Enciclopédias Filosóficas

O enciclopedismo positivista
e a Nova Enciclopédia
St. Simon e Comte

Se o enciclopedismo do século XVIII está marcado pelo grandioso empreendimento de Diderot e D'Alembert a que nos referimos longamente, e que só exigências de organização desta exposição podem explicar a sua não inserção neste capítulo,o enciclopedismo filosófico do século XIX nascerá sob o signo da teorização positivista e especulativa.

1. O primeiro sinal da emergência do enciclopedismo positivista é dado em França com o sonho de St. Simon (1760-1825) de uma enciclopédia que integre os progressos científicos, técnicos e industriais realizados durante o período revolucionário e que contribua para a passagem a uma nova época. Assumindo-se como continuador da obra dos enciclopedistas do século XVIII, o conde de Saint-Simon escreve: 

a Encyclopédie "foi construída segundo um plano proporcional às luzes de então e muito inferior àquele que as luzes desde então adquiridas permitem descobrir" (Saint-Simon, 1809: 282).

Sonho de uma enciclopédia que não passou da publicação de um Prospectus em 1809 e de um prefácio à Nouvelle Encyclopédie em 1810, mas que constituiu um momento importante de aproximação a um programa teórico que defende a necessidade de estender a todos os domínios, inclusive à moral, à política e à vida social, a metodologia vitoriosa proposta por Bacon e realizada por Newton nas ciências da natureza. Como Bacon mostrou, esse "advogado da humanidade contra o clero" como lhe chama Saint-Simon (1809: 301), é necessário à reforma da ciência "excluir inteiramente as ideias reveladas (...) inverter de cima abaixo a teoria sacerdotal para estabelecer uma doutrina positiva" (ibid). Ora, são justamente as recentes aquisições dessas ciências positivas que a nova enciclopédia deve apresentar. Como diz Saint-Simon, ela deve estar fundada no princípio de que 

"todas as ciências, mesmo na sua parte teórica, devem estar submetidas à observação e que a análise da história deve servir de base à teoria da ciência geral" (Saint-Simon, 1810: 318).

Será porém um discípulo de Saint-Simon, Augusto Comte (1798-1857), quem vai estabelecer as grandes linhas do enciclopedismo positivista que influenciará enormemente o enciclopedismo posterior em França, nomeadamente o Grand Dictionnaire Universel du XIX`eme Siècle (1866-1876) de Pierre Larousse e da Grande Encyclopédie de Berthelot e Dreyfus (1886-1903).

Partindo de uma confiança ilimitada nos poderes da razão - traço que marca a proximidade fundamental de Comte ao enciclopedismo iluminista - Comte representa o momento em que a filosofia assume, com maior veemência, pretensões normativas relativamente às ciências.

Tendo vivido numa época em que se começam a sentir os efeitos da especialização e da divisão do trabalho científico, Augusto Comte reconhece que, quando cada ramo se separa do tronco, se desenvolve de forma isolada mais rapidamente. Como ele diz: 

"é à repartição das diversas espécies de investigações entre diferentes tipos de sábios que nós devemos evidentemente o desenvolvimento, nos nossos dias tão notável, de cada classe distinta dos conhecimentos humanos" (Comte, 1830, I: 25-26). 

Mas, continua Comte, "se é necessário reconhecer os prodigiosos resultados da especialização, importa igualmente tomar consciência dos inconvenientes dessa especialização; mais, é urgente encontrar "os meios convenientes para evitar os efeitos mais perniciosos da especialização exagerada" (Comte, 1830, I: 26): a anarquia científica, "essa antiga confusão dos trabalhos" (Comte, 1830, I: 27) em que todas as ciências são cultivadas simultaneamente pelos mesmos espíritos (Comte, 1830, I: 25), essa predilecção viciosa por especialidades cada vez mais restritas que nos faz "temer que o espírito humano acabe por se perder nos trabalhos de detalhe" (Comte, 1830, I: 27), a repugnância pela "universalidade das investigações especiais, tão fácil e comum nos tempos antigos" (Comte, 1830, I: 26), a destruição da cooperação que deve existir, não apenas entre os sábios, mas entre estes e a sociedade no seu todo.

É neste contexto que Comte se dedica, desde aquele que considera o seu "opúsculo fundamental", Le Plan de travaux nécessaires pour réorganizer la société (Comte, 1822), a estabelecer o papel que, ao lado dos "savants spéciaux", deve ser reconhecido aos 

"savants géneraux", "homens que, sem consagrarem a sua vida à cultura de nenhuma ciência de observação, possuem a capacidade científica, e fizeram um estudo suficientemente aprofundado do conjunto dos conhecimentos positivos para deixarem penetrar e familiarizar o seu espírito com as principais leis dos fenómenos naturais" (Comte, 1822: 69). 

