Enciclopédias Filosóficas
O projecto enciclopédico de Neurath
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No século XX, vamos assistir a uma nova e importante figura da enciclopédia filosófica: Otto Neurath (1882-1945), grande e infatigável inspirador do movimento para a unidade das ciências do positivismo lógico (sabemos pelo próprio testemunho de Carnap que foi Neurath quem difundiu a ideia de unidade das ciências no Circulo de Viena (cf. Carnap, 1963: 23), ponto de encontro e de colaboração de vários pensadores seus contemporâneos ligados à filosofia da ciência, foi Neurath quem definiu o projecto enciclopedista como tarefa do movimento para a UC e quem tomou a seu cargo a organização e edição da International Encyclopedia of Unified Science. Como escreve Charles Morris (1969: IX), "a Enciclopédia foi, na sua origem, uma ideia de Neurath", uma ideia original que Neurath soube amadurecer e fundamentar. |
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O plano inicial, concebido por Neurath por volta de 1920, foi apresentado, discutido e aprovado no First International Congress for the Unity of Science realizado na Sorbonne, em Paris, em 1935. Dele constava a publicação de uma série de 260 monografias independentes, a reunir em cerca de 26 volumes. |
Neurath terá discutido o seu projecto enciclopedista com Einstein, Hans Hahn, Carnap e Philipe Frank antes de ser apresentado no 1º Congresso Internacional para a Unidade da Ciência em 1935. |
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Projectada para ter a estrutura de uma cebola, a enciclopédia seria constituída por um coração formado por 20 monografias dedicadas aos fundamentos da ciência unificada e organizadas em quatro grandes secções: a primeira, dedicada à análise teórica do problema da unidade da ciência, a segunda, relativa a questões metodológicas, a terceira, visava dar uma panorâmica do estado actual de sistematização das diversas ciências particulares e das suas articulações, e a quarta, tinha como objectivo dar conta das principais aplicações das ciências particulares no campo da educação, medicina, engenharia e direito. Em torno deste coração constituir-se-iam, como camadas sobrepostas, todas as outras monografias previstas, dedicadas às diversas ciências particulares e tratando de problemas específicos a cada uma delas (cf. Neurath 1937: 139 e 1938b: 24-25). Neurath projectava ainda a publicação de um suplemento em dez volumes constituído por um Atlas ou Isotype Thesaurus que incluiria mapas, gráficos e outras representações pictóricas que pudessem constituir "meios de ajuda visual unificada"(Neurath 1938b: 25). |
Projecto claramente leibniziano que Neurath articula explicitamente com o ISOTYPE de que foi inventor. Em ambos os casos, o objectivo é encontrar um método visual que permitisse “dar a ver“ a informação, comparar os dados, reconhecer as relações. Como diz Haller (1991: 27), o objectivo da estatística pictural de Neurath era "dar às crianças e aos trabalhadores a mesma informação que dava aos seus colegas". |
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Neurath pensava realizar edições simultâneas em inglês, francês e alemão e pretendia recolher o contributo de um vasto leque de colaboradores europeus e asiáticos. |
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Do ambicioso plano inicial, apenas foi possível reunir e publicar, ainda em vida de Neurath e sob os auspícios da Universidade de Chicago, em 1938/9, uma série de dezanove monografias relativas ao tema da unidade da ciência e recolhidas nos dois preciosos volumes intitulados International Encyclopedia of Unified Science, com um Prefácio e uma Introdução do próprio Neurath (cf. Neurath 1937 e 1938b, respectivamente). Em 1962, quase trinta anos depois, por iniciativa conjunta de Morris e Carnap, essas monografias foram reeditadas conjuntamente com mais novenovos estudos, respectivos índices e bibliografia, sob o título de Foundations of Unity of Science. Towards an International Encyclopedia of Unified Science. |
