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partir de meados do século XIX, assiste-se a um movimento de redução da
enciclopédia filosófica a um dos tipos possíveis da enciclopédia especializada.
Ao contrário da enciclopédia geral que visa cobrir a totalidade dos saberes, a
enciclopédia filosófica seria aquela que se restringe àquilo que é considerado
filosófico ou que ela mesma considera como tal. Como diz Auroux (1989: 785)
"o enciclopedismo filosófico reduzir-se-há ao projecto de totalizar
unicamente a filosofia". Dois programas foram perseguidos: |
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De fora fica, imediatamente, toda uma tradição que defende que a filosofia não tem que ter uma língua, nem tão pouco um vocabulário próprio, que a filosofia se faz nas línguas nacionais e com as palavras da linguagem vulgar, de Marius Nizolius a Bertrand Russel, passando por Hegel. Sobre esta questão, vejam-se os nossos estudos, Pombo (1987, 1991a e 1991b). |
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Uma terceira linha, de mais modestas ambições ainda, é aquela que se restringe a um determinado domínio da actividade filosófica. É o que acontece, por exemplo, com a Encyclopedia of Ethics de Laurance e Charlotte Becker (1992). |
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Na primeira hipótese, a enciclopédia filosófica adoptará a forma de dicionário filosófico de conceitos por ordem alfabética. É o caso, entre outros, dos célebres Dictionnaire des Sciences Philosophiques (1844-1852) de Franck, do Vocabulaire technique et critique de la philosophie (1902-1922) de Lalande ou do Diccionario de filosofia (1941) de Ferrater Mora. Refira-se ainda o Vocabulaire philosophique (1901) de Goblot e, mais recentemente, o Dictionnaire de la langue philosophique (1962) de Paul Foulquié e Raymond Saint-Jean. Cada entrada é um conceito ou noção que o autor do dicionário procura definir de forma unívoca. Por vezes, também as doutrinas e as obras são incluídas no corpo do dicionário, entrando sob a designação geral da doutrina ou no nome do seu autor. É o caso, por exemplo, do Dicionário de Filosofía de Ferrater Mora (1971) que, para além das entradas relativas a conceitos, dedica desenvolvidas monografias quer a doutrinas (existencialismo, hedonismo, empirismo, etc.) quer a autores. Porém, se na língua, e portanto no dicionário geral, é possível remeter para um uso comum, para um consenso alargado, na filosofia, cada conceito tem com muita frequência um significado diferente consoante o sistema em que está inserido. Por outras palavras, cada sistema filosófico cria os seus próprios conceitos ou utiliza a seu modo conceitos que vai buscar a outros sistemas, transpõe-os, altera subtilmente o seu significado, insere-os numa rede conceptual que lhe é própria. |
Refira-se também o Dictionnaire Philosophique de Voltaire de 1764, obra polémica e panfletária que só muito lateralmente se pode integrar na história do enciclopedismo filosófico. No estilo conversacional e ilustrativo que o caracteriza, o que Voltaire procura é mais o aproveitamento retórico da forma fragmentária e descontínua que caracteriza um dicionário do que, efectivamente, fazer uma obra de carácter enciclopédico. |
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A solução de Franck, discípulo de Victor Cousin e do seu ecletismo, consistia em fazer a história de cada conceito, isto é, acompanhar, desde a sua origem, as vicissitudes e oscilações da utilização de cada conceito ao longo da história da filosofia. Como Franck escreve no prefácio à primeira edição: "[uma vez que] a história da filosofia é inseparável da filosofia ela mesma [e que] a verdade é de todos os tempos e de todos os lugares [importa] recensear todas as opiniões anteriores [e mostrar de que modo elas] prepararam e conduziram logicamente à verdadeira solução" (Franck, 1844-1852, vol. I: VII e XII). |
Assim, por exemplo no conceito de "enteléquia", Franck começa por dar a etimologia grega e apresentar com algum detalhe o significado do conceito em Aristóteles, remetendo depois para Leibniz, autor no qual o conceito adquire uma posição metafísica de primeiro plano (Franck, 1844-1852, vol. 1: 449). |
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| Por seu lado Lalande, autor da mais célebre obra deste tipo, o Vocabulaire technique et critique de la philosophie (1902-1923) procurará não sacrificar as virtualidades de uma apresentação sincrónica às exigências e linearidade de uma apresentação historiográfica. A solução por si adoptada tinha por objectivo apresentar os vários significados de cada conceito no contexto dos sistemas filosóficos que mais intensamente usam esse conceito e das relações que estabelece com outros conceitos. Nas suas próprias palavras, tratava-se de "estudar os termos cujo significado apresenta interesse filosófico e, na medida do possível, precisá-lo ou, pelo menos, marcar nitidamente as acepções equivocas" (Lalande, 1972: XXII). |