Papel que, posteriormente, nos Cours de Philosophie positive (Comte, 1830-1842), será reforçado e atribuído ao "filósofo positivo". Trata-se de fazer com que "uma classe nova de sábios, preparados por uma educação conveniente, sem se dedicar à cultura especial de nenhum ramo particular da filosofia natural, se ocupe unicamente, ao considerar as diversas ciências positivas no seu estado actual, de determinar exactamente o espírito de cada uma delas, de descobrir as suas relações e o seu encadeamento, de resumir, se possível, todos os seus princípios no menor número de princípios comuns, conformando-se invariavelmente às máximas fundamentais do método positivo" (Comte, 1830, I: 27-28).

À filosofia positiva cabe então a tarefa crucial de coordenação dos saberes científicos.Tarefa que se desdobra, segundo Comte, em quatro grandes direcções: lógica, educativa, científica e política. Como escreve: cabe à filosofia positiva "pôr em evidência as leis lógicas do espírito humano (Comte, 1830, I: 29), "presidir à reforma geral do nosso sistema de educação" (Comte, 1830, I: 35), "contribuir para os progressos particulares das diversas ciências positivas (Comte, 1830, I: 37) e, finalmente, proceder à "reorganização social que deve terminar com o estado de crise no qual se encontram desde há tanto tempo as nações mais civilizadas" (Comte, 1830, I: 40). 

A este último objectivo corresponde a constituição de uma ciência das sociedades - a sociologia - nova ciência que poderá fornecer a competência científica necessária à reorganização política da Europa saída da Revolução francesa. 

Estamos face a um imenso programa de vida. Para além das intervenções militantes de que a ilustre biografia de A. Comte oferece numerosos exemplos, esse programa consubstancia-se, fundamentalmente, nos Cours de Philosophie positive que Comte publica entre 1830 e 1842. A filosofia positiva assume aí, em primeiro lugar, a tarefa de compreender e assinalar a lei geral de desenvolvimento do espírito humano, a célebre lei dos três estados, (1ª lição dos Cours); em segundo lugar, a tarefa de classificação das ciências, de atribuição a cada ciência do seu lugar no sistema dos conhecimentos (2ª lição); em terceiro lugar, a construção efectiva de uma enciclopédia a que corresponde o próprio desenvolvimento dos seis volumes dos Cours, que se ocupam, detalhada e laboriosamente, da exposição sistemática dos conhecimentos adquiridos pela humanidade nas seis ciências fundamentais: a matemática (da 3ª à 18ª lição), a astronomia (da 19ª à 27ª lição), a física (da 28ª à 34ª lição), a química (da 35ª à 43ª lição), a biologia (da 40ª à 45ª lição) e a sociologia (da 46ª à 70ª lição).

Para além da desesperada mas grandiosa teimosia com que, em sua casa, na rua de Saint-Jacques, Comte lecciona o seu "Curso de filosofia positiva" e, em 1830, publica, em fascículos, o primeito volume, refiram-se ainda a sua participação na fundação da "Association Politéchnique pour l'Instruction Populaire" em 1830 e a leccionação gratuita que A. Comte aí manteve durante dezoito anos de um curso de astronomia destinado aos operários de Paris (e que está na base do seu Traité d'Astronomie Populaire (1844)), bem assim como a fundação da "Association libre pour l'instruction positive du peuple dans tout l'occident Européen" em 1847 e da "Sociéte Posiviste" em 1848. 

Face à impossibilidade de proceder à reunião material e exaustiva de todos os conhecimentos produzidos pelas ciências particulares, de abarcar a totalidade do conhecimento científico do seu tempo, o objectivo da enciclopédia comteana consiste em constituir uma síntese dos resultados principais do saber positivo já alcançado. Como vimos, importa agarrar o "espírito" de cada ciência particular, descobrir as suas relações e encadeamento, compreender os seus métodos, os seus princípios e leis fundamentais, "ligar cada nova descoberta particular ao sistema geral" (Comte, 1830, I. 28). Para isso é necessário "fazer do estudo das generalidades científicas mais uma grande especialidade" (Comte, 1830, I. 27). 