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Neurath coloca o projecto da International Encyclopedia of Unified Science (1938) na continuidade manifesta da Encyclopédie de Diderot e D'Alembert. A própria introdução que escreve para nova enciclopédia - Unified science as Encyclopaedic Integration (1938b) - está indisfarcavelmente marcada por esse antepassado ilustre que é o Discours Préliminaire (1751) de D'Alembert. Como Neurath escreve: "Esta enciclopédia continua o trabalho da famosa Encyclopédie francesa. Há cerca de cento e noventa anos, D'Alembert escreveu um Discours Préliminaire para a Encyclopédie francesa, uma obra gigantesca alcançada pela cooperação de muitos grandes especialistas" Neurath (1938b: 2). E acrescenta: "devemos olhar cuidadosamente para essa obra como um exemplo de cooperação organizada. Talvez apareça nesta enciclopédia o mesmo tipo de tolerância científica que existiu na Encyclopedie francesa quando D'Alembert, opondo-se às agressões de Rousseau contra a ciência, não obstante expressou o seu prazer por Rousseau passar a ser colaborador da obra"(ibid). |
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Porém, para lá do espírito de tolerância que sublinha na obra maior do enciclopedismo francês e de que se pretende reclamar herdeiro, o principal ponto de acordo entre as duas enciclopédias reside, segundo Neurath, no seu comum carácter anti-sistemático. Se a unidade do conhecimento é "um velho desejo da humanidade" Neurath (1938b: 5), se é ela que funda as especulações sintéticas que, ao longo da história do homem, têm tido diferentes manifestações, das sínteses mágicas primitivas aos poemas cósmicos da antiguidade, do misticismo medieval às Summae Tomistas, da Encylopaediahegeliana aos grandes sistemas panorâmicos da filosofia idealista, "ramos tardios de um escolasticismo deformado", como diz Neurath (1938b: 7), a Encyclopédie francesa constitui, não uma forma fraca de pensamento sistemático, mas uma verdadeira "alternativa aos sistemas" (ibid). Nela não há já a pretensão, típica dos sistemas metafísicos especulativos, de alcançar um ponto de vista absoluto, de constituir um edifício único, ou de procurar as proposições mais gerais a partir das quais se pudessem deduzir as ciências particulares (cf. Neurath 1936: 191). A síntese que ela elabora é de raiz baconiana, portanto uma reunião sempre provisória e aberta de saberes empiricamente fundados. É por isso que, como Neurath escreve, são agora "os representantes do empirismo lógico (que), de alguma maneira, continuam a obra que D'Alembert, com a sua aversão pelos sistemas, levou a cabo. Mas eles são muito mais conscientes, e num certo sentido muito mais rigorosos, que os seus grandes antecedentes, os "Enciclopedistas" Neurath (1936: 201). |
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Se o empirismo é contrário à ideia de sistema, se ele obriga a recusar qualquer pretensão a uma totalização sistemática, a enciclopédia do empirismo lógico - é este o seu primeiro traço caracterizador - não pode ser nunca um sistema único e definitivo. "Para um representante da atitude empirista, é absurdo falar de um sistema único e total da ciência. Ele deve conceber o seu trabalho como tendendo à precisão e à sistematização mas no interior de um quadro sempre variável, que é o da enciclopédia" Neurath (1936: 188). A este propósito, veja-se também uma curiosa passagem num texto de Neurath, publicado em 1937 na revista Erkenntnis, intitulado The Departmentalization of Unified Science, no qual a crítica ao espírito de sistema, aí designado por “piramidismo“, é alargada àquilo a que Neurath chama os modelos antecipativos de classificação das ciências, próprios das posições metafísicas. Como Neurath escreve: "O 'piramidismo', que procura construir um edifício das ciências simétrico e completo por intermédio de divisões fundamentais, sub-divisões, sub-sub-divisões, etc (é) a carne e o sangue dos esforços de compreensibilidade gigantesca cujas raízes se encontram na escolástica e em todos os sistemas omniabrangentes" Neurath (1937a: 245). E, numa regeição completa da ideia de classificação, acrescenta, "O enciclopedismo satisfaz-se com a ordem bibliográfica usual (...) feita pelos livreiros" (ibid). |
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Partindo do "material bruto" Neurath (1936: 191) que são os enunciados protocolares de que a ciência dispõe numa determinada época, a enciclopédia vai-se fazendo progressivamente, por "agregação" Neurath ( 1936: 188), por "conexões transversais" Neurath (1936: 197), por unificações terminológicas, pela utilização de instrumentos de análise lógicas das proposições científicas, por tentativas progressivas de redução dos enunciados, das leis e das teorias das ciências particulares à linguagem, às leis e teorias da física. |
