Enciclopédias Filosóficas

Bacon

Francis Bacon (1561-1626) é, o grande inspirador do enciclopedismo moderno. O objectivo máximo de toda a sua obra consiste em promover o progresso sistemático dos conhecimentos, de forma a que as aplicações práticas das ciências permitam aumentar o bem estar da humanidade e eliminar, de raiz, a causa de todos os conflitos e sofrimentos. Como Bacon escreve: 

"Que os homens considerem quais são os verdadeiros fins do conhecimento e que não o procurem nem pelo prazer da mente, nem pelo contentamento, pela conquista de superioridade face a outros, por proveito, fama, poder ou qualquer outra dessas coisas inferiores mas para benefício e uso da vida e que o aperfeiçoem e dirijam com caridade" (Prefácio à Instauratio Magna, ed. Spedding, IV: 20-21).

Trata-se de um objectivo simultaneamente cognitivo, ético e político que vai exigir de Bacon uma acção conjugada em diversas frentes: uma acção crítica, de combate às doutrinas dominantes, de denúncia dos procedimentos lógicos usuais, de destruiçãodos hábitos mentais correntes (teoria dos idola); uma acção de instauração de novos métodos que faz de Bacon o grande mentor do experimentalismo da ciência moderna, e uma busca efectiva de elementos de uma nova filosofia da natureza fundada nessa nova metodologia indutiva e exploratória; uma acção de ordenação e classificação dos saberes já alcançados que permita perceber o que não se sabe e orientar nesse sentido os esforços do conhecimento; e finalmente, uma acção política que, à falta de poder para dar origem a transformações efectivas, se traduz na criação literária e utopista.

Profeta das necessidades organizativas da ciência nascente, Bacon assume em New Atlantis (1627) a tarefa de apelo e encorajamento à colaboração dos sábios defendendo que é ao estado que compete criar as instituições de investigação e ensinode que a ciência moderna necessita.

Como muitas outras, New Atlantis só postumamente foi publicada, neste caso por Rawley, secretário de Bacon que acompanhou os últimos anos da sua vida.

Digamos que o modelo atópico da "ilha de Bensalém", na qual reina a mais magnífica harmonia e prosperidade, decorrente dos progressos alcançados pelos sábios da "Casa de Salomão", inteiramente dedicados como são "ao estudo das obras e criaturas de Deus" (New Atlantis, ed. Spedding, III: 145), isto é, "à descoberta da verdadeira natureza de todas as coisas" (New Atlantis, ed. Spedding, III: 146), surge aqui com todo o poder catalizador de uma utopia

A detalhada descrição que Bacon faz das instalações e equipamentos de investigação que os sábios da "Casa de Salomão" têm à sua disposição (estações agrícolas, meteorológicas, laboratórios de investigação biológica e química, torres de observação astronómica, etc.) pode ser vista como o correlato ficcional dos famosos observatórios de Uraniborg e Stjerneborg mandados construir em 1580 e 1584 por Frederico II da Dinamarca para o seu astrónomo e astrólogo particular Tycho-Brahé.

Efectivamente, a ideia baconiana de uma "república de sábios" recolherá alargados apoios e inspirará o movimento nascente de constituição das academias, nomeadamente, através de Leibniz e Oldenburg (1615-1677), primeiro secretário da Royal Society e grande admirador de Bacon.

Como se sabe, o movimento começa em Itália nos círculos neo-platónicos, nomeadamente em Nápoles, com a Academia secretorum Naturae em 1560, e em Roma, com a Academia dei Lincei em 1603 a que se seguirão a Academia del Cimento em Florença em 1657. Em Inglaterra e em França o movimento academista é mais tardio: a Royal Society é fundada em Londres em 1662 sob a protecção de Carlos II e a Académie des Sciences é instituída em Paris, em 1666, sob os auspícios do mercantilismo de Colbert.

Toda a obra de Bacon está ordenada no sentido de uma Instauratio Magna,obra monumental cujo plano é cuidadosamente delineado por Bacon na Distributio Operis, apresentada pela primeira vez aquando da publicação, em 1620, do Novum Organon .

