Enciclopédias Filosóficas

O enciclopedismo romântico
Novalis e Hegel

2. A este modelo positivista de enciclopédia opõe-se o movimento, essencialmente alemão, do enciclopedismo romântico (ou idealista), também conhecido pela designação de "Nova Enciclopédia". Entre outros (refira-se, por exemplo, o projecto de uma enciclopédia teológica elaborado pelo teósofo alemão Johann Friedrich Kleuker (1749-1827), Grundriss einer Enziklopädie der Teologie (1800), que pretende reunir todos os saberes históricos, bíblicos e teosóficos do seu tempo e a Enzyklopaãdie der philosophischen Wissenschaften, zum Gebrauche für seine Vorlesungen (1814) de Gottlob Ersnst Schulze), merecem especial destaque o enciclopedismo mágico de Novalis e o enciclopedismo especulativo de Hegel.

Combinando a grande tradição alquimista alemã (Paracelsus e Jacob Böhme) com o panteísmo de Spinoza e a filosofia espiritualista de Fichte, Novalis (Friedrich von Hardenberg, 1772-1801) postula a unidade fundamental do universo e da consciência, unidade perdida, esquecida, que só pela interioridade poética pode ser recuperada. Nesse sentido, a sua ambição enciclopédica, consubstanciada nos seus Fragmente, visa contribuir para o reconhecimento das analogias profundas que ligam as várias ciências entre si. Como diz Novalis no fragmento 16

 "é falta de génio e de perspicácia separarem-se as ciências umas das outras. Nós devemos as maiores verdades de hoje às combinações entre os elementos, até agora separados, da ciência total". 

O seu objectivo último é porém a defesa da possibilidade de fusão do discurso científico e poético. Se as ciências e a poesia permitem penetrar nas forças da natureza e do espírito, o seu idealismo mágico permitirá agir alquimicamente sobre a natureza. Como Novalis diz: 

"o poeta compreende melhor a natureza do que o sábio" (Novalis, 1802: 179). 

Recolhidos postumamente por Ludwig Tieck e von Bülow em 1802, os Fragmente de Novalis não obedecem a qualquer ordem lexicográfica estando apenas agrupados em três grandes conjuntos: I, filosofia e física, II, estética  e literatura, III, considerações morais. Do ponto de vista formal, a adopção, por parte de Novalis, do estilo fragmentário tem o carácter de uma decisão, uma opção consciente que visa traduzir a incompletude e o carácter não hierárquico dos conhecimentos que, segundo Novalis, a enciclopédia deve adoptar. Não deixa porém de ser tocante pensar que este discípulo de Böhme, Spinoza e Fichte tenha, afinal, traduzido a sua paixão de unidade numa obra desmembrada e radicalmente fragmentária como são os Fragmente.

Adoptando uma estrutura formal também fragmentária, é de referir a obra quinhentista intitulada Chaos (1529) de Joachim Sterck van Ringelberg (1499-1531) que, partindo da ideia, igualmente poética, de que todos os detalhes e pormenores são merecedores de atenção e registo, visa incluir na sua obra toda a informação não categorizável e, em geral, considerada insignificante. Para maiores esclarecimentos sobre esta obra singular, veja-se Cherchi (1990: 28).

Tal como Novalis, também Hegel (1770-1831) manifesta uma grande distância face ao enciclopedismo seu contemporâneo que considera excessivamente especializado, contendo apenas informações soltas e particulares. Como diz numa nota ao § 16 da sua Enzyklopädie der Philosophischen Wissenschaften im Grundrisse, publicada, pela primeira vez, em 1817 e, posteriormente, desenvolvida numa segunda edição em 1827 e numa terceira em 1830, as enciclopédias vulgares são meros 

"agregados das ciências tomadas de forma contingente e empírica, entre as quais, algumas não têm de ciência senão o nome, reduzindo-se a uma simples colecção de conhecimentos".

os exemplos dados por Hegel, um pouco mais adiante, são a filologia ou heráldica, cf. Hegel (1830: 88-89).