Especialista da generalidade, é ao filósofo que compete reunir essas generalidades num sistema ou enciclopédia, é sua "função própria e permanente ligar cada nova descoberta particular ao sistema geral" (Comte, 1830, I. 28). Como Comte escreve, 

"hoje, cada uma das ciências adquiriu suficiente extensão para que o exame das suas relações múltiplas possa dar lugar a trabalhos continuados; ao mesmo tempo, esta nova ordem de estudos tornou-se indispensável para prevenir a dispersão dos conhecimentos humanos. Tal é a maneira como concebo o destino da filosofia positiva no sistema geral das ciências positivas propriamente ditas. Tal é, pelo menos, o objectivo deste curso" (Comte, 1830, I. 29). 

Vemos assim que o positivismo de Augusto Comte o leva a pensar a enciclopédia como um trabalho continuado de síntese e estruturação sistemática. 

Ao contrário de Diderot que sempre rejeitou o espírito de sistema, que percebeu a incompatibilidade radical que há entre o empreendimento enciclopedista e as intenções sistemáticas (como vimos, o sistema dos conhecimentos humanos que organiza a enciclopédia é-lhe de alguma forma exterior; a enciclopédia serve-se de um sistema mas, ela mesma, não é um sistema), Comte não hesita em considerar que "o objectivo da filosofia positiva é resumir, num só corpo de doutrina homogénea, o conjunto dos conhecimentos adquiridos relativamente às diferentes ordens de fenómenos naturais" (Comte, 1830,I: 43-44).

 Numa outra passagem, Comte é ainda mais claro quando afirma que a

 "revolução geral do espírito humano está hoje praticamente acabada: como já expliquei, não resta senão completar a filosofia positiva integrando nela o estudo dos fenómenos sociais e, em seguida, resumi-la num só corpo de doutrina homogénea" (Comte, 1834, I: 42). 

Quer isto dizer que, quando a positividade se estende até à ciência social, quando filosofia positiva pode dar conta de todos os possíveis fenómenos naturais e objectos observáveis, ela está em condições de substituir inteiramente as explicações teológica e metafísica do passado. Por outras palavras, a universalidade da filosofia positiva é condição da homogeneidade doutrinal que cabe à enciclopédia expor de forma sistemática.

Porém - e esta última determinação é decisiva para se perceber a especificidade do enciclopedismo comteano - o que aqui está em jogo não é sujeitar a diversidade da natureza a uma única lei. Como Comte esclarece: 

"está longe do meu pensamento querer proceder ao estudo geral dos fenómenos considerando-os todos como efeitos diversos de um princípio único, como sujeitos a uma mesma lei" (Comte, 1830, I: 44). 

Nada é mais estranho aos intentos de Comte do que a procura de uma explicação unitária. "Considero essas tentativas de explicação universal de todos os fenómenos por uma lei única como eminentemente quiméricas" (ibid) (mais adiante, escreve Comte: "o objectivo deste curso não é de forma alguma apresentar os fenómenos naturais como sendo no fundo idênticos" (Comte, 1830, I: 45)). 

Da mesma maneira, não se trata de diluir as fronteiras entre as diferentes ciências particulares mas, ao contrário, de "determinar exactamente o espírito de cada uma delas, de descobrir as suas relações e o seu encadeamento" (Comte, 1830, I: 27). Mais do que reduzir as diferenças entre as ciências particulares, Comte propõe "combinar os diversos pontos de vista especializados" (Comte, 1830, I: 37). Mais do que de uniformizar, do que pôr as diferentes ciências ao serviço de uma explicação unitária, trata-se de "contribuir para os progressos particulares das diversas ciências positivas" (ibid).

Digamos que, acompanhando o movimento inexorável da especialização dos saberes, resta ao filósofo constituir-se também como especialista - o especialista das generalidades. Face ao espectáculo da fragmentação dos conhecimentos, face à quebra da cooperação entre os sábios, o filósofo é, em Comte, o especialista das relações entre as ciências particulares, entre os sábios e entre os sábios e a sociedade.

De arma de combate que, como a Encyclopédie de Diderot e D'Alembert, visava lutar contra o despotismo e o obscurantismo herdados do passado, máquina de guerra contra um mundo que acabava, a enciclopédia de Comte passa a utensílio de um mundo que começa, o mundo da especialização e da industrialização. Pela mão de Comte, o filósofo é convidado a abandonar o lugar de guardião da unidade (que, como veremos de seguida, Hegel reclama e protagoniza ainda) e a aceitar participar no movimento de especialização que o mundo industrial do capitalismo triunfante torna cada dia mais incontornável.