Para essa obra, Bacon previa 130 secções divididas em seis partes. A primeira - Partitiones Scientiarum - faria o balanço dos diversos saberes científicos existentes, relativos à Natureza (astronomia, meteorologia, geografia, mineralogia, vegetais e animais), ao Homem (anatomia, fisiologia, poder e estruturas sociais, acção) e à acção do Homem sobra a Natureza (medicina, química, artes visuais, sentidos, emoções, faculdades intelectuais, arquitectura, transportes, imprensa, agricultura, navegação, aritmética, etc). Balanço que deveria ser acompanhado da indicação dos pontos "deficientes" e da sugestão de formas de resolver essas imperfeições, tanto no que diz respeito ás novas "direcções de execução do trabalho" como à apresentação de "exemplos já realizados do trabalho a desenvolver" (Distributio Operis, ed. Spedding, I: 135).

A esta primeira parte correspondem fundamentalmente The advancement of learning (1605), De sapientia veterum (1622), De augmentis scientiarum (1623) e Discriptio Globi Intellectualis (1653).

A segunda parte - De interpretatione Natura - seria constituída pela apresentação detalhada de uma nova e fecunda metodologia - a lógica indutiva - que permitiria alargar o campo do que se sabe, não por generalizações falaciosas, mas por procedimentos inventivos capazes de permitir uma exploração activa do universo e da diversidade dos seres que o habitam. Como diz Bacon, 

"o que as ciências necessitam é de uma forma de indução que permita analisar a experiência e, por um processo adequado de exclusão e rejeição, conduzir a uma conclusão necessária" (Distributio Operis, ed. Spedding, I: 137).

A esta segunda parte corresponde fundamentalmente o Novum Organon (1620). Outros fragmentos dessa heurística a construir podem ser encontrados em Cogitationes de Scientia humana (1857), Aphorismi et consilia de auxiliis mentis ( 1653) e Filum Labyrinthi (1653).

A terceira parte - Phaenomena Universi - seria constituída por uma colecção de factos e acontecimentos de todos os campos da experiência, visando a constituição de um "Alfabeto do Universo" que deveria funcionar como base de aplicação do novo método.

Aqui se incluem as diversas obras de caracter científico que Bacon deixou, nomeadamente Historia naturalis et experimentalis (1622), Historia ventorum (1622), Historia vitae et mortis (1623), Densi et rari (1657), Soni et Auditus (1657), De magnete (1657), De Luce et Lumine (1653), Calor et frigus (1734) e a monumental Sylvia Sylvarum (1627) em que se recolhem as investigações naturalistas a que se Bacon dedicou no fim da vida.

A quarta e quinta partes - Scala Intelectus  e Prodomi sive anticipationes philosophiae secundae - ofereceriam alguns exemplos bem sucedidos da aplicação, respectivamente, do novo método inventivo proposto por Bacon e dos métodos antigos. Finalmente a sexta parte - Philosophia secunda sive Scientia Activa - não apenas incompleta e inconcluída mas intencionalmente vazia, por escrever. Como Bacon declara: 

"a conclusão desta parte é algo acima das minhas forças e para lá das minhas esperanças. Eu fiz o começo do trabalho - um começo que, espero, não seja destituído de importância - a fortuna da raça humana chegará ao fim ainda que um tal fim, nas presentes condições das coisas e dos homens, não possa facilmente ser concebida ou sequer imaginada. Disso dependerá não apenas a felicidade contemplativa mas todas as fortunas da humanidade e todo o seu poder" (Distributio Operis, ed. Spedding, I: 144).

Aqui se inserem as obras especulativas De fluxo et refluxo maris (1653), Thema Coeli (1953) e De principiisatque Originibus (1653)

Estamos pois perante uma obra que, mau grado o estado de incompletude e inacabamento em que se encontra, permite identificar os contornos do grandioso projecto enciclopedista de Bacon. Mais do que uma obra definitiva e acabada que reunisse a totalidade dos conhecimentos adquiridos pela humanidade, a enciclopédia é para Bacon, como será para Leibniz e para os enciclopedistas franceses, uma obra colectiva e aberta cujo acabamento é tarefa a ser progressivamente realizada, mediante a necessária conjugação de esforços dos sábios de todas as nacionalidades articulados em instituições científicas, à época em grande parte ainda por inventar. Não se pense porém, diz Bacon

"que esta minha Instauratio é algo de infinito e para além dos poderes do homem. (...) se não é possível completar o trabalho numa geração, há que fazer de maneira a que essa tarefa possa ir passando de geração em geração" (Prefácio à Instauratio Magna, ed. Spedding, IV: 21).

