Enciclopédia e Hipertexto

Da Enciclopédia ao Hipertexto

Materiais produzidos


Ponto de partida

 

O ponto de partida é o de que o hipertexto é o limite ideal da enciclopédia, a metáfora reificada da unidade da ciência. Metáfora tornada coisa, digamos que a rede constitui hoje a materialização mais eloquente da unidade do saber. Do seu inacabamento é certo. Mas também da sua inexorável abertura à promessa de um saber em permanente crescimento. Enquanto memória virtual que espera ser percorrida, atravessada, navegada pelos seus leitores, por ela passam os destinos, não apenas da ciência (cujos mecanismos cognitivos e institucionais ela desafia), mas também da enciclopédia  (cujo regime combinatório e heurístico prolonga),  da biblioteca que, sob os nossos olhos, vertiginosamente se transforma numa instituição electrónica universal, do museu que tende a tornar-se virtual e universalmente acessível, enfim, da escola, particularmente da Universidade, que ela está a transformar profundamente e,  portanto, também das formas de cidadania.

Após o abandono do projecto enciclopedista do positivismo lógico, começa a configurar-se a tendência para dotar a enciclopédia de um modelo estrutural mais capaz de conglomerar a dispersão informativa a que o projecto enciclopédico está cada vez mais sujeito. Rejeitando tanto a estrutura alfabética como a organização disciplinar, as enciclopédias mais inovadoras vão adoptar uma estrutura temática e reclamar alcance interdisciplinar e heurístico. O seu objectivo é abrir-se às novas estruturas conceptuais, aos novos objectos de estudo, dar conta dos caminhos que a investigação contemporânea está a seguir. Ao contrário do que seria de supôr, não assistimos um abandono da ideia de totalidade. O que há é a ideia de que a totalidade do saber não é de natureza aditiva  mas resulta da complexidade das articulações. Por isso a enciclopédia se adensa no seu interior, feita de relações potenciais, simplesmente anunciadas, imaginadas, estabelecidas como reais ou possíveis mas nunca esgotadas numa textualidade que as envolvesse numa discursividade contínua. 

Por isso também o hipertexto - limite ideal da enciclopédia - mais do que uma ordem estável, mais do que uma forma compacta, pensa o seu valor a partir da pluralidade de linguagens que nele se cruzam, da força das relações potenciais que nele se geram, das virtualidades heurísticas que dele se libertam. 

Como interpretar esta recente restruturação da enciclopédia? 
Que sentido se revela no configurar interno da sua estrutura descentrada, interdisciplinar e heurística?

Que verdade habita, tanto o desfolhar lento, sensual e pesado dos volumes das enciclopédias, como a deriva veloz, vertiginosa e fugaz do hipertexto?

Que promessa atravessa as suas páginas?