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As ciências particulares são realidades vivas, o reducionismo é uma tarefa infinita. Neurath pode por isso dizer: "O nosso programa é o seguinte: não ao sistema a partir de cima, mas sim uma sistematização a partir de baixo" Neurath (1936: 198). Prescindindo de uma "super-ciência" Neurath (1938b: 20) que pretendesse orientar as suas actividades, de alguma maneira a enciclopédia mais não faz do que dar corpo à “tendência“ para a progressiva unificação histórica que as próprias ciências particulares manifestam. |
Como Neurath escreve: "A tendência histórica do movimento da unidade da ciência é para uma ciência unificada departamentalizada em ciências particulares e não para uma justaposição especulativa de uma filosofia autónoma e de um grupo de disciplinas científicas" (1938b: 20). |
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O positivismo lógico constitui assim uma valorização extrema da ideia de enciclopédia. Ela é a forma mais perfeita para expor o conjunto das ciências. Como escreve Neurath "não é o sistema mas a enciclopédia que constitui o modelo genuíno da ciência como um todo" (Neurath, 1938b: 20, sublinhados nossos). A enciclopédia não é a exposição sistemática dos conhecimentos científicos mas a forma própria de uma unificação das ciências que, sempre incompleta e provisória, se vai realizando sem sistematizações prévias e constrangedoras. "A integração enciclopédica das proposições científicas, com todas as discrepâncias e dificuldades que possam aparecer, é a máxima integração que podemos alcançar. É contrário ao princípio do enciclopedismo imaginar que “poderíamos“ eliminar todas essas dificuldades. Acreditar nisso é adoptar uma variação do famoso demónio de Laplace que era suposto possuir um conhecimento completo dos factos presentes suficiente para fazer previsões completas do futuro. Essa ideia de sistema é contrária à ideia de uma enciclopédia: a completude antecipada do sistema é oposta à sublinhada incompletude de uma enciclopédia" Neurath (1938b: 20-211). |
Também Niels Bohr, num brevíssimo texto de colaboração com a International Encyclopedia of Unified science intitulado Analysis and synthesis in Science (1962), sublinha a incompletude do projecto da International Encyclopedia of Unified Science por oposição à completude do enciclopedismo anterior. |
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A segunda nota caracterizadora do enciclopedismo neopositivista é pois essa renúncia à figura do fundamento, essa aceitação do carácter provisório e historicamente situado de toda a síntese. Ainda que a ordem efectiva da organização da International Encyclopedia of Unified Science acabe por ser inversa à ordem programaticamente defendida de uma sistematização a partir de baixo, ainda que, contrariamente ao que seria de supor, a enciclopédia não se inicie pela exposição integrada das proposições das várias ciências particulares para depois subir para um nível de teorização mais elevada mas, ao invés, comece pela apresentação dos fundamentos da sua unidade, a verdade é que esses fundamentos ou coração da enciclopédia são apenas de natureza lógica, dizem apenas respeito à possibilidade de um procedimento de unificação da linguagem da ciência. Eles não antecipam uma qualquer forma de concatenação dos conhecimentos mas aceitam aqueles que a própria ciência vai descobrindo. Nesse sentido, a enciclopédia é uma obra viva, mais um ponto de partida do que um ponto de chegada. Como Neurath escreve, "A Encyclopaedia expressa a situação de um ser vivo e não de um fantasma: aqueles que lerem a Encyclopaedia sentirão que os cientistas estão a falar da ciência como um ser de carne e sangue. (...) A Encyclopaedia of Unified Science espera evitar transformar-se num mausoléu ou num herbário e permanecer uma força intelectual viva que nasce de uma necessidade viva dos homens e, por sua vez, serve a humanidade" Neurath (1938b: 25-26). |
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Obra portanto sempre incompleta, aberta, capaz de dar origem a inumeráveis controvérsias Neurath (cf. 1937: 140), a enciclopédia é, simultaneamente, "uma formação histórica dada" Neurath (1936: 200), uma reunião provisória do saber nas suas dificuldades e diferenças, uma síntese retrospectiva dos conhecimentos científicos de uma determinada época, e "o terreno em que a ciência vive" Neurath (1936: 201), o produto de uma actividade de combinação de um grande número de pequenos avanços e grandes boas vontades; simultaneamente, "um programa" Neurath (1938b:24), uma trave mestra do movimento para a unidade da ciência e a expressão de uma atitude de crença na possibilidade de uma integração progressiva dos resultados das várias ciências, da sua crescente capacidade para resolver os problemas da vida dos homens (cf. Neurath 1938b: 21-22) e para, pelo incremento da educação científica, dar resposta satisfatória às suas inquietações metafísicas; a "plataforma que permite revelar até que ponto a cooperação é possível" Neurath (1937:137) e, simultaneamente, o "símbolo de uma cooperação científica desenvolvida, da unidade das ciências e da fraternidade entre os novos enciclopedistas" Neurath (1936: 201). |
