The Human Condition
|
|
|
Enciclopédia Britannica |
Este muito provisório texto visa indicar alguns dos temas que serão objecto de reflexão nos próximos meses.
O que pretendo vir a estudar relaciona-se com a temática do projecto “Enciclopédia e Hipertexto” de dois modos. Por um lado, por pretender trabalhar noções caras a este universo, como os conceitos de “autoria”, “link”, “hipertexto”, “navegação”, “massmedia”, “topologia”; por outro lado, porque escolhi acompanhar um específico projecto artístico, da autoria do artista Rodrigo Vilhena que é, parece-me, no domínio das artes plásticas, um trabalho que sugere e obriga a reflectir sobre estes e sobre outros conceitos, mais tradicionais, tais como os de “artista”, “obra”, “espectador”, “exposição”, “work in progress”.
Dou aqui presentemente a indicação de algumas linhas de orientação que me ajudarão - espero - a dialogar com o projecto deste artista e aponto algumas questões do âmbito da Estética que as práticas e tecnologias contemporâneas obrigam a reequacionar.
Agradeço ao Rodrigo Vilhena a permissão de utilizar os seus materiais como lhe agradeço também a disponibilidade revelada em me ajudar neste trabalho. O seu projecto poderá ser consultado na seguinte morada: http://pwp.netcabo.pt/gabinetedodr.r/
Tópicos
| 1. Hipertexto e work in progress
|
![]() |
É possível que o que caracterize um “work in progress” seja precisamente o “in progress” ainda por nós não conhecido. Mas o “não conhecido” não é, decididamente o “virtual”. O “não conhecido” faz parte da nossa irremediável condição humana que, a limite, podemos denominar “não conhecível”.
| 2 . Modos satisfatórios de autoria
|
![]() |
Um dos melhores exemplos de “autoria” foi enunciado por Deus quando afirmámos que esta divindade era o “autor do universo”.
Deus
deixou-nos um reino de infinitas possibilidades, possibilidades infinitas de
actua(liza)ção que conhecem connosco particular relevo no planeta terra. Desta
enorme abertura têm resultado tempos e
civilizações a que chamámos de “história”, espaços consagrados
ou de consagração, resultados irreversíveis de “cultura”.
Às
intenvenções com uma “autoria designada” chamámos-lhes intervenções
humanas que se distinguem das intervenções “não humanas”, entre outras
razões, pela intencionalidade (consciente ou mesmo obscura) das primeiras.
Na cultura ocidental há o que podemos chamar de uma “história da autoria”, por sua vez questionada e posta em causa por certas e determinadas teorias da linguagem, filosofias, práticas artísticas, projectos político-ideológicos (que provavelmente serão materiais preciosos para constituir uma futura história crítica da autoria) e que constituem grande parte da riqueza filosófica e cultural (científica, artística) dos passados séculos XIX e XX.
Na Idade Média, por exemplo, a “autoria” mais próxima da realidade era a da “repetição”, espécie de canto do mesmo que assim revivificava a vida actual e re(a)cordava a vida fundamental.
A
modernidade ocidental, porventura menos modesta, declarou grandiosa a
“Autoria” humana, sublinhando os actos e pensamentos humanos enquanto causas
(ora exemplares, ora mesmo originárias) de mudança, de
programação do futuro e de progresso. Durante alguns séculos (no fundo
muito breves), acreditou-se que a cultura humana criava obra nova e, por
exemplo, com o conceito (recente e já desacreditado(?)) de vanguarda,
pretendeu-se definir um critério, não só de delimitação do que seria designável
por “Arte”, como também do que deveria ser considerado “Novo” e/ou
“Verdadeiro” nela.
Hoje,
somos herdeiros desta “história de autoria”. Mas somos igualmente
herdeiros, como já referi, dos seus críticos mais imediatos.
Foi-nos
anunciada no século passado, de forma que se pretendia inequívoca, a morte do
Autor, a morte da Arte, a morte da História, a morte do Sujeito etc,
propondo-se, quem sabe, ao ser humano, desempenhar o papel mais secundário dum
“performer” de um sistema
(linguístico, linguageiro, social, científico etc). O ser humano seria
então uma espécie de “portador de”, a quem caberia agora uma tarefa mais
modesta. Não tanto a de “criar” mas a de “pôr em evidência”. Não
tanto a de “fazer/criar realidade” mas
mais a de “mostrar/desvelar” o que “já cá estava”. O “já
dito” podia assim ser entendido como uma “performance” do sistema. Houve
mesmo quem defendesse radicalmente a ideia de que a mão que escreve, ou a mão
que pinta, não é a mão que pinta e a mão que escreve, mas sim a Pintura e a
Escrita que se manifestam (ou que se constrõem a si mesmas, ou que constrõem a
sua relação ao humano etc).
No
nosso século, a questão da “autoria” reaparece, não apenas como preocupação
pertinente face à história do passado recente, mas também como desafiada face
às novas tecnologias.
São inúmeros os aspectos que se prendem a este “problema”. Neste tópico procurarei recolher material privilegiando dois aspectos: a relação entre “autoria” e “propriedade” e a relação entre “autoria” e “novidade”.