Em qualquer dos casos, e como o próprio título o indica, estamos perante um Grundrisse, um simples esboço ou resumo não completamente desenvolvido. Trata-se, além disso, de um livro destinado a um público de alunos, de um compêndio a ser completado pelo ensino oral.

Ora, segundo Hegel, o que importa numa enciclopédia, não é incluir os detalhes da especialidade de cada ciência mas apenas os seus princípios e conceitos fundamentais. Hegel não pretende acolher as ciências do seu tempo na sua positividade e autonomia. Também não as pretende ordenar, sujeitando-as a um esquema axiomático de princípios organizadores, pré-concebido e exterior, que as trataria enquanto realidades "imóveis", como se de "espécies" diferentes se tratasse (cf. § 18, nota)(esquema esse que afinal, diz Hegel no Prefácio à primeira edição, quando aplicado, redunda no "maneirismo de uma brincadeira deliberada, metódica e fácil, feita de ligações barrocas e contorsões forçadas" ( Hegel, 1830: 48)). O objectivo de Hegel é captar as ciências na sua unidade orgânica, na sua plasticidade dialéctica, no movimento interno que as anima enquanto partes necessárias de um todo - a filosofia.

Aqui, como nos outros pontos do seu sistema, o objectivo de Hegel não é ditar normas ao real, procurando conformá-lo a um dever ser necessariamente exterior e subjectivo, mas pensá-lo na sua racionalidade imanente. Para Hegel, não se trata nunca de julgar a realidade mas de a descrever. Sobre o caracter não normativo mas puramente expositivo do pensamento de Hegel, veja-se o nosso estudo (Pombo, 1991a: em especial 190-192).

Na verdade, cada ciência é reconhecida enquanto determinação singular do todo que é a filosofia, seu momento necessário se bem que particular. Como Hegel diz no § 15 da Enzyklopädie

"Cada parte da filosofia é um todo filosófico, um círculo que se fecha sobre si mesmo mas no qual a ideia filosófica vive numa determinação particular".

 Digamos que, na lógica da circularidade que lhe é subjacente, o sistema apesar de tudo comporta partes. Partes que, por um lado, só são inteligíveis na sua referência ao todo mas que, por outro lado, é justamente enquanto partes do todo que ganham uma necessidade e uma legitimidade que não teriam enquanto individualidades autónomas.

Por seu lado, o todo, a filosofia - ciência das ciências ou "círculo dos círculos"(§ 15) - tem prioridade sobre todas e cada uma das suas partes. Não, é certo, uma prioridade temporal mas especulativa. Sabemos que, como o pássaro de Minerva, a filosofia só levanta voo ao cair da noite, que ela chega sempre demasiado tarde, quando uma forma de vida acabou de envelhecer (recordamos aqui a belíssima metáfora hegeliana da filosofia como pássaro de Minerva, isto é, como trabalho crepuscular de re-conhecimento e paz com o Mundo. Cf. Hegel, 1821: 32.). Mas, é por isso mesmo, porque teve a paciência de percorrer toda a extensão do tempo e suportar o trabalho da negatividade que nele se desenrolou, que ela é o lugar do retorno reflexivo das figuras do ser em si (Lógica) e do ser fora de si (Natureza) à pura liberdade do ser para si (Espírito). À filosofia, fundamento último de todas e de cada uma das ciências, cabe por isso fazer a exposição do sistema do saber. A ela cabe reapropriar-se da totalidade dos saberes e expô-los na sua ordem racional e necessária, das mais simples e abstractas representações até às concepções mais ricas e mais complexas. Por outras palavras, na e pela filosofia se diz a verdade última das coisas.