Sendo a ciência na sua historicidade definida como "o mozaico (...) de um enorme número de elementos recolhidos pouco a pouco"(Neurath, 1938b: 3), a enciclopédia aparece afectada por essa mesma estrutura de conjugação e complementaridade. Como Neurath escreve, "Na “Encyclopaedia of Unified Science“ esta situação e as suas consequências serão demonstradas mostrando a formação do mozaico das actividades científicas"(Neurath 1938b: 5). Como Neurath declarava num artigo intitulado Encyclopaedism as a pedagogical aim: A Danish approach espera-se que a enciclopédia possa corresponder ao "sentimento oceânico" que invade muitos jovens, esse "enigmático desejo de abraçar todo o conhecimento humano" (Neurath, 1938a: 484-485) e, atento às questões do ensino, acrescenta: "Mas, quão raramente os professores de ciências estimulam e gratificam essa paixão" (Neurath 1938a: 435) |
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Um último ponto deve ser assinalado: a ligação de Neurath, não agora a Diderot e D'Alembert, mas a Leibniz em quem Neurath elogia o facto de ele ser "o primeiro e o último dos grandes filósofos a propôr-se seriamente encontrar um cálculo universal adequado a todo o progresso científico (...) propondo uma logificação universal de todos os pensamentos humanos por intermédio de um cálculo e de uma terminologia geral" Neurath (1938b: 15). |
Recorde-se que, para além da proposta de constituição da linguagem física unificada, cujos modos efectivos de realização serão, como vimos, especialmente trabalhados por Carnap, Neurath vai constituir uma língua universal imediactamente inteligível de tipo hieroglífico (Wiener Methode der Bilstatistik que não pode deixar de ser aproximada de alguns modelos de representatividade do signo ensaiados por Leibniz . |
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Tal como Leibniz, Neurath reconhece que a UC, e a enciclopédia como seu correlato institucional, passa pela constituição da unidade da linguagem científica. Tal como Leibniz, Neurath reconhece que a UC implica a síntese lógica dos seus enunciados, das suas leis e teorias. No entanto, na concepção de enciclopédia dos dois autores há um afastamento decisivo. Ele diz respeito à oposição entre o empirismo de Neurath e as exigências sistemáticas do apriorismo de Leibniz que, se traduziam pelo carácter sistemático e mesmo demonstrativo do seu projecto enciclopedista. |
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Neurath reconhece claramente o seu afastamento relativamente a Leibniz nesse ponto. Como escreve: "Leibniz, como os outros racionalistas a priori procurava o sistema da ciência e a sua chave lógica" (Neurath, 1938b: 16). Ora, como vimos, Neurath não queria de modo algum antecipar às ciências particulares e ao seu desenvolvimento uma qualquer forma de sistematização geral.Os fundamentos da UC que o coração da enciclopédia começa por expõr não têm alcance sistemático, são fundamentalmente procedimentos de unificação da linguagem da ciência. |
Referimo-nos ao texto de Carnap Logical foundations of the unity of science (1938). Aí se incluíam ainda os contributos de Dewey (1962) e Bohr (1962) (sobre o alcance e a pertinência do projecto de UC), de Russell (1962) (sobre a importância da lógica nas ciências empíricas). Para uma apresentação dos outros textos incluídos na edição original de 1938, designadamente, os de Nagel ("Principles of the Theory of Probability") e de Morris ("Foundations of the Theory of the Signs"), cf. Margenau (1941). |
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O que nos permite concluir que, aparentemente modesto, o enciclopedismo de Neurath é afinal sintoma de um projecto excessivamente ambicioso. Ele visa alcançar uma síntese entre o empirismo não interessado na formalização lógica da Encyclopédie e o racionalismo panlogista e sistemático de Leibniz. |
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