O objectivo é reflectir sobre o que poderiam ser hoje “modos satisfatórios” de autoria.
| 3. Trabalho, obra e visibilidade
|
![]() |
No
nosso tempo tende-se a associar de imediato trabalho e vida económica,
se bem que o primeiro termo tenha, desde o “trabalho primitivo”, um sentido
também independente dos seus efeitos. Para além do resultado (fruto de
necessidades), na relação com o trabalho, o ser humano vive momentos do fazer
(do trabalho, fruto dos prazeres) que nada acrescem à vida económica e social.
As “motivações” podem, como é óbvio, alterar-se e hierarquizarem-se de
formas diversas nos diferentes momentos históricos. Por exemplo a
“rentabilização” do trabalho fez prioridade sua o sucesso económico,
desprezando, a meu ver, a relação a que chamarei “decorativa” entre homem
e trabalho.
Desde há muito que a organização do trabalho veio a conhecer verdadeiras revoluções, desafiando tabus e tradições. Sabemos que a “economia primitiva” não requeria uma grande e complexa divisão do trabalho. Hoje, a idade, a especialização, o “skill”, as técnicas, o grau de conhecimentos, etc, criaram “métodos” de organização do trabalho que tendem - diz-se - a integrar (?) o indivíduo num contexto muito vasto, no qual este deixa, maioritariamente, de ver/saber o resultado do seu trabalho.
A
“obra” ( o trabalho), de particular interesse aqui - a saber a chamada
“obra de arte” - parece querer sempre(?) subtrair-se totalmente a esta
cadeia anónima e parece afirmar-se(?), mesmo quando se autodestroi ou degenera,
enquanto “trabalho de excelência”
Outrora,
este “trabalho de excelência” foi entendido como laudador de; como único e
irrepetível; como símbolo e indicação de uma cultura ou de um tempo histórico;
como afirmação ilustradora da grandeza de um império. Depois, fez-se
“fragmento”, depoimento critico ou de paródia ao social, ao político, ao
laudatório. Hoje, tanto falamos ainda de “arte” como “forma de resistência”
à massificação, como de resistência ao sistema; como retorno ao (direito do)
decorativo; como afirmamos que ela, em si mesma e de si mesma, não é
obrigatoriamente portadora de criatividade ou de crítica (quer colectiva, quer
individual) do mundo do trabalho organizado.
É
a arte revolucionária por definição? E, se ainda assim o é, em que sentidos?
A “obra” abre-se aos outros pela sua exposição, pela sua “visibilidade” pública. De um ponto de vista cultural e artístico talvez só haja efectivamente “obra” quanto (respeitando os seus contextos) ela se afirma na “praça pública” e assim se entrega ao leitor, ao espectador, ao intérprete. Neste sentido, as “condições de visibilidade” de uma obra são cruciais à sua “existência”.
É desta relação entre trabalho-obra-visibilidade que aqui nos ocuparemos.
| 4. Excesso de informação, acesso
e apropriação
Quando vulgarmente falamos hoje do nosso tempo, há a tendência a referi-lo como um tempo de “grande democracia”, onde a “informação está completamente disponível”, onde o “acesso à informação” se resolverá com (apenas) melhores “condições económico-políticas”. Um tempo que seria uma espécie de “condensado”, pronto a desdobrar-se e a abrir-se em diferentes tempos e espaços, segundo o modo como o questionássemos. Porém também vulgarmente ouvimos dizer que o “excesso de informação”, o “excesso de imagens”, o “excesso de sons” etc, não leva necessariamente a um aumento de informação individual e colectiva. Deixando de lado a questão das modalidades de acesso, parece útil relacionar a “informação” (aqui entendida ainda em sentido muito lato e geral), com a problemática da “apropriação” (aqui igualmente ainda entendida de modo injustificado). |
![]() |
Sem apropriação, é difícil, senão impossível, converter a informação em algo informativo uma vez que os seres humanos funcionam ainda debaixo do “paradigma da consciência” ( mesmo quando esta é identificada como a minúscula superfície de um profundo iceberg). Se aceitarmos esta afirmação, resulta que o indivíduo acede ao que já foi feito, à informação, através da sua específica apropriação.
Assim
sendo, pode tornar-se interessante tentar “imaginar”, pensar, “desenhar”
uma espécie de “topologia” ou “cartografia” que pusesse em evidência,
não só os modos actuais de acesso a, mas sobretudo, os modos actuais de
apropriação que maior efeito têm tido na nossa cultura recente.
Se estamos num momento cultural e tecnológico que está a modificar radicalmente as nossas vidas, parece poder ser conveniente reflectir sobre a relação entre “informação” - “acesso” - “apropriação” no nosso tempo.
Neste
tópico tentaremos reunir materiais e reflexões sobre este assunto.
| 5. O interprete, o link e o artista
|
![]() |
6. Rodrigo Vilhena. A condição humana. Teoria e prática de bolso
Para um contacto directo com Rodrigo Vilhena - rodrigovilhena@netcabo.pt