É neste sentido que o discurso hegeliano, e a plenitude de sentido que constitui a sua vertigem e ambição, pode ser lido como sendo, em limite, não da ordem da filosofia mas sim da poesia. Veja-se, por exemplo, de Bernard Quelquejeu, La volonté dans la philosophie de Hegel (1972: em especial 335-340) que procura mostrar de que modo o projecto enciclopedista de Hegel se inscreve nessa precedência e simultanea vocação do poético que secretamente habitaria o discurso filosófico hegeliano enquanto vontade de dizer todo o sentido.

A enciclopédia de Hegel apresenta-se assim como o sistema compacto da filosofia. A unidade do projecto está garantida à partida pela identidade do objecto de todas as suas partes, as ciências particulares: a Ideia no seu movimentode auto-consciência infinita. Sob o ponto de vista formal, a estrutura contínua dos 577 parágrafos adoptada pela enciclopédia hegeliana corresponde um método de exposição que faz coincidir forma e conteúdo. 

À unidade intrínseca do conteúdo, corresponde a forma de exposição sistemática do tratado; ao ritmo dialécticoda Ideia, ao batimento interno que percorre o seu devir no tempo, corresponde a estrutura triádica da obra, a sua tripartição interna: a "Ciência da Lógica", a "Filosofia da Natureza" e a "Filosofia do Espírito". Como Hegel explica no § 18 da Introdução à Enzyklopädie, a Ciência da Lógica ocupa-se da Ideia em si e para si, na sua abstracção máxima, anterior ao seu derramamento no mundo; a Filosofia da Natureza  ocupa-se da Ideia no seu ser-outro, na sua alteridade e exterioridade no mundo da Natureza. Finalmente, a Filosofia do Espírito corresponde ao terceiro momento que acompanha o regresso a si da Ideia e a sua elevação à categoria de espírito, princípio criador absoluto.

Vimos acima que é justamente pela adopção da forma textual contínua do tratado que à Enzyklopädie hegeliana pode ser recusado o estatuto de uma enciclopédia.

Cada uma destas três divisões fundamentais está também, por sua vez, triadicamente subdividida. Com efeito, a Ciência da Lógica  subdivide-se em "Doutrina do ser"(§§ 84-111), "Doutrina da essência" (§§ 112-159) e "Doutrina do conceito" (§§ 160-244), a Filosofia da Natureza, em "Mecânica" (§§ 253-271), "Física" (§§ 272-336) e "Física orgânica" (337-376), e a Filosofia do Espírito em "Espírito subjectivo" (§§ 387-482), "Espírito objectivo" (§§ 483-552) e "Espírito absoluto" (§§ 553-577). Estas subdivisões são, por seu lado, triadicamente subdivididas - por exemplo, a Doutrina do conceito subdivide-se em "Conceito subjectivo", "Objecto" e "Ideia", a Física orgânica em "Natureza geológica", "Natureza vegetal" e "Organismo animal" e o Espírito subjectivo em "Antropologia", "Fenomenologia do espírito" e "Psicologia" - e cada uma destas subdivisões de segunda ordem está também triadicamentesubdividida - assim, por exemplo, a Ideia subdivide-se em"Vida", "Conhecimento", "Ideia absoluta", o Organismo animal, em "Estrutura", "Assimilação" e "Processus-genérico", a Psicologia em "Espírito teórico", "Espírito prático" e "Espírito livre".

Não muito longe afinal da metáfora da árvore, assistimos a uma exposição orgânica, feita de divisões e subdivisões sucessivas, em que cada parte só no todo e pelo todo ganha e manifesta o seu sentido. Árvore que, em Hegel, é reconhecida, não tanto como modelo lógico ou arranjo hierárquico dos saberes, mas nas suas virtudes enquanto símbolo da vida e das suas contradições. Não no seu florescimento sempre já plenamente realizado, mas no movimento do seu envolvimento/desenvolvimento, na subida em espiral da sua seiva, no processo ao longo do qual o espírito se pensa nas figuras da imediatez (Lógica) e alteridade (Natureza) e, finalmente, se reconcilia consigo mesmo, fazendo aparecer a História do Homem (Espírito).

