção), ou uma saborosa Tabacologia, sobre a as propriedades e consequências do uso do tabaco (33ª secção)). A obra termina com uma Arquitectonica (XXXIV) e uma Quodlibetica (XXXV), livro no qual as marcas lullistas são muito evidentes e em que se incluem disciplinas como a Magia (3ª secção), a Kabbala (4ª), a Alquimia (5ª), a Magnetographia (6ª), a Paradoxologia (10ª), ou a Cyclognomia vel Ars Lulliana (17ªa secção).

Combinando os valores cristãos com a cultura clássica, reconhecendo, ao lado das ciências teóricas, o papel das ciências práticas e das artes mecânicas, a Encyclopaedia de Alsted é bem representativa da ambição humanista de tudo integrar e harmonizar, nada ignorando do que ao homem possa interessar.

Coménio (Jan Amos Komensky, 1592-1670), grande pedagogo e espírito universal, teólogo, filólogo, poeta, gramático e reformador da língua latina e da língua nacional bohemiana é, indiscutivelmente, o mais ilustre representante do pansofismo barroco. A inspiração maior da sua obra é, precisamente, a ideia pansófica, a ideia de que há uma harmonia fundamental no acto divino de criação que se traduz numa origem e finalidade comum de todos os seres. É deste postulado pansófico fundamental que decorrem, não apenas o irenismo militante de Coménio, como a sua actividade enciclopedista e a sua pedagogia.

 

O projecto pansófico de Coménio está sobretudo expresso na obra De rerum humanorum emendatione consultatio catholica, obra maior à qual Coménio dedicou cerca de trinta anos da sua vida intelectual,  e que vai sendo preparada por uma série de outros escritos, nomeadamente, Pansophia Prodomus (1639) e Via Lucis (obra esta que Coménio deixou manuscrita a circular aquando da sua saída de Inglaterra em 1642 e que veio a publicar, muito mais tarde, em Amsterdão, em 1668). Escrita entre 1642 e 1670, De rerum humanorum emendatione consultatio catholica ficou inacabada apenas tendo sido publicados, ainda em vida de Coménio, os dois primeiros livros, respectivamente, em 1662 e 1664. Perdida durante séculos, a obra veio a ser encontrada na sua totalidade em 1935 tendo tido uma primeira edição completa somente em 1966. 

Exilado, emigrante, viajante (Inglaterra, França, Alemanha, Polónia e finalmente Holanda, onde se fixa a partir de 1656 e onde permanece até à morte em Amsterdão em 1670), Coménio é uma figura constituinte da própria ideia de Europa na qual desenvolve intensa actividade política e diplomática orientada por princípios irenistas e pacifistas. Sobre as vicissitudes da vida de Coménio, o seu contexto histórico e a sua intensa actividade irenista e pacifista, cf. Pánek (1991: 7-58).

Pela sua própria organização interna, a obra ilustra o desenvolvimento do plano pansófico:

De rerum humanorum emendatione consultatio catholica

Exortação e fundamentação

1. Panegersia
(despertar universal)
7. Pannuthesia
(exortação universal)

Elementos programáticos
2. Panaugia
(iluminação universal)
 6. Panorthosia
(reforma universal)

Tentativas arquitectónicas
3. Pansophia
(saber universal)
4. Pampaedia
(educação universal)
5. Panglottia
(língua universal)

Esquema adaptado a partir de Danek (1988: 187)

Na primeira parte, intitulada Panegersia, Coménio traça uma descrição veemente do estado deplorável do mundo seu contemporâneo em três aspectos fundamentais: o conhecimento que afastava o homem da unidade do mundo, a religião que afastava os homens de Deus e uns dos outros, e a política que não conseguia assegurar a paz. Nesse sentido, Coménio termina incitando à reforma geral da sociedade nessas mesmas três áreas - eruditio, religio, politia. Na segunda parte, Panauglia, após uma discussão de carácter gnosiológico sobre a dissipação das trevas, a expansão das luzes universais e as várias formas e graus do conhecimento, Coménio discorre detalhadamente sobre os preceitos práticos da reforma a iniciar. Entra-se então na parte propriamente constitutiva ou arquitectónica da obra constituída pela Pansofia, sinopse enciclopédica de todo o saber humano reformado, pela Pampaedia, parte pedagógica em que Coménio define o modo de aquisição e ensino desse saber universal e pela Panglotia, apresentação de um projecto de uma língua filosófica universal que possa ser entendida por todos os povos e nações e que permita uma compreensão universal e sem equívocos. Coménio retoma então a exposição programática, apresentando na Panorthosia o seu projecto filosófico, político e religioso de reorganização da sociedade. Finalmente, a Pannuthesia, constitui uma exortação final à reforma universal e a apresentação última das razões que a fundamentam.