Como dirá Diderot no artigo "Encyclopédie", a grandeza de Bacon, o que a seus olhos faz dele o fundador da ciência e da filosofia moderna, não se deve tanto à efectiva realização do seu projecto de uma Instauratio Magna mas ao facto de ter apontado a possibilidade da sua realização e de ter indicado as vias que o podem permitir alcançar. Cf. Diderot, ed Laffont: 363).

Trata-se de pedir aos homens que, pondo de lado "todas as emulações e preconceitos em favor desta ou daquela opinião, juntem os seus esforços para o bem comum e que (...), agora isentos e guardados pelas seguranças e ajudas relativamente ao aviso quanto a erros e impedimentos do caminho, se excedam a si próprios e tomem parte naquilo que está ainda por fazer" (ibid.). 

Mais do que o balanço dos conhecimentos já adquiridos, o que Bacon faz é o catálogo imenso do que está ainda por descobrir. Como dirá D'Alembert, o génio de Bacon consistiu em ter verificado que, sendo impossível escrever a história do que os homens já sabem, disse aos homens: "Eis aqui o pouco que já sabeis, eis aqui o que vos resta procurar" (Discours Préliminaire de l'Encyclopédie: 91).

Tal não significa que a obra, e os progressos da investigação que ela necessariamente irá reflectindo, possam e devam ser deixados ao sabor de condicionalismos circunstanciais.Ao contrário, a obra obedece a um rigoroso plano orientado por uma nova metodologia de investigação experimental que, permitindo um "mais perfeito uso e aplicação das capacidades intelectuais humanas" (Prefácio à Instauratio Magna, ed. Spedding, IV: 18), permita a exploração sistemática do mundo natural e humano. A ordem enciclopédica é assim meramente lógica, algo a conquistar pelas faculdades humanas, nada tendo já a ver, como em Lull, com uma qualquer aderência à ordem do mundo.

Como Bacon escreve no Prefácio à Instauratio Magna, "O caminho (...) deve ser estabelecido de acordo com um plano seguro" (ed. Spedding, IV: 18).

Confrontado com uma realidade natural pensada como "floresta" ou "labirinto", metáforas recorrentes na obra de Bacon e que traduzem a dessacralização do mundo subjacente ao advento da ciência moderna, é ao homem e às suas capacidades lógicas e metodológicas que cabe, daqui para a frente, a tarefa da sua ordenação. Nesse sentido, é necessário sistematizar os saberes já alcançados, recenseá-los, classificá-los, para os poder articular. Assim se explica que, para Bacon e para aqueles que vão assumir-se como seus continuadores, uma classificação dos saberes que acompanhe os desenvolvimentos efectivos das ciências particulares, passe a constituir um instrumento norteador da elaboração da enciclopédia.

Referimo-nos, em especial, a de Diderot e D'Alembert que, como vimos, não se cansam de reclamar a sua herança baconiana.

Recordemos apenas que o Système figuré des connaissances humaines, que constitui a raiz da unidade do projecto enciclopedista de Diderot e D'Alembert, tem reconhecidamente por base a classificação proposta por Bacon. Sobre a herança baconiana da Encyclopédie, o estudo mais exaustivo é o de Malherbe (1994).

Obra que espelha a estrutura activa e heurística do projecto enciclopedista de Bacon, a Instauratio Magna está por isso ordenada, menos para reflectir e mais para construir a unidade do mundo e a convergência dos saberes que sobre esse mundo o homem vai conquistando. 

"Não se trata, diz Bacon, de defender uma opinião mas de realizar um trabalho (que tem por objectivo) a utilidade e o poder dos homens" (Prefácio à Instauratio Magna, ed. Spedding, IV: 21).

Se, como faz notar Marta Fattori (1984: 119), Bacon não usa nunca, para referir o seu projecto de uma Instauratio Magna, a palavra "enciclopédia" que, no entanto, não era nem nova nem rara na sua época, é porque, para Bacon, mais do que conservar, recapitular, expor (é esse, em grande medida o objectivo do enciclopedismo que o precede), importa recomeçar, criar, desenvolver. Esse será o novo papel que, justamente a partir de Bacon, a enciclopédia a si mesma se irá atribuir: contribuir para o conhecimento prospectivo da natureza. É certo que, como diz Bacon, 

"o homem não é senão o escravo e o interprete da natureza" (Distributio Operis, ed. Spedding, I: 144). 

Mas é igualmente verdade que

"a natureza não pode ser comandada senão por quem lhe obedece" (ibid).