Encyclopaedia and Hypertext

Hypertext and Literature

 


A condição do poético na época do hipertexto

A condição do poético na época do hipertexto

por

Silvina Rodrigues Lopes

 

por

Silvina Rodrigues Lopes

Na Idade Moderna, o poético surge  como compensação do domínio de um pensamento calculante; nesse sentido ele é apresentado como “capacidade negativa” (Keats), dom ou sentido do obscuro. No entanto, até uma época recente, essa ideia do poético coexistia pacificamente com outras que lhe eram opostas e que por sua vez estavam em harmonia com uma ideologia do progresso: era a  ideia de literatura como abertura de possíveis; a recusa de identidade que devia engendrar uma super-identidade (veja-se o lema modernista de Pessoa/Álvaro de Campos – “ser tudo de todas as maneiras”). Os modernismos, na sua complexidade conflitual, vêm quebrar essa paz (veja-se o “fracasso” em Álvaro de Campos ou, por outros meios, o dadaísmo).

Depois de um período de retorno à tranquilidade do poético, (identificado com o estético, o experimental, etc.) assiste-se, a partir dos anos noventa, a uma nova forma de desestabilização, caracterizada pela nítida demarcação entre a literatura de massas como algo que segue simplesmente as regras do mercado e o poético que se tende a identificar com o estético enquanto independente do ético. O poético concretiza-se num tipo de criações (poesia, prosa poética)  que, o que quer que elas sejam, tendem a ser consumidas como produtos “elitistas” destinados ao prazer, à “ornamentação” e à “distinção” social. Até que ponto as novas tecnologias e o desenvolvimento do hipertexto determinam esta situação? Ou, talvez melhor, como é que se relacionam com ela?

Contribuindo imediatamente para o aumento da produção da literatura de massas,  o desenvolvimento do hipertexto poderia ter permitido apenas uma depuração daquilo  que antes se apresentava como poético e, por ex., ter separado deste aquilo que era da ordem do pedagógico, da solidariedade, etc.? As coisas não são assim tão simples. Por um lado, talvez não tenham sido tanto as funções morais da literatura que foram retomadas e  talvez se tenha acentuado o lado distracção. Por outro lado, o hipertexto afinal veio mostrar que os princípios do seu funcionamento se assemelham aos do fazer poético (tanto na escrita como na leitura): a linguagem plural, o discurso não-sequencial, os processos de associação, etc.. Então, ou consideramos que o poético se dilui completamente identificando-se com um processo aleatório de combinatórias, ou, se não admitirmos desde logo uma genialidade puramente maquínica, teremos que pensar a que genialidade corresponde  a “capacidade negativa” do fazer poético. O que é que distingue este tipo de passividade passiva  da passividade activa do fazedor/fruidor de hipertextos?  

Um dos eixos por onde passa a reflexão acima sugerida é o que diz respeito às noções de autor e de leitor. O que é o autor de um fazer poético, quando nem a ideia de inspiração divina, nem a de superioridade de um conhecimento, nem a do puro aleatório nos satisfazem? O autor é, sem dúvida, um leitor, e vice-versa. Quanto à leitura, é a hipótese que me interessa investigar, ela é uma ascese (sentido a esclarecer, desde já, o que me parece fundamental é o movimento de rarefacção, o introduzir vazios ou intensidades).  Trata-se de encontrar o deserto  por debaixo do hipertexto. É a partir daí que a minha investigação procurará estar atenta ao confronto entre a Tradição judaica de leitura e comentário do Livro e os projectos de Enciclopédia.