A enciclopédia de Hegel apresenta assim o desenrolar de um drama cuja lógica imanente determina o lugar, o momento, a intervenção de cada disciplina do saber. Os três grandes episódios desse drama fazem entrar, no seu lugar e momento próprios, cada uma das ciências da natureza e humanas que assim ficam envolvidas (e re-conhecidas) num mesmo plano de realização racional.

Mais do que um método de exposição, o que articula as diversas ciências, o que profundamente as liga e com-preende é a Ideia na sua historicidade, no seu desenvolvimento teo e teleologicamente orientado. Filha do seu tempo, a enciclopédia hegeliana está organizada em termos históricos. Não que, como em Augusto Comte, as ciências se organizem sob a forma de uma sucessividade, cada ciência ocupando o lugar que lhe advém da ordem linear (exterior) da sua emergência. O seu lugar, o seu momento é aquele que decorre do seu contributo (interno) para a História da Ideia. Ora, é precisamente neste ponto que a Enzyklopädie de Hegel tem um lugar insubstituível na história da unidade da ciência de que a enciclopédia é uma das mais poderosas figuras: o reconhecimento da historicidade enquanto categoria constitutiva do saber.

Em termos de realização efectiva, a Enzyklopädie de Hegel é muito mais a apresentação sistemática do seu sistema filosófico do que uma verdadeira enciclopédia, no sentido preciso do termo. Ao assumir a responsabilidade individual da autoria de um tratado de natureza enciclopédica, Hegel é, em geral, muito insuficiente, limitando-se a sistematizar, de forma extremamente sucinta, os princípios e conceitos fundamentais das ciências da natureza do seu tempo.

É o que se passa, por exemplo, na "Física orgânica" em que Hegel se limita a dedicar 5 parágrafos à Geologia, 7 às Ciências da vida vegetal e 17 às Ciências da vida animal ou na "Filosofia do espírito absoluto", nas quais à arte, à religião e à filosofia são dedicados apenas 24 parágrafos.Na Filosofia do espírito subjectivo, é de realçar o interesse dedicado por Hegel à Psicologia, a parte em geral considerada mais conseguida.

Curiosamente, como assinalam Otto Pöggeler e Friedhelm Nicolin no prefácio que ambos assinam à edição citada da Enzyklopädie, o principal defeito que Hegel reconhece na sua obra é o ter-se deixado arrastar pelos pormenores, não ter restringido suficientemente os detalhes de modo a que o todo ganhasse maior clareza (cf. Hegel, ed. M. Gandillac (1830: 24-25)).

 

Ao contrário do programa positivista que, teve uma enorme influência no movimento enciclopedista subsequente e, em geral, no próprio desenvolvimento científico posterior,o projecto do enciclopedismo romântico alemão, nomeadamente o de Hegel, passa completamente ao lado das ciências existentes suas contemporâneas. Nesse sentido, porque não exerceu qualquer influência enquanto forma de organização das ciências particulares do seu tempo, de coordenação das suas investigações ou de integração dos seus resultados, o projecto hegeliano não poderia, no sentido preciso do termo, ser considerado como enciclopédico.

Por outro lado, na medida em que reclama para a filosofia o estatuto privilegiado de uma discursividade total na qual unicamente pode ser dita a verdade última de todas as outras ciências e, portanto, desenvolve a sua exposição de acordo com um plano rigorosamente necessário, no qual cada ciência ocupa um lugar que nada tem de acidental antes releva do próprio movimento da Ideia, por outras palavras, na medida em que apresenta a mais ambiciosa e porventura a mais bem conseguida organização especulativa auto-fundada, a Enzyklopädie hegeliana constitui a realização plena da ideia de enciclopédia.

Porém, se com a Encyclopédie de Diderot e D'Alembert, a enciclopédia geral havia desistido da ideia de fundamento, depois da Enzyklopädie de Hegel, é a enciclopédia filosófica que vai desistir das suas pretensões auto fundadoras.