O título completo é Vocabulaire technique et critique de la Philosophie revu par MM les Membres et Correspondants de la Société Francaise de Philosophie et publié avec leurs corrections et observations e foi publicado pela primeira vez em fascículos nos Bulletin de la Société francaise de philosophie entre Julho de 1902 e Julho de 1923. |
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Para a realização desta tarefa, Lalande irá contar com a colaboração da Sociedade francesa de filosofia que apoiou, material e intelectualmente, a edição da obra. Para cada conceito, ou pelo menos para os mais importantes, foi utilizada uma metodologia uniforme: Lalande e alguns colaboradores mais próximos (nomeadamente, Louis Couturat, Gustave Belot, Victor Egger e Élie Halévy) elaboravam um primeiro texto que era impresso sob a forma de caderno de provas e distribuído aos sócios e a um conjunto de correspondentes estrangeiros. As críticas, sugestões e observações eram recolhidas, comparadas e estudadas. O que tinha sido admitido sem contestação era conservado e os pontos mais controversos eram discutidos em sessões anuais na Sociedade. Acresce que a redacção final de cada entrada dá conta das diversas contribuições recebidas e das discussões havidas em torno da definição de cada conceito. |
Discussões em que tomaram parte nomes de primeiro plano da filosofia francesa como Bergson, Blondel, Couturat, Lachelier, Brunschvieg, Pieron, Berthelot, Claparède, etc. |
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Embora consensualista nos seus objectivos, procurando encaminhar-se para uma impossível ainda que desejável univocidade, Lalande acaba pois por não elidir os pontos de conflito mas, ao invés, por tornar salientes as rupturas, esclarecer as diversas acepções de cada conceito, explorar os seus diferentes sentidos. Como Lalande escreve no Prefácio: "Os sentidos de uma palavra não são valores de indeterminabilidade variável de que pudéssemos dispôr a nosso belo prazer. Trata-se de uma realidade que, pelo facto de não ser material, nem por isso deixa de possuir a consistência, por vezes muito dura, de certos factos sociais", Lalande (1972: XV). |
No magnífico Prefácio que Lalande escreve para o seu Vocabulaire onde, sob a reclamada influência de Leibniz (1972: IX-X), Lalande escreve a dado passo que "a univocidade é um ideal para o qual a linguagem tende espontaneamente"(1972: XIV). |
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Procurando assegurar a coesão e unidade da filosofia de que seriam exposição total e completa, os dicionários de conceitos não fazem afinal senão expor a sua radical diversidade, conflitualidade, incomensurabilidade. Em limite, não há um vocabulário filosófico mas um vocabulário cartesiano, um vocabulário kantiano ou um vocabulário fenomenológico, isto é, não já uma enciclopédia filosófica, não já sequer um dicionário filosófico, mas um léxico por autor. |
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Mas, como vimos, a enciclopédia filosófica especializada pode ainda comportar uma outra variante - aquela que elege, para sua matéria própria, não os conceitos filosóficos que, afinal a reduzem a um dicionário e mesmo a um léxico, mas as doutrinas dos filósofos, as suas obras. É o caso do célebre Philosophen-Lexicon: Leben, Werke und Lehren der Denker (1912) de Rudolf Eisler. |
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A enciclopédia filosófica tenderá então a aproximar-se de uma História da Filosofia na medida em que tem por matéria a mesma tradição e por objecto o mesmo corpus textual. A única - e grande - diferença é que, enquanto que a História da Filosofia segue uma apresentação segundo a ordem linear do tempo, a enciclopédia recusa qualquer ordem histórica, podendo apresentar as diversas doutrinas e obras filosóficas pela ordem das suas afinidades, das suas oposições, dos seus problemas comuns, dos espaços ou contextos da sua produção ou, simplesmente, por ordem alfabética. Como escreve Auroux (1989: 783), "A enciclopédia é totalização do saber, não na ordem própria das suas aparições sucessivas, mas na das ligações racionais dos seus elementos conceptuais (...). A enciclopédia supõe a escolha do espaço contra o tempo". Curiosamente, a enciclopédia viria aqui em socorro da filosofia, evitando a sua redução a um passado já dado, já feito, já passado. |