Fazendo parte de um projecto extremamente amplo e ambicioso, a enciclopédia comeniana está pois consubstanciada no texto (incompleto) da Pansophia, também designada como Pantaxia ou Universalis Sapientia. A obra parte de uma divisão hierárquica do mundo em oito graus ou níveis metafísicos: o possível, o ideal, o inteligível, o natural, o artificial, o moral, o espiritual e o eterno. Com uma organização sistemática muito forte, a obra procede à apresentação articulada das diversas ciências. Começando pelas ciências da natureza, passa às ciências humanas e à filosofia, entra depois na teologia (onde, segundo Coménio, se opera o encontro da ordem humana e da ordem divina, da luz natural e da graça) e fecha o arco da sua unidade numa visão contemplativa de todas as coisas em Deus.

Mais que um esforço enciclopédico, mais que a conquista de um saber omnienglobante (Pan-sophia), o programa pansófico implica, como vimos, três momentos intimamente interligados e interdependentes: eruditio, politia, religio, isto é, a constituição de um saber sistemático (enciclopédia), a comunicação desse saber à humanidade tendo em vista a reforma da relação de cada homem com todos os outros (política) e de todos para Deus (religião). Nesse sentido, Coménio sente-se no dever de apresentar uma teoria geral que identifique as leis da produção e génese dos conhecimentos (Panauglia), um conjunto de métodos universais de educação e ensino (Pampaedia), e uma língua de comunicação universal (Panglotia), isto é, de fornecer um conjunto de teorias, procedimentos e instrumentos que viabilizem a aquisição pela humanidade desse saber universal e promovam a sua correspondente reforma política e religiosa. Como diz Danek (1988: 185-186), a ideia pansófica tem em Coménio, não apenas uma dimensão horizontal - a enciclopédia - mas também vertical uma vez que pretende resumir, incluir, prever e apontar todas as tentativas universalistas susceptíveis de permitir abrir as trevas do presente às luzes do futuro.

Trata-se de um programa detalhadamente elaborado, tanto nos seus contornos teóricos e sistemáticos, como organizativos. Coménio prevê os modos de organização social e intelectual capazes de permitir o progresso das ciências, da moral e da religião, nomeadamente no que respeita à criação de uma organização mundial de sábios - o Collegium pansophicum - espécie de academia universal que teria como tarefa a constituição de uma língua filosófica universal capaz de garantir a comunicação plena dos sábios e das suas descobertas, que facilitaria os contactos políticos entre os estados no sentido da paz universal e que promoveria a propagação da fé e a reunificação das igrejas cristãs.

Na esteira de Bacon, a apresentação do projecto de constituição de um tal organismo, a ser sediado em Londres e financiado pelo erário público, feita por Coménio em Via Lucis e retomada na Panorthosia, será um dos elementos que vai estar na origem da fundação em 1662 da Royal Society.

Ora, todo este ambicioso projecto pressupõe uma propedêutica de ordem educativa orientada de forma rigorosamente universal e universalista. Referimo-nos à célebre formula "Omens, omnia, omnino" com que abre a Pampaedia, ou Educação universal de todo o género humano: é necessário que todos (omnes) sejam educados em todas as coisas (omnia) e de forma total e profunda (omnino)(cf. Pampaedia, I, § 1, (1971: 37)). 

Como Coménio escreve:

