Laboratóriohipertextual |
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O ponto de partida é que o hipertexto é o limite ideal
da enciclopédia, a metáfora reificada da unidade da ciência.
Metáfora
tornada coisa, digamos que a rede constitui hoje a materialização mais
eloquente da unidade do saber. Do seu inacabamento, é certo. Mas também da sua
inexorável abertura à promessa de um saber em permanente crescimento. Enquanto
memória virtual que espera ser percorrida, atravessada, navegada pelos seus
leitores, por ela passam os destinos, não apenas da ciência (cujos mecanismos
cognitivos e institucionais ela desafia), mas também da enciclopédia (cujo
regime combinatório e heurístico prolonga), da biblioteca que, sob
os nossos olhos, vertiginosamente se transforma numa instituição electrónica
universal, do museu que tende a tornar-se virtual e universalmente acessível,
enfim, da escola, particularmente da Universidade,
que ela está a transformar profundamente e, portanto, também das formas
de cidadania.
Entretanto, antes mesmo deste destino enciclopédico, o hipertexto desafia a nossa ideia de texto. Não se trata apenas de reconhecer as
novidades técnicas que o seu suporte electrónico simultaneamente
disponibiliza e reclama. Não se trata apenas de redefinir o texto face à sua
realização digital, como tecido de nós e ligações de existencia efémera,
virtual e mutante no ciberespaço. O que acontece é que, por um lado, o
hipertexto se dá a ver como lugar de revelação de categorias e
determinações textuais muito antigas - a questão da autoria, da
indissociabilidade das práticas de escrita e de leitura, da multiplicidade das
leituras, da navegação num espaço múltiplo, da deriva, da não linearidade,
da conectividade, da intertextualidade, da indeterminação dos limites, da
infinita abertura. Assim se compreende que o hipertexto possa ser reconhecido -
enquanto pressentimento - em muitas das experiências maiores da
nossa tradição literária (Valéry, Calvino, Perec, Borges),
experiências mais combinatórias que miméticas, mais intensivas e
fragmentárias que arquitecturais. Assim se compreende também que ele
possa ser reclamado - enquanto profecia - por uma certa crítica literária
(Barthes, Genette, Blanchot, Derrida, Deleuze). O que acontece é que, por outro
lado, o hipertexto surge como lugar de experimentação de novas
possibilidades, suporte para novos riscos e novas aventuras.
Olga Pombo