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Recentemente, assiste-se a uma nova tentativa de reforço e alargamento da ideia de enciclopédia filosófica especializada. É o caso, por exemplo, da The Encyclopedia of Philosophy de Paul Edwards (1967). A solução adoptada tem sido dupla: por um lado, conciliar o dicionário de conceitos por ordem alfabética com a enciclopédia de doutrinas e obras; por outro lado - e este é o aspecto mais inovador - incluir um conjunto de entradas problemáticas, de natureza abrangente, relativas aos desafios colocados pelas novas transformações sociais, cognitivas e técnicas e, portanto, aos novos objectos que a actividade filosófica tem hoje como tarefa pensar. |
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O caso mais eloquente e que, desde logo se deixa ver no abandono da designação de "vocabulário" ou "dicionário" e no regresso à designação de "enciclopédia", o caso mais eloquente é, dizíamos, o da Encyclopédie Philosophique Universelle dirigida por André Jacob (1989). Os seus quatro volumes ocupam-se, respectivamente, das problemáticas filosóficas contemporâneas (L' Univers Philosophique), dos conceitos e noções filosóficas (Les Notions Philosophiques), das obras (Les Oeuvres Philosophiques) e dos textos filosóficos (Les textes Philosophiques). |
Refira-se ainda a Enzyklopädie Philosophie und Wissenschafts-theorie (1980) de Jürgen Mittelstrass que, na linha do projecto de enciclopédia de Neurath, procura constituir-se como uma enciclopédia da filosofia enquanto instrumento da ciência. |
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Para lá das novidades de cada volume, o primeiro, intitulado L' Univers Philosophique, é o mais inovador pretendendo dar conta dos principais problemas que desafiam hoje a actividade filosófica. Nele se incluem 284 entradas estruturadas em 17 secções, umas de natureza temática (tais como "a acção e os valores", "linguagem e conhecimento", "a ciência e os seus contextos" ou "tradições e escritas"), outras de natureza disciplinar (tais como "aspectos da física contemporânea", "os problemas da vida", "antropologia diferencial" ou "Histórico-política"). Cobrindo temas diversos e actuais como "ética biológica e médica", "ortodoxia e heterodoxia do marxismo", "do código genético aos códigos culturais", "teoria dos sistemas e filosofia", "desenvolvimento e sub-desenvolvimento" ou "inteligência artificial", as entradas estão concebidas de forma simultaneamente panorâmica e problemática. Como declara André Jacob, trata-se de, "face à soma das respostas - heteróclitas ou simplesmente contrastantes - que ocupam o campo do pensamento contemporâneo, o espírito filosófico exerce a sua exigência crítica regressando às questões que essas respostas implicam" (1989: XXIV). Por outras palavras, trata-se de passar da multiplicidade conflitual das respostas à prioridade das perguntas, procurando dar conta dos grandes debates e controvérsias que atravessam a nossa contemporaneidade. |
O segundo e o terceiro volumes, organizados ambos sob a forma de dicionários, respectivamente de noções e de obras, incluem amplas secções dedicadas a tradições de pensamento asiático e de sociedades tradicionais da África, América, Sudoeste Asiático e Oceania. |
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Estamos efectivamente perante uma revigoração da ideia de enciclopédia filosófica. Como escreve André Jacob na "Advertência ao leitor" de L' Univers Philosophique, "quanto mais complexo é o 'labirinto' dos conhecimentos, mais a presença do filósofo é indispensável. Se o filósofo está ausente, só a magia e a adivinhação podem 'compensar' a aceleração das ciências e das técnicas. Quanto mais vasto é o campo da enciclopédia, quanto mais parece afastar-se daquilo que se chama a filosofia, mais a enciclopédia deve ser filosófica"(1989: VI). Assim como o progresso acelerado dos conhecimentos científicos, a sua especialização cada vez mais profunda, não esvazia o papel da filosofia antes o torna mais exigente e difícil, assim também a emancipação das ciências particulares, a sua autonomia para lá de todas as determinações normativas com que a filosofia as pretendeu enquadrar, obrigam a reequacionar as pretensões do projecto da enciclopédia filosófica. A enciclopédia filosófica tem que abandonar as pretensões normativas com que, por vezes, pretendeu circunscrever e orientar as ciências particulares (recordemos Augusto Comte ou Hegel) e aceitar o desafio da autonomia e dos progressos vertiginosos de novas formas de conhecimento. |
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Para lá do círculo etimológico da enciclopédia, do fechamento implícito no ciclo perfeito e exaustivo dos saberes, a filosofia tem que aceitar a tridimensionalidade da esfera e reencontrar, no espaço aberto, descentrado e aproximativo do mapamundo dos saberes o lugar paciente do seu trabalho de cartografia. |
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