"Em primeiro lugar, o que se deseja é que assim se consiga educar plenamente para a plenitude humana, não apenas um só homem, ou alguns, ou muitos, mas todos (omnes) e cada um dos homens, jovens e velhos, ricos e pobres, nobres e plebeus, homens e mulheres, numa palavra, todo aquele que nasceu homem para que, enfim, todo o género humano venha a ser educado, seja qual for a sua idade, o seu estado, o seu sexo e a sua nacionalidade. Em segundo lugar, deseja-se que cada homem seja rectamente formado e integralmente educado, não apenas numa coisa, ou em poucas coisas, ou em muitas, mas em todas as coisas (omnia) que aperfeiçoam a natureza humana: conhecer a verdade e não se deixar iludir pelo erro, amar o bem e não se deixar seduzir pelo mal, fazer o que deve fazer e preservar-se do que deve evitar, falar sabiamente acerca de todas as coisas, com todos, quando necessário e nunca se ver obrigado a calar-se; enfim, agir, em todas as circunstâncias, com as coisas, com os homens e com Deus, não levianamente mas prudentemente, e, assim, nunca se afastar do objectivo da sua felicidade. E que isso seja feito universalmente (omnino). Não para pompa e brilho exterior, mas para a verdade. Ou seja, para tornar todos os homens o mais possível semelhantes à imagem de Deus (segundo a qual foram criados), isto é, verdadeiramente racionais e sábios, verdadeiramente activos e ágeis, verdadeiramente íntegros e honestos, verdadeiramente piedosos e santos e, desse modo, verdadeiramente felizes e bem-aventurados, neste mundo e para toda a eternidade". (Pampaedia, I, §§ 6, 7 e 8, (1971: 38)).

Pedagogo de indiscutível valor e perene influência, Coménio representa um momento de viragem na história da instituição escolar e do pensamento educativo

Na sua obra pedagógica mais influente - a Didactica Magna seu omnia omnes dicendi artificium (1657) - Coménio dedica-se, aquém do projecto de reforma de toda a sociedade humana através de uma educação pampaedica, ao trabalho (mais restrito) de reforma da educação. Trata-se de uma obra rigorosamente sistemática, quer do ponto de vista do pensamento educativo, quer do ponto de vista da normatividade pedagógica para que aponta e das propostas didácticas que apresenta. 

Nela se antecipam e conglomeram as teses que constituem o humanismo universalista e a surpreendente democraticidade do pensamento educativo de Coménio:

 "Devem ser enviados às escolas, não apenas os filhos dos ricos ou dos cidadãos principais, mas todos por igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, rapazes e raparigas, em todas as cidades, vilas aldeias e casais isolados" (Didactica Magna, IX, 1,(1976: 139)).

 

Conjunto de orientações que Coménio retomará e alargará na Pampaedia onde é feita a defesa da escola universal (panscolia),escola pública ("Chamo escolas públicas as assembleias onde os jovens de toda a aldeia, cidade ou província, sob a direcção de homens (ou de mulheres) honestíssimos, são exercidos colectivamente nas letras e nas artes, nos costumes honestos e na verdadeira piedade" (Pampaedia, V, § 9, (1971: 111)), para todas as idades (são os célebres oito graus de escolaridade de Coménio: escola pré-natal, da infância, da puerícia, da adolescência, da juventude, da adultez, da velhice e da morte, cf. Pampaedia, V, § 6 e XV (1971: 110 e 351-352), e classes sociais (cf. Pampaedia, V, § 19, (1971: 116)) e espalhadas por toda a parte ("Porque a matéria das escolas, a juventude, não falta em parte alguma, não há lugar nenhum onde não possam ser construídas escolas" (Pampaedia, V, § 21, (1971: 117)).

Também a modernidade das suas principais orientações pedagógicas e a novidade das suas propostas didácticas devem ser entendidas como decorrentes do postulado pansófico fundamental que inspira, tanto a sua actividade irénica como o seu esforço enciclopedista e o seu pensamento educativo.

Tais como a defesa da língua nacional como medium por excelência de um ensino que se queira universal e motivador (cf. Didactica Magna, XXIX, (1976: 425-436), a defesa (contra o verbalismo escolástico) de um ensino concreto apoiado na experiência e na associação do exercício de actividades lúdicas com a aprendizagem intelectual(cf., por exemplo, Didactica Magna, XVI, 15, (1976: 211),ou a condenação dos castigos corporais (cf. Didactica Magna, XXVI, 4,(1976: 402).

Ontologia escatológica em que o homem aparece como o grau supremo da criação, realização máxima do desenvolvimento harmonioso do ser na sua totalidade, a pansofia inscreve-se nesse projecto que tem em Lull o seu mais remoto representante, e em que o século XVII esteve particularmente empenhado, de constituição de uma ciência universal única que reunisse todos os conhecimentos humanos, não por acumulação dos saberes particulares mas pela captação simultânea da raiz unificada subjacente à multiplicidade do real e do princípio primeiro de unificação dos saberes.